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O que sei é o que sei e você?

Não compartilho com a famosa afirmação de que o que sei é que nada sei. Sócrates tinha razões, vivia outros tempos, firmava suas confidências. Sei e vejo muitas coisas, embora não negue as fragilidades. Há interpretações múltiplas. Vagamos no meio de tantos conhecimentos. E as novidades das informações? Portanto, as certezas querem se manter, mas sofrem ataques contínuos. Temos referências e não destinos. Querem destruir o passado para apagar a história ou inventar desesperos? As disputas não cessarão, porque somos invejosos e não profetas de tudo. As suposições fazem parte do cotidiano.Disfarçamos com voos espetaculares e enganosos.

A viagem é longa. Desconhecer as origens é doloroso. Se o futuro transformará o mundo é um enigma. Tropeçamos, porém os perigos são imensos e alguns superáveis. É preciso não jogar com as palavras, sem mergulhar nos seus significados. Lembro-me dos sofistas. Gosto do relativismo. Não me sinto solto, sem nada para dizer. Busco me equilibrar. A felicidade aparece em momentos passageiros. Os desprazeres existem, o pessimismo se amplia, mas há risos, brincadeiras, coloridos, mares azuis, livros de Kundera. Quem não se envolve com paixões?

O mundo é complexo. A morte amedronta. Ficamos perplexos com tantas dúvidas. Os deuses fazem suas apostas. Não acredito em julgamentos finais. Há muitos mistérios. Naveguemos. Camus tinha intuições singulares. Escreveu um livro fantástico O mito de Sífiso. Reflete sobre o suicídio, sobre os limites, os desencantos. Morreu tragicamente. Ninguém domina os saberes de forma absoluta. Mas aprecio quem lança questões, visualiza os danos do absurdo. Tudo produz polêmica, provoca andanças, traça ameaças, funda crenças, enfrenta dissabores.

Sei que estou numa sociedade turbulenta. As regras vacilam, as pessoas se drogam, os casamentos se desfazem, as guerras não se vão, a complexidade é um desafio. Escrever é conversar. Quem não retoma nostalgias, quem quer  naufragar em pesadelos? Definir os caminhos é quase incomum. Prometeu revoltou-se. Mostrou que não há nada estabelecido para sempre. As ilusões ajudam a diminuir as dores e arquitetar sonhos. O ponto final é um símbolo. Tudo está voando, com tempestades repentinas e fogos vermelhos enlouquecidos. A tensão desmonta lentidões.

O que sei é que pouco sei. Desconheço se há um encontro derradeiro ou se corpo apodrece inutilmente. As especulações frequentam cada desejo de pular o cerco das impossibilidades. Sócrates foi condenado. Já havia delação premiada. Nossa sociabilidade é escandalosa. Quem admite transcendências e se julga amigo dos anjos? Não se acanhe. Há quem roube, quem chore, quem fuja, quem se abandone. A confusão não é uma mentira, nem a vida uma aflição profunda. Siga com seus saberes e suas experiências. Um dia, casa cresce ou cai. E você levitará ous seus olhos ficarão vermelhos.

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O tempo desfigurado

Vejo o tempo coberto de cinzas, sem fixar datas , nem profecias.

Notícias correm registrando mortes anônimas e desesperos universais,

mas o espetáculo continua, registrando escândalos e artifícios enganadores.

Há um desencanto que esconde o fim do sagrado e

a profanação de todas as verdades e de todas as tradições.

As ordens desfeitas teimam em  desaceitar o instituinte,

procuram silêncio nos fascismos contemporâneos e sofisticados.

Quem mede as lutas com a coragem registra o transtorno

das hipocrisias que não cessam de firmar emboscadas.

A leveza se foi no tapete mágico que se livrou do inferno,

a história conta o que não houve e coloniza a possível rebeldia.

Ulisses desiste de ouvir o canto das sereias e navega sem rumo definido,

sinto que a aventura desbotou as cores e o paraíso desabita a imaginação.

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Italo Calvino: um dia de convivências e reflexões

Escrever sobre as experiências vividas traz um toque singular. Não deixa de haver fantasia e interpretações. Tudo passa por filtros e enganos. Não somos amigos da exatidão e a subjetividade possui suas invenções. Calvino tem uma escrita ímpar e uma vasta obra. Lamento que não seja lido como merece. Ele é um dos meus arcanjos. Gosto da sabedoria que transmite, sem arrogância e com palavras preciosas. É um autor que não dispenso e que me atrai sempre. Nada como buscar releitura e afirmá-lo como um clássico. Aprendizagem não tem ponto final.

Ele faz parte das minhas bibliografias acadêmicas. Procuro fugir das leituras que se repetem e Calvino sacode os que estão acomodados com teorias longas e complexas. É importante não desprezá-las, porém não custa investir na imaginação mais ousada. Há quem renegue a chamada ficção e se fixe em conceitos congelados. Existem disputas por lugares, apesar das muitas construções. Quem não cita pode cair no abismo. Então, a vitrine sempre é acionada com agitações constantes. A academia não está fora do capitalismo, idolatra metodologias e cultiva vaidades.

Calvino não se afirmou por uma obra de destaque que ofuscou às outras. Ninguém esquece As cidade invisíveis, com suas fábulas surpreendentes. No entanto, há mergulhos no cotidiano, nos difíceis amores, nas histórias tradicionais, na multiplicidade que cerca o humano. Viaja pela leveza, ressalta a visibilidade, não apaga as ambiguidades. Admira Jorge Luís Borges, sem deixar de enfatizar as astúcias de Paul Valéry, o fôlego de Dante. Portanto, não lhe falta erudição. Conhece jogos, articula imagens, quer consistência na literatura para manter um mundo com apatias curtas. Não sei é Palomar, mas carrega agonias e perguntas.

N’ O dia de um escrutinador se liga em convivências e angústias pessoais. Questiona a política, observa as diferenças, lamenta-se. Sente a complexidade do humanos. Mostra que não há medidas definitivas. O amor é que nos salva dos limites mais mesquinhos. Os entrelaçamentos da vida não se esgotam. Entre freiras, religiões, eleições, doenças existem acasos monumentais. Tentar resumir a vida é um desafio. Calvino desenha sentimentos, narra com intimidade problemas que também são seus. Pensa nas continuidades nunca esgotadas. Não fecha os olhos, adivinha.

As viagens, talvez, não tenham pontos de chegada. Quem sabe se não estamos sempre partido, num navio invisível, num porto acanhado, num afeto duvidoso ? Quem firma certezas? Calvino não é inimigo do relativismo, encontra-se com o leitor em cada reflexão para inquietá-lo. A vida se balança com assombrações, porém precisa de escritas, de companhias que adormecem para aquecer o corpo e sonhar. Simplesmente, estamos no fogo, na água, no ar, na terra. Voamos e avistamos pântanos e luzes. Calvino conversa. Não se esconde numa noite de inverno. Mantém o otimismo da narrativa sedutora.

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O jogo da memória: saberes e narrativas

O esquecimento ajuda a deixar dores antigas, mas não há esquecimentos absolutos. A memória joga com entrelaçamentos e surpresas. A linearidade não se firma. As lembranças aparecem e desaparecem. Não sabemos quando elas retornam. Algumas incomodam, outras nos enchem de prazeres. Nosso domínio sobre a vida e suas aventuras é frágil. Temos muitas perguntas, lamentamos a falta de sentido, desconfiamos de muitas coisas. Será que suportaremos os tremores da história e descobriremos quem a inventou?  Quem quer se agarrar em profecias?

Há dificuldade em se estabelecer o sentido da tanta complexidade. Os saberes estão diluídos. Envolvem-se com a competição e exigem seriedade. Onde ficam o prazer e a alegria? A mudez entra na sala de aula quem concentrar conhecimentos e se deixa levar pela vaidade. Elegem-se autores que conseguem desmanchar os mistérios e seus sacerdotes. As hierarquias não se vão. O discurso é democrático, exalta a multiplicidade mais a convivência é tensa. Criam-se as ambiguidades e os monopólios. Cada um na sua estratégia, revivendo experiências ou desfazendo ressacas.

As artes de conversar, de inquietar a memória, de dividir experiências tornaram-se raras. É a sociedade da comunicação que se perde no controle permanente. Muitas novidades e escassos momentos para ouvir o outro. A corda se estica e a palavra termina provocando a ação. A solidão se apresenta como uma fortaleza. Não se ousa desconstruir. Há receio de  ser punido com uma crítica. Os saberes mostram os limites. Os sacerdotes do profano estão refazendo dogmas e nem percebem a insegurança de mestres que vulgarizam discípulos. Descontam um memória amarga do passado, presos em ressentimentos.

Não  se busca os mitos . Já leram a Odisseia? O texto é belo e nos lembra a psicanálise. O que seria de Freud sem os mitos e Jung sem seus arquétipos. As fantasias nunca são inúteis. É preciso, para alguns, não perder a seriedade, não desprezar os títulos. O lugar do pode se expande. Nem todos estão autorizados a debater. Há regras e louvações diante das hierarquias. O tempo se costura de forma vacilante. A inibição arquiteta um silêncio. Os saberes instituem propriedades privadas de escritas. Talvez, sejamos todos grupelhos. Os senhores do saber esgotam-se nos olhares duros, prestigiam silêncios demolidores.

A política se choca com muitos desenganos. Ela está em toda parte. Cada relação seduz, oprime ou desencanta. A política mora em todas elas de forma astuciosa, não é monopólio de Jucá ou Renan. Quem se arrisca a desmantelar o poder em lugares com regras centralizadoras? Não faltam reclamações, nem sempre os totalitários se tocam e retomam a sensibilidade. A sociedade se veste de sociabilidades surpreendentes. Não poderia se diferente. O que causa espanto é a morte disfarçada do coletivo. Os espelhos estão reservados para poucas. A sagração do êxito é uma religião que segura as distinções e sufoca o ânimo. Quem se ocupa no mundo dos vazios epidêmicos?

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Os disfarces do tempo

Os calendários anunciam tempos vacilantes,

assaltos de mascarados exilados da história.

Há medos que não silenciam e gritos tenebrosos.

nada apaga o vazio de um futuro sem profecias.

Cada aventura disfarçada esconde o cinismo dos abutres,

vende-se a notícia com uma crueldade cotidiana.

Pense numa história que não abandona a nostalgia

e entrelaça a diversidades do desejo inquieto e azul.

Não finja que o mundo se conserta sem a invenção,

desfazendo os rastros dos fantasmas decadentes,

retomando os mitos dos encantos permanentes.

Não esqueça a imagem que fugiu do espelho,

a velocidade assustadora da morte atômica.

 

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Espiar a história, sentir o mundo, escutar o tempo

 

Os ruídos são muitos. Não há silêncio, só vozes ou buzinas de carros. A televisão ajuda na diversão ou na apatia. Parece que as saídas foram bloqueadas e as armadilhas enchem cada rua. Não sei se vale questionar tudo, cruzar feitiços e acreditar em evangélicos com verdades milionárias e honestidades mascaradas? Eles povoam as mentes mais ingênuas, sem descuidar-se dos interesses. A confusão sai do limite, cria uma bipolaridade arrasadora. Há epidemias, falta de águas, anúncio de celulares coloridos, espetáculos anestesiantes. Faz tempo que não se fala em revolução, mas não faltam guerras e ódios.

As farmácias ganham fortunas e procuram se afirmar com lojas vistosas nas esquinas principais. As tapiocas custam dez reais e o bolo de rolo virou um assunto provinciano.Situação está esquisita. Tudo se globaliza de forma rápida. A desconfiança desfaz o diálogo. No Brasil, há mais presos do que prisões e a política é uma loteria com quadrilhas organizadas. A grana é o feitiço maior. Observem como atuam os juízes, como os delatores imaginam as situações, a pressão da imprensa por notícias novas. Quem é quem? As dificuldades acordam consciências, porém destroem desejos. Uns defendem Moro como se fosse um santo, acham Temer um figura sacrificada. Outros torcem por Lula.

Cultuam o messianismo, misturado com planejamentos especializados E os ressentimentos prosperam, no meio dos santificados pelas manchetes eletrônicas. Bastava firmar a solidariedade e esmagar as máscaras.Quando a política se arrasta promovendo escândalos estamos na rota do apocalipse. O descrédito retira o tapete, os tropeços tornam-se comuns, o cinismo adora o sucesso. Pergunta-se, questiona-se, intimida-se. Os sonhos desenham fantasmas. Não há como acender as reflexões de Hannah Arendt ou rever as utopias do século XIX. Ocupamos espaços estreitos alimentados pelas artimanhas. E os que buscam soluções? Rezam ou ocupam tribunas profanas?

As redes sociais são a síntese do turbilhão, não apenas o desfile de inutilidades.O ânimo cultiva a liquidação de mercadorias, o vazio se distrai, a solidão é eletrônica. As ordens desfeitas, a democracia inexistente, os missionários misturados com o carnaval das cervejas. Vale gritar quando se sente agonia. Não sei quem inventou a história, quem se sentiu onipresente, nem o tamanho da maior mentira. Vivemos no reino das fabricações. Drogas, petróleo, mesas, cafés, pesadelos, academias. Há um vocabulário que muda e intriga. Todos estão ligados no significado das mudanças ou as permanência continuam soberanas? Fico perplexo quando se decreta que somos animais racionais.

Darwin treme com a ciência contemporânea, manipulada pelas grandes corporações. Ela tem preço, não se afasta do capitalismo, derruba e sacode, não foge das violências mais sofisticadas. A história estremece, mas não há como descruzar seus tempos, não esquecer de Homero, Platão, Nietzsche, Freud, Braudel, Foucault e tantos outros. O importante é não se escravizar na objetividade, observar a dança das verdades e as dissonâncias da arte. Cada palavra fixar um significado que morre repentinamente. A mudez pode ser uma sabedoria ou uma insistente ausência das questões mais urgentes. Espie, sinta, escute.

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A solidão de Gabriel: cem anos míticos

As portas estão abertas. São ruas estreitas com ruídos inusitados. Quem fala são os juízes. Acusam quase todos os políticos. A corrupção é desmedida. O medo é cínico e o final pode ser feliz. É um sinal de uma solidão estranha. Todos se parecem, guardam milhões, a sociedade se desgarra. Todos juntos no mesmo ato, mas sós nas suas angústias. Há uma embriaguez sem adjetivos. Caberiam todos nas aventuras de Macondo? Não acredito. Gabriel gosta de outros perfumes, ama metáforas, detesta hipocrisias, navega na magia, se distrai com os mitos.

A história não se cansa de se arrumar. As perturbações mostram que o acaso não é estrangeiro. O mundo é visitado por assaltos constantes. Sobrevive com remendos. Não conhecemos as origens, como vamos conhecer o fim? Será que a sociabilidade não é um disfarce? Quem escuta quem? Gabriel captou o isolamento e os devaneios. Escreveu com a ajuda de fadas, porém não se descolou dos desencantos e das misérias. O homem é um animal assustador, por isso inventa deuses e procura o extraordinário. Pergunte pela violência, feita no cotidiano.

O tempo nunca foi linear. Ele gira, pula, entontece. Simpatiza com Nietzsche e atravessa as tempestades do retorno. Observe Ulisses, entre nos abismos da cultura grega, tome um café com Homero e sinta as coragens de Prometeu. Gabriel não se descuidou. No seu livro estão todos. Quem o lê, com paciência, aprofunda sua interioridade, se desengana para mergulhar num oceano que não tem cor. Melquíades desafia as dualidades, Acardio assanhou a imaginação, Úrsula não temia complexidades. Macondo era inferno e paraíso.

Nunca achei que existem verdades sagradas. Gabriel me trouxe mentiras que agradam e levitam. Por que fazer apologia de racionalidades opressoras? Há quem seja devoto dos grande modismos reflexivos. A academia despista, condena a religião, contudo elege seus deuses de forma articulada. Há vitrines, ídolos, bajulações, arrogâncias. O lugar comum não se esconde. No entanto, devia seguir as leituras das tragédias gregas. As badalações curtem vaidades e os preconceitos multiplicam suas garras. Os facebooks invertem a ordem das dores.

A solidão está no corpo. Mire os olhos. Deite-se na cama de Amaranta, de Remédio, de Rebeca. Todas as mulheres se envolvem com os amores e exaltam a maternidade? O feminino possui histórias inesgotáveis. Quando entro em Macondo sigo abrindo as portas, contando as armas da guerras, os suspiros do sexo, o desejo de ficar na solidão. Não sei se o mundo se extinguirá. Quem criou deus  pensou na utopia definitiva. Prefiro dialogar. Os anos da solidão não moram no calendário da sala escura. Desenham-se dentro das veias do coração. Olhe-se no espelho e se reconheça, sempre.

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A poeira do caos

A poeira vermelha do caos enche os olhos de lágrimas,

o mundo permanece indefinido como um deserto.

Não meça a culpa, nem estranhe as utopias enfermas,

a ilusão corre com uma razão desfeita e melancólica.

Cada aventura do tempo é desenho de curvas antigas,

o futuro não existe quando o sentido se fragmenta.

Sei do amor a incerteza que apresenta pálida,

a história que não conta perdões, mas desprazeres.

Nem pense no peso cruel das bombas atômicas,

nem acredite nos anjos sem cores e apressados.

Há inconscientes transtornados nas falas de Édipo,

não acene para esfinges, corte a verdade anêmica.

A poeira do caos se pinta com o vermelhos desbotados,

amedronta as flores dos jardins decadentes.

Testemunho, com a escrita, o reino da incerteza cristalizado.

 

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Jomard: as escritas afetivas do mundo

Rebelar-se não é sacudir o passado no lixo. As referências existem e não há como anulá-las. O mundo atual se perde quando deifica novidades e celebra consumismo doentio. Mais do que nunca, é precioso estar atento e forte. A mentira não  se vai e as ambiguidades ganham espaços incomensuráveis. As lutas se confundem com ódios mesquinhos. Não há como se livrar de um bombardeio de imagens que nos tornam cegos. Fomos tomado por pragmatismos apressados, pelos modismos descontínuos, pela preguiça das drogas delirantes. O movimento é ocupado pelo discurso vadio, pela agonia dos que se fragmentam com tonturas velozes.

Gosto de ler Italo Calvino. A escrita dele é fascinante e incomum. Não se esgota. Há escritores que fogem de um tempo definido. Merecem saudações constantes. Quem não leu Calvino deve mergulhar com urgência nas suas fantasias e polêmicas. Traz ânimo e fura a mesmice. Mas nem tudo se encontra desgovernado. Há pontes na literatura que animam o desejo. Assisti, sábado, a um filme sobre Jormard Muniz. Olhei com deslumbramento  todas as coisas que ele propõe. Jomard desafia, inquieta, não perde a sabedoria do humor. Não aprecia calmarias, contudo não se acanha com os afetos. O mundo é vasto e estranho. As diferenças não são inimigas do diálogo

No seus acasos, ele traça linhas curvas e surpreendentes. Os territórios estão para além do ontem, porém não adianta quebrar o passado. A nostalgia possui um lugar, junto com os escândalos e os sonhos iluministas. Jomard dança o ritmo do seu tempo, sem alijar a simultaneidade. É profeta dentro dos limites da história do agora. Difícil definir sua obra. Talvez, inútil querer enquadrá-lo. Quem se conhece sabe que o interior toca no exterior. Não há fronteiras e a linearidade pode ser um suicídio. Adão e Eva nunca escutaram as vozes das serpentes. Tudo não passa de uma lenda desbotada, para acender culpas e igrejas e punir a afetividade entrelaçada. O que diria Calvino conhecendo Jomard?

Aqueles que reconhecem os labirintos, não negam a incompletude. Mexem com os céus e os infernos, As possibilidades flutuam como um tapete mágico. Não cabem comparações exatas entre Calvino e Jomard. Seria sacramentar o absurdo. É importante observar como o mundo se inventa, quando derrotamos as fabricações opressivas. A literatura multiplica a força da palavra.Seduz e combate Nem todos conseguem desenhá-la. O mundo submerge, porque os códigos imprimem máscaras sem cores. Substitui a tristeza, pela devassidão das mercadorias.

Quando Jomard escreve seus atentados poéticos mostra que os labirintos podem ser percorridos sem amarguras. As incompletudes fazem parte da vida. O onisciente é um desejo de deuses atordoados com suas criaturas. O mínimo não é a escravização do impossível. As palavras anêmicas despedaçam o corpo e nos empurram para a tolice. A existência de escritas favorecem a mudança de lugares e a ampliação de perguntas. Jomard é um construtor de tempos. Contemporâneo e ousado como um pássaro que desfiou a gaiola. É um trapezista de um circo com teto de estrelas. Feriu o preconceito e o tempo morto.

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A violência não tem medida: machismos, guerras e cia.

Fala-se em civilização. Juntam-se ordens. As culturas se organizam para descobrir mundo. Fundam-se instituições. O cuidado existe, precariamente, mas muitos esquecem que o homem é o um animal social. Possui sofisticações e tatuagens mascaradas. Desafia verdades tradicionais, luta por melhores condições de vida, assume invenções científicas. No entanto, nem tudo merece celebração. Há tropeços e desgovernos fatais. Quebram-se serenidades e as guerras cotidianas enchem as ruas. Há quem justifique os desmantelos e os preconceitos não abandonam a sociedade. O sinal vermelho se firma com múltiplos significados e descontroles.

As notícias sobre violência atraem: uns gostam de saber e outros ficam perplexos. Quando se pensava que a igualdade deveria tomar conta do mundo, a violência e suas astúcias avançam  para derrotar os mais fracos. Ela se espalha como agrotóxicos. Não são os roubos, ou a falta de justiça. Há uma destruição da convivência. Uma onda de defensores da família se avoluma de forma oportunista. Seguem os estupros, os assassinatos de homossexuais, os discursos agressivos, a segregação racial. Quem aposta na paz, na civilidade, no desejo de assegurar direitos?

Nunca acreditei na linearidade, na conquista de um progresso ilimitado. Basta olhar o século XX. As sociedades se odeiam, as religiões criam orações perniciosas, os governantes se perdem com seus falsos projetos. A cultura consegue cobrir incompletudes, mas não nos distancia dos retornos de práticas fascistas. A intolerância está solta. As leis são manipuladas, o controle satisfaz a quem se locupleta com privilégios. Muitos pensadores do século XIX já se vestiam de pessimismo. Gritavam que o ocidente se chocava com abismos profundos. Trump estica a irresponsabilidade com fúria e psicopatia. Brinca para atender o terror das armas.

A chamada pós-modernidade não trouxe o equilíbrio, porém uma complexidade incrível. Não sabemos, ainda, enfrentar tantas mudanças. As melancolias, as depressões, as desilusões, as distopias estão passeando pelo mundo. A banalidade do mal ganha corpo. O homem não foge da sua animalidade mais feroz. Será possível? Houve transformações nos hábitos. O caminho, contudo, está com pedras pontiagudas. Culpam-se alguns e inocentam outros de forma cínica. O festival de polêmicas não fermenta diálogos. Os ódios não se intimidam, buscam alvos, pois a tecnologia não é neutra e se instrumentaliza para a guerra. Não faltam ameaças universais.

A história não promete viajar para o paraíso. Não sei nada sobre o futuro. As relações continuam tensas até na padaria da esquina. Promessas iludem, derrubam políticas. Os inocentes são atacados e morrem com seus sonhos. A velha luta do bem e do mal não é uma ficção. Não permute os tempos, nem consagre salvadores. As imagens enganam e compõem o mercado. Numa sociedade dos preços e das disputas, é quase impossível observar a luz. Não adianta se envolver com apatias para não sofrer. Os anjos também se cansaram e os deuses negociam seus ministérios. É preciso atenção e coragem. Desacreditar , em tudo, é o juízo final.

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