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A beleza é fundamental e histórica, seduz e mascara

      

Vinícius de Moraes disse que a beleza é fundamental. Nada contra o poeta que nem conhecia Angelina Jolie. Saudades de seus versos e da sua disposição para exaltar o amor. Sua atuação inspirada  merece citações constantes. Muitos discordam do seu romantismo ou mesmo dos seus dramas pessoais. Faz parte das escolhas e das objetividades que correm pela vida. Ninguém consegue o topo de forma absoluta. Tudo se balança, a questão é evitar o dualismo fechado e mesquinho.

A beleza é fundamental e histórica. Nem toda cultura possui apego pelas mesmas formas. Mudam os desenhos e as cartografias. Reanimam-se. A arte renascentista tinha um concepção que dialogava com a grega. As pinturas de Picasso trazem renovações incríveis. A ideia de harmonia sofre suas mudanças. Pensemos nas vanguradas do século XX. Os surrealistas buscando a subjetividade e desfiando a razão. Na música, Debussy e Satie desafiando o classicismo e criando sensibilidades. Há sustos, rejeições, elogios. O difícil é o gostar universal, sem críticas.

A beleza não mora só na arte. Ela se espalha no cotidiano e nas atividades de cada um. Quem assistiu a Copa do Mundo de 1970, viu a açãoa de craques, fica perplexo com outras Copas como a de 1994? O esporte tem sua estética. As Olimpíadas possuem cenas inesquecíveis. Há belezas nos gestos, nas palavras de comemoração, na defesa da ética e da fraternidade.É impossível nomeá-las com definições exatas. O importante é não se esconder da diversidade e não querer naturalizá-la. O social faz seus malabarismo. É inquieto e traça suas medidas.

No mundo contemporâneo, a volúpia consumista cuida de retomar, com destaque, a beleza, sem cerimômias ou limites. A indústria da diversão não perde tempo. Os filmes buscam artistas famosos, com seus charmes divulgados exaustivamente.Compõem o negócio. Milhões são investidos na construção de imagens que encantem e enfeitiçem. A bilheteria é tudo. Até a vilolência é tratada com requintes tecnológicos e as cores parecem mágicas. O esperteza da informática ajuda na montagem de situações antes impossíveis.

A beleza ganha, então, um espaço incomensurável. Não há limites claros, nem uma regra definitiva. Ela está no horror, no cinema, na sandália havaina, na embalagem do perfume, na capa do último livro de Paulo Coelho. Na seleção dos participantes do Big Brother, o cuidado com a forma dos candidatos está presente. A televisão vive como uma fábrica, tensa na construção de seus produtos, com receio de falhas e distrações.

O poeta tinha outras intenções com seus versos. A historicidade não pode, porém, ser negada. Entre uma década e outra, as relações se transformam, as nostalgias perturbam e os futurismos se propagam. As diferenças são muitas e as divergências não cessam de aceder debates. Tudo isso movimenta as tramas do capitalismo.

Lula sentiu, com sua equipe, o valor da imagem, quando conseguiu firmar-se como presidente da República. Há quem observe  os detalhes. Não custa olhar o que nos cerca. O cinemas continuam empolgando. Muitos, pessimistas, profetizam seu fracasso. Ele explora, com astúcia, os mitos envolventes da beleza. Não se perde na história.

Os escândalos questionam os limites e a política

A sociedade não vive sem transgressões. São múltiplas as formas de transgredir. Podem gerar o novo ou apenas glorificar o que está na moda. Partir para a desordem absoluta é o fim da sociabilidade. Há um fio, mesmo frágil, ele deve se manter. No mundo do mercado, existem fábricas em cada esquina. Tudo ganha espaço, dependendo do seu valor de troca. A notícia veste vitrines portentosas. Não vive só de fofocas dos bares ou das reuniões familiares. Internacionalizaram-se as seduções sobre os escândalos, com altos valores na negociação.

Alteram-se éticas e se subestimam  as crenças. Na Itália, Berlusconi não se cansa de promover seus encontros. Não falta quem o acuse de contratar prostitutas e seguir cortejando qualquer dama. Sua política não está  atrelada ao governo. Gosta de futebol, sorri com as perguntas dos jornalistas e parece inabalável. Imaginem ele, cometendo esses desacertos, lá no Japão. Seriam outras repercussões e julgamentos. Cada cultura recebe seus escândalos e os abomina a seu modo. Não esqueçamos que a Itália é a sede do catolicismo.

No Brasil, discutem-se as aposentadorias milionárias dos governadores. Passou o tempo do mensalão ou dos orçamentos mal administrados. Agora, surgem outras revelações não menos chocantes. Salários vitalícios? A volta dos valores da monarquia absoluta? Ninguém consegue segurar tantas habilidades para costurar verbas extrordinárias e falar sobre elas, como se estivesse se divertindo numa roda-gigante. O dinheiro público se esvai, como no conto de Ali-Babá. O mais esperto estende suas fortunas, feudalizando as tramas do capitalismo.

E as negociações esportivas ? Sacodem milhões. Times montados, por empresários, disputam campeonatos e se dissolvem num passe de mágica. Observaram  a famosa Copinha, em São Paulo? O Flamengo ficou com o título, mas os boatos e o disse-me-disse são grandes. Equipes, com nomes estranhos, chegaram à disputa final eliminando outras com tradições reconhecidas. As contratações deixam rastros de obscuridades. Jogadores brasileiros retornam de jornadas fracassadas na Europa ou mesmo na Ásia, em busca de chances. Um muro de lamentações…

O olho nos cargos do governo federal é ambicioso. Parece que os compromissos éticos das eleições se esvaziaram. O importante é firmar um lugar sossegado,   para prestar favores e fortalecer prestígios. Todos sabem que a política tem suas correlações de poder. Mas fica difícil visualizar seus desenhos para além dos interesses privados. A democracia permanece na relação das utopias. Por onde anda o coletivo? As chuvas fazem vítimas e o desleixo administrativo voa na procura de confortos suaves e, aparentemente, ingênuos.

Move-se o Ministério Público. Tenta-se colocar que a ausência de limites nos quebra socialmente. Será que caminhamos para o ingovernável? O tempo se evaporando e o juízo final se concretizando? Seria uma história para confundir qualquer candidato, centrado nos estudos históricos para o vestibular. O ensino também não tem um tom de mercadoria, paga em prestações nada leves, com diplomas exaltados pelas avaliações dos anúncios de jornais? Quando as universidades publicam os resultados dos exames de entrada nas universidades, sempre se estampam propagandas. O primeiro lugar merece foto, com companhias fundamentais, e presentes. Não é fácil. O mundo se fragmenta, mas prossegue arriscando um sentido.

As mulheres (re)inventam o mundo e a escrita

                 

Quem escreve não fecha porta para os outros. É sinal de que a imensidão do mundo não intimida. Ela desafia o contato com a aventura e o estar bem com os outros. A escrita exige paciência. Ela possui regras e intuições. Brincar com as palavras é jogo sutil, lança nomes para possíveis verdades e mascara dores. Não dá  para sintetizar a sua força, nem tampouco a sua extensão. Mas a escrita pede leituras. Sem dúvida, Nietzsche tinhas suas razões quando afirmava que viver é interpretar. Os significados são múltiplos e querer esgotá-los  é uma vaidade tola.

Estou lendo uma escritora iraniana. Sou atento e me delicio. Viajo, sem me prender a análises detalhistas. Trata-se de Azar Nafisi e o livro Lendo Lolita em Teerã. As condições das censuras afetaram e tumulturam os sonhos de Azar. Terminou indo morar nos Estado Unidos, em busca de um ar mais solto. Conta uma expriência, com as alunas de Literatura, jovens , porém curiosas e críticas. Azar consegue criar uma atmosfera feminina e delicada. Discute questões que marcam a sociedade muçulmana e desenham subjetividades melindrosas e inventivas.

A opressão balança o poder de imaginar, nem sempre concretiza, porém, subordinações perenes. O livro de Azar aponta as saídas para reinventar o mundo.Escrever alimenta a coragem, alinhava antigos remendos. O desamparo nunca é total. O domínio do masculino deve ser respondido e não provocar inércia. O universo feminino forma outras arquiteturas, transforma e retoma o valor da sensibilidade. A escritora move suas peças com arte, sem se colocar como vencida, porém testemunhando os desconfortos do machismo.

O Irã não é uma ilha perdida, desvinculada das concepções ocidentais. Há choques e a violência comanda  governos. Nem por isso, deixam de existir ousadias e encontros com afetos e transgressões. Não exageremos. O machismo corre o planeta Terra, fabrica desmantelos e hierarquias cruéis. Por isso, é importante não firmar exclusividades históricas. As culturas precisam de reavivar seus territórios e perceber suas simultaneidades.

Lutar por deslocamentos de tensões e de valores faz parte dos fazeres históricos das mulheres. Os exemplos são vários, nas práticas, nos comportamentos, nas mudanças socias. Quem pode esquecer Hannah Arendt, Clarice Lispector, Rosa Luxemburgo, Lou Salomé e tantas outras? As citações meceriam mais espaços, no entanto é uma forma de atiçar as lembranças. Tudo não se constrói rapidamente. Levou séculos. Nessa semana, vi Marta e Dilma conversando sobre investimentos no futebol feminino. Quem pensaria em ressaltar esses assuntos a poucos anos atrás?

A sexualidade consolidou-se como debate importante da contemporaneidade. As notícias trazem controvérsias que atingem até as novelas e as revistas semanais. Dividir o mundo entre o masculino e o feminino talvez seja um ato mínimo. A dualidade despedaça-se diante dos muitos olhares que acompanham o redesenhar dos corpos e as astúcias do desejo. Neste sentido, Azar Nafisi desperta o leitor, com consciência de que a literatura inquieta.Escrever e ler. Não há silêncio definitivo, nem ruído absoluto. As fronteiras estão cansadas. Melhor é celebrar suas ruínas, instigando as utopias flutuantes, bordando mantos com as cores de Matisse.

As águas mudam de ritmo e causam tensões

A música de Tom Jobim, Águas de março, merece ser ouvida infinitas vezes. Uma letra renovadora, animando os ritmos e trazendo a natureza para ser cantada. Consegue construir entrelaçamentos surpreendentes e mostra seu cuidado com o equilíbrio do mundo. Sua interpretação, junto com Elis Regina, toca o coração, atiça sentimenos e relembra os tempos da infância. Tom, um maestro especial, cidadão do mundo,  fez outras composições admiráveis e ajudou a redesenhar muita coisa.

Os tempos mudam. Hoje, vivemos dramas movidos por outras águas. Não cabe beleza. Os sossegos são esquecidos, os feitiços adormecidos. Estamos, em janeiro. Muito calor, praias, corpo bronzeados e vontade de respirar. Há chuvas que quebram a soltura do verão. Nada a reclamar. A natureza possui suas lamentações e precisa expressá-las. É saudável e limpa a atmosfera. No entanto, o desequilíbrio ecológico tem causado pânico. No Sudeste, as notícis ganham uma sequência interminável. O romantismo não se desenha diante de tantas perdas.

O assunto é retomado, porque a história não é mesmo mestra da vida. A política caminha, sempre, pela luta por cargos. São poucos os lampejos de solidariedade. Esquecem que a vida se constrói na dimensão do coletivo. Quando os desacertos se acumulam, aparecem soluções. Projetos mirabolantes, verbas emerciais e milhares de pessoas desabrigadas. Muitas cidades se transformam em ruínas e rios, em oceanos. Qualquer pingo de chuva é um alerta. Ruas alagadas, pânicos estendidos.

O desnvolvimento técnico tem seus méritos indiscutíveis. Atrai, também, um fogo pelo consumo e enche nossas casas de produtos. Criam-se mecessidades, antes nunca pensada. Concentram-se riquezas e objetos. O desejo comanda as idas em busca de novidades. Um romance interminável ou uma tragédia anunciada? Em vez de uma televisão, várias em cada canto da casas. Carros individualizados, com dispoisção para qualquer viagem: longa ou curtíssima. O urgente é desprezado ou deixado para depois. O que vale é aparecer, torna-se também um produto especial.

O desmantelo é grande. A natureza reage. Nas cidades, o barulho e a pressa gerenciam a ansiedade. No caso da chuvas, a coisa fica descontrolada, quando não há meio de dimunuir seus efeitos. Muitas vezes, medidas públicas simples, cotidianas, são adiadas e o desastre se alarga. Pior para aqueles que sofrem com o problema, quase todo ano. Não podem fixar bases familiares e se sentem ameaçados pelas instabilidades. Emoção para doer e tirar a crença em qualquer discurso ou oração.

O mundo liga-se no presentismo, palavra não muito simpática. O agora reina nas propagandas e tumultua paciências. Não se considera a urgência de garantir a qualidade de vida, mas de correr para se desfrutar da última liquidação da Insinuante. A medida é a quantidade e o olhar invejoso do vizinho. Nem todos embarcam nesse desperdício. Existem os que entendem a força da ilusão e se envolvem com outras contemplações. A maioria se embriaga com a superfície, delicia-se  com a rapidez e intrega-se nas batidas das prestações. Protestam quando são prejudicadas. O mundo é , contudo,vasto. O sentimento não deve ter a cor das vitrines, o perfume de Narciso.

A invenção do método é uma saída para vida?

Descartes refletiu muito e perdeu  noites de sono. Queria superar verdades estabelecidas Tinha a razão acesa para redefinir caminhos que vinham marcando o Ocidente , desde a época de Aristóteles. Sentiu o mundo inerte? Desfazia-se em angústias de fracasso? É difícil fazer a análise do pensador francês, depois de tantos séculos. Visitar a interioridade é sempre um desafio. Quanta vezes nos enrolamos deconhecendo certos traços nossos no espelho do banheiro? Desconhecer está nas tramas das aventuras de quem ousa transgredir.

Descartes escreveu o Discurso do Método. Marcou a filosofia moderna e alimentou incertezas para muitos. Continua sendo lembrado, apesar das críticas e das novidades mais recentes. Os estudos, hoje, se voltam mais para Deleuze, Foucault, Castoriadis, Lacan e outros. No entanto, a tentativa de firmar certezas prossegue. Não, apenas, no jogo, os favoritos se quebram. Os paradigmas acadêmicos sofrem com ataques de adversários ligados a uma concepção mais solta da vida.

É a velha questão que se se repete e se espalha com sutileza: a existência merece amarrações seguras ou é melhor deixá-la entregue ao acaso das divindades peraltas? Quantas vezes os treinadores das equipes de futebol acreditam tornar-se valiosos estrategistas ? Garantem envolver seus opositores e fazer seus esquemas brilharem. Nem sempre, acontecem as vitórias. Os resultados desmontam previsões e fragilizam expectativas.

Descartes, no seus canto, sabia das difiuculdades, mas insistiu. Penso, logo existo, tornou-se um mandamento de modernidade. Ele respeitou o catolicismo. Havia fogueiras que queimavam os descrentes.Surgem outras reviravoltas na forma de sentir e observar as relações humanas. Muitas coincidências entre as conclusões dos intelectuais ou polêmicas radicais. Os economistas clássicos influenciam, o andamento do capitalismo e abriram as portas para os planos da burguesia.

Marx condenava a desigualdade e defendia a revolução da classe operária. Não faltaram seguidores. Encantos com os utilitarismos, de um lado, e discursos contra mais-valia, de outro. Muita turbulência que agitava o Discurso do Método. Utopias desfiadas, violências constantes, ambições multiplicadas. As incertezas não podem ter descanso, como um atleta, na véspera de um decisão. A insônia é amiga da fantasia, do medo e da ansiedade. Tudo passa com uma velocidade desmedida. 

 Já imaginou uma outra afirmação: Sinto, logo existo. As relações sociais seriam as mesmas? Os debates acadêmico buscariam outras palavras menos duras, desprezando os ranços positivistas? Interrogações para os companheiros de Édipo. Observem a pintura, acima, de Carla Amaral.  Viaje. Não é à toa que criaram as tragédias, com suas dimensões pedagógicas e seu desejo de decifrar as tantas lacunas que nos perturbam.

Elas permanecem, não apenas na forma literária, mas passeiam pelas calçadas, pelos morros, pelos quartos escuras. De repente, o bem-comportado se transforma num vilão e o santo, num pecador sem limites. Aquela equipe de craques se curva diante de outra cheia de energia, porém sem técnica.É impossível contar a quantidade de desenganos, pessoais ou coletivos. As convicções possuem momentos, no entanto se esfumaçam com o tempo. Quem disse que deus fez o mundo em sete dias, construiu uma metáfora.

A intimidade se veste no espetáculo do mundo

 

              

Percebe-se que a sociedade se agita, quando o Big Brother começa sua jornada na Globo. Nem todos se comovem, mas o público é participante e numeroso. Não, apenas, as pessoas, no Brasil, gostam de visitar as intimidades dos outros. O mundo se escancarou com uma nudez que espanta os mais tímidos. Os  meios de comunicação intrometem-se nas privacidades, com sofisticações. Os amores de Hebe, os descontroles de Suzana Vieira, os contratos publicitários de Ronaldo, as aventuras de Maradona, as fortunas dos astros do tênis. Cada página de jornal revela assuntos comuns e assanham com novidades escandalosas.

Em toda cultura houve diversidade de hábitos. Ela distingue comportamentos, estimula ousadias, esconde seduções. Por mais que se busque escrever um história uniforme, se cairá em análises supérfluas e pouco liagadas à capacidade de inventar dos seres humanos. É melhor assumir os choques e os descaminhos. Nada de simular harmonias e silêncios permanentes. A cultura é movimento, mesmo que retome significados e os transforme. Por isso, o sucesso das invasões nos desfazeres dos casamentos ou na falta de compostura dos artistas e políticos.

Não é uma questão exclusiva da ética. Não tem o crivo inabalável da ordem dominante. Sempre a conversa rolou, com interesses múltiplos. A sociedade não dispensou o outro e suas andanças pela vida. São registros que servem para flexibilizar a sociabilidade e redefinir processos conhecidos como civilizatórios. Gostamos de ler Platão, Montaigne, Baudelaire, André Gide, porém há também um olhar sobre o que move a escrita de cada um. Qual era a opção política de Hannah Arend e como se deu sua amizade com Benjamim? Picasso era mesmo um conquistador inquieto?

Acrescente-se que tudo não termina com as celebridades. As fofocas dos bairros, das ruas, dos edifícios ganham espaços e incomodam muita gente. Os porteiros de prédios narram acontecimentos, como poucos contadores de histórias. Não perdem um lance sobre o morador do 202 ou a moradora do 190. Como está o casal do 330 ? Houve uma briga ou a separação se anuncia? A televisão é lugar de especulações, mas imagine o que se diz  nas praças de alimentação dos shoppings, nas concentrações dos jogadores de futebol, na caso do vizinho?

Nas academias de intelectuais,  discutem-se os conteúdos das culturas e suas complexidades. O consenso é  impossível. Faz parte do contraponto. Ninguém, no entanto, duvida da imensa curiosidade que atiçam muitas pessoas, não importando seu grupo social. Falar sobre outros fabrica imagens  e avaliações, promove julgamentos que atrapalham ou dignificam os indivíduos.

Lembremos Nietzsche e suas reflexões sobre os valores. A impermanência é um dado. Não há paralisias fixas na gestão da cultura. Há desconfortos e decontinuidades, porém os entrelaçamentos são visivíseis, apesar do sólido que se desmancha no ar. Os sustos existem e vestir a intimidade é uma tentativa de manter a discrição. Para alguns, encontrar resistências e firmar solidões aumentam a possibilidade de sair das cavernas.  Há câmeras em todos os cantos que sondam qualquer descuido. O espetáculo abre o mundo, para as investigações cotidianas da internet. Quem se desconsola e se desnuda?

A maratona desgasta e tira a arte do futebol

Segue o campeonato pernambucano. Elogios para a presença do público, entusiasmado e mostrando suas paixões pelo futebol. No entanto, é preciso muito líquido para aguentar a sequência de jogos. O intervalo é mímino e o calor ameaça o fôlego. Os times, que se anteciparam na preparação, levam vantagem. Correm os dois tempos, com mais disposição. Acho um despróposito a forma de disputa e as polêmicas já receberam bravas intervenções de Carlos Alberto Oliveira.  A imprensa não se cansa de colocar o assunto, em pauta, e os atletas reclamam de maneira discreta. O medo de perder o emprego assume o lugar da insatisfação ?

O Santa Cruz mostra-se bem articulado. Sua torcida renasce. Vitórias consecutivas abalam a apatia e provocam otimismo. Não há razão, sempre, para superestimar, pois os jogos  são cheios de ingratidões. Vamos ter cuidado. O tricolor olha as coisas com muita superação. A meta é sair da série D. O esporte possui muitos caminhos e está entranhado na construção da cultura. Mesmo as pesquisas históricas, mais remotas, encontram sinais de práticas esportivas. Vencer ou perder são mandamentos da vida. Por que associá-los, apenas, aos aspectos da economia, como descobertas do capitalismo?

Bola para frente. O Porto e Central também salientam seus desejos de afirmar condições de chegar perto do título. É claro que o campeonato é longo, muitas mudanças vão pintar, porém as fantasias de êxito movimentam as pessoas. Se vem a frustração… O mundo não se acaba num instante. Quem parte leva saudade e tantas lembranças que termina ficando pedaços das suas andanças pelo cosmo. O ânimo merece respeito. Focar sempre no futuro traz energias de azares e pouco alento para dobrar as esquinas barulhentas.

O Sport e o Náutico vacilam. Faltam pernas, como dizem os comentaristas. Muitas contratações impedem a confirmação de certas escolhas. É preciso aprimorar o ritmo das batidas do coração e esperar. A luta para quebrar o orgulho do Timbu atiça o Leão. A Ilha do Retiro sonha em ser o cenário do hexa. A festa se arquiteta na imaginação. Pensar, antes, motiva. Não se pode conceber o esporte, sem essas idas e vindas. Um campeão eterno não caberia no dinamismo da cultura. A monotonia eliminaria o encanto de vibrar.

O que falta é um craque que defina sua missão de artista. Os chutões são comuns e os gramados péssimos. Isso depõe contra os organizadores. O esptáculo necessita de mais atrativos, pois o lucro é o objetivo central. Tudo construído, na pressa, remove a paciência e rompe estratégias. Dizem que não há tempo para treinos e a conversa salva a situação, com trocas de experiências e análises sobre os adversários.

Na última rodada, o Sport saiu-se mellhor com uma vitória sobre o Ypiranga. Nada de exibições exuberantes, porém determinação nas jogadas. É o jeito, a maratona limita a criatividade. O Timbu continua tropeçando e empatou com a Cabense. A sede de resolver problemas administrativas a prejudica a energia da diversão. Sentimos que o futebol se afasta de seus malabarismos. Esta enfeitiçado pelo reino de mercadoria. O lucro é tudo.

As repetições ganham espaços e monotonias ?

A criatividade tem seus limites. Não está em toda parte. Há quem a negue e a conceba como coisa dos deuses. Nós, na incompletude comum, ficamos presos às imagens,sem ousadias. Muito pessimismo ou descaso com a cultura? Existem as repetições e a falta de ânimo para transgredir.Gosto de fazer uns testes. Correr certos riscos, sem gravidade. Assisti às Viagens de Gulliver, tentando me recordar do passado, da leitura do livro, das boas impressões registrada. Decepcionei-me. Não valeu o risco. A monotonia impera e o filme é daqueles simulacros sem brilho algum.

Isso não é tudo. Não custa ir adiante. Desistir e reafirmar o reino da apatia é cair na falência da cultura. As radicalidades devem vagar por medidas e não estabalecer ordens definitivas. A história continua e navego no navio de Ulisses. Resolvi revisitar a memória do futebol. Há muito que procurava um documentário. Chama-se Pelé eterno. Título, no mínimo desafiante. Ganhei o DVD de presente e me preparei para apreciá-lo. Sabia que era uma louvação ao craque, aos seus feitos e a sua majestade.

O que me interessava não era a sequência de apologias, mas, sim, a arte das jogadas. Vi junto com, meu filho, Marcelo. Um deslumbramento. Não parei de falar e exaltar a força das acrobacias do Rei. Força estética, pois a leveza compõe a sua dança em campo. Parece, às vezes, desenho animado. Pelé não se intimida com os adversários e vive da fantasia de cada jogada. Os gols deixam a perplexidade flutuar. Marcelo também se alegrava. Com seus quinze anos, desconhecia tanta invenção, bastante diferente da letargia do futebol de hoje. Pensei: quem disse que não há criatividade? Massificou-se mesmo o olhar e se  disciplinaram, em todas as rotas, as ações?

Convencido da minha tese, não sosseguei. Mergulhei nas páginas de um romance de Manuel Scorza. Saudades da sua escrita. Procurei seu livro  Tumba do Relâmpago e meu tapete mágico não poupou seu malabarismo. Havia criado uma versão para vida de Scorza, por isso não busquei mais suas obras. Não sei de onde saiu a ideia de que ele havia morrido num desastre de avião. Grande e saudável engano. Li seu livro, sem vacilações e me reencantei com suas palavras precisas e cristalinas. Poucos possuem a habilidade de Scorza. O mundo agradece a sua existência, seu compromisso de lutar contra a desigualdade e sua intimidade com o humano.

Não há razão para se traçarem  normas infalíveis e achar que a segurança vem da ordem. É melhor desfazer-se das costuras malfeitas e espalhar o charme que não está longe do mundo. As diferenças sobrevivem, mas a vontade de reconhecê-las. Os dribles de Pelé e a coragem de Scorza movimentam energias. Nada como respirar a atmosfera da suavidade e do coração fabuloso de Scherezade! Chico Buarque fez uma letra, uma das suas primeiras, onde afirma: Fica meu amor, quem sabe um dia, por descuido e poesia, você goste de ficar. Descuido e poesia, inquietude e voo. Será que a onipotência não se encontra na textura da argila?

As dores relembram perdas e pedem abraços

Os acontecimentos do Rio de Janeiro trouxeram convivências com abismos e medos. Muitas fragilidades. Um abalo na vida social que  atingiu até o mais tímido solitário. Não, apenas, no Brasil o sentimento de dor se expandiu. O mundo não está protegido dos descontroles, nem tampouco a natureza organiza um calendário de tragédias. Evita-se alguma coisa, quando se tem cuidado coletivo e atividade política responsável, embora o contraponto do narcisismo promova estragos.

Ficamos nas idas e vindas, porém com ameaças maiores ou menores, de acordo com as ações dos atores sociais. Não dá para pensar num planejamento imbatível, nem sonhar com um equilíbrio estável. A ideia de que o fio pode partir-se, não é invenção gratuita. Neymar marcou quatros gol contra o Paraguai. Representou a astúcia dos grande craques. No entanto, não faltam críticas para suas falas desmedidas. Sobra-lhe vaidade, que tumultua seu talento indiscutível.

A incompletude nunca se ausentou da sociedade. Daí, a eleição do extraordinário para enganar os fracassos. Os heróis são convocados. Seus feitos amenizam os desenganos, suavizam a queda das lágrimas. Eles são, muitas vezes, apagados ou comparados aos comuns. Nas andanças do tempo, lá estão os corajosos, os humildes, os sábios, os onipotentes atendendo aos chamados urgentes e aos desfazeres do cotidiano.

A diversidade é incrível, mesmo na contemporaneidade: Capitão América, Homem Aranha; o bombeiro anônimo que salvou crianças; artistas de cinema transformados em figuras excepcionais; Gandhi redefinindo a política; Guevara lutando pela redenção dos pobres… Mais do que o concreto, o simbolismo ganha espaço no bordado da cultura. Não há unanimidade, as dissidências mantêm o vagar das autonomias e o fluir dos imaginários.

No meios das dores, movem-se alegrias. O tempo não fecha a cortina, nem quando sol se cansa. As vestimentas da vida não são eternas. A nudez aparece e denuncia que nascemos ou morremos, mas a história continua. Moderno, pós-moderno, hiper-moderno, pós-história. Gostamos de legitimar períodos e inventar nomes. Surgem os debates, as contrariedades e muitos se abraçam com o absurdo. Ninguém despreza o toque, o afeto e a vontade de animar a vida.

Existe o silêncio das apatias. O gol perdido, na marca do pênalti, abafa a força das torcidas. O número de vítimas das cidades do Rio incomoda. O desleixo abate e emudece. Mas as possibilidades abertas surpreendem. Há pessoas que roubam os donativos e lidam de outra forma com a culpa. É difícil julgar e estabelecer regras. Como seria uma administração sem limites? Quem pode definir a ordem ? Nunca é demais lembranças das solidariedades que tomam contam de situações trágicas.

Cada dia faz sua história, mesmo assim o ontem acrescenta. Os espelhos são medidos pelas palavras e pelas texturas dos rostos. Pendurar-se nas certezas é uma atitude de risco. Riscar as dúvidas dos mapas da vida é segurança inquieta. O circo responde aos dramas, porque suas lonas são mantos efêmeros. O que vale é o gesto do palhaço, a audácia do trapezista, o malabarismo dos acrobatas, as espertezas dos mágicos. Não conte até dez, nem fuja das saliências da memória.

A solidão caminha com cadências e fundamentos

         

Há  esportes que ignorava. Não entendia, nem me emocionava com suas jogadas. Ficava desconfiado. Lembrava-me das torcidas, das minhas ligações com o futebol e firmava minha antipatia pelo tênis. Mas o tempo e a vida se sacodem. Comecei a ser mais paciente. Observava a ação dos tenistas, buscando ensinamentos. Partidas longas, fisionomias sérias, público disciplinado, patrocínio das elites. Outro espaço diferente das arquibancadas do Arruda ou dos ruídos do Maracanã. O mundo se multiplicava no silêncio e no olhar atento de cada um.

Mudei de idéia e segui minha trajetória. Sem grandes perguntas, fui aproximando-me das transmissões, apreciando a disposição dos atletas, seus malabarismos  e a atmosfera de introversão. Os aplausos não equivaliam aos batuques das torcidas organizadas. Pensava alto: a história não tem tanta diversidade e a cultura não é tão cheia de heterogeneidades, por que os esportes possuiriam a mesma identidade ou nos balançariam nos mesmo trapézios? Quebrei meus preconceitos.

Acontece, na existência, muitas reviravoltas. Cabem surpresas e rotinas. A gestão do tempo agrega turbulências e indefinições. Queremos sossego, fugimos de desesperos ou criamos ilhas de fantasias. Faz parte de quem não sonega esforço para compreender as muitas magias que nos são oferecidas. Há quem despreze o encanto e se firme na monotonia dos atos comuns, festejando a continuidade da ordem. Esquecer os nós da cultura traz exageradas calmarias.

Hoje, assisto com prazer aos jogos de Nadal e Federer e de outros menos afortunados. Já consigo precisar mais o valor das estratégias e admirar a coragem de alguns tenistas, na perseverança de se manter em quadra. São exímios controladores do tempo. Percebi o tamanho da solidão que passa por cada partida, quando as decisões são mais longas. Não vacilei em aprofundar a minha cartografia dso sentimentos. Apagar da vida a emoção dos instantes é envolver-se na mediocridade dos domingos televisivos.

Não é necessária muita meditação, para registrar as dimensões de cada disputa. O futebol compõe suas sinfonias grandiosas. Atrai o noticiário até das páginas policiais. Exige mobilizações maiores do que os esportes individuais. A cartografia dos sentimentos se apresenta, também, no vôlei, no box,  na fórmula 1, na ginástica… Estamos na fogueira do capitalismo, onde se queima aquilo que fabrica prejuízos. Os grandes espetáculos dependem de lucros e negociações melindrosas.

Voltemos aos sentimentos. Quem se segura durante três ou quatro horas na sua solidão, concentrado nos erros e nas virtudes, dominando impulsos ? No esporte coletivo,  há outros entrelaçamentos e alegrias mais expansivas. Dividir a tristeza e anular a memória das derrotas não são labirintos de saídas comuns. O tenista está ali, nos cem anos de solidão, distraindo sua imaginação traiçoeira.

Às vezes, um riso irônico, uma reclamação, um suspiro mais alto, um olhar sedutor para o fã-clube, o grito no final do encontro.Quem não conhece os segredos e o peso da subjetividade, deve sofrer nas quadras de maneira mais profunda. Há dores espalhadas por cada canto do mundo. A solidão não é uma marca singular de certas práticas. A solidão é um dos fundamentos da cultura. A permanências dos mitos afirmam o desenho da interioridade.