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As curvas do eu

Não se ligue apenas nas exterioridades. Há momentos em que o brilho dos espetáculos fabricados apagam o diálogo com as singularidades de cada um. O descartável atravessa a sociedade e escolhe suas aventuras. Vende-se e troca-se, porém não se escuta que há ruídos interiores, conversas nostálgicas e lembranças de longos encontros no passado remoto. Quando o mundo das mercadorias se torna soberano parece que somos espelhos de objetos. Há descuidos e omissões, não entramos nas curvas do eu.

Fala-se em subjetividade, nas possibilidades de se construir imaginários. O mundo se enche de jogos que referenciam a superficialidade. A política deixou de ser o cultivo das relações solidárias ou talvez nunca tenha sido.As sociabilidades navegam, inventam aproximações, não se afastam de intrigas. Não se observa que as complexidades mostram que as desconfianças se misturam com as incertezas.Solta-se o trapézio do sonho como se fosse uma salvação. No entanto, as simulações não se vão e a sociedade se alimenta de olhares coisificados.

As curvas do eu não são vistas. Somos, muitas vezes, desconhecidos de nós mesmos. Há pressa para definir planejamentos. Quem se delicia com eles? Quem se lança nas travessuras da solidão para tentar decifrar o ritmo do desemparo cotidiano? Se tudo não passa de uma linha reta, a história é mudez e calendário de velhos acontecimentos. É na dimensão curva, no seu desequilíbrio, que as reinvenções devem ser atiçadas.

A modernidade trouxe o feitiço do progresso, afastou deuses de seus templos, contemplou a razão como alternativa para refazer valores e distrair agonias. Hoje, há desencantos que assumem lugares massificados e fecham as portas da ousadia. A mesmice veste corações e mentes, os medos negam os escorregões. Se a incompletude nos acompanha, a cultura está longe de ser linear. Há perdas, descontroles, pesadelos. Cada palavra consolida um escrita que tem vários significados. Desenham curvas e aposta na superação do homogêneo permanente.

As derrotas da memória

Não se negue a escutar as surpresas das memórias derrotadas,

elas revelam o tempo desfeito das melancolias persistentes e travessas.

Pense na razão que buscou solucionar as agonias com fés geométricas

e desejos de inventar ciências incomensuráveis e progressos sem destinos.

Descartes quis desenhar um mundo da clareza absoluta,

não suspeitou dos vacilos, nem se negou a anular as orações dominantes.

Imagine que a história é um trapezista ausente de um circo perdido na curva,

que não consegue sacudir os restos de ruínas anunciantes de revoluções fracassadas.

Há no espaço desconhecido dos labirintos mitos apodrecidos e dores fortalecidas pela nostalgia do desengano..

Não se culpe, o mapa da vida é indecifrável e lembra o silêncio escuro de quem julga saber das profecias e lamenta não ser vizinho dos deuses.

A nudez obscura da história

Desde os primórdios se fala de nudez. Hoje, muitos buscam ou prometem transparência. Na época do Iluminismo, se cantava o poder da razão e a possibilidade de mudar a sociedade e consolidar um saber indiscutível. Aconteceram grandes revoluções, as relações se modificaram, a economia acenou com o progresso, contudo surgiram novas dúvidas e desconfianças sobre o que significa a entrada do capitalismo e a exploração do trabalho,. A miséria ocupava porções importantes do mundo e a competição procurava estimular as invenções de mercadorias. Uma globalização se desenhava com traços tortos que ainda permanecem. As críticas assanharam utopias, Marx compreendeu as dissonâncias avassaladoras e Nietzsche se convenceu que os valores se esfumaçavam na cultura ocidental.

As transparências eram ilusões e as formas de enganar se sofisticavam. O mito da nudez se entrelaçava com as lembranças do pecado original. As lendas continuavam e o sentimento de culpa trazia reflexões que Freud aproveitou para analisar o lado obscuro de nós mesmos. Não é à toa que a sociedade se abalava e sentia dificuldade de estabelecer a igualdade e a fraternidade. Os sonhos se sujavam com os pesadelos, as rebeldias não voavam e a modernidade consistia em mais uma complexidade. A ciência seculariza os saberes, porém as religiões não se distraíam e navegavam entre incoerências e orações.

O século XX atiçou confrontos, não deixou de lado o narcisismo e articulou opressões.Quem pode esquecer o nazismo, as torturas dos campos de concentração, as intolerâncias políticas, as vacilações da Revolução de 1917? As guerras consolidaram violências preparadas com sagacidades inesperadas. Quebra de solidariedades, fechamentos de portas para democracia e a nudez vestida para continuar cultivando o mito do progresso. Como compreender tantas desavenças, escravidões cotidianas, depois de acenos para se livrar do mal estar que atormentava os seres humanos? Muitas teorias, especializações, escritas codificadas.

As práticas se mantêm e assustam. O desemparo visita corações e as depressões se instalam. As ruas se enchem de farmácias, as doenças apresentam metamorfoses estranhas. O lado obscuro existe e tem uma cartografia que confunde. Não há como vencer tantos paradoxos, nem revelar o caminho para decifrar as possibilidade de realimentar alternativas para expulsar os ressentimentos. A história assombra, não se compõe sem delírios, se expande com dores e se afasta das arquiteturas do paraíso, Vivemos no meio de ruídos. A nudez é castigada ou os limites não se irão dos encontros que passeiam pela história. Freud morreu desacreditando os chamamentos da esperança. Alguém se reinventa numa sociedade de valores que celebram e justificam autoritarismo? Talvez, nem Freud explique. E você?

O mundo se olha e se espanta

Tantas são as expectativas que os espelhos se tornam escassos. Os olhares se multiplicam de forma acelerada. Cada dia é um dia e não dá para confirmar calendários. As incertezas nos visitam. Os discursos buscam misturar complexidades e mudam de tom com aspereza ou sensibilidade inesperadas. O passado aparece e lembra que houve hecatombes, pestes, guerras, rebeliões, durezas, fugas, mesquinharias. Nem por isso as utopias se foram, mas sofreram abalos radicais. O que fazer com as competições e as intrigas? Como acuar os pesadelos e sair dos labirintos mais escuros?

Os saberes se consagram como novidades.É um perigo. Não custa dialogar com Benjamin e observar a força da experiência. A tecnologia traz curas, mas também desfaz possibilidades de punir as competições. O peso do valor de troca enaltece mercadorias. Não esqueça do que Benjamin afirmou nos seus escritos. É preciso desconfiar do efêmero, desenhar relações sociais afetivas, sentir os outros, carregar cores que iluminem os instantes. Seduza-se pelos poemas de Neruda e analise quem foge da mesmice. Camus mostrou as idas e vindas do absurdo, as revoltas, os abandonos, merece sempre espaço nas nossas mentes.

O espanto é um deslocamento. Chama para o desafio e flutua acima do homogêneo. As singularidades garantem que os espelhos se renovem e movam imagens de encantamentos. Assim, a história segue não adivinhando o futuro, porém questionando as cartografias que podem ser refeitas. Os mitos primordiais não abandonam o mundo, as tragédias balançam nossos desejos e moram nas nossas incompletudes. Quem despreza Prometeu? Quem nega o sofrimento de Édipo? Quem se alerta com a solidão de Narciso?

É o olhar de cada um que arquiteta a escrita da história e compreende que a palavra ajuda a desfiar mistérios. Não há como fechar as cortinas do mundo, desmontar cenários que nunca envelhecem. As lições existem, as permanências anunciam aberturas para repensar o que incomodava e tirava o sono. É o diálogo que atiça a história, é o imaginário coletivo que sacode as poeiras do mundo e ferve o prazer do texto da lucidez. Respirar faz transformar a atmosfera, despoluir as amarguras e ressuscita as saudades que que batem no paraíso e consolidam os entrelaçamentos dos tempos. Nada está agarrado radicalmente pelo exato, tudo passa pelas coragens das incertezas do acaso. Há voos e asas poderosas, resta contemplá-las e firmar o desejo de não cair no mesquinho. O espelho é o outro?

O encanto se reinventa

Cada vida não se esconde nos abismos das divindades atônitas,

há sempre surpresas que desmontam as aventuras predestinadas.

O mundo não se cansa de inventar geografias e territórios desertos e

as fronteiras exigem imaginação e saltos de artistas decadentes.

Não se sabe a largura dos caminhos, nem os tamanhos das pedras agudas

na brecha do cotidiano a reinvenção não esmorece, nem se vai como vítima final.

Os encantos não se intimidam e desenham suas geometrias inesperadas,

cada vida não é uma única história, mas uma dúvida de espantos e astúcias.

Disfarces do consumo, afetos desfeitos

Os festejos trazem o gosto de amarguras escondidas. A sociedade se movimenta sem saber que perdeu solidariedades e estraga sua imaginação na busca de consumos. Simula confraternização, visita lojas, se distrai com fogos, inventa amigos, passeia por shoppings desenhando paraísos. Uma fábrica de disfarces multiplica as astúcias do final de ano. Há quem aposte que tudo será resolvido e sacode a sensatez na lata do lixo. Fica no delírio do espetáculo superficial, na sedução das propagandas, na embriaguez de uma grana passageira.

Nem todos curtem tanta ansiedade preparada para ampliar alegrias anunciadas pelo capitalismo que estende fantasias, mas não inibe as desigualdades, É esperto na produção de objetos, tergiversa para não se mostrar absoluto. A celebrações concentram grupos e aliciam privilégios. São duvidosos os perfis da felicidade, porém são insistentes os jogos das ilusões. Há quem não observe a força das fantasias entrincheiradas nas vitrine brilhantes.

São as acrobacias das relações sociais que não cansam de estimular culpas e pecados. Tudo possui significados. É a andança da cultura, com suas nostalgias, seus contos de fada, seus olhares iluministas. Assim passa o tempos, se acedem os afetos, se disfarçam as agonias. Para isso fomos feitos, sem selo de segurança, no meio de deuses que mudam de templos. As complexidades não se exaurem, os festejos não deixam de existir. A dúvida permanece ativa num turbilhão que não tem regras fixas e arquiteta moradias em todos territórios. Não se atormente. Há desertos e sedes. Converse com a solidão e sinta a sua escuta. Ela tem magia.

Octavio Paz e a palavra

não canse a escrita com palavras sem sentimentos,

não formule códigos de destinos com a nudez de calendário burocrático,

consulte o poeta e se amplie nas metáforas encantadas e incertas,

escreva com a magia de Octavio que refaz o mundo e desafia os mitos,

não se amesquinhe nas teorias dos saberes planejados e acadêmicos,

prefira o silêncio sublime, o traço reinventando, a vida paciente,

cada dia é um dia, cada criação um desfazer da monotonia, a porta entreaberta ,

há muitos labirintos na esquina das moradias sem donos e no colo de quem não ruiu no medo do desengano.

na astúcia de Paz um desenho que estica a escrita e se salva do desprezo dos preguiçosos e soberbos.

Quem não vê as milícias agindo?

Nas vidas que se seguem e nos cantos que pertencem a cada um, a história não se cansa de movimentar notícias e explorar perplexidades. A sociedade se desmancha, mas muitos não observam que a violência possui várias formas de ataque. Não se ligam que os preconceitos continuam ativos. Adormecem em egoísmos imensos. No Brasil, a tensão não deixa de marcar o cotidiano. Os governos não sacodem o pó das perversidades e a desigualdade não se vai A família de Jair produz estragos. Há quem ria, sem abrir as portas que contemplam os corações doloridos. A lucidez dorme em lugares tenebroso, sem conseguir respirar seu perfume.

Quem caminha e aplaude as declarações de Flávio e Eduardo? Quem admira as travessias duras preparadas por Paulo? E Moro continua sendo o messias de salvações? Tudo é confuso, as misérias atingem a maioria e cometem estragos incomensuráveis. Os privilegiados firmam seus poderes, sacodem riquezas , aliciam, torcem para que a concentração constante de direitos permaneça em seus tesouros. É estranho, causa medo, cresce a ação miliciana que inibe a resistência e transtorna qualquer possibilidade de rever as utopias.

Tudo indica que houve um planejamento bem articulado. Jair não é tolo e ensaia irritações. Possui assessorias espertas e um passado que o condena. Ninguém tem certeza de como se uniram tantas falcatruas. Tudo começou com Temer? Por que o anti-petismo é tão algoz? Lula estava comprometido com solidariedades ou as legitimidades se enfraqueceram? As delações armaram situações terríveis e fortaleceram conservadorismos? A vitória de Jair aconteceu, num clima apodrecido e de reviravoltas danosas. Há cheiros de apocalipses e desconfianças frequentes. A atmosfera fere sentimentos, amplia ansiedades. As máscaras mudam cores e inventam esconderijos. As nostalgias do fascismo abalam e desconstroem sonhos. Para quem ou para quê? As nostalgias fundam desmantelos?

A política não mede resultados que excluem as intrigas e anulam os autoritarismos. Quer manter mordomias, evitar que as maiorias possam sair do sufoco, fermentar ódio e ressentimentos. A imprensa inquietas as emoções mais vulgares. Vende e constrange. Há terrores milicianos desenhados por violências extremas. Momento de nebulosidades, análises vazias, cinismos arrasadores. O peso é grande, porém não há como negar a complexidade das saídas. Elas precisam ser pensadas. O coletivo é fundamental. Não adianta fechar os olhos e apelar para destinos com orações comprometidas com a escassez da generosidade. Limpar a sujeira significa se aproximar das responsabilidades com a cidadania. Ir além do mesquinho atrai o desejo de arrumar a mente e não cair no pântano da desavença definitiva.

Vagas vidas

       Vagas vidas

o meio do mundo
o meio-dia
o medo do dia

é preciso que eu viva para que se lembrem de mim

lembrem-se das travessias e das pedras que alimentaram os desejos madrugadores e as surpresas tardias
lembrem-se das vastidões do passado mítico para que o tempo da saudade não se abandone no desprezo
lembrem-se do descontrole, do inesperado, do beco estreito e sombrio, dos barcos que vigiam as calmarias ressentidas

a vida tem o significado da nudez da geometria muda e picassiana, desenha-se no ânimo do acaso

o dia pode ser um instante sem número fixo e determinado
mas se pertença nas necessidades sem apagar o vadio

sentem-se nas cadeiras de um circo mambembe
e riam do palhaço trapezista

As histórias se cruzam

Minha história tem singularidades. Nem tudo me toca, mas há coisas que batem nas agonias do mundo. Reações diferentes, amores desiguais, afetos fluentes giram em torno de momentos que passam com ritmos diferentes. O mundo é vasto e a heterogeneidade é imensa. Há estranhamentos. Quem já escutou notícias de intrigas sem soluções? A quantidade de ressentimentos cresce com a política fervendo ambições e mascarando interesses mesquinhos. Vivo minha história com certas dores e surpresas, porém não posso me isolar. As solidariedades aparecem, como também as invejas e antipatias. Confusões cotidianas.

As expectativas nunca estão ausentes. Não pense que controla as emoções e solta suas vaidades como um deus delirante. A história brinca com os tempos, não se resume a um calendário definido. Não se esconda, sacuda a poeira e inquiete suas verdades. Suas singularidades trazem seguranças e guardam temores. Portanto, o reino da ambiguidade existe desde Adão e Eva, mesmo que as teorias freudianas procurem decifrar as inúmeras ansiedades que nos cercam, A humanidade não sossega, no entanto segue questões que abalam sua paciência. Os espaços das esquizofrenias é perene.

Esperar uma história que converse com as utopias, sem acasos, é uma ilusão. Há pessoas que entram no meu coração e outras cheias de armaduras. Não me afasto dos espantos, nem amo todos os perdões. Observo os desfazeres, não deixo de olhar fantasmas , navego por mares sombrios. Não tento desenhar o mapa da história, nem conhecer a extensão de seus abismos. Há instantes medonhos e o paraíso é sempre um sonho. Estamos arrumando objetos que surgem no meio do caminho e expulsando medos que atrapalham o riso descompromissado.

Não abandone suas singularidades e analise os entrelaçamentos. Os outros estão pertos. Alguns tentam perturbar e diminuir os aconchegos. É isso. Não há muito o que dizer e o ciclo das palavras habita todos os escritos. Não o trate com despreze. Converse, risque, conte. O tamanho do que se vive não possui exatidão. Há desgraças ou horizontes repletos de luzes. Não se abrace com as pretensões. A história é sucessão e descontinuidade. A porta pode estar solta e a casa vazia. Não cabe traçar a arquitetura dos apocalipses. Despertença-se.