Latest Publications

O Historiador: calar, consentir, dominar

As relações sociais exigem manipulações que surpreendem e ajudam a fixar privilégios. Criam-se saberes que conversam com poderes e conformam o jogo político da sociedade. Não há regras definitivas, A história é atravessada por surpresas, não existe um destino programado para encerrar as especulações e nos transformar em seres mecânicas. Os desafios se multiplicam com seus lugares e tempos com cores e sons diferentes. Portanto, a construção histórica movimenta possibilidades, requer ousadias, mas também convive com naufrágios e suicídios.

Não há como aprisionar os atos humanos numa continuidade silenciosa. Os ruídos fazem contrapontos, as arquiteturas possuem geometrias que mudam e ameaçam funcionar como labirintos. O historiador ler o mundo, sem determinar uma linguagem exata. Idas e vindas se compõem. Dissonâncias não se vão, os ritmos desenham-se buscando fugir da mesmice. Não há, porém, uma história que esgote ou o tempo com ponto final. Há a permanência de dúvidas, mesmo que os apocalipses sejam imaginados e as angústia nos empurre para a beira do abismo.

Quem domina não se afasta das seduções. Usar a violência para se tornar senhor da história é algo perigoso. Silenciar quem exalta o diferente é uma prática de quem se instala no poder. Há coerções, porém também promessas de salvação que aliviam as tensões. Disciplinam-se os rebeldes com sutilezas. Não se trata apenas de calar para evitar desordens. Exercer o poder pede contacto com os controles da linguagem , capacidade para inventar palavras e não deixar que o conhecimento tenha um único caminho. Nem todos consentem ou se acostumam com as hierarquizações sugeridas por quem vigia e trama para consolidar suas leis.

O contador de história habita um território de moradias desiguais. Com seu olhar tenta descontinuar consensos. Insistir na homogeneidade é mostrar narrativas no que elas mais escondem das relações humanas. Os consensos mascaram conflitos ou diálogos para neutralizar a queda das sociabilidades. A história dá voltas, o corpo se encontra com outros corpos, mudam seus perfumes. O ofício do historiador trapezista está longe da monotonia. É ágil, não teme o acaso. Quando ele se distrai e consagra a linearidades, apaga as magias. Escraviza-se na repetição de metodologias. Não deve consentir, contudo, que a história eleja a coisificação proclamada pela força do reino da mercadoria.

“A Imaginação no Poder”

Paris, em maio de 1968, viveu momentos de rebeldia. Foram manifestações que acusavam o capitalismo por suas explorações e mesmices opressivas. O inesperado tomou conta da cidade com participação decisiva da juventude universitária. Muitas utopias ganharam espaço, críticas relembraram as dimensões estéticas da cultura e os danos da massificação. Porém, as repressões minaram o movimento, apesar de suas verdades encantarem e mostrarem as insatisfações que atravessam o cotidiano. Fugiu do cerco da mediocridade, denunciou o fetiche da mercadoria, removeu as repetições e reinventou a convivência. Muitas ações se encontravam com dizeres intelectuais revolucionários e o movimento se estendeu atraindo e lançando questões que pareciam adormecidas.

Há quem subestime 1968. A política é cheia de dissonâncias, Não concordo. Tenho outra leitura.Tudo teve a marca do efêmero. No entanto, as utopias não podem ser anuladas pela ansiedade ou frustração de quem as analisa. O armadilhas das tramas capitalistas formam cercos. É preciso que as memórias se inquietem, que as ousadias tragam a imaginação tão marginalizada no ir e vir dos negócios. A sociedade se encontra, hoje, dominada pelas seduções do consumo. Muita competição ameaça a sociabilidades e cria comportamentos que abusam da violência e desprezam qualquer projeto de solidariedade. Portanto, se a linearidade segue consolidada., o silêncio atrai a solidão e a inexistência do ânimo. Globaliza-se o exílio e se mantém a servidão com disfarces perversos.

A tecnologia aumentou suas magias. Empolga. Não destruiu as burocracias, continuou reforçando os poderes das minorias e concentrou mais ainda privilégios. Os individualismos se apresentam no uso dos objetos e no deslocamentos dos afetos e dos poderes. A imaginação limita-se aos encantos materiais das vitrines. Como desmanchar a negatividade? Os rebeldes, de 1968, buscaram vozes do passado, reavivaram as possibilidades de ampliar os desejos, ocuparam as ruas e levaram os operários para celebração das novas barricadas. Não se tratava de uma revolução iluminista, mas de um alerta fundamental para que as relações sociais se desfizessem dos cantos da acumulação. Atiçou teorias, escreveu nas paredes, soltou os versos, visitou outros lugares, apontou brechas.

Os anos 1960 não devem ser esquecidos. Muitas invenções e protestos contra os desmantelos,Os tempos são outros, mas o vivido não se congela. Quando o presente se resume às novidades das manchetes, não cuida de sonhar com mitos plenos da fantasia, a sociedade se arrasta na contabilidade das suas bolsas de valores. 1968 desenhou sinais estéticos e não apenas militarizou a luta político.As revoluções contemporâneas se vestiram de totalitarismos. Anunciaram mudanças e firmaram censuras. Não custa observar os ruídos diferentes, mesmo que velozes, e os desfazeres trazidos pela persistência de uma realidade fabricada para calar. Talvez, com a imaginação no poder a autonomia retire as pedras que insistem em se fixarem no meio do caminho.

A desconfiança mancha o futuro

O futuro virá com suas mudanças e suas permanências. No entanto, estamos vivendo um presente marcado por agressividades cotidianas. Os ataques são muitos. Procuram criar uma atmosfera constante de dúvidas e fanatismos.Ressuscitam ideais nacionalistas, fingem defender a natureza, esquecem as aventuras imperialistas.Tudo se mistura e traz desconforto para os debates. Quem merece confiança? A fragilização dos espaços de verdade representa desmanches perigosos. Há muitas informações que não são aproveitadas e se fixam suspeitas sobre os discursos das lideranças.

O destruir dos sonhos da busca de sociedades solidárias é desmobilizador. Parece que entramos num labirinto cruel, cheio de mistérios e não conseguimos encontrar saídas. As idolatrias persistem atiçando a existência de dogmas políticos. A crítica não deveria se apagar. Lançar dúvidas é importante, como também conhecer a construção do passado. Nem sempre os argumentos justificam atitudes interessadas e, perpetuar dominações. Há uma celebração de interesses cinicamente acelerada pelo olhar ambicioso. Mais uma vez se destacam os negócios. Os diálogos diplomáticos mascaram poderes e as conciliações inexistem.

Observem os noticiários. Muitas manchetes, opiniões, violências simbólicas. Há desvios e a globalização espalha qualquer boato com rapidez. A insegurança mina as relações sociais, os governantes brincam com estratégias perversas, os protestos mostram descontentamentos. Porém, não há como abrir os olhos e afastar os pesadelos. A agonia dos ideais iluministas se consolida. Querer retomar utopias é quase uma ingenuidade. Os caminhos da história desfiam . porque se enchem de pedras. Não existem forças para transportá-las.

A linearidade era uma grande mentira. Como exaltar o progresso se as guerras estão invadindo a convivência urbana e a manipulação é palavra de ordem das invenções futuras. As memórias se sentem asfixiadas. Vive-se um agora que assusta.Esquece-se que houve escravidão. O autoritarismo se sofistica e os teóricos se voltam para os chamados milagres da ciência. As obscuridades desenham narrativas históricas e vendem interpretações. Não se radicalizam as reflexões. A sociedade se ressente de ousadias que fujam das massificações. O futuro é um enigma com cores negativas. A geometria do medo ensaia intimidar as possibilidades de firmar ações rebeldes..

Destruir para quê?

Somos animais pretensiosos. Construímos as histórias, buscamos significados e mergulhamos em aventuras. Não há uma cartografia que defina o caminho transparente. Acertamos e desacertamos. Desconstruímos, reinventamos, mas também sacudimos planos de destruição para iludir o coletivo e aumentar as ambições . Há quem acredite que o destruir se mova na ansiedade das riquezas. Talvez, esqueçam a sociabilidades, brincam de perversidades e imaginam que não existe incompletude. Apagam as reflexões e levantam a poeira de pesadelos. Formam-se delírios que amortecem sonhos e desenham invejas.

Temos necessidades e urgências. A tecnologia não nos garantiu eternidades.Surgem questões inesperadas que governos resolvem com pressões ou propagandas articuladas para enganar. A sociedade multiplica seus especialistas em promover danos, com sutilezas midiáticas. Possuem admiradores, ocupam cargos estratégicos e curtem as vitrines das redes sociais. Sorriem mesmo que as tragédias nos cerquem. Divertem-se com banalidades, minam a força da solidariedade e investem na egolatria.

O tema do meio-ambiente provoca controvérsias. As fumaças tomam conta das atmosferas, os rios apodrecem, o roubo das terras indígenas é uma fato. O capitalismo invade territórios e defende a insensatez. O debate se globaliza, os antigos colonizadores querem esquecer seus passados e argumentos. Explicam saídas e assanham tensões. Criam-se arrependimentos juntos com disfarces. A ciência se associa ao poder na ordem que gerencia a política. Somos animais sociais, temos astúcias, as violências não desapareceram e a competição estraga o afeto. As dúvidas ampliam os sofrimentos e reclamam por diálogos.

Diante de tantas ambiguidades e desequilíbrios, os limite se instalam. Será que estamos convivendo com um suicídio coletivo? Será que os feitiços da cultura nos tornam senhores de um mundo cheio de descontroles? Não custa refletir, desmontar arrogâncias e analisar o cotidiano nas suas repetições e na fabricação de armadilhas. Os incêndios são muitos e não atingem apenas as florestas. Todos morremos, com epidemias e depressões que aprofundam o mal estar tão comum nos nossos tempos. Há uma multidão de solitários que adoecem e nem notam que o labirinto é imenso e medonho.

O temor das falas e das intrigas

Nunca se falou tanto e se exagerou nas conversas surpreendentes e incômodas. Há uma clima de intrigas que não sossega. As últimas eleições deixaram terrenos escorregadios e brincadeiras perversas. Os afetos ganharam geometrias estranhas, fugindo das proximidade e trazendo afastamentos constantes. Há um mercado de culpas e indignações. Curtem-se a agressão, o descontrole, o ressentimento. Portanto, o excesso de desconfiança toma conta do cotidiano. As notícias inquietam e os sossegos moram nos desertos.

Os meios de comunicação aprisionam desejos. Há quem só consiga sentir o outro acionando o zap. Muita pressa, pouco acolhimento, corridas para contar as novidades. Não se busca a solidariedade, para se evitar desmantelos e fugir da desigualdades. Nota-se uma exaltação desmedida a antigos preconceitos, a volta de raivas vingativas, os assassinatos coletivos. São comportamentos que mostram a fragilidade dosvalores iluministas e a permanência das egolatrias. O poder fascina e atrai com força e astúcia.

As perdas cansam, configuram síndromes e afastam pessoas de tolerâncias. Todos estão donos de verdades? Há muitas luz nos olhos? Os diagnósticos variam e temem fixar destinos. Os governos lutam para esconder seus planos, nada possuem de democráticos, vivem assombrando. Estamos sendo colonizados por jogos de notícias. Multiplicam-se especializações em exercitar o ser feliz é o que estampam as manchetes dos jornais. Abrem-se consultórios de terapias renovadores, mas as dores não se vão. A atmosfera de melancolia invade e desfaz utopias antes tão celebradas.

Não se engane. Há controles e desgovernos numa luta ferrenha.Estamos no meio de um caminho cheio de abismos e teimamos na busca de saídas para esculpir figuras que nos devolvam a beleza. Será que ela existiu um dia? As repetições das narrativas não acompanham a construção da memória? As rebeldias desenham dissonâncias, porém as arrogâncias de quem concentra a ordem nos empurram para as dúvidas. Uma fatiga mental pretende ser curada pelas acrobacias dos corpos desadormecidos pelas máquinas das academias. As sombras assustam e vida continua na cadência dos desencontros.

A sociedade administrada

Tudo parece um encantamento de novidades e magias tecnológica. Difícil é escolher. Muitas opções que pagam ilusões ou mascaram enganos. A sociedade se arma para inquietar, mas também triturar ingenuidades e quebrar valores. É preciso abrir os olhos e não se enfeitiçar. Esquecer a complexidade dos planejamentos, as astúcias dos senhores do poder. O jogo da mídia servil é desgastante para quem não despreza o afeto. O cuidado chama a crítica e a compreensão levanta dúvidas. Não há respostas firmes, as vacilações não se vão e a vida pede paciência e sabedoria.

O mundo do trabalho é massacrante. A busca da grana deixa sequelas nos sentimentos, enconde desejos de convivências solidárias e traz desconfianças. Quem se encontra no meio da berlinda? Quem pode significar nas suas imaginações sem se perder nas tramas do consumo? Ler o mundo é um desafio. Há inúmeras interpretações, as cores se inventam e palavras voam. Portanto, a travessia é instável e os governos usam de manipulações frequentes. Combatem rebeldias, administram com sutilezas os desejos e as ousadias.

Analise as afirmações de maio de 1968 ou mergulhe nas reflexões de Camus. Não faltam autores que acenam para a dureza das manobras capitalistas. Marcuse lança questões sobre o prazer, Adorno coloca a nudez da massificação, Marx já lembrava a força do valor de troca. Não fique distante de quem ajuda a mostrar a incompletude. A onipotência não alivia, nem existe. A cultura possui alimentos e perturbações. Por que dispensar as ambiguidades e apostar na salvações? Política e religião se esticam para pescar sua fragilidade e desenhar as mediocridades mais levianas?

A liberdade é mito desqualificado, quando se abastece de sonhos meramente materiais e movimenta-se em torno de progressos e ordens mesquinhas. Se a sociedade não se dá contas da ausência do absoluto cai em abismos. O perigo é se cercar de anúncios e discursos que anulam o lixo e acenam com riqueza vazias. A dor não é uma mistificação e o luxo atrai com suas promessas ditas fascinantes. A história é sempre uma construção e as utopias devem abrir o coração para arquitetar outras sociabilidades. Ser administrado é um caminho para melancolia. Você curte a imbecilização ou prefere turbulências reanimadoras?

Escravizar e desgovernar

Ninguém pode negar que o trabalho rege o cotidiano. Há faltas, crimes, descontroles. Porém, a busca das chamadas oportunidades de trablho inquietam desde cedo as famílias e cria tensões. O capitalismo não se impõe para salvar as maiorias. Concentra riquezas, diminui direitos, empurra a vida para limites de crueldade. O trabalho assalariado não garante qualidade. Alguns conseguem esticar seus privilégios, acumulam bens, curtem diversões. No entanto, a barra pesa, pois o capitalismo que rever princípios para explorar de forma mais radical. A política se envolve com as reformas e o cinismo ganha espaço protegido por agentes da mídia.

Escravizar é preciso? Denúncias frequentes mostram que as condições de trabalho são opressoras. O trabalho infantil existe, não se respeita às leis e o dinheiro circula para consagrar o desgoverno. Tudo isso acontece com muita manipulação.Fala-se numa uberização. Os salários não compensam, apenas distraem o desejo de viver. As ruas estão cheias de motos e bicicletas carregando comida. Perigos, assaltos, trocas, aplicativos. O capitalismo dissolve garantias e promove contradições. Não é à toa que a instabilidade cresce. A luta continua para assegurar misérias em torno de lixões e bancos na praça para destilar pesadelos.

Há imensas justificativas. Guedes solta o verbo e suas teorias delirantes. Parece que a sensibilidade desapareceu. Explorar é a palavra de ordem que move o desfazer da solidariedade e o aumento da competição para obter migalhas. Há perguntas. Como se inventará um mercado de consumo diante de tantos desmantelos? Quem poderá desfrutar de uma conversa, repensar os valores, cuidar dos afetos? Se a batalha diária é sofrida, sobra tempo para o sorriso, para educar, para testemunhar as mudanças da história? O capitalismo talvez não meça as consequências, arisque e jogue para apagar as urgências. No Brasil, o abismo se aprofunda com os deboches de Jair e as vacilações do judiciário.

Não vamos exagerar as culpas nacionais. A Argentina enfrenta perdas, os refugiados escolhem destinos nada promissores, as religiões fogem da generosidade. Uma ampla globalização da mesquinhez se estende por todas as regiões. O que faz a China para conviver com seu famoso e ambíguo socialismo? Com se comportam os milionários russos nas suas lavagens de dinheiro? Qual a vantagem de consolidar a exploração e celebrar as ideias fascistas que ressurgem? As aflições atingem grandes grupos, desmontam sonhos, empurram para as disputas milicianas.Quem imaginava o fim da escravização perdeu seu fôlego. A sociedade adoece sem saber o seu fim.

A travessia atordoada

A sociedade se encontra diante de muitas encruzilhadas. Não conseguiu superar as desigualdades, enfrenta danos éticos e o capitalismo segue armando cilada. As revoluções não superaram impasses antigos. Há permanências. As experiências socialistas criaram, muitas vezes, governos autoritários.Sabe-se que o ideal da solidariedade não morreu, porém não se pode negar que há desmanches, violência e descasos políticos. Repetem-se certos desenganos, concentram-se privilégios e coletivo não firma sua autonomia.A falta de alternativa inquieta quem se atordoa com a forte tendência de espalhar deboche e massificar tolices.

Os populismos não cedem, porque a política não se torna ponto de reflexão. Querem eleger salvadores, depois surgem as desconfiança e os fracassos. Portanto, as sucessões trazem esperanças que são passageiras. Há promessas e não planejamentos consequentes. A quebra dos valores é imensa. Não projetos para substitui-los e os escândalos de corrupção aumentam. O reino do cinismo se alia ao pragmatismo. Trump e Jair desfilam com aplausos de uma plateia descolada da história.Parece um divertimento que despreza a memória e flerta com os fascismo.

Se os impasses se acumulam, as frustrações ganham espaço. Não significa que a apatia se alastra de forma incontrolável. Há resistência e lucidez. Assusta a existência de grupos que pedem para ser dominados. Não se trata, apenas, de observar a misérias e o descontrole. Dói registrar a omissão e sorriso de alguns. Quem se ocupa da sociabilidade? Vale celebrar a competição? As chamadas autoridades soltam as palavras com argumentos nada equilibrados. Quem desejam agradar?

A história nunca foi um deserto de aridez inesgotável. Há jardins. Os conflitos não se localizam em determinadas épocas e se vão em busca de paraísos. No entanto, há tempos de crises mais profundas e desesperos mais frequentes. Caminhamos evitando encruzilhadas, mas ela aparecem com uma força destruidora. Um desmoronar que deprime e se amplia. Se a rebeldia se fragilizar , de vez, as convivências serão focos de discordâncias constantes. É preciso dizer um não , para que se aticem diálogos. Não é uma contradição, porém o desenho de necessidades que movimentem e abatam os fantasmas,

Prometeu está acorrentado?

Há quem se espante com os descompassos da história. Não há história sem ambiguidades e confrontos fatais. Temos poucas sabedorias e dúvidas imensas.No entanto, não há como desistir. Ser egocêntrico é uma doença. Sempre imagino a possibilidade de construir a solidariedade. Sei que as perversões existem e a violência amedronta. É importante escutar a rebeldia, para não deixar que a depressão monte seu quartel. Sem coragem a apatia desmancha o desejo. Vive-se a perniciosa acomodação. O silêncio nos faz escutar o outro, sentir que o isolamento nada revela para que a história se transforme.

Não abandono minha admiração pelos mitos gregos. Observo as fantasias, os atrevimentos, os voos nos abismos, as aberturas nas portas entreabertas dos labirintos. Solto minha corrente e me lembro de Prometeu. Não esqueço seu desafio. Criou a humanidade, inventou a luz, trouxe as estradas sinuosas. A história é um grande caminho. Não sei qual o ponto final. Vou interpretando, não me nego a riscar as incertezas e leio a tragédia de Ésquilo com afeto profundo. Ela me toca, me desperta, me movimenta para compreender os aparentes teologias mal resolvidas. Sou do cosmo.

Prometeu sofreu punição, mas não desprezou suas profecias. Ouviu conselhos, desenhou amarguras e respondeu aos que tentaram intimidá-lo. O mito é uma narrativa repleta de aprendizados. Os gregos sabiam disso. Não tinham redes sociais e nem usavam a velocidade das fofocas dos celulares. Dialogavam com a angustiante magia de estar no mundo e configura-se como um ser que nasce e morre. Os mitos não morrem,ganham significados longe da massificação que invade a sociedade do totalitarismo. Nem tudo é crença , pois há equações indefinidas e competições que arrasam as alegrias e ameaçam apodrecer o coletivo.

Os símbolos merecem leituras atentas. O mito não esconde valores, nem vive sem espelhos. Há sempre faltas. A história não é o absoluto e não consegue afastar a força das divindades. A ação humana não é transparente. Muitos imaginários povoam nossas reflexões. Temos que fazer escolhas. Prometeu não vacilou. Acolheu as mensagens do poder e arquitetou suas saídas. Não se subestimou. As correntes podem ser passageiras, a memória atiça criatividades.Quem conta suas aventuras, muitas vezes, se perde nas armadilhas das vaidades e se mascara. Como apagar o risco? Prometeu costurou sonhos e pesadelos. Sua lucidez nunca negou o oportunismo do obscuro.

Quem defende a tortura?

A sociedade sente o gosto amargo de frases polarizadas. Nada é feito, apenas, para soltar balões e divertir aqueles que sofrem com a desigualdade. A política não vacila , quando quer centralizar suas decisões e firmar privilégios devastadores. Ninguém é ingênuo. Votou-se. Muitos acreditaram numa mudança. Elegeram um grupo que defende opressão e desmonta instituições. Há quem ria. Mas a situação não traz alegrias e espalha desamparos. Trata-se de usar o governo para concentração de princípios nada coletivos, sempre voltados a propagar o deboche e esconder corrupções que prometia extinguir.

O pior: defende-se um passado de torturas e ditaduras. Espalham-se medos, testemunham-se vinganças, inibem-se rebeldias. No processo eleitoral, existiam polarizações delineadas com ódios futuros esboçados. Observei ,com cuidado, comportamentos arrogantes. Parecia uma campanha para redimir os pecados nacionais. Desfizeram-se afetos e as tensões se ampliaram. Hoje, há temores de graves abalos, pois a violência é justificada pelo governante máximo. Muitos mostram seu lado obscuro, ressuscitam preconceitos e procuram esconder-se nos devaneios perversos. Querem a banalidade do mal com a ajuda de anjos. Os cinismos se configuram e rasgam máscaras.

É a visão congelada do absurdo ou um espetáculo de minorias envolvidas com ressentimentos seculares? Pergunta complexa quando se analisa que o jogo é profundo, as cartas estão sujas e os argumentos são desequilibrados. Mesmo os beneficiados, os amigos dos golpes milicianos, não deixam de apontar equívocos. Há mobilizações de quem condena o autoritarismo, de quem nega a exploração da mídia e busca respirar o sossego. Não é um momento de uma simples crise que os ventos vão transportar para abismo de forma sigilosa. Quem sabe se amanhã um outro dia inquietará mais ainda quem se frustra com o limite cotidiano?

Se a instabilidade toma conta do fazer histórico, as ações trazem insegurança não o que Hannah Arendt tanto defendia: a liberdade para agir e desmonta as opressões. Não vamos imaginar paraísos, nem o absoluto firmando perdões e abrindo , totalmente, os olhos da justiça. A história é a construção da possibilidade, possui estradas curvas. As utopias estimulam, inventam generosidades. No entanto, os desejos circulam, a cultura se nutre seus pântanos, a sociedade não abandona, de vez, seus escorregões. Porém, dói imaginar a continuidade de estragos que apontam perversidades. A esquizofrenia social investe e ataca. Não cessa de criar hienas e desmanchar expectativas de redenção.