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Maradona, Lula, Serra, Dilma: a vitrine do poder

Os nomes acima estiveram presentes nos meios de comunicação, com uma insistência permanente, desfilando suas vontades de poder.Chamavam leitores. Tocavam fogo nas opiniões. Multiplicavam paiões Mexiam com os indecisos. Transformavam-se em ídolos ou aumentavam o índice de antipatia pessoal. Figuras polêmicas. Ninguém vive sem notícias. Mesmo na época da falta de alfabetos, falar do outro era comum. Somos animais sociais, por necessidade e por prazer. Como viver a vida sem discutir o coletivo ou as virtudes e erros de cada um.

O tempo ensina e sacode verdades. A impaciência é uma constante, numa sociedade que gostaria de cultuar, sempre, a velocidade de um avião. Rebeldia, hoje, é ter paciência, contar as horas nos dedos, não se escravizar com a internet, alargar os momentos de preguiça. Mas e a grana? Pode ser acumulada sem esforço? Tudo não é mesmo mercadoria ? Quase não existem feriados. Trocar é o movimento maior, para que o ânimo se mantenha, mesmo que a saúde mental se desmanche. Deixa rolar. Não vamos estimular muita reflexão. Causa gastrite e incomoda. Respeitemos o caminhar de cada um.

Maradona fez 50 anos. Continua polêmico. Não hesita diante de um microfone. Procura imagens. Jogou muita bola. Craque sem igual no futebol argentino. Sua controvertida trilha não lhe tira os méritos de ser artista, de produzir o encantamento das gerações. É adorado, muito mais do que amado, por seus fãs portenhos. Dirigiu a seleção do seu país na última Copa, sem êxito esperado. No entanto, não escapa da mídia, nem quer ser esquecido.

Lula passou 8 anos na presidência do Brasil. Sua popularidade desafiou os institutos de pesquisa. Fez história, com suas obras e seus discursos inesperados. Poucos acreditavam que ficasse tanto tempo lá em Brasília. Representou a nação, tornou-se cidadão exaltado fora da nossa terra e recebeu elogios de vários cantos do mundo. Marcou mesmo os que, ainda, fecham a porta para seu governo. É claro que as carências são muitas, mas calar sobre as transformações não resolve.

Conhecer o que aconteceu, discutir, sugerir é assegurar que a política tem sonhos democráticos. A eleição lembra direitos e deveres. É festa, para fazer contraponto aos totalitarismos, mas traz meditação, pensar alongado, pois define para onde vão projetos, coragens, dignidades, devaneios. No final, a vitória de Dilma trouxe novas ousadias. Uma mulher no poder central, enfrentando resistências de muitos, como ocorreu durante as disputas dos turnos. O Brasil segue adiante, como muito coisa ainda pendente. Mas houve reviravoltas significativas.

Com a chegada de Dilma, Serra dá um tempo, depois de viver acirrados embates. Ficou com a marca de candidato do bem. Sua campanha poderia tomar outra configuração, porém  firmou um tecla perigosa. Caiu no maniqueísmo. Ágil e experiente, soube movimentar-se. Infelizmente, faltou um debate mais fértil, para todos. Sobraram utilitarismos estratégicos.Tudo merece cuidado e atenção. Repetir certos comportamentos e palavras ameça o fortalecimento de democracia. É preciso assimilar que o mundo tem cores e alegrias, como o quadro de Matisse. A vitória mostra a responsabilidade da escolha. É um outro começo.

Os espelhos de Alice não se quebram, somem

Hoje é dia de andar. Não olhe  para a cor do firmamento. Não se ligue nos desconfortos da preguiça, nem na ressaca da noite sem sono. Andar, aqui, é sinônimo de sonhar. Se sacudiram bolinhas de papel Chamex, se encheram os e-mails de boatos e calúnias, se quiseram consagrar golpes e medos, se os debates não esquentaram os ânimos, tudo isso se torna lembrança passageira, diante da imensa tatuagem que a política não cessa de desenhar em nossos corpos.

O importe é ter cuidado. Preparar a consciência, articulada com a sensibilidade, sem o peso das exatidões das matemáticas, meramente, classificatórias. Preparar o caminho, sabendo que não é único, mas que somos partes decisivas, do seu ponto de chegada e de partida. Não estamos solitários, nem o inferno são os outros, como disse Sartre. Repartir a vida é uma dádiva. Socializar projetos e alargar conquistas culturais merecem atenção contínua.

O voto não é o instante mínimo da arte. Estende-se como um concerto de Vivaldi. Possui melodia. É dançarino. Não mecânico, se agrega às permanências das ações sociais. Da sua firmeza e compromisso dependem anos de convivência e frustrações, diante dos azares das escolhas. Não há como fugir. A história nos pertence. É circo construído com as nossas lonas, com o nosso poder de divertir-se e desmontar-se.

Os tédios, os desencantos, as ansiedades, os desesperos, as paixões fazem a complexidade nunca resolvida dos corações e mentes, dos movimentos do tempo. A política não é estatística fria. É invenção humana. Seus dramas tem escritas imginárias, mas passam pela concretude das necessidade mais imediatas. Estão carregados de desejos. Somos nós e nossas personagens. Focar no egocentrismo é uma atitude menor, por mais que o capitalismo nos conduza a magia do consumo.

Alice resolveu enfrentar as maravilhas e as esquisitices de outros mundos. Não esquecia o que era ela, o tamanho da sua identidade e  o valor das respostas. Viveu a aventura sem se omitir. As relações somem, os espelhos mudam suas molduras, porque a aventura humana é incerteza. É jogo, fuga, fogo, voo, esperteza. A linguagem nos torna poderoso para falar de tudo, sem , contudo,  inventar a sentença final da história. Cabem as especulações.

Simultaneamente, podemos viajar e se desfazer do agora. Visitar as outras experiências. Imaginar a era das revoluções, a amargura das grandes epidemias, a insensatez da bomba atômica, o desequilíbrio arrogantes dos grande impérios, a vontade de afirmar o coletivo. Isso é um sinal de autonomia. Acende desejos e não sossega. O pertencimento ao cosmos é mistério, mas desaparecer das suas aventuras é mergulhar num oceano, apenas, de turbulências.

As luzes das estrelas  iluminam e não pedem nada em volta. O mundo se veste quando se concilia com o abraço. As astúcias de Ulisses circularam, com se nada tivesse começo, nem fim. Ilusão. Elas queriam nos dizer que nós moldamos na argila, o retrato do que a vida trará. Vale pensar. Andar é sentir que cada passo compõe um poema de carne e osso. Dele depende o desenho da coragem ou das asas da impaciência.

A história e a perfeição, Romário e a política

Afirmar que a perfeição é a negação da história deixa muita gente desandando. Parece uma parceria com o absurdo. Mas não há como negar a nossa incompletude. Buscamos sempre. A felicidade não se concretiza, depois de séculos de culturas e descobertas. Vivemos num equilíbrio instável, como disse Freud. O bom é que a história continua. Não houve desistência coletiva, o fôlego se mantém. Na necessidade e no desejo de preencher as lacunas , traçamos as curvas dos caminhos e seguimos, apesar das vacilações.

Não seria um exagero desconfiar das incertezas. As desigualdades permanecem. Há uma dificuldade de derrubá-las, pois as promessas e as profecias fracassam. Os desafios são constantes, desde os inúmeros mitos criados em torno do paraíso. Todos se recordam das tentações de Adão e Eva, das imprudências de Epimeteu, das coragens e medos de Édipo, das arrogâncias de Zeus. Não faltam escritas, nem memórias. Sobram divergências e rebeldias, na forma de interpretar os atos e as metáforas.

Não esqueçam que Platão não via, com muito respeito, os poetas. Sua República, idealizada, estava repleta de hierarquias. Dava conta das perguntas do seu tempo. Mais recentemente, outras contendas transparecem e ganham humores especiais, na filosofia e nas disputas mesquinhas. Maradaona catuca Pelé, com a vara curta, e provoca polêmicas exploradas, com prazer, pelos noticiários internacionais. Não reconhece as qualidades do Rei e o ironiza, com exaustão. Ninguém se cala nos bordados da cultura. O futebol é território fértil de idas e vindas. Uma fofoca vale milhões.

A incompletude faz com que as escolhas não sejam as mesmas. Corremos riscos. Somos aventureiros no traçado das trilhas possíveis da existência. Não temos a onisciência dos deuses. Nossos mantos podem virar tapetes mágicos ou farrapos de cartografias tecidas, com linhas desfiadas. Nada de planícies extensas, sem terrenos escorregadios ou moradias angelicais. A surpresa não se descuida de apontar por andam saídas inesperadas. As esquinas se submetem a sinais que abrem e fecham sem avisar. Há vulcões, oásis, florestas, mangues, oceanos… Cada momento pode ser o espelho do outro. Ventos e tempestades se anunciam, em dias de sol exuberante.

Não é para menos. Romário é ,agora, deputado, depois de uma longa perseguição pelos mil gols. Vai mergulhar em novas questões. Sua popularidade sofrerá abalos ou reconfigurações. Será que ele se vê fora dos tempos de ídolo e artilheiro das grandes torcidas? Com certeza, encontrá outras convivências, outras artimanhas. As expectativas e lembranças se diluem, cenários formam-se com outros sujeitos e discursos. Romário não é ingênuo. Política é política. Futebol é futebol. Atravessar o mundo significa ser sensível às diferenças.

Becos, ruas estreitas, avenidas, praças vazias compõem o cotidiano, com cadências inconstantes. Desconhecer os deslocamentos é perder as possibilidades de redefinir-se. Com todos os desenganos vividos, ainda, se arquitetam esperanças e ousadias. O gol acontece, muitas vezes, no final da partida. Uns choram, outros sorriem. O imprevisível não se esconde, como as estrelas em noite de chuva. A história insiste para que exista o amanhã, mesmo que os pesadelos se instalem no leito da fantasia.

Os sustos da vida, os ritmos do inesperado

            

Quem pensa a história está ligado no tempo. Os acontecimentos tem um fluir, não são estáticos. É preciso defini-los no seu ritmo. Se acreditamos na sucessão dos instantes, na força das causas e das consequências, podemos passear no trem do progresso. Alguns exageram e sacodem as soluções para o futuro. Isso era muito comum no século XIX. Houve, no entanto, muitas mudanças.

A ciência não deu as respostas esperadas. Faz , em muitas ocasiões, o jogo do mercado das trocas, abandona os projetos utópicos de antes. Ela cultiva , então, o pragmatismo, envolve-se com laboratórios e pesquisas destinadas ao acúmulo de lucros. Frustrações, para muitos, que acreditavam na neutralidade do conchecimento e esqueciam-se da luta política. Não há equilíbrio permanente. Ele é fugaz e . às vezes, traiçoeiro.

O tempo vai e volta. Temos períodos marcados por otimismo, outros por uma melancolia devastadora. O progresso trouxe profecias que não se realizaram, pois as contradições continuam firmes e as desigualdades se multiplicam. Agora, a economia possui outros lugares. A globalização é destruidora de diferenças culturais, aproxima em muitos pontos, mas massifica, elege valores efêmeros. Virtualiza.

Olhar o futuro, não é deixar de lado o passado. A memória é uma relação. O Brasil viveu a perda da Copa do Mundo de 1950. Foi um choque, um pesadelo. Criou uma desconfiaça no futebol nacional. Muitas reflexões foram produzidas, anos depois. Com as conquistas de 1958  e 1962, tudo se revirou. Uma geração de craques fazia a tragédia se distanciar. O mundo assumiu que tínhamos uma cadência especial. As dimensões do mercado da bola se ampliaram e nossos jogadores tornaram-se internacionais. Inventamos outra arte, divertida e surpreendente.

Nada é para sempre. O tempo não fixa medidas definitivas.  Quando os governos militares se instalaram em 1964, a democracia desandou profundamente. Muita censura, muito medo, muita opressão. Os ruídos arranhavam o autoritarismo, duvidavam das suas palavras, desnudavam suas hipocrisias. A intimidação também se esvazia e a persistência cava seus buracos. Os atos de soberania ditatorial não convenciam a todos. Cresceram os ruídos, de dentro e de fora, e o susto inibiu os antigos vencedores. Voltamos às eleições diretas, aos debates, ao encontro de cidadanias perdidas.

A história acendeu suas transgressões e desfez-se  do grito da violência única. A sociedade se reformulou. Os sonhos desenharam outras imagens, mas o tempo mantém seus ritmos variados. Alguns projetos sociais fascinam grupos que apostam na solidaridade. Outros afirmam a força do individualismo. Consolidam visões de riquezas materiais. As invenções políticas se montam e se consagram, de acordo com a aceitação de quem acompanha sua diversidade. Não é simples. O dualismo engana e empobrece a inteligência.

Os craques da bola e da politica nem sempre vencem o desgaste dos anos. Caem no abismo do envelhecimento. Viram fotografias desbotadas, figuras, de museu, obscuras. Pouco questionamos sobre as linhas e curvas do tempo. Geometria perigosa. Não há  negar, porém, que os enganos do presente não ficarão sem respostas no futuro. Não custa dançar a melodia que enternece e pacifica. O relógio de Salvador Dali aguarda um afago. Cansou.

A política faz o jogo, o mito distrai o tempo

O jogo é uma invenção humana de alcance universal. A variedade é imensa. Não precisa de recursos extraordinários para se fazer valer. Algumas pedras, algumas tampas de garrafa, uma bola de meia e assim todos se divertem. Além de tudo, possui um valor pedagógico indiscutível. É uma representação das artimanhas da vida, das idas e voltas tão frequentes nas nossas histórias. Aprender é uma dádiva. Democratiza e nos tira do centro do mundo. Ficamos mais atentos à multiplicidade e deixamos os narcisismos suspensos na corda bamba.

Ele tem suas regras. Nada na cultura foge dos limites ou da pretensão de fixar limites. Portanto, o espaço da transgressão incentiva a renovação das ordens e muda as ações do jogo.Ele penetra no cotidiano. Seu simbolismo é imenso e, nem sempre, evidente. Provoca polêmicas. Reduz complexidades. Cria conflitos. O perder e o ganhar inquietam as emoções. A objetividade não garante a sedução. Os jogadores gostam de armar tramas e encantam, com o inesperado.

Na campanha eleitoral, a política redimensiona o jogo. As disputas se radicalizam e, às vezes, a agressividade se espalha de forma contudente. A luta pela vitória desmancha princípios éticos. A sociedade é quem se apequena com tanta fofoca. Centrais de boatos se afirmam como lugares de propagandas. Vestem-se com roupas de personagens da ilusão . O jogo se desfaz da sua pedagogia. Entrega-se às astúcias da mídia. Coisifica-se. A cidadania se vai, pede férias, sente-se maltratada.

Todos somos atingidos. De imediato, tudo passa velozmente. Depois, as feridas surgem, sem curas. Os ressentimentos se avolumam. Ficam as lembranças amargas. Quem não se  recorda das decepções com Jânio Quadros? Prometia varrer as corrupções, mas renunciou. Seu fôlego não durou, segundo ele, devido às forças ocultas ou, para outros, devidos aos seus planos de fermentar o autoritarismo. Jânio obteve, na época, uma votação avassaladora. Tornou-se um mito político.

Antes dele, Getúlio Vargas se manteve muitos anos no poder. Sua liderança mexia com as multidões. Foi moderno, em muitas reformas, porém não dispensou as alianças com as oligarquias mais conservadoras. Há histórias fantásticas sobre as manobras de Vargas e ele é retomado por muitos que, ainda, sentem saudades das suas palavras e o nomeiam como pai. Foi pressionado, suicidou-se e o Brasil perturbou-se. Foram dias de muita instabilidade e ameaças de golpes, tramados pelas lideranças udenistas e outros grupos adversários.

A política fabrica seus mitos, como em outros campos da vida. Temos Pelé, Garrincha, Carmem Miranda, Francisco Alves, Carlos Drummond, Juscelino e muitas figuras que se fixam nas nossas memórias. O mito distrai o tempo. Desafia a finitude, brinca com as verdades, nos traz sensações de se poder construir o impossível.

Ele atrai paixões. Merece um olhar minucioso, sobretudo uma comprensão do espaço da sua invenção e de quem se nutre com o passado, com tanta reverência. Os acontecimentos têm seus mantos e seus ardis. Quando o tempo se distrai, escapulimos da história. A suspeita ajuda a não cair nos disfarces da  aventura da tragédia oportunista. Dialogar com as possibilidades de beslicar as utopias, assanha a solidariedade.

A armadilha tem preço: o foco da bola mascarada

Olhar o mundo. Mas qual é foco? Perceber a totalidade é impossível. Afirmar que tudo é uma confusão de fragmentos, mal coordenados, apaga a alegria. Evitar o brilho das cores, negar a linguagem dos objetos, disfarçar a solidão das estrelas tardias, nada disso traz ânimo para seguir adiante. Continuo apostando no entrelaçamento, nas costuras dos atos. Não que elas sejam visíveis e materiais. Também não estão fora da história, são movidas pela sensibilidade. Descartes está noutra dimensão, seu discurso do método desfia as verdades dos seus contemporâneos.

Há lugares e tempos. Não são poucos. A reflexão exige que o olhar não se perca, no foco das novidades, e abomine as permanências. O eterno retorno não é uma maluquice. A ruptura definitiva é uma megalomania. Tudo não é o mesmo, nem o seu oposto. Piso na chão, sento na cadeira, faço carinho, comunico-me. Ouço murmúrios dos livros, no quarto da biblioteca. Conversas sábias. Lá estão Montaigne, Freud, Carlos Fuentes, Guimarães Rosa e tantos outros mandado energia para vida. É o reino da gratuidade sublime.

O movimento está fora do corpo, balança páginas dos jornais, manda-me para outros espaços. Não faltam violências, drogas, disputas, hipocrisias. Muita gente se  anuncia como dona de nossos destinos. Pouco ligo. Sei que a sociedade é competitiva e não me engano com o riso fácil das imagens. O importante é o foco. O que se repete? O que se mascara? O que distrai a ordem, sem festejar a transgressão? Minha leitura aproxima-se das palavras, não para ser servo, mas para desfazer as hierarquias. 

A suspeita é uma trilha. Trabalhosa e estreita, porém os sinais estão presentes, basta decifrar as relações de poder. Quem é o vencedor? Quem elege o discurso do bem? Quem se diz salvador de todos os pecados? Quem fabrica provocações sem estimular solidariedade? Perguntas que fustigam interpretações. Desconfianças que assanham autonomias. Raciocínios que visitam as armadilhas e mostram a nudez escondida. Tudo tem um preço, me ensinam os senhores do capital. Nada assustador, pois no século XIX, Marx já desmontava as ilusões do progresso, onde se aluga a vontade.

Muita fala para pouco assunto? Talvez. São as amarras do ofício. Quando lembro que o mercado da bola se perfuma com o tilintar das moedas, não se trata de um exercício sedutor de retórica. Voltam a  lógica da suspeita, as investigações da curiosidade nas colunas da imprensa. Surgem acusações que vinham se arrastando desde os tempos da Copa na África do Sul.Os dados remetem a corrupções fortalecidas pelo silêncio ardiloso dos negócios. O público quer rasgar a venda das polêmicas. O poderoso Ricardo Teixeira  firma-se na mudez.

O foco é imenso. Os culpados se revelam inocentes, diante do fato propalado de que há dinheiro rolando para a escolha das sedes dos mundiais de futebol. A Fifa promete aprofundar o caso, diante do escândalos estampados por jornais ingleses. Ninguém é ingênuo. Há interesses  expostos nas vitrines  das trocas nada inocentes. Quando o cinismo transforma-se em ator principal, feche o nariz e fuja para o quintal. Purique o ambiente, com urgência.

Os perigos e os escorregões na marca fatal do pênalti

Os esconderijos fazem parte do jogo da vida. A linguagem nos leva aos Outros. Não faltam veículos de comunicação. No entanto, a transparência do que se diz, nem é sempre possui clareza. A linguagem revela e esconde. É difícil compreender a sua complexidade. Governa impérios. Está submersa no teritório das interpretações. Formula discordâncias e afetos. Bolas de papel transformam-se, em foguetes atômicos. Verdades sagradas geram conflitos religiosos, em espaços profanos.

Sobram lacunas, incertezas, dúvidas. Celebremos Nietzsche, no seu olhar penetrante e devastador. Não é necessário muito embalo. No futebol, os clubes organizam-se, para campeonatos internacionais, com investimentos alto e promessas otimistas. Muitos torcedores nem desconfiam da existência do mercado da bola. O fascínio pelos ídolos, os artifícos das propagandas insistentes os conduzem a comemorar vitórias que, ainda, não aconteceram. As armadilhas são equipadas, com as últimas tecnologias da sedução.

Na própria vida cotidiana, não há como assegurar opções definitivas. Ficamos assustados com manchetes matinais, com os e-mails carregados de pirataria, com os sites confidenciais disfarçados. Não é à toa. A instabilidade incomoda nossas emoções. É como jogador diante do goleiro na cobrança do pênalti. Tudo lembra êxito e vibração, mas o momento compartilha com traições venenosas. O chute desvia e  a frustração arranha os sentimentos de sucesso. Não dá para zombar do lúdico, nem sorrir, numa gozação precipitada. Não custa focar, respirar e suspeitar que Deus também se aposenta.

A mania e  a insistência na produtividade tomam conta da sociedade. Estão em tudo. Na academia, os artigos devem elaborar urgências teóricas. Na política, os discursos respondem aos impulsos mecânicos da mídia. No jogo, as transmissões de TVs se sucedem, quase sem intervalo. Vale o princípio cego do acúmulo. Não é estranho que o tédio permaneça, mesmo com o colorido de tantas novidades ? Baudelaire se traumatizaria com os vazios do corpo, ormanentados e cheios de cremes hidratantes. Paris, do século XXI, acabou de dançar seu últmo tango, chorando o governo de Sarkozy.

Não suspire e nem suspeite. Observe. Os ídolos são nomeados, contratos registrados, milhões gastos e vem a cobrança de fama imediata. A velocidade provoca tensões. O desfazer é, muitas vezes, mais rápido do que o fazer. Movimentos que atrapalham até as maldades dos demônios. Eles estão em recesso.Ausência de criatividade. Fogem dos mensageiros do bem. A paciência é tesouro raro. Os ansiolíticos enchem as prateleiras. Batem recordes de venda, garantindo a soberania do sono químico.

A passagem efêmera, de cada instante, termina não consolidando experiências de sabedoria. Escuta-se pouco. As linguagens entram em coplapso vertiginoso. O aparecer e o desaparecer se confundem. A neura do consumo dita as regras. Muitas luzes cegam quem não usa óculos escuros. A astúcia é cristal abandonado no lixo da praça . Estamos ligados nos voos. Os pés fora da terra derrubam os limites da gravidade. Os relógios não têem números, nem braços. No rádio, se reza a oração fim do dia. A noite não cede seu tempo. O pecador, mais audaz, ora por uma vaga no bigbrother, no domingão do Faustão. Felinamente.

Clássico é clássico, Pelé é Pelé, mundo é mundo

O final de semana ganhou festas, para comemorar os 70 anos de Pelé. Foram muitas homenagens. Os programas de TV exibiam suas façanhas. Os mais novos se deslumbraram. Os gols são obras-primas. Quem disse que o futebol não é uma arte? Quem desconhece a dança divina de Pelé? Sua cadência no campo, sua matada no peito, sua velocidade no raciocínio e sua vontade de vibrar deixam todos extasiados. Sem exagero, ele é único. Atua com majestade.

Mas o Brasileirão segue sua reta decisiva. Talvez, não seja uma reta. Muitos resultados surpreendentes. A evidente instabilidade dos times provoca as torcidas. Quando pensam no título, as coisas se desmancham. O Santos, ontem, perdeu para o laterninha. A segunda derrota seguida. Até o prodígio Neymar não conseguiu destaque. Cobrou um pênalti de maneira melaconcólica e ficou sem assunto. Não quis entrevistas.

Os clássicos  invadiram os estádios. Flamengo e Vasco empataram. Muita crítica ao árbitro, expulsões, porém os times continuam jogando abaixo do nível. Ninguém sabe por onde anda o talento, se desenganado em alguma clínica de recuperação. O mesmo pode ser dito do Sport e Náutico. Outro empate, com muita correria e nada mais. O público incentiva, no entanto se irrita com o primarismo de alguns lances.

O Corinthians reanimou-se e mandou o Palmeiras esperar. Placar mínimo. Ronaldo, como sempre, traz outro ritmo, apesar da sua forma física. Com ele, o Timão se organiza melhor. Algo acontece. Isso é bom, para a emoção da partida. Uma fuga da mediocridade, bem aceita por todos. A perplexidade está presente e não nega fogo. Por isso, a intraquilidade de muitos. O São Paulo não superou o Ceará. Será que chega na Libertadores?

A situação do Atlético de Minas é outra. Luta para escapar do desmantelo. Dorival mudou o time, trouxe força e ordem. Obina marcou três gols no Cruzeiro. No final, o Galo não vacilou e busca a reviravolta definitiva. Os azares de Cuca permanecem uma ameaça. O Cruzeiro se espalha, depois se recolhe. Sua disputa com o Fluminense é aguda. Ninguém se mete a prever quem será o campeão. Além disso, outras inesperadas astúcias podem trair esperanças.

O futebol é movimento. Não se acanha, se a campanha eleitoral está no auge. Não liga para as denúcias e os descontroles dos candidatos. Lá está enfeitando o final de semana, inibindo os clamores da política. Até o Santa Cruz, no ostracismo incrível, fez das suas, na esquecida Copa Pernambuco. Ganhou do Sport de 3×1. Aguarda, agora, as suas eleições.Quem ressuscitar o Tricolor vai receber as honras de uma torcida especial. Há tempo e quem sabe a coragem toque em alguns corações.

 Se o mito Pelé fosse exemplo imitado, o mundo do encanto seria outro. Não custa aprender com a vida. Desenhar o nunca visto, ainda, é um conforto e uma saída do labirinto. Não subestimemos as travessias da cultura. Ninguém se esquece do nazismo, das ditaduras, da bomba atômica. Mas ninguém se esquece também, de Chaplin, de Picasso, de Gandhi, da invenção das vacinas. O mundo é muita coisa. Ulisses que o diga.

O bem e o mal: os jogos do dualismo e das astúcias

Criam-se valores. Não há como viver sem eles. Desde os tempos primordias, citam-se virtudes e desmantelos. O difícil é o consenso. Mudam os valores, pois são históricos. Cada sociedade abraça os seus e ,dentro dela, existem grupos que se rebelam. O mar da inquietude gosta de agitar suas ondas. A população aumenta, trazendo discordâncias, escolhas diferentes ou mesmo acobertando nostalgias tradicionais. Uniformizar o humano, não o faz grandioso.

Há, no entanto, um dualismo forte e permanente que atrai as pessoas. Talvez, as deixe com uma visão de mundo mais sossegada. Optam pela simplicidade.  Ou é uma coisa ou outra. Ou amo ou odeio. Ou silencio ou grito. A lógica do sim ou do não percorre os corações e as mentes. Torço pelo Santa Cruz e não quero saber das desaventuras do Náutico. Adoro o futebol de Pelé, Maradona é mito argentino sem substância. Não se encara a compexidade.

É claro que as alternativas da cultura não estão restritas a uma leitura superficial do bem e do mal. Eles se tocam em determinadas situações. Confundem-se em outras. Quem aponta qual é o verdadeiro bem ou o verdadeiro mal? Oa radicalismos provocam distanciamentos e, muitas vezes, guerras entre povos. Os fundamentalismos arrastam multidões encantadas, com as suas promessas de certezas. O mundo da sofisticação tecnológica não perdeu crenças de eras antigas.

As mobilizações ganham, portanto, caminhos diferentes. Quando se acirram as divergências políticas e religiosas, os dualismos tornam-se soberanos. As luzes se apagam e se busca a saída no escuro. Parece que não estamos mergulhados em muitas contradições. Somos criaturas ansiosas por perfeições que nunca alcançamos. Os tumultos se consagram, pois se despreza o domínio dos poderes vencedores e suas armadilhas. Os meios de comunicação explodem notícias e as interpretações não alargam a democracia.

Muito se fala da diversidade: objetos de cores inovadoras, televisões com recursos sofisticados, arquiteturas ousadas, refazendo moradias. Mas quando nos confrontamos com a ética, volta o dualismo. Os eleitos, para cumprir missões, vestem-se de santos, são símbolos de transcendências milagrosas. Fixa-se o terreno escorregadio do que dizem estar fora da história. Enfatizam-se as permanências, fabricam-se muros, evitam-se diálogos.

 Universalizar o dualismo é um risco. O humano tem suas fragilidades, mas não se descola das coragens e de outras invenções. Há os que cultivam privilégios e não desejam dividi-los. Muitos se fascinam pela grana e afastam-se de qualquer solidariedade. Outros se perturbam, com o excesso de individualismo e pregam o fim dos tempos. Os lugares das relações não cessam de ser redefinidos.

No mover-se das ideias e dos sentimentos,  é muito  pouco repartir o mundo em dois. É melhor compreender as razões de tantos labirintos. Os santistas, os rubro-negros, os flameguistas, os brasileiros, os bolivianos, os franceses, os democratas, os comunistas, os fascistas e assim vamos. As palavras dão significados. Somos eternos e finitos, tudo pode ser um loucura ou um jogo com regras mutantes.  Engessar a vida, na luta do bem contra o mal, esvazia o conteúdo do tempo que passa. Caímos na monotonia do empate combinado, na soberania do mínimo.

Os mundos da invenção, os jogos da vida e da paixão

 

Inventar o mundo expressa as andanças e as metamorfoses da cultura. Nada aparece, de repente, como meteoro perdido ou um cometa em busca de um leito para se esticar. A vida é construção, entrelaçamentos  dos saberes e de experiências. O lúdico tem seu lugar especial, as certezas se sentem ameaçadas, pelo vaivém das opiniões e pelos desenhos das farsas. A cultura não se faz sem ordem, mas convive também com as transgressões. O importante é visualizar qual a medida dos limites.

Apesar dos cantos à objetividade, somos sentimentos e sensibilidades. A paixão nos tira do eixo. Ficamos tomados por um tempo acelerado, cercado de ilusões que se aconchegam no coração. Navegamos, porém, os horizontes são muitos e as embarções não prometem segurança absoluta. No jogos, vemos o balanço da relações e das ansiedades de forma mais prática. Existem regras, obediências, cerimoniais. O resultado é uma aposta. No futebol, muitas vezes, um time sem cartaz vence outro cheio de estrelas.

Na vida, não é diferente. Antecipamos glórias que não chegam. Admitimos vaidades tolas e vazias, pensando na soberania da nossa vontade. Não é à toa que extravasamos muitas coisas nos esportes. As torcidas são pequenos mundos das cartografias dos desejos. Elas criam símbolos, gritos de guerra, agrupam-se como partidos políticos. Fazem das derrotas um salto no abismo, da vitória, a sagração de primavera. Deliciam-se com as conquistas e, rapidamente, se amarguram com as frustrações. Basta ver o que se passa com o Náutico e o Corinthians. Exemplos, para ficarmos, apenas, no discurso.

A ideia de que há uma singularidade em cada ato é aceitável. Não somos da mesma matéria na delicadeza e no cuidado com os outros. Desfiar os mantos sem perceber que foram arquitetados, pela criação, é onde mora o perigo. As individualidades merecem ser preservadas, desde que não desmobilizem a solidariedade. Portanto, a cultura possui histórias, lugares e momentos que se tocam ou, às vezes, se conflitam. A mesmice atrapalha, produz covardias burocratizantes.

Os espelhos sobrevivem para que exercitemos nossos olhares. É saudável evitar o vício de repetir imagens. Há sons, cores, ruídos, traços. Há escutas, resistências, trelas, confortos. É impossível resumir a dimensão do mundo. Com os escritos tentamos dialogar, pois a omisão é um pecado capital. Prometeu conserva sua contemporaneidade. Ler a peça de Ésquilo sobre o mito faz o corpo se articular com as veias abertas da emoção. Sabedoria que permanece. Correntes que se quebram com coragem.

Entre lacunas e desacontecimentos, a cultura borda suas vestimentas. Mas antes disso, as costura com velocidades variáveis. Os modelos mudam e incomodam aos conservadores. Isso não significa a falência das tradições. Se elas desmoronassem rapidamente? Os jogos da vida formulam estratégias. Nada desaparece, sem vestígios, nem que seja nas fantasias. Para isso fomos feitos, para não sermos escravos do que passou, mas para também acordar do sono, espertos e críticos. Quem se julga mestre de todas as artes, desconhece o poder das invenções. Os sabores e os saberes se misturam. Por que não experimentá-los?