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Você tem medo de quê?

As ruas estão cheias de pessoas apressadas. Não sabem seus caminhos ou os caminhos mais agradáveis, Querem salvar o cotidiano encontrando mercadorias ou vendendo sua força de trabalho.A situação é complexa e as mudanças servem para intimidar. O capitalismo consegue se refazer, apesar das muitas intrigas internacionais. Sobra a luta para não se perder nas explorações e tentar sobreviver. A tensão não se esconde e a morte faz tremer quem pensava que o século traria sossego e tecnologias ditas do bem.Zeus contratou seguranças para obscurecer suas astúcias.

Não escapamos do medo.Ele sempre existiu, mas ampliou seu território. Muitas bipolaridades, armas sofisticadas, milícias ambiciosas e governantes tontos. Não faltam teorias que justificam a competição e eliminam qualquer possibilidade de retomar sonhos afetivos. Parece que o pecado original sse encontra em toda parte. Os divulgadores de absurdos se aproveitam das redes sociais. Divulgam que a terra é plana e se sentem portadores de mensagens divinas. Tudo é confuso e assusta. Há planos suicidas e sociedades, melancólicas, imaginando que o futuro será a redenção. Nem todos celebram as alternativas proclamadas pelas teologias da prosperidade.

Navega-se. Se os barcos não encontram tempestades as relações entre seus passageiros vivem sossegos. Mas os mares estão cansados, desconhecem portos, recebem refugiados traumatizados com a fragmentação das suas culturas. O medo pode ser uma saudade de convivências solidárias. Há dúvidas e dificuldades de dialogar. Um silêncio vazio fortalece a covardia ou a necessidade de ficar oculto para não ser massacrado pela opressão. Portanto, a paralisia da imaginação desfaz invenções e a perplexidade traz agonias. Os deuses não se mostram atentos.Talvez, nunca tenham firmado compromissos com suas criaturas. Arquitetam-se para não fugir da monotonia e do narcisismo.

Resta provocar, soltar ruídos, riscar espelhos. Gramsci alertou para as sutilezas das hegemonias. Não há dominantes sem a coerção. As relações de poder se modificam e acompanham o fazer histórico. As imagens são guardadas em celulares.Quem profetizou tal ousadia? Lutos e lutas carregam perguntas, denunciam desigualdades, buscam brechas para se livrarem das repetições do medo. Kafka narrou, como poucos, os acasos e as ameaças do inútil. A literatura sempre inquietou, foi negada por alguns, porém antecipou a narrativa de tragédias e de ressentimento tão atuais. Por detrás das portas, os acontecimentos se constroem e as tramas marcam incertezas. Temos medo de quê? Talvez, dos demônios que abandonaram os frágeis infernos.

A cultura e a ruína

Exercer o poder central é sempre um desafio. Quem pretende calar as rebeldias pode cair sem sentir que a queda está próxima. A história é longa, passa por travessias inesperadas, sobrevive aos desencontros mais ferozes, porém convive com disputas e as polarizações se ampliam.Quem controla o poder sente que há muitos ruídos. Procura meios de construir saídas e não deixar seus aliados desamparados. A luta política não cessa, tem cores confusas, desilude, inquieta.Esperar que, uma dia, ela se encerre é um sonho pouco provável.

Vamos seguindo. Há manifestações de ódio, houve genocídios gigantescos, há sentimentos de destruição e ruínas que poluem paisagens alternativas. Compreender como animais sociais manifestam suas intenções nefastas desfaz expectativas que os labirintos se desfarão. Crescem os caminhos nada lineares e as sofisticações tecnológicos ajudam a agitar negatividades e preparar armadilhas. Diante de tantas contradições, há suspiros de desesperos e medos. A sociedade se fecha, para alguns, que buscam solidões cercados de prédios por todos os lados. Como fazer, como contemplar, como curtir o perfume do sossego?

Os gregos escreveram tragédias e aprenderam a nomear limites. O ser humano inventa a cultura, mas não abandona práticas que desmontam afetos e nos empurram para abismos. Existem milhares de estranhamentos. Os mitos narram possibilidades, multiplicam fantasias, revelam a persistência das dores. As especulações gregas não se foram. Apolo chama atenção de Nietzsche, Freud não nega a importância de Édipo, as modas exploram a arte clássica. Os gregos conversavam, queriam resolver impasses, não superaram, contudo, as relações de escravidão. Navegaram em ambiguidades radicais.

A sociedade não fechou as portas da reflexão, muda metodologias, arruínam lembranças do passado, instituem teorias e ameaçam a sobrevivência da sociabilidade solidariedade. Os suspenses assustam, pois desequilíbrios ocupam corações e as guerras invadem as mínima aventuras cotidianas. Não é fácil sair de perplexidades, refletir que o lixo contamina incessantemente pesadelo mais cruel. Os desencontros firmam temores. A cultura ganha espaços angustiante e apagam nostalgias de paraísos. Por que as agonias permanecem tão ofensivas? A ruína é companheira da cultura? E nós somos inventores de nós mesmos?

As ambiguidades formam a história

Quem se abandonou aos cantos do progresso sentiu que a história se constrói e não está pronta no armário de algum quarto decrépito. Há surpresas para quem se nutre das linearidades e congela a memória. Lembrar e esquecer dialogam. As narrativas possuem a marca das aventuras de quem as escreve. Portanto, não se assuste se, no seu cotidiano, apareçam amarguras de tempos considerados mortos. Tudo se entrelaça. Não há um sentido que anuncia mudanças coletivas desenhadas pela solidariedade. Dependemos dos outros, mas não dispensamos inveja , nem arrogâncias.Existem lógicas que fazem os sistemas funcionarem e garantem especificidades nas relações de poder. Recorde-se que Freud dissertou sobre a compulsão à repetição e não desprezou as fantasias.

A história passa por estradas cheias de abismo, ilude quem aposta na lucidez impoluta da razão e sacode preconceitos adormecidos. Não há como afirmar a nudez absoluta do acontecimento. Mergulhamos em interpretações, somos inventores de hermenêuticas. O mundo que o iluminismo projetou se desfaz. Restam algumas profecias que, talvez, Voltaire apagasse. Há teorias ousadas que se enfraquecem com os assaltos da violência.Mata-se, arrumam-se genocídios e se engessam rebeldias. Há minorias privilegiadas amantes da reprodução de medos e massacra quem desconfia das suas manipulações.

A história não foge das ambiguidades. Os românticos enalteceram a beleza, arquitetaram encantamentos, mas a exploração do trabalho assalariado multiplicava a desigualdade e enchia as urbes de mendigos e de epidemias. Alguma coisa se transformou? As ciências consolidaram conquistas, no entanto, nunca buscaram se conectar com imparcialidades. Os conhecimentos abrem espaços, criam polêmicas, invadem os perigos das obscuridades. Isso é tudo? Por que existe a energia atômica? Por que a miséria não se foi? Por que os totalitarismos tecnológicos? Quem polui a natureza e oprime com seus planejamentos ditos racionalistas?

Os tropeços prosseguem significando que o futuro não é uma certeza de redenção.Quando terminará a história, não sei. Talvez ela se converta no reino da eternidade ou nela habite os mistérios do infinito. O importante é não apodrecer. Saber que há ruínas, que os circos não desistiram de suas acrobacias,mesmo que as lonas estejam todas furadas. Não faltam ordens armadas, preparos autoritários para assegurar disciplinas e riquezas concentradas. Narciso não se afogou. Apenas vestiu outras roupas e convive com encenações nada utópicas. A ambiguidade mora nas primeiras astúcias do pecado original. As religiões prometem massificar as salvações e exaltar redenções monetárias.

Jair: ressentimentos vadios?

Jair provoca polêmicas diárias. Suas falas remetem a preconceitos, tumultuam projetos de reformulação do meio ambiente, exalta as andanças da violência, fere sensibilidades e reforça seus parceiros na construção da ruína. Não surgiu do acaso. Encontrou uma sociedade com polarizações seculares, cheia de desigualdades e mágoas confusas. Tudo servia para atiçar ressentimentos e derrubar sonhos de quem desenhava solidariedades. Ele apareceu na turbulência, mirou o discurso da salvação, se aproveitou da onda moralista, dos escorregões dos chamados esquerdistas. Criou um clima de animação política marcado pela necessidade de vingança.

Contou com ajudas, senti a queda de antigos ídolos e apostou numa sincronia de desgovernos. Trazia frustrações, queria superar passados, armou-se com suas afirmações bombásticas, Consegui se tornar um mito, uma figura quase divina, com a benção de religiões desejosas de espaços de poder. Encontrou-se com a fúria de capitalistas indignados com as ações petistas. Lula tem admiradores, inquieta, promete, porém foi alijado da disputa principal. Não saiu de cena. Jair se cansa de acusá-lo dos desgovernos, sacudindo suas pérolas contra os mais pobres, desprezando os intelectuais, se cercando de ministros com ideias esquisitas. Diverte-se?

A repercussão das ações de Jair assustam, porém mantém uma plateia significativa. Não é difícil estimular o fanatismo quando a fragmentação caminha firmando perplexidades. Não se deve individualizar as idas e vindas da história. Jair segue articulando , comove, agride, não se afasta do barulho. Há protestos internacionais, reações na França, tentativas de denunciá-lo como curtidor do fascismo. Tudo isso gera debates, danças entre o bem e o mal. Quem está preso ao sagrado? Quem subestima o profana? Quem visualiza o suicídio da utopia? Será que o vazio abre espaço para multiplicação da tolice?

As dúvidas se movem, o tempo foge, as apostas atacam os discursos políticos. As permanências das agressividades assombram. Quem comunga com Jair, sabe que o fogo se espalha. É sempre fundamental que a sociedade conviva com disputas. Jair está no meio delas. Intimida, convoca seu simpatizantes que enaltecem a cor amarela. A divisão é grande, o sossego não existe, a luta está na rua, no desengano, nas orações dos que temem. Numa sociedade carente de autonomia, não é incomum que os paternalismo se propaguem e misturem memórias. Jair se aproveita dos espantos, faz recuos enganadores. Não se esqueça das aventuras dele no passado. Os ídolos arrogantes não bebem no acaso e não negam a força do pragmatismo.

Ágatha: a morte se programa?

Ninguém duvida das armadilhas das violências.Elas se sofisticam, ganham espaços tecnológicos, mascaram brutalidades cotidianas. A violência nunca se foi da história. A mitologia mostra deuses irados e vingativos. O militarismo tem adeptos seculares. Os pactos sociais buscam, muitas vezes, estabilidade e sossego, porém as surpresas trazem desgovernos ou as desigualdades estimulam o desuso do diálogo. A violência é ampla e complexa. Simboliza lutas ou inibe reações, inventa turbulências, organiza quadrilhas, infiltra-se nas dominações políticas. Não significa, apenas, o corpo morto, as misérias propagadas pelo fome, a manutenção do trabalho escravo. Há as violências simbólicas que reproduzem preconceitos, justificam racismos, consolidam crenças separatistas e multiplicam as ordem ditas moralistas. É um sinal de ruína crescente.

A sociedade se amedronta, fecha suas portas, gerencia suas andanças, se enclausura.O perigo parece um grande fantasma de garras assassinas.Está na rua, na casa do vizinho, no trânsito, nas moradias abandonadas, nos olhares. A segurança passou a ser, para oportunistas, um negócio atraente. O capitalismo não vacila e atrai muita gente para seus planos de guarda privada. Porém os sustos permanecem e o medo se fixa. Os governantes colaboram para instabilidade e se ligam aos esquadrões que desconstroem e mantêm territórios de poder. A desconfiança se generaliza. Quem mais sofre? Quem é vítima? Quem alicia? Quem simpatiza com os milicianos? Quem fabrica as estatísticas?

É inegável que a sociedade não se despediu das disputas covardes, nem elegeu um ética que satisfizesse utopias. Quem controla os governos promete punir, discute planos, mas escolhe seus parceiros estranhos e alguns celebram a eficiência das polícias pela quantidade de intimidações e a quebra de comunidades carentes de qualquer ajuda. Eliminar quem incomoda a agitação do capital ressuscita manobras fascistas. O pior: muitos silenciam e se negam a criticar e resistir. No Brasil, as noticias nefastas são frequentes, mata-se, cerca-se o desfavorecido com uma crueldade atiçada por hienas fardadas e cínicas

Morreu Ágatha levando seu sorriso. Quantas pessoas não desaparecem sem deixar vestígios? Como sobrevivem os refugiados na aridez diária de seus desmantelos? A história está cheia de invisibilidades. O que se conta? O que se quer contar? As informações circulam anunciando que há controles e tentam argumentar com arrogâncias. O sistema não se move sem invejas e corrupções articuladas. Tudo isso expande pessimismo, fragiliza rebeldias, fortalece privilégios. As minorias alicerçam seus poderes cultivando agressividades e traçando hierarquias. A violência existe e serve para manter concentrações de riqueza e aprisionar sonhos. Quem a festeja se aproxima do desequilíbrio fatal e não observa que o desamparo adoece e tortura. Há cansaços e desmanches no meio de coragens que ainda produzem ruídos e reações. Não custa se abraçar com quem se nega a aceitar psicopatias programadas e oficiais.

As polêmicas de Bacurau e o andar das dissonâncias

Certos momentos trazem alguns anúncios de mudanças, apesar dos desconsolos e pessimismos.A necessidade de reavivar sonhos não é coletiva, pois existem conformismos radicais. Há quem se realize com a facilidade em adquirir bens materiais e fuja das complexidades.A história, com seus registros, exibe vitrines sempre renovadas. No entanto, as passividades se esticam numa massificação veloz. Os anúncios de mudanças servem, muitas vezes, para mascarar desconfortos e manter privilégios.A sedução maior é, para muitos, poder disfarçar as dificuldades. Cria-se um culto ao individualismo, se reforçam delírios consumistas.Faz parte das estratégias de dominação o engano ou a verdade cheia de acrobacias confusas. O campo da instabilidade não cessa de se ampliar.

Não há como se sossegar no reino ambíguo das mercadorias. Mesmo que o valor de troca prevaleça, a busca de identidades é frequente e os corpos tremem. A arte balança imaginários, retoma símbolos, investe em invenções de formas e teorias. Toca no que parecia inerte ou definido.Preste atenção aos movimentos nas telas da TV, aos modelos de comportamentos consolidados, às promessas dos políticos , à sutileza de cinismos frequentes. Desconfie. Não fique, apenas, no lugar comum do cotidiano. Há tempos explosivos no meios das calmarias. O filme Bacurau inquietou. Muitos textos foram escritos, as discordâncias se firmaram e os incômodos estão presentes. Imaginar e pensar sobre a sociedade não é simples. Não é à toa que as dissonâncias ecoam e as perguntas se refazem.As inquietações redesenham geometrias, indicam que as respirações não foram lacradas pela opressão. Há reações e análises e não, apenas, a exaltação dos festivais.

Alguns sedimentam quadros nefastos, outros marcam a permanência de alegorias antigas.Resumir tantos significados é um desafio. Meu impacto foi muito subjetivo. Não racionalizei, nem parti para rever teorias. Senti, sentei, escrevi. Há um turbilhão de ideias, rejeições e o ressuscitar de preconceitos. Há multiplicidades imensas que consagram o indefinível. No entanto, o diálogo se apresentou e a aprendizagem quebra paradigmas ou assinala que as identidades flutuam. Quando a homogeneidade se abala, a imaginação transcende a palidez da mediocridade. O filme trouxe ruídos, sem deixar de machucar paradigmas e sacudir memórias de sonhos agoniados.

É a construção da possibilidade histórica sempre armando seus trapézios. Não foge do passado, brinca com ritmos. Não há como esquecer Gláuber, redesenhar estéticas, ressuscitar desencontros, assinalar a intromissão das novas tecnologias, traçar as estradas das peripécias modernistas.Bacurau tem o mérito de não compactuar com a mesmice, de se lançar no voo das ousadias. Mobilizou, provocou conversas, numa sociedade repleta de jogos de mentiras e agitada por polarizações inesgotáveis. Os momentos da história abalam quando não desprezam as simultaneidades. Surgem as dúvidas e os caminhos cobertos de encruzilhas. Os sonhos e os pesadelos assanham companhias, avisam que o inesperado não morreu Os exibicionismos estão próximos e eles atravessam a aventura nossa de cada dia na busca de nomear os vencidos e os vencedores. Como evitar os que se miram em discursos salvacionistas e procuram se apropriar de julgamentos como donos de certezas? A história , talvez, esteja na última utopia desejada.

O suicídio é coletivo

Cada momento agita dúvidas. Mas há quem se defenda e olhe o mundo com uma apatia sempre comum. Basta-se ou pensa bastar-se. Pouco se liga na agonia do outro. Quer estabelecer a densidade da sua rota, enfeitiçado pelas novidades. Imagina que as reflexões estragam o êxito. O importante é se concentrar nas vantagens individualistas, atiçar as espertezas, sem menosprezar a força das disputas. É o mundo concentrado nas aventuras do eu poderoso que comemora a sua euforia perpétua. Parece uma ficção especulativa, porém não se engane. As andanças humanas se afastam das sociabilidades afetivas e festejam narcismos renovados. A sociedade adoece historicamente.

O suicídio é um trapézio ou a saída para certas agonias? A resposta é fugidia. No entanto, as pessoas se escondem, disfarçam suas dores, apostam nas poupanças, entram em religiões abarrotadas de granas, exigem soluções e falas simpáticas. O cinismo é um convite para se livrar das éticas ou das intermináveis discussões sobre a solidariedade. O vazio político fortalece um tipo de interesse de olhares descomprometidos. Resta ser pragmático, confiar em garantias anunciadas com orações pelas empresas e pelo mercado. Se acontece o fracasso, a solidão se torna insuportável, o paraíso inabitável, o fim da vida se apresenta com uma janela ampla. É Prometeu na pós-modernidade?

O dor amedronta, mesmo a pequena dor física. O narcisismo vende receitas e não alerta para as tragédias. Tudo se cura desde que a acumulação se concretize, deliram alguns. O estar no mundo define regras firmadas por quem domina e interiorizadas por quem não as criticam. A velocidade dificulta o exercício da paciência. A regra maior é não perder tempo, expulsar as ações contemplativas . Quem leu Kafka joga seus livros no lixo. Não sente que o labirinto não permite metamorfoses transcendentes. O capitalismo não desenha, apenas, o material. Ele assalta as subjetividades, idiotiza na massificação cotidiana, desqualifica sem perdões.

Meu desempenho aparece com minha famosa felicidade. Porém, aquelas velhas pedras continuam no meio do caminho. Há quem não sinta os tropeços. Há quem subestime o coletivo e ridicularize o abraço do outro. A atmosfera pesada das incertezas frustra, desfia o planejado. Quando o individualismo se alia aos traços da depressão as alternativas se fecham no largo comércio das farmácias. Não se vê que faltam amparos, conversas, ombros, corpos sorridentes. O suicídio constrói seu império. A sociedade não existe sem o coletivo.As mortes se comunicam.Trazem a cartografia que rege suas relações.Ainda se inquietam as incompletudes primordiais que decretam sentidos atordoados e incertezas persistentes,

Tão distante é o amor

Quem não inventa palavras não segura a linguagem.Fugir da mesmice é ousadia, mas é o desafio maior da acrobacia inesperada. O inventor fertiliza os territórios da cultura, traz possibilidade de não sossegar a mediocridade e de invadir labirintos míticos e indispensáveis. Há palavras que permanecem, porém pedem outros significados e outras práticas. A história é construída soltando pássaros, apesar dos mecanismos de controle existentes. Nada mais rebelde do que o voo de uma palavra nas asas de um pássaro vermelho. É assim que se institui a poesia como lugar fundamental da existência.

A navegação da cultura atrai movimentos de sombras e luzes. É preciso que haja nomeações. O amor romântico não é o amor proclamado na sociedade do consumo. As palavras viajam com seus conteúdos. Respondem às relações que transitam por cada época. Se o amor promete paraísos, a apatia ameaça fixar covardias medonhas e as guerras arquitetam a destruição e a inutilidade da conversa. Não há gramáticas, nem regras que aprisionem o inventor de palavras, O poeta escapuliu dos poderes dos deuses mais ambiciosos. Está para além da criatura.

O amor lembra o toque. Não é a fatalidade de corpos que não se largam e medem-se no cansaço das respirações.Somos porque os outros nos atraem e nos incomodam. O amor é uma forma de proximidade. Está presente em amplos ensaios de salvação do mundo. Todos se dizem capazes da amar, mas não conhecem a cartografia da palavra amor. É fácil fotografar o encanto quando cabe, apenas, na câmara de um celular. Se o encanto correr atrás de Sísifo, segurar as pedras e alcançar a altura que desnorteia Zeus e configurar outras cronologias? Há horizonte para quem transcendeu no sétimo dia? A dúvida é mais sábia que a certeza.

O amor tem sua geografia, seus acidentes, seus vulcões, suas esquinas misteriosas.Toda palavra dialoga com sentimentos. Talvez, tudo isso tenha caído num fragmento desmontado. O toque virou o impulso, a fatalidade desengana os refugiados, o amor se transformou num limite superficial da paixão. Se sociedade celebra a constante troca de mercadorias e se alicerça em contar as datas de inauguração dos monumentos, quase não sobra espaço para que a palavra desande e abrace o incomum. Agonio-me quando perco minha magia para nomear. Parece que um espelho me cerca com imagens de grandes eventos e vitrines disfarçadas em calendários festivos.Há um esgotar-se na multidão das coisas desinauguradas pela distância do amor.O futuro fica na solidão dos olhos que não tocam. O amor se descontempla para evitar a poeira das ruínas.

A sociedade se inventa?

A sociedade produz uma exaltação ao desempenho. Joga-se no trabalho, não há horas para os afetos, se atrela aos negócios e assusta com o fantasma do desemprego. O giro se dá num incansável cotidiano, O fetiche do trabalho é forte, o tinir das moedas traz alucinações. O capitalismo incentiva a corrida. Quem se distrai com o ócio é marginalizado. Esquecer que a circulação de mercadorias inquieta e descontrola, que o corpo não deve parar é suicídio para quem vive as horas de salário ou os acúmulos na bolsa. A invenção dos dominantes é buscar brechas para explorar, justificar as desigualdades, empurrar os privilégios para minoria. A sociedade não abandona as tensões, porque as disputas movimentam e desenham as acrobacias da sobrevivência. Há um alerta neurótico, um desfazer da contemplação.

As utopias e as revoluções estão guardadas em algum lugar. Talvez, morem nos corações dos mais corajosos ou ampliem a imaginação de quem não sossega com tanta agressividade. Os animais sociais se toleram, mas não deixam que as perversidades se apaguem. Faz tempo que não surgem projetos consistentes de solidariedade. As guerras continuam, há economias no fundo poço e governantes que tripudiam de suas posições de poder. Não há como escrever novas gramáticas? O que vale é a máscara da permanência?

Os acenos teóricos decretam o fim da modernidade, a morte da história iluminista. O fetiche da mercadoria venceu e derruba sonhos seculares. As mobilizações consumistas coisificam desejos e homenageiam celulares. Tudo parece celebrar o mesquinho.O conhecimento crítico e ousado adoece e as informações tomam conta das redes sociais. O dogma se transfere para imagens e indignações anônimas. O controle é sutil, mina os outros e multiplica os olhares inimigos. O trapézio age sozinho como se o circo fechasse as ilusões e mudasse para outro planeta. Delírios extravagantes.

Os deuses vestiram outros mantos, possuem profetas perdidos entre o sagrado e o profano. Vende-se a salvação com argumentos banais e se aproveitando da expansão da carência. Se tudo é suspeito quem monopoliza o culto da verdade espalha suas ambições,se proclama o arcanjo das tecnologias de um mundo matematizado de forma vulgar. Há quem se engane ou mesmo não se preocupe com o alcance das frustrações. Não é estranho dormir acuado por pesadelos?As fronteiras se fragmentaram, porque a sociedade não desconfia que as inseguranças se consolidam e as distrações aprisionam a reflexão. Muitos se entregam ao destino.Apagam a memória e codificam a história.

Bacurau: somos histórias

A história é uma tatuagem. Talvez, sim. Mas é perigoso se fixar no singular. A multiplicidade dos traços indica que na tatuagem existem tatuagens que não são vistas. É um sentimento? É uma adivinhação? Ser um só é pouco para complexidade que nos cerca. Somos histórias, somos tatuagens, somos pretensões, somos imensamente inacabados. Tudo isso é um desafio que ultrapassa a mesquinhez narcísica da imaginação solitária diante do imaginário coletivo anônimo. Assim, a sociedade cria suas invenções e espalha seus desejos culturais. Mas a busca não se encerra. Bacurau penetra no passado, lembra as permanências, traz a tecnologia ousada, a morte mais sangrenta. Pede decifrações, nunca definitivas, nem enjauladas num texto ou numa profecia dogmatizada.

As esfinges são fugidias. Surgem as interpretações muitas vezes conflitantes. Será que a violência é moradia do social? Será que o visível não apenas é um disfarce? Se tudo possui significados o que fazer para conhecer o mundo e transformá-lo? O filme traduz concepções que não dispensam as repetições de desenganos e desigualdades. Parece que não há alternativas. Os territórios abrigam invasores ferozes, inimigos de diálogos, portadores da morte, amigo da sede dos outros, do inferno de algum ou de todos os tempos que vivemos.

O pecado se encontra na esquina. Não é estrangeiro, porém fala línguas de ódio. Quer consolidar culpas. se ausentar da tolerância, ensinar a eliminar o outro sem nenhuma cerimônia. A necrofilia se faz presente, confunde as teses dualistas. A pulsão de morte se apronta, se mostra nas cores, nos gestos, nas armas, nos buracos da secura. Alguém dúvida da realidades dos cenários, alguém levou o medo para longe ou é preciso ter medo para que haja mudança? O filme diz que o lugar comum é uma tolice que frequenta cada vida e exige o deslocamento dos tempos, sem ordens fabricadas, com sustos e impactos. A fantasia está na geometria do corpo.

Bacurau lança sínteses históricas, visita perdões não resolvidos, entra na porta da nossa casa. As histórias não são sossegos encomendados. Inexistimos sem narrativas. O difícil é encontrar o começo ou se desviar das armadilhas. A arte se apresenta, então, como uma transcendência que celebra a beleza e a simultaneidade. Deus morreu, não questiono Nietzsche. No entanto, a produção das almas e das incertezas sempre desfaz a possibilidade do ponto final. Interiorizo. A narrativa está na tela com as inseguranças que me tornam passageiro da mundo. Sou cigano e refugiado, por mais que me resuma na intimidade das palavras. Elas também são imagens atordoadas. A travessia da aridez faz o riso tímido do vagabundo de Chaplin me desenhar a forma e o tamanho do meu circo.