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A poeira do caos

A poeira vermelha do caos enche os olhos de lágrimas,

o mundo permanece indefinido como um deserto.

Não meça a culpa, nem estranhe as utopias enfermas,

a ilusão corre com uma razão desfeita e melancólica.

Cada aventura do tempo é desenho de curvas antigas,

o futuro não existe quando o sentido se fragmenta.

Sei do amor a incerteza que apresenta pálida,

a história que não conta perdões, mas desprazeres.

Nem pense no peso cruel das bombas atômicas,

nem acredite nos anjos sem cores e apressados.

Há inconscientes transtornados nas falas de Édipo,

não acene para esfinges, corte a verdade anêmica.

A poeira do caos se pinta com o vermelhos desbotados,

amedronta as flores dos jardins decadentes.

Testemunho, com a escrita, o reino da incerteza cristalizado.

 

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Jomard: as escritas afetivas do mundo

Rebelar-se não é sacudir o passado no lixo. As referências existem e não há como anulá-las. O mundo atual se perde quando deifica novidades e celebra consumismo doentio. Mais do que nunca, é precioso estar atento e forte. A mentira não  se vai e as ambiguidades ganham espaços incomensuráveis. As lutas se confundem com ódios mesquinhos. Não há como se livrar de um bombardeio de imagens que nos tornam cegos. Fomos tomado por pragmatismos apressados, pelos modismos descontínuos, pela preguiça das drogas delirantes. O movimento é ocupado pelo discurso vadio, pela agonia dos que se fragmentam com tonturas velozes.

Gosto de ler Italo Calvino. A escrita dele é fascinante e incomum. Não se esgota. Há escritores que fogem de um tempo definido. Merecem saudações constantes. Quem não leu Calvino deve mergulhar com urgência nas suas fantasias e polêmicas. Traz ânimo e fura a mesmice. Mas nem tudo se encontra desgovernado. Há pontes na literatura que animam o desejo. Assisti, sábado, a um filme sobre Jormard Muniz. Olhei com deslumbramento  todas as coisas que ele propõe. Jomard desafia, inquieta, não perde a sabedoria do humor. Não aprecia calmarias, contudo não se acanha com os afetos. O mundo é vasto e estranho. As diferenças não são inimigas do diálogo

No seus acasos, ele traça linhas curvas e surpreendentes. Os territórios estão para além do ontem, porém não adianta quebrar o passado. A nostalgia possui um lugar, junto com os escândalos e os sonhos iluministas. Jomard dança o ritmo do seu tempo, sem alijar a simultaneidade. É profeta dentro dos limites da história do agora. Difícil definir sua obra. Talvez, inútil querer enquadrá-lo. Quem se conhece sabe que o interior toca no exterior. Não há fronteiras e a linearidade pode ser um suicídio. Adão e Eva nunca escutaram as vozes das serpentes. Tudo não passa de uma lenda desbotada, para acender culpas e igrejas e punir a afetividade entrelaçada. O que diria Calvino conhecendo Jomard?

Aqueles que reconhecem os labirintos, não negam a incompletude. Mexem com os céus e os infernos, As possibilidades flutuam como um tapete mágico. Não cabem comparações exatas entre Calvino e Jomard. Seria sacramentar o absurdo. É importante observar como o mundo se inventa, quando derrotamos as fabricações opressivas. A literatura multiplica a força da palavra.Seduz e combate Nem todos conseguem desenhá-la. O mundo submerge, porque os códigos imprimem máscaras sem cores. Substitui a tristeza, pela devassidão das mercadorias.

Quando Jomard escreve seus atentados poéticos mostra que os labirintos podem ser percorridos sem amarguras. As incompletudes fazem parte da vida. O onisciente é um desejo de deuses atordoados com suas criaturas. O mínimo não é a escravização do impossível. As palavras anêmicas despedaçam o corpo e nos empurram para a tolice. A existência de escritas favorecem a mudança de lugares e a ampliação de perguntas. Jomard é um construtor de tempos. Contemporâneo e ousado como um pássaro que desfiou a gaiola. É um trapezista de um circo com teto de estrelas. Feriu o preconceito e o tempo morto.

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A violência não tem medida: machismos, guerras e cia.

Fala-se em civilização. Juntam-se ordens. As culturas se organizam para descobrir mundo. Fundam-se instituições. O cuidado existe, precariamente, mas muitos esquecem que o homem é o um animal social. Possui sofisticações e tatuagens mascaradas. Desafia verdades tradicionais, luta por melhores condições de vida, assume invenções científicas. No entanto, nem tudo merece celebração. Há tropeços e desgovernos fatais. Quebram-se serenidades e as guerras cotidianas enchem as ruas. Há quem justifique os desmantelos e os preconceitos não abandonam a sociedade. O sinal vermelho se firma com múltiplos significados e descontroles.

As notícias sobre violência atraem: uns gostam de saber e outros ficam perplexos. Quando se pensava que a igualdade deveria tomar conta do mundo, a violência e suas astúcias avançam  para derrotar os mais fracos. Ela se espalha como agrotóxicos. Não são os roubos, ou a falta de justiça. Há uma destruição da convivência. Uma onda de defensores da família se avoluma de forma oportunista. Seguem os estupros, os assassinatos de homossexuais, os discursos agressivos, a segregação racial. Quem aposta na paz, na civilidade, no desejo de assegurar direitos?

Nunca acreditei na linearidade, na conquista de um progresso ilimitado. Basta olhar o século XX. As sociedades se odeiam, as religiões criam orações perniciosas, os governantes se perdem com seus falsos projetos. A cultura consegue cobrir incompletudes, mas não nos distancia dos retornos de práticas fascistas. A intolerância está solta. As leis são manipuladas, o controle satisfaz a quem se locupleta com privilégios. Muitos pensadores do século XIX já se vestiam de pessimismo. Gritavam que o ocidente se chocava com abismos profundos. Trump estica a irresponsabilidade com fúria e psicopatia. Brinca para atender o terror das armas.

A chamada pós-modernidade não trouxe o equilíbrio, porém uma complexidade incrível. Não sabemos, ainda, enfrentar tantas mudanças. As melancolias, as depressões, as desilusões, as distopias estão passeando pelo mundo. A banalidade do mal ganha corpo. O homem não foge da sua animalidade mais feroz. Será possível? Houve transformações nos hábitos. O caminho, contudo, está com pedras pontiagudas. Culpam-se alguns e inocentam outros de forma cínica. O festival de polêmicas não fermenta diálogos. Os ódios não se intimidam, buscam alvos, pois a tecnologia não é neutra e se instrumentaliza para a guerra. Não faltam ameaças universais.

A história não promete viajar para o paraíso. Não sei nada sobre o futuro. As relações continuam tensas até na padaria da esquina. Promessas iludem, derrubam políticas. Os inocentes são atacados e morrem com seus sonhos. A velha luta do bem e do mal não é uma ficção. Não permute os tempos, nem consagre salvadores. As imagens enganam e compõem o mercado. Numa sociedade dos preços e das disputas, é quase impossível observar a luz. Não adianta se envolver com apatias para não sofrer. Os anjos também se cansaram e os deuses negociam seus ministérios. É preciso atenção e coragem. Desacreditar , em tudo, é o juízo final.

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O corpo , o tempo, o azul

Há vários tempos que escorrem pelo corpo,

como marcas de uma história vivida.

Não tenho com esconder a pressa e o sopro,

a vida não se explica por razões cartesianas.

Conto cada número com fosse uma culpa guardada,

estranho o anjo desaparecido entre as estrelas.

Cada passagem responde a um rito desencontrado,

não território nos limites dos sonhos descartados.

Não esqueço o amor partido, escuro com um cais,

a esfinge me acalenta sem saber que o azul morreu.

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Há desacertos chocantes e mentiras sofisticadas

 

A história não consegue encontrar-se com um sentido. Está solta, sem conseguir ser cenário de rebeliões mais profundas. Perdem-se caminhos, pois não há compromissos definidos e há uma complexidade arrumada pelo cinismo. As palavras são sacrificadas num abismo de mentiras. A sofisticação é imensa. A era das informações virou um jogo. A notícia ganha turbulência. A história se tornou um imagem frágil fabricada por especialistas, muitos cooptadas por uma dominação avassaladora. É importante insistir que tecnologia não significa, nem sempre, avanço. Os nós da imprensa entrelaçam dúvidas com preços determinados.

Quem sonha com as utopias não se desespere. O movimento da história é surpreendente. Os europeus colonizaram a América. Não faltou violência. As manipulações religiosas atuavam com eficácia. Hoje, estão envolvidos com medos. Falam do terrorismo infiltrado no cotidiano. Há guerras, espionagens, armas, drogas. É difícil se desenhar processos civilizatórios. As respostas deixam todos amedrontados. Quem não visualiza outras colonizações? Quem deseja sossego um labirinto tão desgovernado? Brasil vive de denúncia.

Temer age com um grupo esperto em demolir conquistas sociais. Sua credibilidade se desmancha. Diz que gosta de ser impopular. Ora pela salvação da pátria com uma hipocrisia sem limite. Não há quem segure as denúncias. O judiciário transformou-se numa indústria de emboscadas. Lula reclama, Gilmar sorrir, Cunha está preso. O debates continuam e fervem as contradições. Dilma procura mostrar o golpe sofreu, Dirceu sente o peso da condenação. O neoliberalismo atormenta toda América do Sul e a Venezuela cruza infernos.

Os boatos tumultuam as possibilidade de compreensão. Surgem agressões, arranjos políticos, muitos apagam a memória. Portanto, o reino da confusão aumenta seu território. Trump anda silencioso, a China investe no futebol, Sérgio Cabral roubou como nunca. Restam confianças? Agora, é a seleção de futebol que retoma glórias. Neymar e Tite são ídolos. O mundo gira com fortunas sendo lavadas pelos divertimentos. Tudo é negócio. Não precisa de disfarçar. Vende-se a alma, constrói-se templos suntuosos. O pântano é vasto, não adianta fecha os olhos e confessa os pecados. A história inquieta-se. Não é homogênea, não sobrevive sem ruínas, nem fantasmas..

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Não se esconda na solidão da sua história

Quando tudo começou devia haver um azul forte no mundo e poucas cores. Deus era confuso esteticamente. A humanidade o fez aprender muita coisa. Seus diálogos com Picasso ajudaram a fundar uma pós-modernidade celeste e leituras de Auster penetraram na sua solidão eterna. Ficou desconfiado, temeu pelo juízo final. Suas criaturas o desafiavam. Não sabia como curtir tantas invenções. Era diferentes dos deus do Olimpo. Metia-se numa solidão que o atormentava. Sentia-se, muitas vezes, uma criatura. Um mundo tinha uma complexidade que não esperava e um cansaço inesperado.

Viu que as histórias dos humanos se vestiam de fantasias e de máscaras. Apareciam ruínas, depois máquinas escandalosas. A solidão estava solta ou se escondia? Todos contam suas histórias, mas enigmas que não se esgotam. A vida em sociedade é tediosa, sem deixar de trazer riscos e surpresas. Difícil defini-la. A solidão surge como um lugar quase impenetrável. Não é possível contar tudo, nem ninguém tem um poder absoluto.

A racionalidade não é tão precioso. Num mundo, de tantas guerras, ilusões, miséria, epidemias, as perdições confundem. Deus não tinha a cartografia da imaginação. Apesar da sua onipresença, inquietava-se com o pecado original e achava que havia lacunas. Não se esquecia que poderia ser humano. Tremia com as escolhas. Quem significa, quem se explora, quem se ignora? As perguntas são ritos fundamentais. Fantasmas assustadores.

Não é à toa que a história não possui linearidade. Talvez, seja um grande círculo, cheio de repetições, no meio da formas esquisitas. Há muito enganos. Quem se atreveria a retomar as travessuras do tempos. Os esconderijos comungam com as armadilhas. Os traços curvos dominam, junto com o cinzentos do abismos. Não há festa que permaneça, nem sinalização sobre o futuro. Portanto, somos espaços, com histórias amargas e brincadeiras fluentes. Estamos longe de Descartes e Kant.

Jogar palavras no papel não é decifrar. Pode ser a busca de um paraíso ou tentação para fugir das perseguições dos demônios. Há teoria imensas e quem se salve com utopias majestosas. Não sei. Deus não nega as turbulências e os arrependimentos. Quem constrói história sonha com origens, mortes, desmantelos. O desconhecido ainda o possui sua soberania. O esclarecimento é um mito. É na solidão que a história principia. Deus se alivia, quando se sente parecido com as suas criaturas. As semelhanças alegram ou testemunham a incompletude.

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O mito de Ulisses: a vida não se completa

As agitações contemporâneas nos tiram sossego. É difícil cair na reflexão, dialogar com os deuses, sair de uma solidão que enclausura. Há multidões, espetáculos, vitrines. No entanto, a tecnologia e o consumismo restringem os desafios. Ficamos medrosos. Tudo parece reservar perigos. O mundo vive epidemias de desconfianças. As explorações não se foram e a sabedoria tropeça. A sensação de abandono não é exagero. Diante de tantas invenções, estamos vestidos pela incompletude, sem respostas em busca de ídolos, trocando objetos, armando emboscadas,  pisando em serpentes.

Gosto de visitar os mitos. Tenho fascínio. A fantasia me atrai, detesto a mesmice. As portas devem ser abertas para que os mistérios flutuem. Narciso ainda anda pelas ruas. Ele se multiplicou. Afrodite se olha nos espelhos das lojas mais sofisticadas. Édipo continua agoniado lendo os livro de Kafka, perdido no meio de tantos complexos. Não penses que os mitos morrem e desaparecem. Eles têm uma existência surpreendente, não se esgotam com o passar do tempo. As suas encenações são infinitas e sedutoras e nuca seriam terceirizadas.

São muitos. Converso com Ulisses. Não quero dele uma confissão. Admiro suas astúcias. Lembro-me de Adão e Eva, Caim e Abel. Há quem não observe que o único se fragmentou. Talvez, esteja delirando, mas termino sonhando que tudo é uma coisa só. Cada cultura desenha suas aventuras, sem legitimar fronteiras. Há acasos. Quem representa Guevara? Quem seria Nietzsche? Os nós que me prendem sintonizam-se com as vergonhas dos larápios de antigamente? Não sei. As esquinas estão repletas de esfinges e as perguntas não cabem nos livros. Desmoronam-se.

Ulisses viveu as ambiguidades. Enganou e enganou-se. Feriu e feriu-se. Buscou superar as artimanha, mas triturava os inimigos, não cultivava os perdões. Quem lê a Odisseia mistura-se com muitas dúvidas. Como sairmos do destino para entrarmos na história? A construção da autonomia é a negação do pecado. A imaginação sacode as apatias. Ulisses não se espantou com os labirintos e os seus desencantos. Voltou. O desejo do retorno sintetizava o impossível ou era um símbolo da humanização? O canto das sereias é um vestígio de um mistério sem fim.

A história não é o lugar do concreto definido, ela brinca com o invisível. Se o inconsciente nos domina como acreditar em metodologias, em projetos, em fontes escritas? As astúcias de Marx, Foucault, Deleuze, Freud nos ajudam a tatear no escuro e a afugentar certos pesadelos. Como negar que os mistérios são grandes e que a esquizofrenia é quase geral? Os mitos respondem e atiçam indiferenças. Estamos longe de compreender a dialética do esclarecimento. Quem nos espera com a decifração dos tempos? O jogo se movimenta com a inquietude dos olhos e a luz estranha do azul. Não há como segurar a culpa e arquitetar paraísos.

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A história e astúcia

Conte as pedras da história sem sentir o peso,

como se fossem metáforas transcendentais e agudas.

Não acredite no deus que não dança, nem na sereia que não seduz.

Mergulhe no mar da aventura numa embarcação velha,

e compare-se com Ulisses inventando astúcias e risos.

Não seja objetivo, dispense os gênios da academia

e procure a lâmpada de Aladim sem agonia e pressa.

Não esqueça Scherezade, nem do seu amor platônico pelas palavras,

fuja das histórias que não tem perfumes e dos amores que adormecem.

Salve-se marcando um encontro com Vênus na curva do labirinto,

há nela uma luz que abandonou seu último sonho cheia de preguiça e insensatez,

mas consegue desenhar todo seu rosto iluminado-o com uma pequena sombra.

Seja hermeneuta, não se encante com os conceitos sem lágrimas e sem coração.

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O silêncio dos deuses, a apatia dos homens, a salvação ilusória

Quem assistiu ao último filme de Martin Scorsese sentiu que o silêncio pode frustrar e a verdade não é propriedade de uma única cultura. As colonizações foram e são cruéis. Em nome de Deus se procurou firmar crenças e se encontrar paraísos. A multiplicidade do sentimento culpa derruba sonhos. Ela acompanha a história mesmo que haja mudanças e esbocem tentativas de revolução. Martin não perdoa. Deixa sutilezas, mas fere aqueles que se encantam com as possibilidades do perdão. Qual a resposta? Por que o silêncio? Por que inventar transcendências?  Por se vestir com a perfeição? Por que a apatia se afasta a coragem e destrói a resistência?

As religiões sobrevivem e ajudam a congelar ordens. Há um entrelaçamento com a política que se estica pela modernidade. Até o capitalismo se fortaleceu com chamada teologia da prosperidade. Os tempos se afundam com orações por riquezas, pela esperteza dos chamados guias da salvação. O mundo está submerso com perspectivas de desamparos que aprisionam multidões. O filme se passa no século XVII, contudo dialoga com o nosso tempo e mostra as dores que se repetem. O silêncio e o grito se confundem, nem conseguem criar fronteiras.

Não pense que o caos termina com o perdão fabricado. A solidão é, hoje, uma sintonia com o medo. Há uma sensação de muita coisa está podre na rota da globalização. Quem sabe o limite da mentira? Quem conhece o tamanho da pedra que não sia da estrada? Chaplin já colocava, nos seus filmes, os contrastes. Meiguice e pobreza, egoísmo e humor, a sociedade fecha portas para liquidar mercadorias. Triturar os sonhos é perda radical. O mundo se rende a uma absoluto que não existe, a ídolos que adotam o feitiço do mal, aos cinismos dos que não sofrem.

Não há tempo para o riso solto, mas o espetáculo continua. Ele tem preço, ela atrai. Seduza-se com a ficção de Italo Calvino, mas desconfie das sentenças de Moro, dos delírios de Temer. Ninguém foge do negócio, pois convivência não busca o poeta, ela quer a vitrine da ostentação. Não há como sossegar, pedir orações, ajoelhar-se, quando os extermínios prosseguem. Estamos exilados numa sociedade que oprime com regras nada democráticas. Nada passa pela vontade do coletivo. O perdão é inútil quando ele vendido com cartões de crédito. Estou exagerando? Ligue os canais de TV e reflita sobre as pregações.

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Mia Couto: a travessia das palavras cruas

Difícil definir a vida. Importante é reunir palavras e jogá-las como se fosse um mágico. Não se escreve para desnudar o mundo. Seria impossível uma nudez absoluta, como tantas vestes e dúvidas tomando conta do nosso cotidiano. Ler e escrever não guardam fronteiras. O abraço é fundamental. O corpo não pode ser um único corpo, isolado e tardio. Tudo se toca, com brevidade quase infinita. Não há como medir o tempo. Mia Couto atravessa o mundo, com uma sabedoria de quem possui pertencimentos amplos. Afunda-se em águas claras. Nada como um peixe que descobriu todos caminhos do mar. É parceiro de Netuno e namorado de Vênus.

Não me canso de dialogar com seus escritos. Ele brinca como os avessos, borda uma poética que pula os limites do universo. Muita imaginação que preenche vazios e faz pensar outras lógicas. Suas palavras nos olham. Não são escravas de técnicas. Mia é um inventor. Seu leitor não se cansa, mas se pacienta. Lembra os poemas de Manoel de Barros e o Grande Sertão: veredas de Guimarães. Não é senhor das imitações. Divide, afinal o mundo deveria pertencer a todos. Quem se isola, espalha egoísmo, gosta de ilhas desertas. aumenta a extensão da aridez, esperta a ferocidade da exploração..

As personagens de Mia não estão mortas no papel.  Flutuam, multiplicam-se, ganham eternidades. Cada cultura possui sua inviolabilidade. Longe da mesmice, ele acena para as astúcias. Prometeu assanhava a liberdade. Mia estica o desejo, molha-se com as chuvas intensas da África. Desmancha as hierarquias e subtrai a arrogância. Todos podem se surpreender, fugir, se acovardar. Não há saberes exclusivos, mas saberes que se confundem. Cabe ao profeta criar suas cartografias, sentir a poeira das outras vidas, esconder-se dos inimigos. observar o horizonte sem estrelas, a crueza dos animais estéreis.

O escritor não perde as metáforas. Não duvida que as palavras não cessam de ir para o desconhecido. Mia Couto constrói sem ambição de se esgotar. Seu ponto final é um desenho escuro, uma ponte sem tamanho mínimo. Apaixona-se pelas mulheres, dança com os feiticeiros, fertiliza territórios abandonados. Lamenta a escassez, porém se distancia de seus pecado. Contaria um outra história do paraíso, cuidando de alertar as travessuras de Adão e Eva. Sua escrita desenha seu sorriso. Esta solidário com as sombras e as luzes traiçoeiras das matas. Sua leoa se mistura com a sensualidade das sereias, seu rio nasce e morre sem se desfazer das lágrimas. A poesia é tudo.

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