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O Apartamento: as imagens da vida cotidiana

 

As dores não passam como um cometa. Persistem. Há dúvidas que machucam e tradições que confundem. Nada de novo no planeta na sua marcha das competições e das vinganças. Um bom filme sintetiza anos de história e traz as sequências instáveis do cotidiano. Não desculpa tensões, mas move ideias e imaginações. A cultura é uma resposta, diálogo constante com a incompletude. Veja ” O Apartamento”, filme iraniano. Belo, atravessado por questões individuais e envolvidas com a história de seu tempo. A globalização tem arrastado costumes, colocado o mundo numa ansiedade imensa. Guardamos silêncios, quase nada se esclarece, porém a comunicação contamina a tecnologia.

O drama faz parte da vida. É preciso que ele não entre sem pedir licença, pois sua permanência tumultua. Os acidentes tiram a rotina, transmitem sensações diferentes, retoma memórias. O cerco angustia. O tema da família continua sendo debatido. O que a perturba? Um casal se desloca devido aos desatinos de afetos? A desconfiança deixa a insegurança solta. Quando se resolvem os preconceitos, as relações se fragmentam. O amor não comunga com a eternidade. Possui circunstâncias, não governa linhas retas, desfaz formas, aparentemente, contínuas. Os sentimentos são mágicos. Os bordados são antigos.

O filme busca cenários simples, não nega a densidade do humano. Homens e mulheres se misturam , teatralizam seus descaminhos, desenham ambiguidades inesperadas. Tudo se resume a um espaço ou as distâncias também viajam com rapidez ? Uma sala de aula, um palco, um celular perdido, uma solidão escondida. O segredo mora em muitos lugares, corre pela ruas, encena tramas, destrói ilusões. As agressões surpreendem, cortam o cotidiano, fixam devaneios. Pensar que elas se situam em um limite estreito é se desviar da história.

Não há fórmulas culturais imutáveis. O mundo se amplia em universos interiores, cheio de curvas e toques. Por que cair num relativismo radical? A dor revela cores, causa desfazeres, requer refúgio. Posso pertencer a uma geografia de tradições seculares ou curtir velocidades demoníacas. Há sempre uma incompreensão tardia, algo que desadormece de repente. No filme, os olhares mostram multiplicidades, a voz da criança traz leveza, a intimidade dos vizinhos inspira escorregões, a cidade é visível e áspera. O movimento do horror descarrega verdades depressivas.O final do drama não é destino divino, nem fatalidade assumida. O cantar a vida é o celebrar a transgressão. Na voz de Rana, a ternura é encanto.

Comungamos diferenças, aproximamos lendas. Localizo-me em lugares diversos, mas sinto que alguém na China se atordoa, que as guerras no Oriente me castigam, que o capitalismo derruba e não pede perdão. O Apartamento se passa no Irã, mas poderia se passar no Rio de Janeiro. Monta questões comuns, sem congelar mesmices. Há sempre um grito flutuando, uma sapato velho com marcas de sangue, um adeus que não se reparte, uma mulher com uma tristeza sem fim. O pecado é uma invenção incansável e a política enferma deforma convivências. Estou no cais com luzes terminais e febris. Tenho ações que se tornaram sonhos, diz o avesso de cada imagem. Fecho a cortina estranha

 

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Galeano: as lamentações de escritos corajosos

Eduardo Galeano foi um combatente de rara lucidez Seus livros deixaram lições contra a violência e o desgoverno. Não perdeu a beleza nas suas acusações e narrativas. Queria um outro mundo, conhecia o avesso, festejava o abraço. Acabei de ler Vagamundo. Um de seus primeiros escritos publicados. Galeano mostra a amargura de uma sociedade tensa, a miséria de não poder amar. As denúncia são fundamentais. Quem se omite é o pressor da esperança. Mesmo que a fragilidade se espalhe, quando se cai no abismo, as relações precisam de gritos de alertas poderosos para findar o pesadelo. Tudo parece perdido, mas a vida está solta, temos tempo e movimento para buscar sossegos. A desistência é cultura materializada e mecânica..

O ano de 2017 traz tragédias constantes. Dá sequência a saga do capitalismo. Os egoísmos não se intimidam, nem a pobreza se esconde. As prisões se multiplicam,  as imagens de horrores atemorizam. Há retornos de epidemias, a ciência não despreza o pragmatismo, as loucuras ocupam as prateleiras das farmácias. É o mundo da drogas. Não só daquelas que derrubam sociabilidades, porém daquelas que reforçam o desmantelo, espalham o consumo. Qual a saída para quem visitar, cotidianamente, os shoppings centers e assistir aos episódios do Big Brother delirando? A carga é grande e a dor de cabeça quebra a reflexão. Flexibilize o susto.

O mundo gira. Seus movimentos abandonaram os desejos revolucionários. Busca-se o mesmo, a idiotice tem um charme esquisito e os celulares não cessam de mudar de cores e aplicativos. Quem se infiltra no seu narcisismo, nem se lembra que existem  Galeano, Rousseau, Mia Couto, Cartola, Freud, Chico… Prefere se deitar em berços esplêndidos e se banhar com as espertezas. Joga a vida para fora de qualquer compromisso. Alia-se com uma destruição covarde que pune quem rouba um pão e inocenta quem seca o dinheiro público. As redes sociais realizam trocas interessantes. Despertam lutas. Não esqueçam também que colaboram para uma mediocridade doentia. Não devemos, contudo, condená-las. Há tantas vitrines enlouquecidas. Firmar um alvo único não é espelho para ninguém.

Se as mentiras exigem espaços e as verdades criam apocalipses, estamos parados no meio do caminho. Não há volta e o futuro se balança com as incertezas. Armar o inventário do que foi perdido, talvez, seja inútil. O sorriso ainda pode ser encontrado,a conversa não morreu. Olhar as profundidades obscuras não é pecado. Pior é vesti-se com as apatias, trancar as portas do quarto para preservar a angústia. O mundo de hoje não é tão diferente de outros mundo que já existiram. Os escritos de Galeano fazem companhia aos de Guimarães, Auster,  Pamuk, Agualusa. As trilhas caminhadas possuem múltiplos desenhos. Inventar não é fantasia. Entenda que o cansaço é humano e a ousadia merece o colo da memória.

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Amores e eternidades

Não diga que as portas estão fechadas.

pois o amor não precisa de chaves.

Não adianta escrever sobre a dor na parede.

elas estão desbotadas e sujas.

Cada instante resume o exílio do sentimento,

desencanta a fantasia secreta do último perdão.

Solte o grito  estranho dos corpos sofridos e tardios

 para expulsar os demônios invasores.

Os amores se perdem nas noite de insônias e

o tempo se vai arruinado pela eternidade dos deuses.

A luz do dia não consegui iluminar o paraíso dos encontros.

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O suspense histórico das conspirações

 

Não há como observar que a história é transparante. Sempre existiram dúvidas. Temos recursos tecnológicos imensos, mas também suspeitas indefiníveis. A escravidão trouxe atmosferas de violências. Desde o início, havia tensões. Ser colonizado é um peso. Isso não passou. Continuamos navegando nas turbulências, com desenganos frequentes. A proclamação da República foi uma surpresa? A renúncia de Jânio foi um drama? As ditaduras eram nacionalistas? Por que se fala tanto que o fascismo está voltando? E os golpes são preparados com articulações internacionais? Quem governa possui alguma referência ética?

Não vamos ficar envolvidos com as perguntas. O Brasil não é privilegiado. Mussolini e Franco tinham boas relações com a Igreja Católica. Os anarquistas foram perseguidos em 1917. A bomba atômica revelou compromissos obscuros.O assassinato de Kennedy se transformou numa novela policial. Conspirar é se infiltrar na cultura política. Mostra as desconfianças. Há sociabilidades, porém circulam armadilhas, emboscadas e a democracia segue cheia de atropelos. As salvações religiosas estão virando um comércio habitado por máfias que apelam para o divino. E o futebol, grande divertimento, não negocia com milhões vindos de estranhos mercados?

Portanto, é preciso não particularizar. As sociedades se sentem ameaçadas por mistérios intransponíveis. Morreu Teori, as penitenciárias explodem, os partidos cogitam construir novas alianças, Temer não perde oportunidades de apresentar suas gentilezas. Não despreze o cotidiano. Centenas de ônibus são assaltados, pessoas se escondem na madrugada, passear transformou-se numa aventura. Não chore só pelos  mendigos que estendem as mãos nos sinais. Já soube dos massacres na Síria ou prefere assistir as fantasias do Big Brother? Há escolhas e apatias, acompanhadas de sacos de pipocas e pizzas especiais. As televisões precisam de férias remuneradas.

Os impasses são pedras que assustam todos. O medo escapa no ritmo de cada coração. Quanto tempo para pensar nas revoluções que arrebentaram o mundo prometendo igualdade e fixaram autoritarismos medonhos? A história não é um conjunto de ações preparadas para reforçar a boa convivência. Quem a criou deve  ser um andarilho mágico, arquiteto de labirintos, solitário. A humanidade inventa para tentar desfazer os sufocos. Conspiram nos paraísos, nas rebeliões socialistas, nos gabinetes do Congresso, nas pesquisas dos professores titulares. Tudo está desprogramado de forma esquisita. Nada garante que os anjos nunca conversaram com os demônios.

Risque os manuais de filantropia, espie na gaveta do armário antigo, fofoque com seu vizinho. Mantenha os olhos abertos, visite as praças, ouça os latidos dos cachorros. Os ruídos anunciam alguma coisa. Escreva sobre suas dores, não represente no meio da rua, rasgue os jornais de ontem. Não acredite que o sossego será soberano. Muita gente, disputas gerais, cansaço e ineficiência dos governos cínicos ampliam o ir e vir. A imprensa adora notícias sensacionais. Conspira para que haja conspiração. Largue a impaciência e se desfaça das sabedorias expostas. Hostilizar é doentio quando aprofunda a agressividade e joga fora as chaves do afeto.

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O verbo ocupar, o substantivo ocupação

             

As palavras acompanham as andanças da história. Nem sempre é preciso inventá-las ou mudar sua vida nos dicionários. Ninguém consegue comunicar-se anulando os múltiplos significados que possuem. Os sinais e a mudez podem ser compreendidos a partir de seus malabarismos. Deus não fez o mundo. Ele o disse, com solenidades supremas: no princípio era verbo. As dubiedades não deixam de existir. O que é mesmo masculino? O feminino é a fotografia da sensibilidade? Por que articular os discursos, se cercar de proteções das gramáticas? O mundo é um conjunto de signos ou o mundo é o mundo, a residência de anjos, demônios e humanos? Não sou apóstolo.

Cada época dança seu ritmo. Há quem goste de valsa, quem se encante com Piazzolla. Não adianta hierarquizar. Quando se falava se ocupe, a casa balançava, a preguiça sorria. Hoje, com outros ruídos, fortes desempregos, descontroles, está desocupado é um suicídio. Deprime, desampara. Buscar o ponto final da história é ser escravizado por devaneios. Há tantas coisas e sentimentos vazios. O movimento é constante. Não adianta se distrair com uma ingenuidade fabricada. Brincar não é mais uma arte. Virou um negócio que desacredita qualquer iniciativa de inocência. Não venda seu avião para um estranho, nem desmanche suas utopias. A confusão é imensa.

O mundo precisa de ajuda e nós também. Os objetos tecnológicos são graciosos, espertos, complexos. Não basta detalhar suas minúcias. Elas terminam sugando a nossa imaginação. O que pretendemos: flutuar no tapete mágico, conhecer as estrelas, desenhar a artista do filme, entregar a pizza do vizinho? Não faltam opções. Estamos nas fronteiras dos limites. Quem ocupa e não reflete pode estar mergulhando no incontrolável. Assim, corre a especulação dos que se julgam sábios. A sentença talvez seja um escorregão. É fundamental, então, escutar a solidão, olhar o próximo, cultivar a autonomia, sentir o afeto descongelado.

O pior é ser ocupado, deixar que a crítica morra.A perfeição não existe, mas há quem a deseje. Todos estão cercados por descartáveis. Os reis não conseguem manter a majestade. Trump promete abalar os Estados Unidos. A ocupação conservadora é uma ameaça a quem curte o voo dos pássaros. Não possui as promessas, nem o futuro. A sociedade inventa sem cessar. Os cansaços são comuns. Não aposte no definitivo, não conspire contra a imaginação. A rebeldia encanta, traz inquietações. Muitos conseguem segurá-la, outros optam pela nostalgia. A vida não tem cartas marcadas. Não se lê livros, como se lê o mundo.

Nunca me esqueço de Édipo. O sofrimento que o marcou não se foi. Corta o corpo, desenha espantos. Os mitos gregos deveriam estar em cada esquina. Seria uma ocupação revolucionária. Já pensou certas pessoas conversando com Prometeu? E a sedução de Afrodite? Mas isso é um delírio. A reflexão fica na vitrine dos condenados,  muitos se vestem de poder quando ainda usam fraldas. Quem resolveria tantas equações? Gostaria de cuidar de um encontro entre Nietzsche, Marx, Freud. Ocupá-los com as angústias da época. Escolheria um lugar sossegado, sem luz, com velas acesas e moinhos de vento.

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Os azares da vida quebrada

Não conto os números que a anunciam a miséria,

detesto estatísticas de economistas considerados profetas.

Não consigo entender o encanto dos privilégios,

nem acreditar que Deus é construtor de paraísos.

Há espelhos sem imagens e quebrados com fúria,

há sedes alimentadas com as águas do pântano.

Os azares do mundo se envolvem com gravidades obscuras,

olho a vida mal dita e desprossigo palavras que enganam.

O mundo apaga as imagens sem pertencimentos,

mas não acode os fugitivos dos exílios das tristezas contínuas.

Queria saber quem fez o barro, quem pintou a maçã,

quem inventou a culpa e o medo, sem se abraçar com o perdão.

O ponto final se balança no colo da última estrela que perdeu a luz.

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Quem conhece o vandalismo, o desengano, as lágrimas?

 

Na sociedade do espetáculo, a moda possui um lugar especial. Ela ocupa todos os espaços e fascina quem quer se destacar. Está entrelaçada com as inaugurações e as novidades. Move-se com rapidez. Adora uma mídia e uma rede social. Mas também provoca escândalos e discórdias. Invade, ocupa, distrai, chateia, exibe-se. Atinge todos os grupos sociais, organiza desfiles, frequenta praias, gosta de aparecer. Estamos cercados por muitas modas. Há vocabulários específicos. Eles se tornam ponto de debate. Já leram sobre a questão do vandalismo? Não pescaram alguma manchete cheia de dubiedades e dúvidas? Observaram o charme dos analistas políticos das TVs? As mentiras assombram e divertem, conquistam os  ares do cinismo.

O vândalo é contemporâneo, surgiu de repente,  protesta ou está na vitrine das políticas? Lembro-me da Idade Média, dos chamados povos bárbaros. Não é difícil associar. Nem todos escutaram histórias medievais, portanto se encantam com a sonoridade das palavras. As interpretações dominam as concepções de mundo. Muitos acham que estamos numa sociedade de tecnologia de rara beleza.. Não tiram o celular do bolso, imaginam  ruídos extravagantes. O mundo não é apenas fascinação. Já pensaram nas poluições, nas favelas, na beiras dos rios, construídas com papelão? O risco das palavras não cria superficialidades?

Existem inquietudes e não sossego. Há quem se esconda, quem tenha guarda pessoal. Os carros blindados enchem os olhos dos milionários. O medo os faz inseguros. Não se conhece o passado como se deveria. Há uma paixão pelo agora, como se a cultura não estivesse manchada pelo tempo. Quem se recorda das Cruzadas, das bombas atômicas, do fim da nazismo? Por que relacionar o povo bárbaro com os desenganos atuais? Os delírios são variados e o desejo de ser herói não se foi. Não vamos cantar versos que não fizemos.Nas esquinas se pedem esmolas e socorro, sacode-se conversa fora e preparam-se emboscadas.

A sociedade e as reações são tensas. Os vândalos tinham outros hábitos, não trabalhavam em bancos, nem disputavam olimpíadas. Lutavam, guerreavam, temiam. Coisas que se situam longe dos espetáculos e das neuroses atuais. Mas há outros perfumes. Por que não explicam a ideia de (res)significar? O lixo e o luxo não são formas de barbárie? Os golpes, as armadilhas, a concentração de riqueza desistiram de desenhar seus espaços? Reagir à exploração não é estranho. Os incômodos acontecem, intimidam, desadormecem. Os vândalos ressuscitaram ou não temos nomes para o caos que nos acompanha? A barbárie de hoje, não desloca a barbárie de ontem. A história é outra.

Somos atores, escrevemos dramas e acasos. Não nos livramos da violência, da destruição, da inveja. Somos solidários  com os mitos que escolhemos. As horizontalidades trazem visões diferentes, redefinem organizações, desconfia da tradição. Não confunda o novo com a novidade. Tudo passa com velocidade e dói quando as imagens chegam abatidas. A sociedade atravessa caminhos que assustam. Não há sentido transparente para as mudanças desejadas. Há ensaios. O teatro fechas as cortinas. As agonias se comportam como se estivessem no divã de Freud. As lágrimas são sinais intransferíveis. Para que vaias?

 

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O poeta Drummond salva o cotidiano

 

Os anos chegam trazendo tradições e expectativas. Todos estavam cansados de 2016. Muito peso nas corrupções, no cinismo político, nas jogadas da mídia. Temos crenças em calendários, cultivamos a ideia de um ano, de vida nova. Faz parte das ilusões dispersas. A violência não se foi, não promete partir. É um ponto marcante da convivência atual. Atinge o cotidiano, mora nos presídios, visita o trânsito. Na política, ela é usada com frequência. O autoritarismo ganha espaço, constrói práticas surpreendentes, mobiliza insatisfações nas redes sociais. Não faltam protestos, porém poucos notam que o sistema que vivemos é traiçoeiro e agressivo. Lançam culpas exclusivas em governos, choram mortes, se vestem de medos.

Atravesso ruas. Muitas ruas. Pouco ando de carro, embora adore uma carona. Na minhas andanças sempre estou atento. Observo detalhes, escuto conversas, faço comentários. Sinto o coletivo. A tensão é grande, os negócios instáveis, a polícia prometendo greve. Alguns tiram de letras. Outros criam cachorros, cultivam armas, saem de casa olhando  o movimento com cuidado. Existem muitas reações. Os preconceitos são atiçados. Comete-se a chamada violência simbólica. Elegem-se pessoas perigosas. As ilhas das suspeitas se multiplicam e o esquisito ocupa mentes nervosas. Por isso que as imobiliárias provocam com suas torres ditas inexpugnáveis.

Falam em selvas de pedras. Apesar do ruído dos carros, a troca de olhares é rara, o silêncio interior está minado pelas inseguranças. Cada lugar tem balanços venenosos. As praças não possuem a distinção desejada. Nela circulam drogas, lavam-se automóveis, vendem feijoadas, plantas, artesanatos. Não é mais um ambiente descontraído. Cães e crianças , muitas vezes, se confundem. Os bancos se tornam camas ou atraem namorados. Tudo é ressignificado. Lá adiante surge um prédio num terreno aonde havia mangueiras. Portanto, o vidro e o cimento buscam estéticas pós-modernas ou anônimas. Assustam e seduzem.

O pão é amargo, o afeto partido. Procuro energias que animem. Sou falante. Conheço as pessoas, solto humores, tento aliviar a gravidade de cada canto. No entanto, tenho minhas covardias. Sou caseiro, canceriano e não ouso frequentar certos espaços. Recolho-me cedo, depois de assistir aos programas de humor antigos. O noticiário político é nauseante. Para que desgastes ou se mirar em anúncios de paraísos? Aqueles que soltam arrogâncias merecem distâncias. Os que aparecem com saberes especiais querem vitrine. Não pense que há sossego definido, sem pressões. O tempo possui malabarismo. O pão nosso de cada dia está com o trigo estragado. Que fazer?

Estou próximo de casa. Encontro com um amigo que adora notícias intrigantes e andar pela praça. Não estico a conversa. Vi as manchetes dos jornais: Temer continua apaixonado por Marcela, novas passeatas denunciam precariedades dos hospitais, professores resolvem abandonar as salas de aulas superlotadas. Eu estava saturado. Queria curtir a Escolinha do Professor Raimundo, aqueles humoristas da minha infância. Lembro-me de Carlos Drummond. Vou ser gauche na vida e ter um coração maior que o mundo. É preciso ter cuidado. Algum deputado pode redigir uma lei exigindo o fim da poesia e a restrição à vende de torta alemã. Tudo é possível. Deus não sabe disso.

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Medos, histórias, palavras

Não me iludo com as gravidades soltas e as vitrines vazias,

tenho medo de flutuar perdido, sem encanto e sem coragem.

Sei que minha história nem começou, cultivo as dúvidas existentes na imaginação

e apago o fogo para não frustrar as mentiras de Zeus e as astúcias de Ulisses,

mas molho os cabelos para desfazer a dor que contraria meu corpo ocupado.

O mundo lá fora testemunha incertezas, classifica sentimentos, pune culpados.

Há refugiados que morrem nas extravagâncias das explorações impunes,

não sabem que vida nunca está pronta, nem se estende por tempos eternos,

ela não chega, sempre parte, abandonando os olhares sem rumos e os futuros escorregadios.

Penso num instante que fugiu, contemplo espelhos que não possuo, risco as sinais de fim desesperado,

esqueço a última palavra que profanou o sagrado do templo solitário.

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Bauman: a vida se dissolve e desencanta

 

O tempo não tem pertencimento. Não há lágrimas que o convença a mudar sua rota. Talvez, nem ele a conheça. Vamos caminhando, de repente um abismo e tudo se finda. Difícil pensar a história, quando a abraça o desejo incontrolável. Morreu Bauman que tinha uma sensatez imensa e criticava o mundo capitalista com intensidade. Sempre as perdas nos trazem reflexões, nos carrega de saudade, nos desperta para a importância de quem se foi. Há quem apenas seja reconhecido com a chegada da morte. Lembre-se de Nietzsche que se transformou num ídolo da pós-modernidade, mas sofre  desconsideração na sua época.

Estar numa sociedade veloz e complexa confunde. Desmontá-la , com análises, é um desafio. Muitos preferem se esconder, inventar teorias desconexas ou explicar tudo pelas idas e vindas da bolsa de valores. Esquecem os afetos, os desejos, as frustrações, as opressões. Bauman não se escondeu dos seu momentos. Tinha a agilidade de um pássaro gigante que voa sem perder os detalhes do horizonte. Vestiu-se com a decifração de enigmas. Incomodava-se com a exploração e a desigualdade.

Uma sociedade que se arrasta em busca do consumo, que se gasta ornamentando aparências, está com a saúde minada. O supérfluo dá ordem e os sem escrúpulos gozam de privilégios. Como silenciar? O pensador não deve acumular passados e desprezar o presente. Compreender o agora, compreender o que está próximo, compreende os traços do narcisismo. Bauman viu modernidade, a falta de consistência, os ruídos da grana, o individualismo extenso e covarde, os corpos doídos com a fome e a sede.

Não se calou. Denunciou. Sua escrita se espalhou. Não era um consenso. Há quem não aprecie suas considerações e as tema. Há pessoas que festejam as ondas do capitalismo com cinismo desmensurado. Bauman desfazia e esmiuçava as aventuras dos sucesso animados pelas propaganda. Entende a crueldade de um mundo que exila, marginaliza, concentra, desperdiça. Sem afeto, como dialogar e criar asas? O amor não existindo, as história se debilitam, as mesmices se instalam, a aridez se torna um território imenso, os valores se degradam com o rugir das violências cotidianas.

As mercadorias não param de apressar seus domínios. E nós não somos mercadorias? Não vendemos ou alugamos a força de trabalho? O que sabemos das armadilhas, dos conflitos, do jogo dos dominadores? As lacunas nos deixam enfeitiçados, acreditando em amigos ocultos. A obra de Bauman aprofunda questões, respira no meio da de poluições, nos toca. Seu texto nos alerta que somos responsáveis pelas disparidades, pelas vitrines macabras. É preciso sacudir a apatia. O sólido se desmancha. Faz tempo que olhamos para o chão, com se o descantamento nos acompanhasse.

Somos os caçadores da arcas perdida ou cavamos um buraco que não tem fim? Paz, Bauman. O poeta não é aquele que faz versos pomposos. O poeta é fundador concepções, não se acanha  com as incompletudes humanas. Administrar a sociedade, tirá-las do sufoco, não combina com a liquidez. Quem pinta os cantos do mundo, quem possibilita o reinício, transcende a massificação e as epidemias autoritárias. Não existem paraísos afirmados. A história se constrói, duvidando do pecado e da eternidade. A finitude e o limite não descansam.

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