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Os homens sem sonhos

Os homens sem sonhos sacudiram suas ilusões para dentro do abismo,

não sabem o que fazer com a insônia persistente e o revotril amargo.

Os homens sem sonhos adormecem temendo as luzes das estrelas,

fogem de qualquer cor que negue o azul e fecha a porta da moradia frágil.

Os homens sem sonho gritam assombrados por medos passageiros.

nem sabem o tamanho dos deuses que inventaram o mundo e o acaso.

Os homens sem sonhos atravessam estradas áridas e detestam sorrisos ,

cantam maldições anunciadas nos infernos escondidos de Ulisses.

Os homens sem sonhos apenas olham os pedaços de corpos feridos,

não conseguem escapar dos limites , nem entende que o encanto é dádiva.

Sentem que há mistérios fixos, no cerne das cartografias indecifráveis.

O deserto é o disfarce?

Abandonaram os paraísos perdidos na farsa do pecado original.

A insegurança da invenção do mundo trouxe disfarces e máscaras,

cantou um absoluto vacilante e consolidou o medo de não amar o outro.

Há uma cartografia de cada momento, das arquiteturas estranhas e o mover de sentimentos de culpa assustadores.

O território da incerteza se expande como deserto sem oásis, brancos e áridos, habitados por deuses sem destinos.

Vivemos apostando em teorias, religiões e desejamos vestir o mundo de anseios surpreendentes, com utopias esfarrapadas e envelhecidas.

O desemparo se mistura com as possibilidades de magia e futuro totalmente alheios ao parecia harmônico e encantador.

Não há como construir o sonho quando os fantasmas se ocupam de cada canto e as estradas se enchem de pedras agudas e hostis.

A denúncia do cansaço exige um olhar para reinvenção das palavras sagradas e voo sobre o caminho que levam aos abismos.

O tratado do medo

Não sei se o medo tem um rosto delineado. Prefiro não cair em certeza e apostar que tudo tem forma indefinida. Escolhemos as palavras, sentimos as suas extensões. Mas será que há geometrias fixas? O que é o medo para quem perdeu a família ou para quem vive no meio de polícias agressivas? Como imaginar as milícias nazistas assustando seus ditos rivais? E as agressões que se sucedem em ambientes tensos e obscuros? O medo tem cor?A cultura revela a multiplicidade, nos assemelha, nos torna estranhos, brinca, foge, desmancha. Portanto, escrever um tratado sobre um sentimento tão presente é mesmo uma tentativa de vacilar e arquitetar imaginações surpreendentes. Uma ousadia sem limites.

É preciso não se deixar levar pela determinações comuns. Por detrás, de um riso amargo mora um medo que alguns conseguem identificar. A história está repleta de espantos, de comportamentos espertos nos seus disfarces para despistar as dificuldades e desequilibrar quem se julga senhor de todos os territórios. Quem pensou as utopias, as justificou, está projetado um outro mundo ou apenas sacudindo no lixo seus medos mais primários? E as religiões? Ela não param de inventar perdões e simular graças nas oferendas aos deuses. A incompletude humana é complexa e balança-se em cálculos incertos. Vivemos a raridade de exatidão, a permanência frequente das ansiedades dos outros.

O inesperado descontrola e atordoa. De repente, coisas desparecem, a harmonia era um engano, os amores eram fantasias nada saudáveis. A indefinição move os ritmos das palavras, exige atenção e distrai o cuidado.O poeta escreve, porém sabe que as figuras nem sempre consolidam o paraíso que o livraria do pecado original. Insiste, para não perder o fôlego e continua a mover a roda da fortuna. Não se preocupe em mergulhar em ironias e dialogar com Prometeu. Observe que as fronteiras são escassas e que a magia existe para confundir e inquietar a estima. O mundo nunca seria espelho de si mesmo.Ele não se conhece.

Temos medo. Os traços dos rostos não garantem uma forma absoluta, mas o coração bate anunciando que a coragem está sufocada. Não há como expulsar o medo da história, nem compreender as relações socais sem constatar as diversas manipulações que afligem e incomodam as fragilidades. O inacabado atiça voos e não admira respostas prontas.Um tratado do medo não teria um tamanho pequeno, seria assustador e visitaria todos os encontros que atravessam as histórias. Talvez, uma obra inútil. Não adianta teorias inesgotáveis. O suspense faz parta das ambiguidade cotidianos. As aparências enganam. O poder de articular desejos sem conviver com frustrações é uma máscara perigosa.

As curvas do eu

Não se ligue apenas nas exterioridades. Há momentos em que o brilho dos espetáculos fabricados apagam o diálogo com as singularidades de cada um. O descartável atravessa a sociedade e escolhe suas aventuras. Vende-se e troca-se, porém não se escuta que há ruídos interiores, conversas nostálgicas e lembranças de longos encontros no passado remoto. Quando o mundo das mercadorias se torna soberano parece que somos espelhos de objetos. Há descuidos e omissões, não entramos nas curvas do eu.

Fala-se em subjetividade, nas possibilidades de se construir imaginários. O mundo se enche de jogos que referenciam a superficialidade. A política deixou de ser o cultivo das relações solidárias ou talvez nunca tenha sido.As sociabilidades navegam, inventam aproximações, não se afastam de intrigas. Não se observa que as complexidades mostram que as desconfianças se misturam com as incertezas.Solta-se o trapézio do sonho como se fosse uma salvação. No entanto, as simulações não se vão e a sociedade se alimenta de olhares coisificados.

As curvas do eu não são vistas. Somos, muitas vezes, desconhecidos de nós mesmos. Há pressa para definir planejamentos. Quem se delicia com eles? Quem se lança nas travessuras da solidão para tentar decifrar o ritmo do desemparo cotidiano? Se tudo não passa de uma linha reta, a história é mudez e calendário de velhos acontecimentos. É na dimensão curva, no seu desequilíbrio, que as reinvenções devem ser atiçadas.

A modernidade trouxe o feitiço do progresso, afastou deuses de seus templos, contemplou a razão como alternativa para refazer valores e distrair agonias. Hoje, há desencantos que assumem lugares massificados e fecham as portas da ousadia. A mesmice veste corações e mentes, os medos negam os escorregões. Se a incompletude nos acompanha, a cultura está longe de ser linear. Há perdas, descontroles, pesadelos. Cada palavra consolida um escrita que tem vários significados. Desenham curvas e aposta na superação do homogêneo permanente.

As derrotas da memória

Não se negue a escutar as surpresas das memórias derrotadas,

elas revelam o tempo desfeito das melancolias persistentes e travessas.

Pense na razão que buscou solucionar as agonias com fés geométricas

e desejos de inventar ciências incomensuráveis e progressos sem destinos.

Descartes quis desenhar um mundo da clareza absoluta,

não suspeitou dos vacilos, nem se negou a anular as orações dominantes.

Imagine que a história é um trapezista ausente de um circo perdido na curva,

que não consegue sacudir os restos de ruínas anunciantes de revoluções fracassadas.

Há no espaço desconhecido dos labirintos mitos apodrecidos e dores fortalecidas pela nostalgia do desengano..

Não se culpe, o mapa da vida é indecifrável e lembra o silêncio escuro de quem julga saber das profecias e lamenta não ser vizinho dos deuses.

A nudez obscura da história

Desde os primórdios se fala de nudez. Hoje, muitos buscam ou prometem transparência. Na época do Iluminismo, se cantava o poder da razão e a possibilidade de mudar a sociedade e consolidar um saber indiscutível. Aconteceram grandes revoluções, as relações se modificaram, a economia acenou com o progresso, contudo surgiram novas dúvidas e desconfianças sobre o que significa a entrada do capitalismo e a exploração do trabalho,. A miséria ocupava porções importantes do mundo e a competição procurava estimular as invenções de mercadorias. Uma globalização se desenhava com traços tortos que ainda permanecem. As críticas assanharam utopias, Marx compreendeu as dissonâncias avassaladoras e Nietzsche se convenceu que os valores se esfumaçavam na cultura ocidental.

As transparências eram ilusões e as formas de enganar se sofisticavam. O mito da nudez se entrelaçava com as lembranças do pecado original. As lendas continuavam e o sentimento de culpa trazia reflexões que Freud aproveitou para analisar o lado obscuro de nós mesmos. Não é à toa que a sociedade se abalava e sentia dificuldade de estabelecer a igualdade e a fraternidade. Os sonhos se sujavam com os pesadelos, as rebeldias não voavam e a modernidade consistia em mais uma complexidade. A ciência seculariza os saberes, porém as religiões não se distraíam e navegavam entre incoerências e orações.

O século XX atiçou confrontos, não deixou de lado o narcisismo e articulou opressões.Quem pode esquecer o nazismo, as torturas dos campos de concentração, as intolerâncias políticas, as vacilações da Revolução de 1917? As guerras consolidaram violências preparadas com sagacidades inesperadas. Quebra de solidariedades, fechamentos de portas para democracia e a nudez vestida para continuar cultivando o mito do progresso. Como compreender tantas desavenças, escravidões cotidianas, depois de acenos para se livrar do mal estar que atormentava os seres humanos? Muitas teorias, especializações, escritas codificadas.

As práticas se mantêm e assustam. O desemparo visita corações e as depressões se instalam. As ruas se enchem de farmácias, as doenças apresentam metamorfoses estranhas. O lado obscuro existe e tem uma cartografia que confunde. Não há como vencer tantos paradoxos, nem revelar o caminho para decifrar as possibilidade de realimentar alternativas para expulsar os ressentimentos. A história assombra, não se compõe sem delírios, se expande com dores e se afasta das arquiteturas do paraíso, Vivemos no meio de ruídos. A nudez é castigada ou os limites não se irão dos encontros que passeiam pela história. Freud morreu desacreditando os chamamentos da esperança. Alguém se reinventa numa sociedade de valores que celebram e justificam autoritarismo? Talvez, nem Freud explique. E você?

O mundo se olha e se espanta

Tantas são as expectativas que os espelhos se tornam escassos. Os olhares se multiplicam de forma acelerada. Cada dia é um dia e não dá para confirmar calendários. As incertezas nos visitam. Os discursos buscam misturar complexidades e mudam de tom com aspereza ou sensibilidade inesperadas. O passado aparece e lembra que houve hecatombes, pestes, guerras, rebeliões, durezas, fugas, mesquinharias. Nem por isso as utopias se foram, mas sofreram abalos radicais. O que fazer com as competições e as intrigas? Como acuar os pesadelos e sair dos labirintos mais escuros?

Os saberes se consagram como novidades.É um perigo. Não custa dialogar com Benjamin e observar a força da experiência. A tecnologia traz curas, mas também desfaz possibilidades de punir as competições. O peso do valor de troca enaltece mercadorias. Não esqueça do que Benjamin afirmou nos seus escritos. É preciso desconfiar do efêmero, desenhar relações sociais afetivas, sentir os outros, carregar cores que iluminem os instantes. Seduza-se pelos poemas de Neruda e analise quem foge da mesmice. Camus mostrou as idas e vindas do absurdo, as revoltas, os abandonos, merece sempre espaço nas nossas mentes.

O espanto é um deslocamento. Chama para o desafio e flutua acima do homogêneo. As singularidades garantem que os espelhos se renovem e movam imagens de encantamentos. Assim, a história segue não adivinhando o futuro, porém questionando as cartografias que podem ser refeitas. Os mitos primordiais não abandonam o mundo, as tragédias balançam nossos desejos e moram nas nossas incompletudes. Quem despreza Prometeu? Quem nega o sofrimento de Édipo? Quem se alerta com a solidão de Narciso?

É o olhar de cada um que arquiteta a escrita da história e compreende que a palavra ajuda a desfiar mistérios. Não há como fechar as cortinas do mundo, desmontar cenários que nunca envelhecem. As lições existem, as permanências anunciam aberturas para repensar o que incomodava e tirava o sono. É o diálogo que atiça a história, é o imaginário coletivo que sacode as poeiras do mundo e ferve o prazer do texto da lucidez. Respirar faz transformar a atmosfera, despoluir as amarguras e ressuscita as saudades que que batem no paraíso e consolidam os entrelaçamentos dos tempos. Nada está agarrado radicalmente pelo exato, tudo passa pelas coragens das incertezas do acaso. Há voos e asas poderosas, resta contemplá-las e firmar o desejo de não cair no mesquinho. O espelho é o outro?

O encanto se reinventa

Cada vida não se esconde nos abismos das divindades atônitas,

há sempre surpresas que desmontam as aventuras predestinadas.

O mundo não se cansa de inventar geografias e territórios desertos e

as fronteiras exigem imaginação e saltos de artistas decadentes.

Não se sabe a largura dos caminhos, nem os tamanhos das pedras agudas

na brecha do cotidiano a reinvenção não esmorece, nem se vai como vítima final.

Os encantos não se intimidam e desenham suas geometrias inesperadas,

cada vida não é uma única história, mas uma dúvida de espantos e astúcias.

Disfarces do consumo, afetos desfeitos

Os festejos trazem o gosto de amarguras escondidas. A sociedade se movimenta sem saber que perdeu solidariedades e estraga sua imaginação na busca de consumos. Simula confraternização, visita lojas, se distrai com fogos, inventa amigos, passeia por shoppings desenhando paraísos. Uma fábrica de disfarces multiplica as astúcias do final de ano. Há quem aposte que tudo será resolvido e sacode a sensatez na lata do lixo. Fica no delírio do espetáculo superficial, na sedução das propagandas, na embriaguez de uma grana passageira.

Nem todos curtem tanta ansiedade preparada para ampliar alegrias anunciadas pelo capitalismo que estende fantasias, mas não inibe as desigualdades, É esperto na produção de objetos, tergiversa para não se mostrar absoluto. A celebrações concentram grupos e aliciam privilégios. São duvidosos os perfis da felicidade, porém são insistentes os jogos das ilusões. Há quem não observe a força das fantasias entrincheiradas nas vitrine brilhantes.

São as acrobacias das relações sociais que não cansam de estimular culpas e pecados. Tudo possui significados. É a andança da cultura, com suas nostalgias, seus contos de fada, seus olhares iluministas. Assim passa o tempos, se acedem os afetos, se disfarçam as agonias. Para isso fomos feitos, sem selo de segurança, no meio de deuses que mudam de templos. As complexidades não se exaurem, os festejos não deixam de existir. A dúvida permanece ativa num turbilhão que não tem regras fixas e arquiteta moradias em todos territórios. Não se atormente. Há desertos e sedes. Converse com a solidão e sinta a sua escuta. Ela tem magia.

Octavio Paz e a palavra

não canse a escrita com palavras sem sentimentos,

não formule códigos de destinos com a nudez de calendário burocrático,

consulte o poeta e se amplie nas metáforas encantadas e incertas,

escreva com a magia de Octavio que refaz o mundo e desafia os mitos,

não se amesquinhe nas teorias dos saberes planejados e acadêmicos,

prefira o silêncio sublime, o traço reinventando, a vida paciente,

cada dia é um dia, cada criação um desfazer da monotonia, a porta entreaberta ,

há muitos labirintos na esquina das moradias sem donos e no colo de quem não ruiu no medo do desengano.

na astúcia de Paz um desenho que estica a escrita e se salva do desprezo dos preguiçosos e soberbos.