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Choques e disfarces: jogo tenso da violência e da política

É difícil caminhar sossegado pelas ruas. Os ruídos do carnaval estão salientes. As multidões se preparam para folia e as cervejas mostram-se dispostas a aliciar foliões. A festa se aproxima como uma homenagem a um belo delírio fugaz. A sociedade está mesmo tensa. A violência é veloz e visita o mundo. Assaltos cotidianos aos ônibus, roubos de automóveis, manobras golpistas, fogo nas penitenciárias. Como classificar a multiplicidade de emboscadas que assustam e intimidam? Em Paris, o medo também sobrevive. Há um monitoramento de pessoas suspeitas de terrorismo que coloca a cidade em agonia. A Europa parece pedir perdão pelas colonizações agressivas do passado. Qual é a saída? Os preconceitos se renovam e não adianta celebrar descobertas científicas. Pior é o desamparo frequente.

As conversas tornam-se terapias. Cada um conta sua aventura nada agradável. Os brasileiros estão temerosos. Trump promete varrer os clandestinos. Miami não é mais um sonho. Ninguém compreender o que se passa. Talvez, uma transformação na exploração capitalista. A China está de olhos abertos. Putin joga duro. Portanto, a insegurança e a instabilidade unem-se para empurrar os cidadãos para o inferno. Há ambiguidade profundas. Muita gente negocia com ódios. Distribui ofensas, canta mortes, desprezam os outros em nome de hierarquias. O interesse tira a máscara e  mostra as hipocrisias sofisticadas. Os cargos atraem e as consultoria se somam ao som das moedas. O homem cordial vestiu-se com a roupa do ódio gratuito e traiçoeiro e com máscara do capeta.

Por aqui, a política não deixa de ferver. As turbulências se formam rapidamente. A morte de Marisa foi tema de discussões. Assustei-me com a ferocidade de alguns. Lula reviu ex-aliados, recebeu cumprimentos, fez discurso, retomou lutas e memórias. As agitações não cessam, pois as delações ameaçam, afugentam. Quem pagará por tanta devassidão e esperteza? Maia e Eunício dirigirão o Congresso. Temer não consegue se firmar. Faltam o carisma , a confiança e um projeto que convença. É uma atmosfera tenebrosa, com greves, de policiais, assustadoras. Há pessoas que comparam Marisa a Ruth. Querem desqualificar por motivos acadêmicos a trajetória de Marisa. Apresentam-se julgamentos que revelam angústias e insônias, revelam que os sentimentos abrem e fecham portas. A culpa aparece ornamentada.

Nas ruínas, estão pedaços de corpos e corações dilacerados. A salvação é um desejo. Mas observe quem a promete? O território da política possui minas assassinas. A violência não se amplia à toa. Quem governa pensa no coletivo ou se infiltra nos cofres públicos? Há desculpas para tudo. Fala-se na crise econômica como réu primeiro. Quando havia grana quem se apossava dela? Fico perplexo com a indignidade. Os valores se amesquinham. O autoritarismo ataca. Freud tinha razão. As lacunas são muitas, as intrigas superam os afetos, a prazer é um espetáculo que traz perigos e drogas. O mal estar se instalou. A telecomunicação não supera as distâncias, porém inventa outras. O medo de andar nas ruas é expressivo. Como é possível dialogar? O luxo vai para o lixo, mas a tensão permanece e a distopia também. A justiça adora as liminares aprendizes de cabeças redondas.

 

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Os impedimentos doentios

Duvido que as fronteiras impeçam movimentos.

A loucura pode ser uma máscara, sem esquizofrenias,

e a feitiçaria um vaso dourado com veneno especial

Pulo a política que renega o encontro e a fantasia,

engano a lei da gravidade com sonhos inesperados,

não sonho com quem sona com o fim do mundo e do abraço.

Há histórias queimadas por destino cativos

e o império de mercadorias que tangem as flores.

Não desacredite no inferno terrestre, na dominação do desgoverno.

Não fique, porém, no muro da agonia como um paciente perdido,

fabricando ódios mesquinhos e saberes  torturantes

Ressalte o grito, fuja do voo dos pássaros que acompanham assassinos,

desfabrique ídolos que assombram o ilusão jogando covardias e medos.

Imagine o espelho do corpo flutuando no meio dos anjos tardios.

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A universidade: entradas, saídas, levitações

 

Conhecer os segredos do mundo é um desafio que abraça a cultura. Não basta acumular informações, descrever manchetes, engolir filmes com cheiro de pipoca. Existem muitas histórias e o trem da verdade é feito de madeira vulnerável. Quem se abala em saber que as mentiras circulam? Seria difícil uma sociedade produtora de saberes transparentes. A ordem e o progresso é o lema do atual governo. Lembra as ilusões do século  XIX. Não faltam concepções de mundo e o positivismo foi marcante. Longe de mim querer revê-lo. Tudo tem seu tempo, diz minha mãe. Fico distante dessas invenções fabricadas com intenções nada agradáveis. Não sou temeroso.

Mas não faltam assuntos. Recentemente, as ocupações na universidade apresentaram-se como uma inquietação. Não foram rebeldias como 1968, tinham outros propósitos, enfrentavam outras questões. Os partidos estão cheios de cupins, portanto lá se foi a época dos grandes líderes. Há uma carência brutal de políticos que possuam dignidade. Há uma predileção por armadilhas. As ocupações abalaram o lugar do saber tão cheio de penúrias. Não houve homogeneidade. Alguns, apenas, lançaram palavras de ordens, seguiram sem transtornos. Outros  foram silenciosos, mas um encontro especial e uma necessidade de balançar o imóvel. O profano e o sagrado se desencontram.

As insatisfações eram visíveis. As hostilidades cavaram abismos entre estudantes e professores. Os afetos sentiram-se tontos, alguns não aceitavam conversas. Criou-se uma outra atmosfera. Moveram-se ideias, derrubaram-se tradições, sonhos anarquistas se remontaram. Os pequenos partidos atuaram, houve fragmentações, celebrações, debates e muitas assembleias. Causaram certos pânicos e urgências. A universidade está com problemas graves e não quer olhar para eles, afirmam muitos. As hierarquias consolidam-se, festejam burocracias e impessoalidades. Isso incomoda e enfraquece a formação de uma ética ágil e solidária. Houve um suspense geral. Entradas e saídas estreitas impedem a levitação. A universidade é republicana ou se envolve com certos traços medievais?

A questão maior é firmar estratégias e fazer o cerco à ordem dominante. Canta-se a liberdade, mas não se permite compreender limites. Elogia-se o desejo de quebrar barreiras, os ressentimentos afloram, os donos do poder se arrepiam. O confronto se coloca. A universidade está além da mesquinhez do conhecimento dos pontos acadêmicos. É fundamental ouvir, não desprezar os azares e as sortes. O capitalismo se reorganiza, o mercado de trabalho se encolhe, os golpes doem na alma e no corpo. Não esqueçam de 1968. O marxismo se entrelaçou com o anarquismo, Mao foi lembrado, Stalin condenado, a burguesia julgada. A poética estava presente e a mercadoria se diluía.

O tempo é outro. O Brasil convive com perda de valores acelerada. Em quem confiar?  A universidade deve se pensar como instituição de experiências múltiplas, cultivar memórias abertas, não jogar fora a autonomia. Não podemos reproduzir políticas de espertezas. A democracia não se resolve com eleições programadas. Como socializar o poder e a cultura? A ciência não é absoluta, fortalece também arrogâncias. E a dimensão estética, as cores, as formas, as arquiteturas, os sons, os encontros, a coragem? Há choques que atiçam ações. A divisão social do trabalho mantém a exploração. O céu azul, iluminado, sedutor não é espelho. Quem se esconde, se veste de cinza e de melancolia. É preciso entender que o mundo é vasto como o coração. Congelá-los é um suicídio.

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A solidão é companheira do mundo

 

Vejo multidões nos estádios de  futebol. Cantam, gritam, se emocionam. É uma grande festa com cores e geometrias inesquecíveis. Tudo parece um paraíso com celebração deslumbrantes. A festa passa. A ressaca surge. Os segredos pessoais continuam. Há sempre um retorno à solidão. Há pressa e desconforto quando o outro se aproxima. Será que vivemos num mundo de emboscadas constantes? As neuroses estão firmes, não abandonam a cultura. O medo do amor é visível e a sexualidade ganha debates cotidianos. As aparências não dizem tudo. Mudamos, mas conservamos as incompletudes. Leia Elizabeth Roudinesco e sinta como flutuamos sem cessar. O labirinto permanece indestrutível e com cartografias do acaso.

Fiquei impressionado com uma nota do Facebook. Há mulheres que ganham dinheiro abraçando homens carentes. Profissionais do afeto, talvez, também mudas nas suas solidões incontornáveis. Os consultórios dos psicanalistas estão cheios e as farmácias faturam alto. Quanto maior a crise, mais a sociedade busca amparos. Tudo está muito torto ou desgovernado. Congela-se  uma desconfiança marcante e doentia. Quem está conosco? Olhamos os quartos vazios, as ruas ruidosas, porém o silêncio interior atormenta. Temos dificuldades e não poucas. Não se trata, apenas, de grana. Somos animais sociais e  exercemos com mesquinhez a simpatia e a solidariedade. Há deslocamentos que não admitem os mitos de Prometeu e Édipo.

O cuidado é com a economia e a suspeita. Quem foi preso, quem roubou, quanta custa o novo celular, qual é o destino de Temer? O espelho revela migalhas. Vemos imagens envelhecidas pelas dúvidas. pessoas torturadas pelos seus ódios. De onde viemos? O capitalismo caminha para o apocalipse? Procuramos respostas nas reflexões dos especialistas. É importante a impessoalidade, defendem alguns. Desprezamos diálogos passados, não ouvimos relatos de experiências, algo nos faz se envolver com exílios. O inferno mora nos outros ou em nós mesmos? Sempre a interrogações, os vazios, as vitrines, as buzinas, o vizinho calado. Os sonhos  se reduzem  e as mercadorias  oferecem ambições contínuas. E os anjos da guarda? Estão curtindo as férias? Foram assustar os delírios programados de Trump?

Não celebremos o caos infinito. Nem todos se fecham e dormem assistindo aos seriados de TV. No entanto, não é espantoso que,nos lugares públicos, apesar das imagens e dos risos, se falem de coisas que aumentam a solidão. Não estamos no fim do mundo. Não sei quando o decreto divino vai funcionar. Tenho outras expectativas, para além do Supremo Tribunal e das astúcias venenosas de Sérgio Cabral. Criou-se uma atmosfera de embates que nos cansa. A sensação de perda não é rara. Gente afogado no ressentimento e nem percebe.O pessimismo  ataca e as psicoses não se vão. O que fazer? Gosto de bater papo, com os outros e comigo mesmo. Por que abandonar o mundo? Um abraço vale um dia, nunca recuso o afeto e a troca de alegria. Quem se esconde na solidão não descobre as aventuras. O aperto do preconceito social é que desfaz as batidas do coração.

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Os estragos violentos da história nos pertencem

Os debates são antigos. Não cessarão. Há quem considere a história o lugar privilegiado da mudança e das invenções. Ficam perplexos quando se  afirmam as permanências. Os dias passam e a violência não se vai. Agora, os racismos voltam com muita força e tornam-se sinais de arrogâncias que pareciam superadas. Assisto a cenas diárias que me constrangem e me complicam. Penso que há voltas que atordoam, intimidam, falsificam generosidades.Espalham-se pelo mundo epidemias perigosas. Ansiedades crônicas. depressões cotidianas, etnocentrismos sofisticados, desemparos esquisitos. Não é à toa que Trump se agita e muitos sentem saudades da ditadura. E os que celebram a morte do outro? Que animal é esse que se diz divino ou filho de um deus? Fomos feitos com uma argila de uma liquidação?

A terra não é mesmo o centro do universo. As almas só assustam procurando céus e infernos. Pedro está desempregado, pois as portarias são de ferro e os anjos desistiram de salvar os pecadores. Os gestos de afeto produzem espanto. As palavras se cortam, querem objetividades, reclamam das meiguices, adoram planejamentos e consultorias. Sempre desconfiei das utopias. Não custa, porém, sonhar. O avesso deve ser visto, as mortes mostram nossa pequenez. É importante não afundar na negatividade e olhar as migalhas com cuidado. Lula foi atencioso com Henrique. Houve retribuição. Muitos mergulham na crítica. Tomaram o elixir do quanto pior melhor. Mordem e não mastigam. Curtem o abismo, gozam sentindo dores.

Condenar as perversidades. Isso é obrigação. Elas não se acomodam, apenas, entre os psicopatas. Elas moram em espaços estranhos ou em espaços de brilho acadêmico. Há médicos que ferem a ética. Alguma novidade? Destruir sentimentos é cultura, diriam outros. Tudo isso desanima. A corrida para aumentar as maldades é frequente. Não desfrute de salvações frias e cínicas. Já viram os cultos religiosos que vendem mercadorias? Mas há gente que acredita, que chora, que se emociona e não observa a farsa. Os milionários defendendo os pobres é uma comédia que mete medo. A travessia está tensa. Há mendigos por toda parte, Paris teme o terrorismo.os estudantes desejam mudar a universidade, os centros de saúde não possuem enfermeiros. O desgosto é geral, nega fronteiras, invade o corpo.

No entanto, o espetáculo se abre com ruídos. Milhares de torcedores aplaudem Messi, Quem se recusa a tomar uma coca-cola gelada? Quem não se contenta em passear no cine do shopping? Quem se lembra que a política está suja e os negócios agridem a solidariedade? Difícil compreender o mundo. As religiões tentam, os cientistas deliram, a China explora mão-de-obra, Cunha continua na prisão, Angélica não sai da Globo. Podemos recomeçar a história? Mudar a forma de Adão e Eva? Se a maçã fosse azul e a serpente amarela? Deus não usou instrumentos genéricos para criar o mundo? Quem era seu conselheiro ou ele tropeçou na solidão? Os problemas são muitos. Fui conversar com os amigos, lamentar-se e vi uma cena amarga de preconceito. Somos superficiais e nem notamos. Quem responde?

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O Apartamento: as imagens da vida cotidiana

 

As dores não passam como um cometa. Persistem. Há dúvidas que machucam e tradições que confundem. Nada de novo no planeta na sua marcha das competições e das vinganças. Um bom filme sintetiza anos de história e traz as sequências instáveis do cotidiano. Não desculpa tensões, mas move ideias e imaginações. A cultura é uma resposta, diálogo constante com a incompletude. Veja ” O Apartamento”, filme iraniano. Belo, atravessado por questões individuais e envolvidas com a história de seu tempo. A globalização tem arrastado costumes, colocado o mundo numa ansiedade imensa. Guardamos silêncios, quase nada se esclarece, porém a comunicação contamina a tecnologia.

O drama faz parte da vida. É preciso que ele não entre sem pedir licença, pois sua permanência tumultua. Os acidentes tiram a rotina, transmitem sensações diferentes, retoma memórias. O cerco angustia. O tema da família continua sendo debatido. O que a perturba? Um casal se desloca devido aos desatinos de afetos? A desconfiança deixa a insegurança solta. Quando se resolvem os preconceitos, as relações se fragmentam. O amor não comunga com a eternidade. Possui circunstâncias, não governa linhas retas, desfaz formas, aparentemente, contínuas. Os sentimentos são mágicos. Os bordados são antigos.

O filme busca cenários simples, não nega a densidade do humano. Homens e mulheres se misturam , teatralizam seus descaminhos, desenham ambiguidades inesperadas. Tudo se resume a um espaço ou as distâncias também viajam com rapidez ? Uma sala de aula, um palco, um celular perdido, uma solidão escondida. O segredo mora em muitos lugares, corre pela ruas, encena tramas, destrói ilusões. As agressões surpreendem, cortam o cotidiano, fixam devaneios. Pensar que elas se situam em um limite estreito é se desviar da história.

Não há fórmulas culturais imutáveis. O mundo se amplia em universos interiores, cheio de curvas e toques. Por que cair num relativismo radical? A dor revela cores, causa desfazeres, requer refúgio. Posso pertencer a uma geografia de tradições seculares ou curtir velocidades demoníacas. Há sempre uma incompreensão tardia, algo que desadormece de repente. No filme, os olhares mostram multiplicidades, a voz da criança traz leveza, a intimidade dos vizinhos inspira escorregões, a cidade é visível e áspera. O movimento do horror descarrega verdades depressivas.O final do drama não é destino divino, nem fatalidade assumida. O cantar a vida é o celebrar a transgressão. Na voz de Rana, a ternura é encanto.

Comungamos diferenças, aproximamos lendas. Localizo-me em lugares diversos, mas sinto que alguém na China se atordoa, que as guerras no Oriente me castigam, que o capitalismo derruba e não pede perdão. O Apartamento se passa no Irã, mas poderia se passar no Rio de Janeiro. Monta questões comuns, sem congelar mesmices. Há sempre um grito flutuando, uma sapato velho com marcas de sangue, um adeus que não se reparte, uma mulher com uma tristeza sem fim. O pecado é uma invenção incansável e a política enferma deforma convivências. Estou no cais com luzes terminais e febris. Tenho ações que se tornaram sonhos, diz o avesso de cada imagem. Fecho a cortina estranha

 

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Galeano: as lamentações de escritos corajosos

Eduardo Galeano foi um combatente de rara lucidez Seus livros deixaram lições contra a violência e o desgoverno. Não perdeu a beleza nas suas acusações e narrativas. Queria um outro mundo, conhecia o avesso, festejava o abraço. Acabei de ler Vagamundo. Um de seus primeiros escritos publicados. Galeano mostra a amargura de uma sociedade tensa, a miséria de não poder amar. As denúncia são fundamentais. Quem se omite é o pressor da esperança. Mesmo que a fragilidade se espalhe, quando se cai no abismo, as relações precisam de gritos de alertas poderosos para findar o pesadelo. Tudo parece perdido, mas a vida está solta, temos tempo e movimento para buscar sossegos. A desistência é cultura materializada e mecânica..

O ano de 2017 traz tragédias constantes. Dá sequência a saga do capitalismo. Os egoísmos não se intimidam, nem a pobreza se esconde. As prisões se multiplicam,  as imagens de horrores atemorizam. Há retornos de epidemias, a ciência não despreza o pragmatismo, as loucuras ocupam as prateleiras das farmácias. É o mundo da drogas. Não só daquelas que derrubam sociabilidades, porém daquelas que reforçam o desmantelo, espalham o consumo. Qual a saída para quem visitar, cotidianamente, os shoppings centers e assistir aos episódios do Big Brother delirando? A carga é grande e a dor de cabeça quebra a reflexão. Flexibilize o susto.

O mundo gira. Seus movimentos abandonaram os desejos revolucionários. Busca-se o mesmo, a idiotice tem um charme esquisito e os celulares não cessam de mudar de cores e aplicativos. Quem se infiltra no seu narcisismo, nem se lembra que existem  Galeano, Rousseau, Mia Couto, Cartola, Freud, Chico… Prefere se deitar em berços esplêndidos e se banhar com as espertezas. Joga a vida para fora de qualquer compromisso. Alia-se com uma destruição covarde que pune quem rouba um pão e inocenta quem seca o dinheiro público. As redes sociais realizam trocas interessantes. Despertam lutas. Não esqueçam também que colaboram para uma mediocridade doentia. Não devemos, contudo, condená-las. Há tantas vitrines enlouquecidas. Firmar um alvo único não é espelho para ninguém.

Se as mentiras exigem espaços e as verdades criam apocalipses, estamos parados no meio do caminho. Não há volta e o futuro se balança com as incertezas. Armar o inventário do que foi perdido, talvez, seja inútil. O sorriso ainda pode ser encontrado,a conversa não morreu. Olhar as profundidades obscuras não é pecado. Pior é vesti-se com as apatias, trancar as portas do quarto para preservar a angústia. O mundo de hoje não é tão diferente de outros mundo que já existiram. Os escritos de Galeano fazem companhia aos de Guimarães, Auster,  Pamuk, Agualusa. As trilhas caminhadas possuem múltiplos desenhos. Inventar não é fantasia. Entenda que o cansaço é humano e a ousadia merece o colo da memória.

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Amores e eternidades

Não diga que as portas estão fechadas.

pois o amor não precisa de chaves.

Não adianta escrever sobre a dor na parede.

elas estão desbotadas e sujas.

Cada instante resume o exílio do sentimento,

desencanta a fantasia secreta do último perdão.

Solte o grito  estranho dos corpos sofridos e tardios

 para expulsar os demônios invasores.

Os amores se perdem nas noite de insônias e

o tempo se vai arruinado pela eternidade dos deuses.

A luz do dia não consegui iluminar o paraíso dos encontros.

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O suspense histórico das conspirações

 

Não há como observar que a história é transparante. Sempre existiram dúvidas. Temos recursos tecnológicos imensos, mas também suspeitas indefiníveis. A escravidão trouxe atmosferas de violências. Desde o início, havia tensões. Ser colonizado é um peso. Isso não passou. Continuamos navegando nas turbulências, com desenganos frequentes. A proclamação da República foi uma surpresa? A renúncia de Jânio foi um drama? As ditaduras eram nacionalistas? Por que se fala tanto que o fascismo está voltando? E os golpes são preparados com articulações internacionais? Quem governa possui alguma referência ética?

Não vamos ficar envolvidos com as perguntas. O Brasil não é privilegiado. Mussolini e Franco tinham boas relações com a Igreja Católica. Os anarquistas foram perseguidos em 1917. A bomba atômica revelou compromissos obscuros.O assassinato de Kennedy se transformou numa novela policial. Conspirar é se infiltrar na cultura política. Mostra as desconfianças. Há sociabilidades, porém circulam armadilhas, emboscadas e a democracia segue cheia de atropelos. As salvações religiosas estão virando um comércio habitado por máfias que apelam para o divino. E o futebol, grande divertimento, não negocia com milhões vindos de estranhos mercados?

Portanto, é preciso não particularizar. As sociedades se sentem ameaçadas por mistérios intransponíveis. Morreu Teori, as penitenciárias explodem, os partidos cogitam construir novas alianças, Temer não perde oportunidades de apresentar suas gentilezas. Não despreze o cotidiano. Centenas de ônibus são assaltados, pessoas se escondem na madrugada, passear transformou-se numa aventura. Não chore só pelos  mendigos que estendem as mãos nos sinais. Já soube dos massacres na Síria ou prefere assistir as fantasias do Big Brother? Há escolhas e apatias, acompanhadas de sacos de pipocas e pizzas especiais. As televisões precisam de férias remuneradas.

Os impasses são pedras que assustam todos. O medo escapa no ritmo de cada coração. Quanto tempo para pensar nas revoluções que arrebentaram o mundo prometendo igualdade e fixaram autoritarismos medonhos? A história não é um conjunto de ações preparadas para reforçar a boa convivência. Quem a criou deve  ser um andarilho mágico, arquiteto de labirintos, solitário. A humanidade inventa para tentar desfazer os sufocos. Conspiram nos paraísos, nas rebeliões socialistas, nos gabinetes do Congresso, nas pesquisas dos professores titulares. Tudo está desprogramado de forma esquisita. Nada garante que os anjos nunca conversaram com os demônios.

Risque os manuais de filantropia, espie na gaveta do armário antigo, fofoque com seu vizinho. Mantenha os olhos abertos, visite as praças, ouça os latidos dos cachorros. Os ruídos anunciam alguma coisa. Escreva sobre suas dores, não represente no meio da rua, rasgue os jornais de ontem. Não acredite que o sossego será soberano. Muita gente, disputas gerais, cansaço e ineficiência dos governos cínicos ampliam o ir e vir. A imprensa adora notícias sensacionais. Conspira para que haja conspiração. Largue a impaciência e se desfaça das sabedorias expostas. Hostilizar é doentio quando aprofunda a agressividade e joga fora as chaves do afeto.

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O verbo ocupar, o substantivo ocupação

             

As palavras acompanham as andanças da história. Nem sempre é preciso inventá-las ou mudar sua vida nos dicionários. Ninguém consegue comunicar-se anulando os múltiplos significados que possuem. Os sinais e a mudez podem ser compreendidos a partir de seus malabarismos. Deus não fez o mundo. Ele o disse, com solenidades supremas: no princípio era verbo. As dubiedades não deixam de existir. O que é mesmo masculino? O feminino é a fotografia da sensibilidade? Por que articular os discursos, se cercar de proteções das gramáticas? O mundo é um conjunto de signos ou o mundo é o mundo, a residência de anjos, demônios e humanos? Não sou apóstolo.

Cada época dança seu ritmo. Há quem goste de valsa, quem se encante com Piazzolla. Não adianta hierarquizar. Quando se falava se ocupe, a casa balançava, a preguiça sorria. Hoje, com outros ruídos, fortes desempregos, descontroles, está desocupado é um suicídio. Deprime, desampara. Buscar o ponto final da história é ser escravizado por devaneios. Há tantas coisas e sentimentos vazios. O movimento é constante. Não adianta se distrair com uma ingenuidade fabricada. Brincar não é mais uma arte. Virou um negócio que desacredita qualquer iniciativa de inocência. Não venda seu avião para um estranho, nem desmanche suas utopias. A confusão é imensa.

O mundo precisa de ajuda e nós também. Os objetos tecnológicos são graciosos, espertos, complexos. Não basta detalhar suas minúcias. Elas terminam sugando a nossa imaginação. O que pretendemos: flutuar no tapete mágico, conhecer as estrelas, desenhar a artista do filme, entregar a pizza do vizinho? Não faltam opções. Estamos nas fronteiras dos limites. Quem ocupa e não reflete pode estar mergulhando no incontrolável. Assim, corre a especulação dos que se julgam sábios. A sentença talvez seja um escorregão. É fundamental, então, escutar a solidão, olhar o próximo, cultivar a autonomia, sentir o afeto descongelado.

O pior é ser ocupado, deixar que a crítica morra.A perfeição não existe, mas há quem a deseje. Todos estão cercados por descartáveis. Os reis não conseguem manter a majestade. Trump promete abalar os Estados Unidos. A ocupação conservadora é uma ameaça a quem curte o voo dos pássaros. Não possui as promessas, nem o futuro. A sociedade inventa sem cessar. Os cansaços são comuns. Não aposte no definitivo, não conspire contra a imaginação. A rebeldia encanta, traz inquietações. Muitos conseguem segurá-la, outros optam pela nostalgia. A vida não tem cartas marcadas. Não se lê livros, como se lê o mundo.

Nunca me esqueço de Édipo. O sofrimento que o marcou não se foi. Corta o corpo, desenha espantos. Os mitos gregos deveriam estar em cada esquina. Seria uma ocupação revolucionária. Já pensou certas pessoas conversando com Prometeu? E a sedução de Afrodite? Mas isso é um delírio. A reflexão fica na vitrine dos condenados,  muitos se vestem de poder quando ainda usam fraldas. Quem resolveria tantas equações? Gostaria de cuidar de um encontro entre Nietzsche, Marx, Freud. Ocupá-los com as angústias da época. Escolheria um lugar sossegado, sem luz, com velas acesas e moinhos de vento.

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