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O mundo esquenta, o vermelho é o disfarce

 

A disputa pelo título de campeão mundial de futebol contará com a Inter de Milão. Não vacilou. Afastou a zebra, com segurança e decisão Não houve desperdício, nem chutes inocentes. Não esqueçamos, porém, que tudo pode acontecer. Uma outra surpresa não faria mal. O futebol precisa de sacudidelas, de mais aventuras e menos negociações. Quem sabe se os africanos não renovarão sua festa? Já pensou, a agonia da imprensa para justificar tão inusitada reviravolta?

Enquanto o jogo traz dúvidas, a Europa chora suas mágoas, envolvida pelos desacertos continuados do capitalismo. Não se trata do juízo final, mas ninguém quer se perder e nem se queimar nas fogueiras do inferno. Os governos sufocam, com suas políticas concentradoras de riquezas. Elegem a minoria , com seus favores, sempre comprometidos com acordos nada transparentes. Subestimam a ética e se enfeitiçam com o FMI. Não dispensam a repressão, pois manifestações e redeldias explodem, protestando contras as relações econômicas conturbadas.

As desesperanças desmancham planos pessoais e coletivos. As incertezas alimentam perspectivas sombrias. Aumento do desemprego, consumo de drogas para apagar as frustrações, retrocesso no campo das conquistas sociais. A política ganha outros sentidos e estratégias. Parece que o tempo de se visualizar a solidariedade se esvaziou. O que prever diante de tantas especulações e desigualdades?

Nem tudo é silêncio, nem apatia. Não só as ruas se enchem de panfletos e greves. Agora, a internet estende seus tentáculos, para além das fofocas e mensagens divertidas. Surgem as chamada zonas de guerrilhas autônomas. A informática ajuda a derrubar e revelar segredos dos dominadores. O caso Assange ameaça a estabilidade de muita gente. Ele foi preso, mas solto sob fiança.

Não há profecias que garantam que os abismos desaparecerão. Os escândalos se sucedem e cultuar o exótico é o caminho de alguns que estão com a corda no pescoço. Em todo planeta, as corrupções se alastram. Não adianta fantasia de Dinossauro, nem de Branca de Neve. Vejam o que mexe na Itália, além dos seus times de futebol. Muita confusão no parlamento e repressão, nas avenidas mais charmosas, em cima de quem xinga o governo. Não dá para segurar o espírito natalina diante de tantas hipocrisias.

As relações de poder se desfiam em muitas sociedades, porém não se vislumbram mudanças radicais. As transgressões incomodam. Há uma certo suspense que debilita o pragmatismo. O tilintar da moeda acena com coragens e covardias. Não existe o interesse, da maioria, em compreender os alicerces da crise, as armadilhas aprontadas pelos apaixonados pelas vitrines e machetes de jornais. Toda onda de harmonia fabricada, no final de ano, traz uma sensação de alívio para alguns. Respiram escolhendo presentes e sorteando amigos secretos.

Assim, é o mundo que não se livra dos ritos de passagem. O perfume é o mesmo, seja em Paris, Sorocaba, Recife ou Chicago. As armadilhas estão amontoadas nas lojas dos shoppings. Os risos são frágeis, contudo não saem dos rostos cheios de creme, para evitar os raios solares. Papai Noel se veste de vermelho. O velhinho não deseja, porém, reavivar utopias. Ele gosta da tradição. Confessa-se com o papa.

Quem pensa na certeza definida se engana?

Quem calcula e antecipa, muitas vezes, se engana. Sinal de arrogância ou de preconceito contra alguma coisa. Vi entendidos, em futebol, tripudiarem do time africano e garantirem uma vitória do Internacional. Tudo foi muito diferente. O jogo surpreende quem não aprofunda a dimensão do lúdico. O mundo está muito desatinado e querem ordená-lo fabricando discursos especializados. É impressionante o equívoco.Quem transforma os  especialistas em oráculos, se condena.

Todos cantavam uma final, com os mais poderosos. Não vai acontecer. Desde que o futebol caiu, de vez, nas aventuras do mercado, sua lógica ficou submissa às artimanhas empresariais. Isso é muito pobre, para quem gosta da arte que o jogo transmite. A obrigação da mídia de festejar e arquitetar espetáculos termina por esvaziar a diversão. É preciso não esquecer o entrelaçamento das coisas e das relações. Quando a gente avisa sobre a força do capitalismo, não deseja ressaltar seu domínio total. Nada do que é humano tem a soberania  absoluta. É que o capitalismo deu asas ao pragmatismo, inventou armadilhas e não se cansa de desenhar máscaras.

Muito se fala da crise atual. Países europeus tremem ao pensar nas suas dívidas. Os Estado Unidos tentam sair dos desmantelos e encontram as astúcias da China. A economia muda suas estratégias, mas a exploração continua. Quem pode negar como a desigualdade ainda sobrevive ou o esforço do trabalhador chinês diante das falácias da produção?

O mundial de futebol perdeu seu brilho. Ganhou outros espaços, internacionalizou-se. Ficamos, agora, encostados nas imagens das televisões. Elas, os celulares, os computadores são privilegiados. São os senhores desse capitalismo que usufrui de truques  e da sagacidade das propagandas. Não dá para chorar a derrota do time brasileiro. Muita coisa se esconde nessas manobras, portanto a desconfiança só aumenta. Que interesses governam esses encontros feitos em terras cheias de petróleo ?

Os torcedores lamentam, numa rebeldia passageira. Caravanas foram criadas, para vibrarem no exterior. Os negócios se firmaram com outros objetivos, sem, contudo, sacudir fora a sedução do lucro. Quem são os culpados? Quem será crucificado? Com certeza, o técnico domina a berlinda. E os jogadores hesitaram ? Onde está a preparação sofisticada ? Não se previa o desastre . Tudo consolidava a grana solta para os vitoriosos.

Não faltarão perguntas ou confissões de excessos. A perplexidade deixará alguns mudos. Mas é a vida, o risco, o descontrole. Os exageros causam pecados capitais e o desperdício destrói esperanças. Assuntos para os que gostam de palavras vazias. Por que não celebrar a globalização dos esportes? Os africanos podem conquistar a hegemonia ou estão marginalizados para sempre? Chega de colonizar e de criar vítimas.

As profecias pouco funcionam num mundo sem pertencimentos. Tudo parece combinado. Quando o drama se estabelece, também se lucra com ele. Há um jeito de não se perder nada, de tocar para frente. A velocidade exige respiração ativa, sem chamegos com o passado. O que vale é o instante carregado de idealizações. Vamos mesmo para onde? O tamanho da lágrima é do tamanho da dor? Os olhos pesam quando se escondem?

A luz afirma o mundo das cores encantadas

Desvio o olhar da tela do computador. Muita luz entra no quarto e procuro descobrir a sua trilha. Por uma pequena janela transparente, contemplo o verde de uma mangueira antiga. No fundo, o azul do horizonte, o vermelho de uma rosa na jardineira da varanda. Respiro com força, para captar tanta coisa que traz o mundo de fora. Ele ajuda a iluminar o mundo de dentro. Ficaria melancólico, de vez, se habitasse em um lugar onde o inverno perdurasse e o sol fosse um intruso. O calor incomoda, mas aquece e inquieta. Gosto do diálogo do de dentro com o de fora. Ele é imprescindível.

Não é uma reflexão inesperada. Há muito que cultivo essas ideias. Acho que o brilho das invenções forma-se com os contrapontos. Sou um observador das dissonâncias. Por mais que se insista na mesmice do consumo, resisto as suas fascinações e mergulho na diversidade. Não fabrico máscaras, porém admiro a força de romper com a permanência das vitrines. Elas idiotizam. É preciso não ficar preso ao imediato. As variações das cores está no cosmo e não restrita aos anúncios de televisão e aos modelos dos carros.

Quando a repetição ganha soberania, a criatividade se esvai. Por isso, o cuidado com a forma e suas geometrias é desafio. Nada de eleger os artifícios e se desfazer das primeiras visões do mundo. Há espaços para tudo, desde que não sucumbamos na superficialidade. Afirmo a palavra contemplação, porque ela se antepõe à pressa descuidada. Há as intuições. Que sejam celebradas, pois são construídas no interior dos ruídos e do silêncios. Surpreendem e animam, possuem pacto  com o lúdico.

Assim, seguem as travessuras do encanto. Transformá-lo em mecânico, resultado de laboratórios frenéticos, minimiza as peripécias e fantasias do humano. Basta lembrar-se das obras de Picasso, Miró, Matisse, Duchamp ou das ficções de Borges, Pamuk, Calvino, Guimarães, Mia Couto. E os dribles de Garrincha, a folha seca de Didi, a visão de campo de Pelé, as improvisações de Maradona ? Os exemplos são muitos, peço perdão pelas ausências. A subjetividade surge, nesse vaivém, com as luzes que afinam o desejo de flutuar.

A população cresce e assusta ver tanta gente, num movimento sem sossego. Na história, a uniformidade é um disfarce e as hierarquias, jogos dos donos do poder. Será que os gregos da época de Platão não se incomodavam também com certas pressas? Cada cultura arquiteta suas aventuras no tempo. O avião é contemporâneo, encurta distâncias. No mundo antigo,  disputavam-se corridas e se praticava esporte com entusiasmo.

A sociedade responde e articula-se nas necessidades e termina por buscar atalhos,  sem evitar as cavernas escuras. Cada instante mexe com o passado, refaz suas leituras e interroga suas ações. O viver é encontro e também desmantelo. Apolo e Dionísio conversam, para negociar as luzes e as sombras. Sempre. Nietzsche os provoca, com as profecias de Zaratustra. Nós, incompletos, somos uma ponte para chegar a lugares que desconhecemos. As cores nos garantem que temos nomes e significados. A escrita estimula  e nos leva para o turbilhão das ruas e dos afazares.

Os dissabores não limitam outros movimentos

A vida apronta. Não tem um roteiro definido, por mais que queiramos exercer controles e determinar projetos. De repente, despencamos e a sorte que nos protegia, se vai. Momento de refazer e ritmar o coração com outros sons. Ninguém deixa de construir seus balanços. Eles estão envolvidas em reflexões. Somos duros e nem pensamos no perdão. A simetria é uma ilusão do sentidos, mas a buscamos com intensidade.

O mundo é lugar de territórios de todos os tamanhos e quase nenhuma certeza. Há o mínimo para fixar identidades ou referências. Sem elas, cruzamos todos os caminhos com a embriaguez do vazio. Tecer a vida, requer imaginação, olhar para dentro, saber da rede que se costura, sem modelo acabado. Quando finda o ano, percebe-se que muitos se lançam para o futuro. Renegam o passado, desmontam as memórias e se punem pelos desacertos. Sacodem fora as balanças e profetizam milagres.

Não faltam exemplos, embora a confusão seja grande. O desencontro é geral, porque há uma pressa nos julgamentos e uma venda em cada rosto. Os sentimentos parecem mercadorias nas liquidações das lojas de departamentos. Se não há quietude, a coisa se complica. Muitas gente procura espelhos nas instituições da moda ou em ídolos, aparentemente, infalíveis. Não viajam na interioridade, pois desconfiam de si mesmos. A ausência de autoestima atinge a sociedade, de maneira agressiva. Há vandalismos, por detrás de formalidades e hipocrisias bem articuladas.

Chora-se o leite derramada. O Corinthians arrasta, com a sua história, multidão de espectadores. Há os que desejam também escrevê-la. Os heróis superam as performances das tropas de elite. Escondem-se nas glórias  do clube que entusiasma com o fanatismo próximo das religiões. Nesse 2010, o  Timão vacilou. Seus sonhos são ruínas, para aprender uma pedagogia de quanto vale a simplicidade. Muita promessas e arrogância, no momento do tão diabólico centenário. O carisma de Ronaldo trouxe esperanças, porém o trapézio não favoreceu ao voo da redenção.

No entanto, novos planos são arquitetados. Surgem, logo, nomes para contratação. Joga-se no impacto e na paixão. Nada de analisar a extensão dos desencontros do passado. Adriano é o nome da vez. Traria a explosão da fiel. Quem sabe moveria os que se afastaram agoniados com tantas especulações? Adriano continua naquela cantilena melancólica. Não se deu bem na Itália, reclama de imprensa e perdeu a força do ataque. Figura difícil de entender. O seu vaivém mostra que precisa de outras atenções, mas o tratam com objeto de vitrine.

Os clubes de Pernambuco arrumam seus elencos. Os recursos são mínimos e as brigas entre os dirigentes não cansam de ecoar. O ambiente é dissolvente. Carlinho Bala ganha o noticiário. É ambicionado, pelos três maiores times. A novela ganha as páginas dos jornais. Declarações, disfarces, compromissos, tudo serve para atiçar as dúvidas. O jogador vira monumento. O famoso salvador da pátria, ele que foi e voltou, sem conseguir firmar-se no futebol nacional. O Sport vence. Carlinhos está na jaula do Leão. O capítulo final fica para a festa do apocalipse, nas lamúrias da série B.

As andanças silenciosas do capitalismo

             

Ninguém nega a globalização. É assunto presente, em todas as notícias que mostram como o mundo está interligado. As novidades chegam rapidamente. O que assusta é a falta de fôlego, para saber das coisas e buscar ultrapassar certas manipulações. Nem tudo é uma mal permanente. No entanto, a globalização responde às urgências do capitalismo. Ela não cessou de inventar modos de acumulação. As culturas se aproximam, os discursos se internacionalizam, os debates ganham lugares importantes, entre os mais críticos.

Nada escapa às transformações. Não só as relações diretas, com os lucros, merecem atenção. O capitalismo estende seus poderes na formação  dos imaginários. Seduz com sua lógica. Consolida o espetáculo, vendendo diversão, onde o interesse maior é concentrar riqueza. Há forte extensão de manobras políticas, não apenas nos parlamentos e partidos. No mundo dos esportes e das artes, as contaminações são muitas.

Barcelona é uma cidade fascinante. Sua história conta rebeldias e desejos de manter singularidade. Seus espelhos  invadem outros territórios. Atraem. É  lembrada constantemente. Seu principal time de futebol é um exemplo. Forma jogadores, ganha títulos e procura assegurar a habilidade e a inteligência de seus atletas. O clube não tinha patrocinadores. Era um exemplo, um deleite, ver sua camisa desfilando, sem mensagens de propaganda.

Mas há saídas, nem sempre exaltadas nas negociações mais subterrâneas. O Barcelona encontrou um caminho. Não se encheu de empresários querendo suas taxas, porém fez um acordo milionário que não custa comentar. Não brilha mais solitário o nome da Unicef, na sua lendária camisa. Lucrará 170 milhões de euros até 2016. Trouxe um patrocinador: a Qatar Foundation. Uma quantia para conto de fadas e fazer inveja a muita gente. Parece uma fantasia de carnaval imaginada numa noite de folia desregrada.

Vamos aos detalhes. Não se trata do Flamengo, nem do Santos. É outra travessia, com todo respeitos aos queridos clubes brasileiros. O Barcelona possui prestígio e qualidades avassaladoras. Três, dos seus jogadores, concorrem ao título de melhor do mundo. Mantém regularidade. A Nike ficará encarregada de fabricar o material, garantindo sua força no território dos esportes . Um celebração, quando sabemos da crise que vive a economia européia. Não esqueçam que a Qatar Foundation não é uma marca comercial.Está envolvida com educação e pesquisa científica.

 A velocidade das soluções gera surpresas. Tudo é feito com muita agilidade e num silêncio astucioso. É claro que não faltam ambiguidades. É inútil lamentar, sentir saudades. Para frente é que se anda, dizem os negociadores. O capitalismo é hegemônico, porque desenvolve suas artimanhas e se naturaliza. A superficialidade é o ornamento. O método é criação, estratégia de sobrevivência vitoriosa na competição pela grana. Não há direitos definitivos, nem deveres garantidos.

 O jogo permanece, sem cerimônias.Engana-se quem especula um destino, mas não é demais avisar que muita coisa está se quebrando.  A história não é uma fiçcão, com um único enredo. Sua complexidade instiga, puxa para futuro,  conserva o passado com a máscara do novo. Por isso, se passeia pela lógica mais objetiva, sem se deliciar com os voos dos tapetes mágicos.

As criações e as criaturas: o domingo e seus feitiços

 

O futebol domina uma parte dos programas de televisão. Possui uma audiência poderosa. Acontece quase todo dia, fomenta negócios e divertimentos. O domingo era, antes, seu leito privilegiado. Houve muitas mudanças, sobretudo no império dos meios de comunicação. Quem queria ver o jogo, tinha que ir ao campo. As torcidas se misturavam nas suas paixões e se organizavam sem a hostilidade, tão comum, na época atual.

Todos desejavam vencer, mas sem a vontade desmesurada que persegue as competições do tempo que vivemos. Há, no lúdico, o exercício da diferença e laços fortes com as aventuras da vida. Nada de linha retas, monótonas, mas muitas curvas que desmancham certezas precipitadas. Assim, é o futebol, antes mais tímido, contudo sempre amado pelas multidões. Por isso, seu espaço aumentou. Salário altos, transferências, migrações constantes. O mundo respira instabilidades.

O domingo tem afinidade grande com o futebol. Estamos chegando nos derradeiros momentos do ano e calendário passa. A homogeneidade da burocracia conta os dias com muita atenção. A celebração das festas tenta quebrar a mesmice, porém fica o gosto dos presentes apressados e superficiais. Quem manda são as formalidades. O futebol se recolhe. Busca férias, embora haja promoções de encontros entre veteranos ou peladas entre os chamados profissionais. Fazem parte do contexto, não dá para desprezá-los, mesmo com a  agitação  das ruas e do trânsito.

Dizem que Deus descansou no último dia, depois da criação. Não acredito muito nessa história. Com sua onipotência, acho que assistiu a uma boa partida entre o Santos, de Pelé, e o Botafogo, de Didi. Divertiu-se e inventou a arte. Sabe de tudo por antecipação, portanto se delicia com as aventuras mais cativantes. É claro que não perderia sua eternidade para ver o Brasileirão, na sua mais recente edição. Garrincha, Zito, Maradona, Quarentinha, Djalma Santos, Ademir da Guia e, tantos outros, merecem memórias infinitas. Deus não brinca com sua onisciência. Conjuga todos os verbos e afirma a beleza de todas as línguas.

A fantasia namora com a preguiça. A imaginação não se esgota, quando a contemplação nos envolve. Criar traz leveza, desfaz a angústia da incompletude. Posso pensar num mundo em que todos os domingos sejam ensolarados, que o azul é a cor das  asas de todos os beija-flores. O feitiço da vida não permanece nos cofres das bolsas de valores. Ele reina na teimosia de negar a ordem. Não que ela não tenha suas virtudes. É preciso  impedi-la, de ser inoportuna.

O imginário é o território da expansão, das narrativas com ritmo e da poética mais grata das palavras. Mesmo desconfiando que a história não tem sentido, não custa contar o que existiu . Os acordos entre a mentira e a verdade se estabelecem, enganando as fronteiras. Ontem, a neve vestia a paisagem de branco, hoje o sol flutua sobre o verde. Tudo é possível, quando esquecemos a objetividade seca e mergulhamos nos atalhos, como os personagens de Paul Auster. Que o tempo se atrapalhe com suas tergiversações! Resta profetizar que, para Deus, a eternidade é vadia, mas útil.

A política é um jogo: as inquietações mal resolvidas

Tudo se toca. A originalidade é coisa pouco usual. Numa sociedade de massas, os disfarces se espalham, para vender novidades, mas o criativo e o revolucionário tornam-se frágeis. Uma loja de máscaras ambulantes se instala em cada esquina, com vitrines invisíveis. Não faltam disputas ou abraços vazios de afeto. Não vamos universalizar os desconfortos. Há também espaços de solidariedade, sem lamúrias ou encenações. No entanto, é preciso ressaltar o que predomina.

Na política, a profissionalização constante dos deveres tira muitos princípios éticos da realização dos seus projetos. Maquiavel e Hobbes devem sorrir, mesmo sendo parceiros de outras épocas. Egoísmos sempre presentes. Transparências só nas propagandas ou nas declarações para entusiasmar eleitores. O discurso é atravessado. A desconfiança assume lugar de destaque. Vivemos, no final do governo Lula, a preparação do ministério de Dilma, eleita para o cargo máximo, numa aliança de partidos bastante controvertida.

A busca por posições merece estratégias sutis, porém articuladas exaustivamente. Os cenários são surrealistas. A imprensa consegue aumentar, mais ainda, o sensacionalismo de cada passo dado pela dirigente toda poderosa. Sarney reclama. Eduardo quer força para o PSB. O PMDB não deixa de mostrar sua fome de poder. Muitas questões e vaidades desfilando e adensando a perplexidade de quem analisa tantos desencontros.

Dizer que a política é um jogo não exagero, nem brincadeira de mal gosto. A população se move e gera um contidiano tenso. Isso dificulta o diálogo e promove debates, movidos por discursos contraditórios. Há políticos que são perfeitos, dentro da pequena área, como Romário. Outros gostam de aparecer sempre, não perdendo o jeito arrogante, como Luxemburgo. Existem os que se comportam como beques faltosos e amigos dos chutões. Querem se situar, mesmo que sejam meros coadjuvantes.

Tudo isso exige atenção e compromisso. A política não é uma arte no sentido estético. Ela tem suas variáveis e seus labirintos. Suas regras são flexíveis, pois caminham em busca de recompensas, muitas vezes, materiais, longe da cidadania. Com o crescimento da sociedade de consumo, houve a valorização do brilho do objeto, do seu charme, dos encantos da moda. A política foi contaminada pela necessidade da vitória, aprofundando as profecias do maquiavelismo. Debilitou-se o social, em nome do mérito da competição.

O jogo é complicado, antes mesmo da máquina executar os planos da campanha. A futura governante prova das amarguras e se segura como pode. A pressão se alarga. O teatro desenha personagens que mudam seu perfil, sem muito esforço. Dilma convoca seus companheiros de jornada. Muita conversa perdida ou desfeita, destrói esperanças anunciadas e desmontam líderes festejados. A velocidade incomoda quem se envolve com um fazer crítico e coletivo.

O leito do poder não se reveste com lençóis perfumados que garantem sonos restauradores. Os duendes da política são hábeis articuladores de armaduras e armadilhas. Confundem o corpo com a  alma. Cada grupo possui suas fórmulas. Parece aqueles técnicos que contratam jogadores consagrados,   ouvindo os conselhos dos empresários. Decepções cabem, num mundo onde o sonho tem a cor do vestido da atriz mais conhecida.

No mundo dos descontroles, negócios, convivências

O ano finda-se. Trata-se de um rito de passagem, pois o tempo continua e a vida inquieta não cessa de procurar aventuras. Há os famosos balanços e restropectivas. Parecem espelhos do passado, pois os temas são os mesmos. O sucesso dos famosos, os desastres ecológicos,  a corrupção dos políticos, as renovações tecnológicas… Muita coisa para recordar, como se a virada do calendário anunciasse transgressões históricas que nos levassem ao paraíso ou ao juízo final.

Não custa deixar o sossego de lado e espalhar a brasa. De todo jeito, algo se aprende. As imagens enfeitiçam e nos vemos na fama e no fracasso dos outros. É isso. As permanências incomodam, perturbam os que acham que a mudança acontece sempre.Em todos os cantos e lados da cultura, os sinais das relações sociais avisam o que falta e o que sobra. Lá estão os chineses querendo tomar conta da grana que circula, tirando a paciência dos norte-americanos. Na Europa, se amargam crises, greves, lamentações.

No mundo da bola, a agitação é a mesma. Depois, da goleada do Barcelona em cima do Real, muitas teorias foram lançadas. O técnico derrotado caiu de um cavalo alto, junto com sua vaidade. Não adianta insistir. O futebol tem suas peripécias e belas invenções, malgrado os desfazares dos especialistas, preocupados em armar defesas e ganhar pontos. Nada caminha definido, sem magia. O espaço da surpresa dá graça à vida, rompe com os ruídos chatos das máquinas soberanas. Jogo é jogo, geometria é geometria.

Os escândalos são comuns. Ninguém fantasia a ausência de desmantelos, de choques de grupos loucos por acumular com as manobras do capitalismo. Denúncias atrapalham negócios ou os torna mais transparentes. O presidente da CBF vive cercado de acusações, sem contudo ser punido. Escapa, como poucos. Os tribunais não provam que seus poderes alcançam até o ciclo mais íntimo da Fifa. Seus santos o protegem, com uma habilidade incrível. Os milhões enchem as conversas, assanham a ira dos jornalistas, porém Ricardo Teixeira se mantém num feudo gigantesco.

Quem anda, numa de horror, é Bruno, o ex- ator principal do Flamengo. Entrou num labirinto formidável. Até seu ex-advogado é viciado em drogas. Foi condenado. Alerta para aqueles que se julgam donos de todas as situações. Seu constrangimento tem ameçado seu equilíbrio. Depressivo, apela para amigos, vendo seu dinheiro desfiar-se. Está incrédulo. Antes campeão, mito, com convocação quase certa para seleção nacional. Hoje, desprezado pela mídia, planejando o suicídio, envolvido por uma melancolia atroz.

As andanças de Ronaldo são outras.Mesmo que o seu Corinthians não tenha assombrado , como se esperava, ele segue firme. O seu carisma se adapta e suas perdas se tranformam em vitórias. É um empresário e ex-notável atacante. O Fenônemo sofre metamorfoses. Sobreviveu às intrigas, conviveu com travestis, é pai de mais um filho e seus negócios não morrem. Ficam as lembranças de seus belos avanços pela área. Consagrou-se, internacionalmente. Não fica a dever a Romário, Messi ou mesmo ao badalado Maradona. A sorte e o azare existem para se comporem com quem se arrisca nas travessias do tempo.

A cicatriz no coração e as dores vadias do mundo

 

Sheilla está triste. Sem muita concentração no jogo, sem aquela alegria e sagacidade. Pesou a perda do título para as russas. Foi uma batalha. Parecia que o verde-amarelo ia prevalecer, porém a derrota chegou silenciosamente. Falo de Sheilla, porque a vi jogar, nessa semana, e observei seu jeito deslocado. Pode ser exagero. Simpatizo muito com a maneira gótica dela se movimentar. Transmite energia e leveza. Cuida do coletivo e é imprevisível.

Não cabe focar no individual, nem culpar ninguém. A citação de Sheila é uma homenagem, nada contra sua capacidade de inventar. A vida tem amarguras inesperadas. Os sentimentos desafiam cálculos. Por isso, é quase impossível contar as suas história. Exige experiência, sem desprezar a fragilidade que todos possuem quando são abalados pelos desencontros. São cicatrizes que riscam o coração. Misturam-se com outros desacertos e passam como travessias. O tempo esconde o mistério da extensão das dores, porém o humano não consegue se livrar das armadilhas das frustrações.

O esporte é uma representação da vida, com todas as suas artes e astúcias. Possui regras, não menospreza renovações, mesmo que lentas e polêmicas. Por isso, sua pedagogia é permanente. Sentir a perda, quando a vitória era o espelho brilhante, distrai e deprime. Quem aprende, segue adiante. Não liga para a extensão do abismo e pula as pedras que caem em cima dos atalhos. Outros radicalizam. Desistem. Renunciam. Apagam os desenhos da memória e se cobrem com mantos escuros. Não acreditam na reviravolta e sucumbem.

Os sentimentos aprofundam sensibilidades e relativizam os discursos positivistas. Estão mais próximos da comunhão e da fraternidade. Não casam com os utilitarismo que anulam feriados e fazem do mundo um mercado ambicioso. Cadê as referências me perguntou um motorista de táxi? Definiu muita coisa num trajeto curto, onde os carros reinavam. Estava desgostoso e incrédulo. Compactuei com as suas opiniões. Foi mais longe. Perguntou pela ética, quando, por coincidência, passávamos pelo Hiper Bom-Preço e pelo Shopping Plaza. É danado, mas não dá para esquecer os interesses tão marcados pela volúpia do consumo.

A trilhas limpas e sinalizadas não se constituem sempre. Sheila experimenta as variáveis que compõem as sinuosidades. Talvez, nem  analise a multiplicidade da sua sinfonia esportiva. O investimento foi incomensurável, mas o jogo se reveste de fatalidades. Coisas de esfinges e profetas. Não alimenta, com suas surpresas, a ideia de uma controle definitivo. A cultura nos atiça para não cair nas simplicações. As palavras não significam, apenas, o que se esgota no dicionário. Octavio Paz alertava para a dimensão simbólica, tão enebriante.

A complexidade é campo repleto de teorias. Elas se enriquecem com as dúvidas. Édipo redefine-se a cada momento. Quem se inquieta, atravessa os horizontes sem nem olhar para suas cores. As dores do mundo mergulham na solidão e disfarçam fracassos. Longe estamos de um unidade no sentir. As veias continuam abertas não só na América Latina, recordando-se do título do livro de Eduardo Galeano. O vôlei brasileiro não fechou para balanço. Sheilla e suas companheiras abrirão muitas portas, com a graça das suas danças velozes.

A dissimulação comanda o show de cada dia

Aguçar o olhar é preciso. As imagens surgem numa velocidade sem igual. Não dá para ficar preso na verdade, pois pouco sabemos da mentira. O mundo se encheu de acasos, com traços geométricos. Não há lógica, quando o pertencimento é vazio ou inesperado. São as travessias da contemporaneidade que acedem luzes  nas cavernas, espalhando especulações.

Tudo é impressionante ou simula o  nunca conhecido. As televisões comandam a ordem que estrutura o cotidiano. De repente, surgem transmissões de qualquer canto. Urgências. Os cenários não têm arquitetura definitiva. Os morros cariocas são invadidos por policiais e se alarga a violência. O mundo da droga recebe impactos e o discurso da redenção ganha poderes. Os telespectadores se encolhem nos divãs, pensando jogar um videogame. Não é filme antigo, das décadas passadas. É a atualidade, empurrada pelos meios de comunicação.

Quem está com a razão? A aposta é alta, pois o simulacro é sofisticado. Os tiros são ruídos  traiçoeiros. A audiência possui silêncio e agonia. Quer um simples vencedor ou torcer pelo massacre ? Há dúvidas. O colorido mexe com a concepção de real. O espaço único não existe. A cobertura das televisões podem amanhã aportar na sua esquina e o escândalo está feito. Para onde vamos? Os caminhos são encruzilhadas, pistas de fórmula 1, cheios de curvas e óleo.

A fabricação das imagens é constante. Parece imediata, porém preparações anunciam que a tecnologia capta sentimentos e engana quem foge do seu fogo. Tudo se mistura, por isso a ética se balança e acorda Spinoza. As soluções se fragmentam no ritmo do show. Na entrega dos prêmios do Brasileirão houve de tudo. Conca foi o craque do ano. No entanto, lá estavam cantores, mágicos, comediantes e o alto comando do futebol. Por final, a carência de bons jogos se prolonga. Então, resta dissimular.

A democracia vai na onda. Consulta pública para eleger os melhores. Telefones em ação, lucros correndo para os cofres, denúncias de subornos desmentidas e a incessante vontade de conviver, com a novidade, se infiltra nos corações. A globalização garante o sucesso de algo que aconteceu no mínimo escoderijo. Quem pode esquecer das aventuras de Truman, num filme profético e sagaz? A liberdade não está perdida ou longe dos debates. Difícil é medi-la ou envolvê-la na ficção promíscua.

Escorregar na pressa não tem importância. O olhar não absorve tudo, também tropeça e testemunha negligências. Ulisses firmou-se, na sua aventura, sem deixar de ouvir o canto das sereias. Abraçou o feitiço, mas não vendeu a alma. A história busca o tempo que a afague e a astúcia que a proteja. O eterno retorno lembra que a transformação promete renovações.  O reino da fantasia tem muralhas, como a antiga Constantinopla.

Quando a vida pede respiração e se ilude com as aparências das formas, as possibilidades de ultrapassar os limites diminuem. É fundamental mirar no espelho e perceber suas quebras. O show é apenas um pedaço, o tardio que alimenta os corpos cansados de trabalhos medíocres. A máquina tira sua atenção, seu sonho e o cheiro do seu travesseiro. Salve-se com o perfume das palavras.