Latest Publications

A água, o mundo, o vazio

As águas correm fazendo caminhos,

e não há certezas de sonhos, mas dúvidas que navegam soltas.

O mundo parece viver um delírio fechado,

como uma esquizofrenia derrotada e sem fim.

A vida não se alimenta, está faminta e sufocada.

Cada deus escolhe sua verdade e chora seus desacertos.

Há demônios cínicos que se guardam em labirintos,

temendo o julgamento final dos anjos rebeldes.

A fundação das palavras pouco diz da paisagem muda.

O silêncio não consegue ver suas imagens no espelho,

num vazio de profecias e de desenhos transcendentes.

O ponto final anuncia o cansaço das ilusões desfiguradas.

Share

Os deuses e os anjos: desejos, dúvidas, crenças

Não tenho intimidade com os deuses. Olho as crenças de longe. Respeito quem crê, mas suspeito bastante do caráter de quem finge crer. Sou partidário de uma história indefinida. Não sei quem é a criatura, nem quem é o criador. Os deuses existem para preencher nossos vazios, estimular obediências, exaltar o sagrado. Sou ético, solidário, afetivo. Não sinto necessidade de orações submissas. Observo que as religiões se encontram num sufoco imenso. O papa Francisco tem abalado os conservadores com suas declarações. Ele toca em assuntos antes proibidos. Causa arrepios. Desmonta grupos articulados com uma fé desbotada.

Cristo foi um revolucionário, porém não se fala nisso. Há muitos negócios nas religiões envolvendo políticos, meios de comunicação e práticas capitalistas. Dê uma circulada no facebook, acompanhe as notícias nos jornais.  analise as opiniões de certas figuras. Esquecem o passado. Não se lembram que Cristo defendeu a igualdade e foi contra a ordem dominante. Hoje, são raros os quem divulgam a palavra efetiva do novo testamento. Simulam que defendem a pátria e os valores da família. Há uma cinismo avassalador, muito bem guardado na alienação dos fiéis.

Portanto, desconfio dos que se meterem no catolicismo ou se aliaram aos discursos de exploração. Fragilizaram o cristianismo de raiz. A teologia da prosperidade não possui a minha simpatia. Vejo  os rituais coordenados por vozes que fazem proposta de venda de mercadoria e prometem salvação com barganhas. Não entendo como se justificam. Esvaziaram as lutas, querem gravatas e pessoas consumistas. É interessante como houve coincidências como os momentos históricos do Brasil, o orgulho de ter crédito e fazer parte de uma sociedade mais requintada. Tudo bem. Nada contra as mudanças sociais, desde que haja repartição e não concentração de riqueza.

Cultivar Malafaia, de forma  direta ou indireta, fazer apologia do vazio de Dória, como estimulante da assepsia social e se afirmar com companheiro de Cristo me parece estranho. A modernidade alterou crenças, Weber refletiu sobre a ética protestante, muitos padres duvidaram da Igreja congelada. Neutralidade não existe. Muitos morreram, mostraram-se rebeldes. Hoje, se quer plateia e votos. Constroem tempos valiosos. Não dá para acreditar que os anjos abençoem quem se coloque ao lado dos desejos e privilégios das minorias. A ascensão social é confundida com a generosidade.

As lutas políticas estão entrelaçadas com as religiosas. Observe os Estados Unidos e suas conspirações internacionais. Não despreze as ações do terrorismo, nem a violência que se propaga pelo Oriente. A queda dos valores afeta os acordos de paz e estimula a venda de armas. Estamos cercados por golpes constantes contra a liberdade e a utopia. Eles se globalizaram. Nada como uma visita à memória para relembrar muitos desenganos.Mussolini fez pacto com os católicos, Franco não foi diferente. No Brasil, há exemplos visíveis e polêmicos. Bolsanaro é ídolo. Há os fanáticos pelas suas manifestações. O pior são os que se escondem e abraçam àas fantasias mais enganosas. Os deuses e os anjos tremem diante dos seguidores oportunistas.

Share

Paulo Maluf, a politica tonta, a tensão de Brasília

As manchetes estão na onda tonta. Quem curte novidades não se cansa. O delírio entre a verdade e a mentira é incomum. Não é fim do mundo, mas as fantasias se encontram levantando a imaginação. Maluf foi condenado. Sua rede de advogados não consegui mantê-lo no reino da ingenuidade. Nunca pensei que ele caísse. Parecia invulnerável. Irônico, não esquecia o ar de prepotente. Já li muitas acusações contra ele. Faz tempo. Firmava sempre sua posição  como político de valor. Não se abalava com as denúncias. Conhecia os caminhos das construções curvas e concretos pesados. Curtia viadutos imensos e sujos. Era admirado pelos taxistas que rodavam em São Paulo. Ná [é síntese, mas professor de magias impróprias.

As profecias falham e a história desafia. O ar está pesado e a umidade causa agonia. Aécio também dançou. O grande amigo de Gilmar pede perdão, trata-se de um garoto minado, boêmio, mentiroso. Maluf era campeão da impunidade. Fugia das denúncias com habilidade. Chegou a pousar com Lula. Nunca temia polêmicas. Não sabia que a situação está tão desconfortável. Acordou-se num pesadelo. Com 85 anos assustou-se. Será que voará de novo? Possui fôlego? Vamos ver. Nada se torna estranho nas sentenças supremas e na pose armada de Raul.  É fogo sem água ardente! Raul é figura carimbada, manobra como um motoqueiro no final de tarde. Gosta de capacetes e de esconderijos jurídicos.

Ninguém sabe a trilha do Brasil. Messi foi punido na Espanha.No mundo do capitalismo as suspeitas não cessam. Tudo depende das cifras. A Copa do Mundo foi um exemplo de propinas fantásticas. Passou. A ressaca, no entanto, chegou. Os governadores mostraram poderes para abrir espaços e as corporações não vacilaram. Imagine Maluf no meio de uma transação dessa. O Brasil perdeu em tudo. O circuito da ambição ampliou-se. Observe o que aconteceu no Rio de Janeiro. Sérgio Cabral desfilou com negociatas imensas.Não faltam políticos  que abusam com fraldas descartáveis. Os patos de plástico escondem monstros da corrupção. Desvios renascem com força e fatalidade. Está proibido consultar cartomantes em Brasília.

O dinheiro encheu malas, fabricou sorrisos, estimulou mesquinhez. Há delações que lembram o tempo das histórias de Ali Babá. Impera o reino do mal? Não sei. Os astros devem brigar para que as situações se esclareçam. Júpiter não entende mais nada. Talvez, necessite de uma ajuda de Prometeu. A carne é fraca, porém quem a vende é forte. Correm pelo mundo iates e belezas milionárias. Quem descobriu o Brasil não foi Pedro Álvares Cabral, no entanto se balança no túmulo depois de tantos séculos Há pessoas que tremem quando o telefone toca. Compram passagens para Vênus ou se escondem no boteco da esquina. As minas explodem. Não conte vantagens. Assuste-se, porem não  tropece na calçada esburacada. Pertença-se para firmar o que resta da afetividade efêmera.

Share

As aventuras e os amores

Desenhe os caminhos escondidos da vida,

não trema, nem vacile, medite com ânimo.

Siga o caminho com mais curvas,

evite a reta, o sentimento despojado.

Ande sem temer o fantasma do eterno,

deixe os anjos levitarem anônimos.

O amor não se encontra na esquina,

nem se faz na solidão do banco da praça.

O amor é ilusão de felicidade enlouquecida,

mora no desejo que despreza a história curta.

Share

Temer: os ruídos do apocalipse gravado

 

Temer é chocante. Faltam sensibilidade e consciência mínima. Precisa de fazer um curso com Descartes e ouvir uns conselhos de Freud. Reclama das injustiças e quer ser visto como salvador. Uma figura que merecia uma ficção de terror. Assombra o Brasil, não sei se assusta Marcela. No entanto, possui parceiros estranhos. Penso no individualismo que toma conta desses políticos. Vivem um delírio cínico. Nunca leram Gramsci, Maquiavel, Rousseau. É difícil medir o tamanho da mediocridade. E os pronunciamentos pela imprensa tonta? Não quer acompanhar Maluf? Os pântanos não deixam de criar monstros. As gravações apresentam ruídos e a ética é sadia? Fico observando.

Já  se articulou uma grande campanha obrigatória contra corrupção? Será possível produzir uma vacina para tornar Maia e Temer menos incapazes? Eles persistem, porque sentem-se apoiados. Sentimos os abismos. Eles querem o conforto dos palácios, se envolvem com golpes, são frutos de epidemias. O Brasil convive com fragmentos. Ouviram o excelente vocabulário de Aécio? Tudo é inacreditável. O palavrão não é um mal, mas o Neves deve ser riscado.Convocaria uma Assembleia de anjos e demônios. Acordaria deus que dorme depois do pecado original. Acho que se desculpa pelas suas criações. Não é brincadeira.

Ficar na perplexidade não adianta. Querem eleições indiretas e já apresentam candidatos. FHC reaparece. Outra persona bastante ambígua. Temos saudade de quem antes desconfiávamos  ou achamos pouco eficientes: Leonel, Guimarães, Arraes, Tancredo. A escassez é grande. Eles não podem  ser comparados com a gangue do Congresso.Muitas passeatas nas ruas para animar o sonho. As saudades assanham autoritarismos dos mais brutos. Há quem fale de Castelo, Médici com um afeto enorme….O pessoal da boiada deu um show. Marcelo. o delator cheios de bossas, não entende nada sobre propina. Vestido de vaidades se encontra preso e roendo unhas. Não escapou das grades. Dorme na cidade de Moro.

É tudo surreal, mas Temer se agarrou com os peritos. Chora, abre os olhos, busca os ombros de Padilha, maldiz Janot. Como aliviar a poeira de tantos caminhos esburacados? A Constituição não é obra congelada. Merece respeito, mas o que resta da política? Essa agonia geral transtorna. Chove canivetes. Os jornais estão repetindo opiniões, a Globo admira a exclusividade, os escândalos são cotidianos, a censura persiste, a dubiedade marca as ações. Há vários Temer no pedaço. Cruel demais. Mas o Brasil procura limpar sua honra. Sempre a mistura do lixo com o luxo como mandamento central É urgente uma reforma nos presídios. Talvez as arenas da Copa possam receber tantos presos ilustres membros de uma máfia singular. Seria um ato interessante.

Share

Nietzsche: ansiedade, oportunismo, cultura

 

A história não requer confortos contínuos. Parece que é preciso que haja quedas. Elas se vinculam ao movimento de aprendizagem. A cultura traz invenções e toca nas sociabilidades mais permanentes. Isso significa dizer que há mudanças. Mas é preciso não confundi-las com progresso. Mire no século XIX. Observe as idas e vindas dos pensamentos, os delírios de Comte e o impacto da crítica de Marx. O capitalismo desenhava contradições. Nada de riqueza para todos. A história é campo de luta, de sonhos, de divergências, de labirintos sem fim..

Freud apontou paradigmas que chocaram os resistentes. Havia entusiasmo com as técnicas, com o domínio dos europeus, com o surgimento das ciências. Freud levanta a poeira. Lembra que somos animais, buscamos prazeres, enfrentamos competições. O amor, tão pregado pela religiões, se abala com as vinganças e a existência da mais-valia. O narcismo cega, envaidece, derruba. A história não cansa de mostrar que há curvas. O abismo é uma metáfora usada para assinalar o fim da ilusão. O conceito de decadência se choca com ideia de progresso.

Ninguém tinha bola de cristal, porém as tensões nunca deixaram de existir. O colonialismo estava firmando mercados e explorações. Nietzsche denunciava a crise de valores, desconfiava dos discursos exultantes da razão. Não esqueça que os românticos já colocaram reflexões importantes. A modernidade tinha sua nudez revelada. Não era a armação do paraíso como os fanáticos , ainda hoje, pensam. A sensibilidade exercita outras formas de ver o mundo, contraria a aridez do descartável das mercadorias.

Muito do que foi dito por Nietzsche está na atualidade. Suas suspeições confirmam-se. Numa sociedade guiada pelo pragmatismo, não faltam os que alimentam navegações oportunistas. Na época em que as crises se aprofundam, a cultura ensaia seus bailes de máscaras. As sombras ameaçam, mas há quem manipule, quem se abrace com os números e montem lojas de consultoria para livrar o sufoco. Não se trate de busca soluções coletivas. Prevalece as armaduras dos que concentram riquezas e debocham da miséria dos outros.

Nietzsche não se empolgava com os dogmas. Não fugiu das reflexões mais agudas que derrotavam a vaidade dos dominadores. O poder é cru quando se alicerça na vontade de reproduzir privilégios. As guerras mundiais aconteceram, o imperialismo empurrou os mais fracos, o nazismo assustou o mundo. Sofrimentos se espalharam. Não adiantam as lições? A razão é útil para oprimir e iluminar. Quem apagar a arte, a imaginação, censura a criação. O culto ao planejamento impede que o vício da ordem e do progresso se desmanche. A cultura possui infernos que cortam necessidades das maiorias. As dores do mundo são fortes, contudo a vida continua. O fôlego não morreu.

Share

Desmanches: a sociedade se reparte e adoece

 

Não há como evitar a existência do poder. Organizar a sociedade é fundamental. O importante é pensar que há muitas formas de escolher caminhos. Lembrem-se dos romanos desconsiderando os povos bárbaros, das fundações da democracia grega e moderna, das utopias do século XIX, da sede de conquista de Hitler. São sugestões de projetos diferentes. Há extravagâncias autoritárias, fraquezas na socialização, sonhos ditos impossíveis. Nunca faltaram vazios, nem insatisfações. Tudo tem um toque de instabilidade. Observe como foi o movimento de 1930 no Brasil, a ditadura de Stalin na União Soviética, a loucura de Nero na antiguidade, a opressão de Portugal no escravismo.

Cenário aberto para polêmicas que propagam. Há quem deseje a volta doa militares, outros torcem pela afirmação das práticas nazistas. A confusão é imensa. A democracia aparece como preciosa. Teríamos equilíbrio, liberdade de opinião, o coletivo agindo sem censura. Mas há questões inesquecíveis. Na sociedade moderna, as composições são efetivamente democráticas? As sociabilidades se modificam, as críticas se renovam. No entanto, as explorações se foram da história? As rivalidades morreram e a corrupção desapareceu? O silêncio é impossível diante de tantas perguntas.

A Revolução Industrial moveu a produção, introduziu o trabalho assalariado, criou mercados internacionais. Esperava-se o crescimento de lugares sem desigualdade. O Estado cuidaria de romper com o passado opressivo. E as mobilizações revolucionárias? O que houve com a Comuna de Paris? Por que colonizar a Ásia e a África? O que significou a China na época de Mao? A democracia virou pó, escondeu-se ou ainda se espera alguma coisa? O mundo se encontra numa tensão constante. A violência existe nos Estados Unidos, na Síria, na França, em todo canto. Não é excepcional, nem um fenômeno que abala apenas os tempos atuais. O que fazer? Não há como sentir sossego?

Mudam as astúcias, mas as disputas não dispensam massacres. Há uma corrida para se aperfeiçoar as armas. Portanto, nada de diálogo que fertilize a reflexão e combata os desacertos contínuos. O Brasil tem uma história marcada pelo autoritarismo. Getúlio Vargas instalou o Estado Novo, Médici persegui seus adversários usando a repressão, Dilma sofreu com as articulações que a derrubaram. Questiona-se a possibilidade de se compartilhar a vida, sem celebrar o individualismo e expandir as ambições. O pecado nos mete medo e nos condena a navegar no pântano? Deixemos as lendas de fora e  encaremos as incompletudes. O paraíso é um perfume da imaginação.

A aflição aperta corações e mentes. Não há como trazer magias insuperáveis. Tudo lembra desafio. Freud definiu a força do inconsciente. Não é só o corpo que adoece com frequência. E as psicopatias, a negação do outro, as bombas mortais, a ciência aliada à tecnologia da destruição? Construir a ideia de progresso é uma falácia. Há recomeços, desistências, fracassos. A memória traça desenhos de profundos desastres e genocídios assombrosos. Por isso que os cansaços aparecem, os salvadores inventam mitos, a sociedade se reparte em grupos hostis. Não é sem razão que os sentimentos podem enlouquecer e os sentidos se transformarem em esqueletos horrendos.

Share

Quem tem medo da narrativa do capitalismo?

 

Não há mistério. O território do capitalismo está aberto para exploração contínua. Não é novidade. As desigualdades existem de forma brutal e a miséria mora em muitos lugares. Não é acontecimento recente, mas as sofisticações acompanham a história. Cada época inventa suas medidas. Pensar o capitalismo sem corrupção é uma ingenuidade. Onde há hierarquias não pode haver harmonias. Sempre as desconfianças, suspeitas, covardias permanecem imprimindo opressões. Portanto, temos sequências que amedrontam e ampliam a violência. Os celulares tocam marchas do século XIX. Retomaram a escravidão dita moderna?

É claro que o capitalismo possui defensores. Não faltam teorias. Questiona-se a sociabilidade generosa. Precisamos dos outros, guiados por interesses. A solidariedade é rara. Como pensar, então, na generosidade? Como construir utopias? A disputa está solta, angústia dói no coração. Os desmanches culturais não foram evitados pela globalização. Basta observar o que se passa na África. É incontável o número de refugiados. As colonizações crucificaram costumes e incentivaram guerras. Tudo protegido por racionalizações e por tecnologias. As narrativas se sucedem, juntem as manchetes e os editoriais dos jornais. Não durmam. Olhem-se.

O Brasil não está longe dos desencontros, deteriora-se aceleradamente. Os valores de despedem, as notícias mudam, os poderosos não cessam de armar emboscadas. Procura-se manter a exploração e torná-la mais profunda. Isso ganha camuflamentos. Façam uma leitura das reformas, da agonia de Temer, das sentenças dos juízes. Há golpes constantes em nome dos lucros. Marx já previa os desacertos. As regras favorecem as minorias e são quase impostas pelas políticas. Brasília é incansável ou incurável? Fabrica surpresas e distribui melancolias. Possui as agitações de prostituições medonhas que assombram a dignidade. Quanto vale cada discurso? Quantas lágrimas seguram o desgosto da hipocrisia?

Será que estamos condenados? Será que não há alternativas? Os sonhos sentem-se pesados. As religiões fazem parcerias com a política. Quebram-se compromissos sem cerimônias. O mundo vive da palavra vazia, das celebrações sem sentido. O capitalismo canta o descartável, sacode os bancos para curtir euforias, recorda-se das jogadas fascistas. Estamos em esquinas cheias de ruídos e com planejamentos de assaltos de todo tipo. Não há semblantes generosos, contudo há espelhos com imagens desfiguradas. Não é sem razão que as epidemias circulam sem pressões. A vacinação encheria prisões inexistentes.

A memória nunca deixa de ensinar. Não adianta desnaturalizar no vazio.  É importante observar as diferenças nos desenhos da coisas. Existem amores, mas mudam seus hábitos. Existem desejos de vingança, mas renovam seus objetivos. A história se movimenta, não dispensa, porém, a permanência. Os disfarces não desapareceram. Eles nutrem as falcatruas, simula inocências, adoram festividades  inúteis. Estamos cercados por ambiguidade imensas. As portas estão escancaradas, as túnicas desbotadas, os títulos fragmentados. Achar que, no capitalismo, vivermos mares calmos é uma fantasia mergulhada no pântano. O futuro despertence como um predador abandonado.

Share

Antonio Cândido: a generosidade tem nome

 

Vivemos no meio de ataques constantes. A aridez contagia, a ironia se expande. O Brasil está doente, não sabe o tamanho da sua aflição. Nunca vi tanta raiva acumulada. Difícil dialogar. Há pessoas que não percebem que há corrupções próximas e familiares, mas preferem jogar para a plateia, pintar imagens histéricas.  Quem soube roubar com sutileza, fica escondido, como se fosse um anjo. O fogo queima e o inferno está por aqui. Fico meio perdido, pois não curto agressividades, nem cinismos. As questões são profundas e estruturais. A metralhadora dispara com fúria avassaladora. A guerra tem muitos nomes, balançam os complexos de cada um.

Antonio Cândido se foi. Não tenho condições de mergulhar na sua obra e fazer um texto para consagrar sua colaboração acadêmica. Minhas leituras sobre ele não permitem grandes voos. Admiro Antonio Cândido pelo que representa como exemplo de generosidade. Esteve sempre  com as lutas coletivas, não se encantou com os elogios, tinha uma inteligência solidária. Numa sociedade, marcada pela inveja e desejo de aparecer como gênio, ele se torna um exemplo incomum. Além de abrir um espaço para renovação intelectual, não se descuidou dos amigos, criticou as injustiças sociais. A sabedoria não se submete às injeções da egolatria.

É fundamental lembrar-se de personagens que não se fixaram nos feitos acadêmicos. Fugir dos espantos da produtividade, ser mestre sem temer os discípulos merece saudações. A sociedade não se abastece apenas de intrigas políticas partidárias. Ela se afunda, porque perdeu valores e se corrompeu com o fascínio do poder. A grana atrai, faz crescer os ódios, cria inimizades, tumultua a justiça, nos coloca numa crise radical. Quem consegue respirar, olhar a possibilidade de sonhar? Há uma epidemia de mentiras e intransigências que impossibilitam o afeto. Ela nutre debates, congela projetos, estica hipocrisias, assusta.

Antonio Cândido não entrou na dança do trivial. Mostrou dissonâncias, estudou sem eleger privilégios, escreveu sobre Guimarães, Drummond entre tantos outros. Cercou-se de apuros literários, conseguiu articular paradigmas. Não me canso de participar de bancas onde ele é citado. Sua metodologia permanece , não se obscurece com as polêmicas. É uma memória cheia de vida, de dialéticas que embriagam. Os intelectuais que afastam as pedras que existem no meio do caminho são raros. Muitos gostam de vibrar com a tecnologia, se disfarçam , mas assumem consultorias para guardar o capital. Fogem das aulas, da formação, tornam-se os senhores das conferências.

Antonio Cândido não baniu o sonho do socialismo. Não mistificou. Existem dificuldades imensas. Pensar um  mundo sem desigualdade nos chama para o desafio. No entanto, as contradições continuam, as traições firmam armadilhas, as desesperanças não se vão. Ele nunca negou os obstáculos. Mas se jogarmos fora o sonho não será pior? O pesadelo não será constante? Essa é uma questão que deveria nos abraçar. Celebro, aqui, a generosidade. A reflexão é importante quando está acompanhada da sensibilidade. Para que eleger conhecimento e  navegar no mar do individualismo? O sofrimento do mundo é visível, a indiferença é uma crueldade. Não sabemos dividir. Queremos a roupa da rei.

Share

Sustos, políticas,divisões: os caminhos de Lula e Moro

 

A sociedade se enfeitiça com os espetáculos. Ela não nega sua vocação para consagrar a mídia. Os boatos, as cenas, os gritos, as cores criam expectativas imensas. Tudo se inventa. A política se mistura com a religião. Há atos de fé, salvações desejadas, deuses enebriados pelas falas sedutoras. Vivemos uma semana de agitação constante. Não faltaram profecias. A luta do bem contra o mal fixou seu lugar de sempre. Ela personaliza, atrai, supre a solidão dos desconfiados. E aqueles que se fazem de ingênuos, que garantem estar em cima do muro? É a sociedade dançando sua dissonância, usando as vitrines do facebook, curtindo hipocrisias, jurando crenças., compartilhando o dualismo.

Lula e Moro são alvos de opiniões. A intriga gera emoções. Muitos tremem, outros usam vinganças. O desencontro é grande. Não sabemos o que anda escondido. Muita confusão, a justiça submersa, as esfinges querendo espaço, os corruptos buscando armadilhas. O que poderia ser algo formal, viralizou, se espalhou pelas redes sociais. O Brasil num embate com vários estardalhaços, as pessoas aflitas, a espera por jogos sem bolas, mas com maldades indescritíveis. A quarta-feira foi inquieta. Os descaminhos cruzam as esquinas e as avenidas.O labirinto da história não é homogêneo, enfeita-se com máscaras satânicas.

Lula possui uma vida surpreendente. Não se descola da política, não é inimigo do risco. Segue adiante, construindo sua trajetória, ouvindo e respondendo.  Tornou-se, para muitos, um Messias. Moro é esperto, se mexe com muitas articulações, se coloca como guardião da higiene jurídica. Possui adeptos e adeptas apaixonados. É uma aventura ou tudo está programado? Surgem os julgamentos. Há especialistas, notas, medidas, sensacionalismo. Quem conhece o dia de amanhã? Todos se entrelaçam. A perplexidade traz vestígios de novelas antigas. Os sinais têm formas místicas e profanas. Os intelectuais escrevem teses, as instituições não se renovam, o instituinte se desgarrou. Fantasmas assustam os medrosos.

Não pesquiso sobre provas jurídicas. Fico extático quando alguém descreve os fatos com segurança.  Lembram-se do pecado original? Imagino as incertezas que abalam cada um. Sei que elas são múltiplas. O campo da subjetividade se veste de fantasias. Lula atravessa caminhos, Moro não se cansa de animar querelas. Conseguem mobilizar. Multidões se aglomeram esperando o juízo final. As controvérsias gostam de ressentimentos. Estamos num buraco. Atira-se sem observar o objeto. Difícil desenhar o futuro. A sociedade se sacode no meio de sombras e luzes, de coragens e covardias. As interrogações não se vão. O sangue ferve.

O Brasil desconhece a convivência com o socialismo e a democracia. Há, porém, sonhos majestosos. Mas quem pode negar as frustrações? Não esqueçamos as outras sociedades. Quem sofreu com o fascismo, franquismo, terrorismo, stalinismo, guerras, preconceitos raciais, imperialismos? O mundo globalizado expõe os obstáculos de se montar a divisão do poder, das riquezas, da cultura. Valem os interesses das armas e das drogas. As minorias tomam conta dos valores de forma cínica. Estamos cercados de mercadorias . Não é à-toa que já inventaram a pós-verdade, o pós-humano, a pós-história. Os anjos e demônios sentem agonias inusitadas. É proibido dizer amém?

Share