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Minha dor e as dores do mundo

Sinto que o corpo se transforma em cada travessia da história. Não é algo veloz, conturbador. Existem variações. A chamada evolução das espécies causa perplexidades. Existiria cultura sem movimentações no corpo, sem desafios no enfrentamento com as hecatombes ecológicas? A luta não é estranha. Os animais se digladiam, uns expandem ferocidades e sabem construir armadilhas. Os seres humanos buscam estimas que os fazem especiais, nem olham para os desequilíbrios e multiplicações da disputa pelos mercados e seus descontroles.

O corpo dói.Anuncia viroses estranhas, estreita certas ações, mas também se inventa no surgimento de modas, de vestes exóticas, mudanças nas sexualidades. Tudo ligado aos transtornos e fascínios da globalização. Não faltam disfarces, técnicas cirúrgicas, crescimento de rede de academias para mostrar vitrines e conquistar adeptos e envolvimentos com suplementos e vitaminas vendidas como novidades indispensáveis. Muitas idas e vindas sem sucesso ou provocadoras de acasos.

Antes, era o amor perdido, as feridas das batalhas, os sacrifícios para atrair os deuses. Hoje, fica difícil definir a necessidade maior ou a ambição incessante. A sociedade mistura culturas, não consegue articular saídas. Perde-se na quantidade, explora preços, promove marcas, apesar de não se negar a escravidão no trabalho e a miséria que rompe salvações. Minha dor revela ingratidões, o fim de afetos que pareciam firmes. Não é um imagem única, porém um registro de lacunas que atiçam incompletudes perenes.

O mundo sem dores inexiste. O sonho de mundo com paraísos também corre por imaginações nunca ausentes. Não é sem razão que se afirma a força das vaidades e a possibilidade de tecnologias que fecharão as portas dos limites. Portanto, as incertezas passeiam pelos territórios imensos da sensibilidade e inventam metafísicas. Não há como finalizar as escritas, consolidar cartografias milagrosas. A dor não se cansa, se socializa, deixa que pesadelos atravessem as noites das estrelas desesperadas. Você escolhe ou esconde a sua dor? Seu trapézio é leve?

Despertencimentos

Se a história anuncia que o tempo não tem paradigma fixo, não é bom se desfazer das aventuras da memória. Pertenço a quem? Sou de que época? Quem me puniu com as alegorias do pecado original? Procuro pertencer a algum tempo ou mesmo sentir que o outro me faz olhar as histórias como ponto de identidade. Mas a multiplicidade se espalha. Posso afirma que Descartes encantou a racionalidades e que Freud trouxe reflexões inesperadas e atordoantes. Você pertence às geometrias de Descartes ou desafia os dogmas religiosos com ironia?

São andanças que não fogem de perguntas. Não eleja a quietude como a vestimenta do cotidiano. Cada dia significa uma explosão e não uma animação do progresso.Marx denunciou, Nietzsche sacudiu os valores, Hitler delirou com a possibilidade do horror. Portanto, achar que tudo se resolve com uma escolha é muito simples. Atravessamos ruas perigosas, mas montamos quarentenas nos quartos escuros de moradias abandonadas.

A quantidade assusta, pois mostra que as divergências não cessam. Quem estimula uma homogeneidade fica tonto, se desengana, acredita que a história termina como juízo final. Conte cada história sem ansiedade. Amanhã é um talvez e as notícias parecem não ter compromisso com a verdade. Tudo é mesmo confuso. A loucura não é o despertencimento. A loucura é uma travessia que não se fixa num ponto final e desconfia de deuses parasitas e distraídos.

Não se nomeie. Imagine que nasceu e não pediu para permanecer num mundo que se estende, porém é invadido pelo anônimo sem cerimônias programadas. A história não é destino, nem os anjos se interessam pelos pecadores ingratos. Há muitas respostas feitas para deixar a vida se enfeitar e evitar que o grito da carnaval seja o anúncio maior de felicidade. A escrita afirma que a palavra traz um azul que dialoga com os quadros de Magritte, O surrealismo muda e se agita o comum. Livre-se da agonia e das certezas seculares.

Miragens azuis

Não sinta o peso da cura agoniada, distante do afeto e do desejo.

Olhe no quadro azul de Picasso,as mulheres apressadas buscando a fertilidade sem limite.

Curta o tempo que não é seu e pertence a um passado que não morre, mas dança e brinca como um anjo.

Atravesse a avenida na última esquina sem placa de anúncio no silêncio de uma noite nublada.

Esqueça os absurdos, as roupas brancas, teça os acasos, desenhe tatuagens no seu corpo flutuante.

Mire no espelho a imagem única da vida que se estica espertamente.

Sua história é o avesso do seu destino.

A solidão no mundo do desamparo

As vaidades não deixam o mundo e se materializam nos ganhos de quem celebra privilégios que isolam suas riquezas. O mundo desanda porque os ruídos do desamparo se estendem.As escolhas por disputas, por tecnologias que fabricam bactérias mortais, desmontam sociabilidades que poderiam supera as desigualidades e joga as armadilhas ensaiadas em laboratórios. A representação da solidão romântica, carente de nostalgias e paisagens azuis se debilita. Organiza-se uma sociedade que corre e não escuta. Os olhares são desconfiados e as ameaças desfazem as imagens de ânimos.

As ficções científicas parecem firmar suas profecias. Ninguém acreditava em computadores reveladores de segredos, em estudos para consolidar opressões imperialistas disfarçadas na exaltação do consumo. Portanto, a solidão registra a expansão de caminhos silenciosos. Não se ouve diálogos, mas estranhos murmúrios. Não é a solidão que penetra no eu e busca revelações. É a solidão do medo, da palavra solta e desconectada, sem a construção do sonho.

Os espaços são estreitos, as moradias mantêm as portas, os elevadores são mudos. As ruas se movimentam e pessoas como objetos mecânicos se fixam em vitrines.Querem espelhos para identificar seus traços e se reconhecerem. Este é o significado maior do desemparo. Os mapas dos esconderijos valem como terrenos de esquinas para edificar torres. A velocidade tritura as memórias. O ontem fica distante, não há dias , porém instantes que mascaram o tempo.

As travessias da história surpreendem e erguem enigmas. A complexidade não é uma invenção, ela cerca a vida, confunde. As proximidades são físicas e despidas de afeto. Enganam. As linguagens afirmam o que os poetas desconhecem. As fórmulas, os códigos, os alfabetos proclamam o fim de compreensões que pareciam comuns. A solidão e o desemparo erguem um mundo de obscuridades, desenhado de moedas, de monotonias. Há quem sinta brilho e arme sua idolatria. O animal social decreta falências, porém não desiste de atiçar sua cultura.

O genocídio silencioso

A população cresce de forma assustadora, mas os privilégios sempre se tornam senhores de uma minoria. Não há perspectiva de que a globalização harmonize as relações e que entrelacem suas descobertas. A tensão segue abusando de armadilhas. A dor dos refugiados traumatiza, mas enriquece quem não se toca com a morte dos mais pobres e trame espaços que ditem qualidades de vidas desiguais. É uma saída para manutenção de impérios, para consolidar fragmentações e promover silenciosas estratégias nada fraternas. Estamos longe de palavras de ordem que lembrem utopias.

As epidemias arrastam multidões para agonias. Os aeroportos fecham, as máscaras escondem os rostos, as especulações não negam perigos tecnológicos ou mesmo práticas de destruição do outro. Portanto, a desconfiança coloca as relações internacionais numa ponte que balança sem cessar. Quem ganha? Quem perde? São estranhos os limites tecedores das políticas. A questão é justificar preconceitos, organizar ataques bélicos, surpreender para dominar.

Não se trata daquele holocausto de guerras passadas. A história pede descontinuidade que iniba covardias e estreite possibilidades de superar o desequilíbrio. Tudo parece conviver com os paradoxos persistentes. Há quem não tolere proximidades e estimule intrigas. É claro que o cinismo se alarga. As sociedades se estranham, as verdades buscam caminhos desencontrados, as pedras permanecem no meio do caminho como bombas, os gabinetes acesos preparam esconderijos e planos assassinos.

O silêncio traduz, muitas vezes, quedas astuciosas.Convoca-se a memória atrás de refúgios. Será que a comunhão nunca existiu? Sera que necessidade depende de políticas vaidosas e centralizadoras? Desfazer-se das dúvida não combina com tradições milenares que reforçam intrigas religiosas, racismos perversos, sonhos confundidos com pesadelos. A eliminação do outro não é uma manchete atraente. O engano articulado costura histórias que massacram maiorias e mostram ruídos invisíveis.

Metafísicas desarrumadas

O ser ou não ser está longe do ensaio da metafísica vulgar.

o ser e não se toca na intensidade da incompletude ambígua.

A reflexão não escuta o malabarismo dos desejos e o silêncio

é a matemática de um cosmo que antecede a visão do paraíso.

Não meça, não responta, não invente a escrita que não cria mundos.

O corpo é cigano e o sangue é mistério do enigma veloz e suicida,

se localize no cais que desenhou as estrelas e fugiu para o sempre.

Venenos estranhos

Nada terminou.

Lá,no fundo, há muitos sobreviventes e não aconteceu o fim do mundo.

Enganos fatais, venenos carnavalescos e travessos.

Tudo é uma ilusão labiríntica, um imaginário coletivo e anônimo.

Deus prometeu o inexistente, criaturas soltas traumatizadas pelas intrigas que se escondem no pecado de Adão.

Não se despeça, nem fuja, desacreditando dos anjos guardadores do acaso,

tente escrever sua história sem a nudez das sepulturas e o peso do julgamento.

Nada terminou, se o suicídio anuncia a possibilidade do desespero e Camus não nega o absurdo e a rebeldia permanente.

Não esqueça que o corpo conhece o perfume do pertencimento e se distrai com o delírio da madrugada infinita.

O veneno é o desejo do apocalipse que não chega.

O amor não se costura, se borda

Ninguém consegue fechar uma definição para o amor. Adão e Eva deviam ter amplas discussões, Freud se atormentava com os complexos cotidianos, Nietzsche vivia especulando, Édipo simbolizou histórias de perplexidades. Não há registro de silêncios. Leia Mia Couto, Gabriel, Rousseau, Camus, Paul Auster. Quem se omite? Quem se conecta? Quem se agonia? Talvez, haja mais divergências soltas do que harmonias construídas. Não faltam contradições, porém surgem reflexões, desejos, sonhos, futuros. O amor não cessa de provocar e de inquietar. É o território das magias mais impossíveis.

Necessitamos de acender a sociabilidade. Como não conviver? Como negar os outros? Os espelhos se espalham pelo mundo. Quem sabe se não existe o par perfeito ou se trata de mais uma ilusão na cultura da incompletude? A história traça suas linhas, alguém remenda tecidos esfarrapados, alguém borda um lençol com figuras vermelhas. O encanto se localiza no paraíso das buscas de riquezas solitárias? Quem se envolve com a sabedoria e compreende que todos possuem limites? A perversidade se converte ou é um armadilha de pedras sepultadas no inconsciente?

O amor não ignora que as lacunas constituem cada ser. Não há como se sentir senhor do cosmos, quando as sociedades não superam desigualdades e estimulam intrigas. O amor é bordado, arquiteta a solidariedade. Não é possível acreditar no outro, se a desconfiança se torna a ordem do mundo. Somos ambiguidades. Iguais e diferentes. Há fascínios e há perdas. As descontinuidades nos alertam para complexidade das histórias que inventam cada respirar. Lembre-se de Italo Calvino, do tango sedutor de Piazzolla.

Não adiante estimular dificuldades e soltar as inexistência. Se a palavra circula, dialoga, institui, vamos investigar, atravessar superficialidades, não se descuidar. As incertezas não justificam omissões. Não haverá moradias com portas totalmente fechadas. As fechaduras não são eternas e as chaves se perdem nos oceanos. Não se fixe nas imagens de labirintos imutáveis. Observe o pós-moderno e o desencontro das teorias. Identificou suas singularidades? Será que Deus é poderoso ou se sente pecador? Não esqueça de aprender a bordar e a vestir uma camisa colorida que se apaixonará pelo azul de corpo desconhecido. O trapézio não está apenas no circo.

Tudo tem uma história

Não esqueça que a sociedade se movimenta.Ela constrói relações sociais, consegue aproximar valores ou mesmo anular memória. Não há um absoluto, um tempo interminável, perfeições permanentes. A história é um trapézio veloz e o futuro sempre cheio de incertezas. Existem os modismos, as aparências, as necessidade fabricadas, os interesses conflitantes. Os sonhos surgem e se vão, com contradições nunca longe de atingir projetos e desfazer parceria.

Fala-se, insistentemente, no fascismo. Não se trata de vitrine vazia. Busca-se o século passado. Ninguém nega que a violência que invadiu as primeiras décadas do século XX. O autoritarismo se espalhou. Nem mesmo as experiências socialistas fugiram das intrigas e das armadilhas.Muitas perseguições, intolerâncias, assassinatos, disputas marcadas pela crueldade, colonialismos ativos e traiçoeiros.

O fascismo anima certas pessoas. Gostam da ordem, da opressão, da egolatria. Os preconceitos culturais se atiçam com justificativas mesquinhas. Uma esquizofrenia geral que toca e assusta as sociabilidades. Jair curte agredir. Celebra o passado das ditaduras como uma grande festa da política. Possui seguidores fanáticos, conquista evangélicos, exagera os dotes salvacionistas.

Visite a memória, observe a degradação, as guerras mundiais, os crimes cinicamente elaborados por cientistas. Lembre-se dos campos de concentrações, dos delírios dos racismos. O retorno do fascismo é sinal que as vinganças se firmam. O poder se consolida atraindo, seduzindo, dispensando racionalidades. O diálogo com a história, traz lucidez, desperta desejo de olhar cada fragmento da vida e pensar nas possibilidades. A violência tem o desenho do apocalipse. É uma ameça que desencanta.

Amanhã vai ser outro dia?

Chico fez uma música que sonhava com mudanças. Era uma resposta aos autoritarismos tão presentes na história. Apesar de você possui um lugar precioso nas lembranças inquietas. Não morre, anima, puxa esperanças, desarruma os acomodados. Chico é artista raro, profundo, comprometido, inventa e seduz. No Brasil, as políticas giram de forma surpreendentes, com se existissem grupos formados para firmar interesses opressores. Chico sabe disso, basta ouvir Construção, se lembrar de Acorda Amor.

Não faltam versos que criticam a sociedade da competição e da desigualdade. É importante que a arte não perca sua luminosidade, sacuda, mostre as possibilidades, as brechas de se abrir para alegria passar. Mas não se pode negar que permanências perversas continuam perturbando. O outro dia para celebrar o fim da intriga, esticar a solidariedade, demora e desfaz sonhos. Não adianta anunciar o território da democracia, quando o domínio das marcas vende ilusões constantes e passageiras.

Difícil escutar os ruídos de rebeldias que façam tremer a ordem dominante. A lógica do capital se organiza e expande cinismos imensos. Promessas se infiltram para minar quem se agita para arquitetar iluminações e derrubar armadilhas. Há toda uma articulação que distrai alguns, coloca poeira nos olhos de multidões, multiplica o individualismo, profissionaliza o estelionato e manipula a história.A arte não deve naufragar no mercado e se expor como soberano objeto, debilitando a invenção em troca de grana.

Chico canta, cria, não vacila. Traz desejo de superar impasses esquisitos e espaço para tantas desfazer cronologia antigas, escravidões persistentes e atiçar as acrobacias. O amanhã deve trazer o movimento de pular o medonho, de afastar os preconceitos. Não esqueça que para sempre é sempre por um triz. A história é ambiguidade, se traduz também nos anseios do poeta. Adormecer no pesadelo é eleger um futuro mínimo e desconectado.