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Medos, histórias, palavras

Não me iludo com as gravidades soltas e as vitrines vazias,

tenho medo de flutuar perdido, sem encanto e sem coragem.

Sei que minha história nem começou, cultivo as dúvidas existentes na imaginação

e apago o fogo para não frustrar as mentiras de Zeus e as astúcias de Ulisses,

mas molho os cabelos para desfazer a dor que contraria meu corpo ocupado.

O mundo lá fora testemunha incertezas, classifica sentimentos, pune culpados.

Há refugiados que morrem nas extravagâncias das explorações impunes,

não sabem que vida nunca está pronta, nem se estende por tempos eternos,

ela não chega, sempre parte, abandonando os olhares sem rumos e os futuros escorregadios.

Penso num instante que fugiu, contemplo espelhos que não possuo, risco as sinais de fim desesperado,

esqueço a última palavra que profanou o sagrado do templo solitário.

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Bauman: a vida se dissolve e desencanta

 

O tempo não tem pertencimento. Não há lágrimas que o convença a mudar sua rota. Talvez, nem ele a conheça. Vamos caminhando, de repente um abismo e tudo se finda. Difícil pensar a história, quando a abraça o desejo incontrolável. Morreu Bauman que tinha uma sensatez imensa e criticava o mundo capitalista com intensidade. Sempre as perdas nos trazem reflexões, nos carrega de saudade, nos desperta para a importância de quem se foi. Há quem apenas seja reconhecido com a chegada da morte. Lembre-se de Nietzsche que se transformou num ídolo da pós-modernidade, mas sofre  desconsideração na sua época.

Estar numa sociedade veloz e complexa confunde. Desmontá-la , com análises, é um desafio. Muitos preferem se esconder, inventar teorias desconexas ou explicar tudo pelas idas e vindas da bolsa de valores. Esquecem os afetos, os desejos, as frustrações, as opressões. Bauman não se escondeu dos seu momentos. Tinha a agilidade de um pássaro gigante que voa sem perder os detalhes do horizonte. Vestiu-se com a decifração de enigmas. Incomodava-se com a exploração e a desigualdade.

Uma sociedade que se arrasta em busca do consumo, que se gasta ornamentando aparências, está com a saúde minada. O supérfluo dá ordem e os sem escrúpulos gozam de privilégios. Como silenciar? O pensador não deve acumular passados e desprezar o presente. Compreender o agora, compreender o que está próximo, compreende os traços do narcisismo. Bauman viu modernidade, a falta de consistência, os ruídos da grana, o individualismo extenso e covarde, os corpos doídos com a fome e a sede.

Não se calou. Denunciou. Sua escrita se espalhou. Não era um consenso. Há quem não aprecie suas considerações e as tema. Há pessoas que festejam as ondas do capitalismo com cinismo desmensurado. Bauman desfazia e esmiuçava as aventuras dos sucesso animados pelas propaganda. Entende a crueldade de um mundo que exila, marginaliza, concentra, desperdiça. Sem afeto, como dialogar e criar asas? O amor não existindo, as história se debilitam, as mesmices se instalam, a aridez se torna um território imenso, os valores se degradam com o rugir das violências cotidianas.

As mercadorias não param de apressar seus domínios. E nós não somos mercadorias? Não vendemos ou alugamos a força de trabalho? O que sabemos das armadilhas, dos conflitos, do jogo dos dominadores? As lacunas nos deixam enfeitiçados, acreditando em amigos ocultos. A obra de Bauman aprofunda questões, respira no meio da de poluições, nos toca. Seu texto nos alerta que somos responsáveis pelas disparidades, pelas vitrines macabras. É preciso sacudir a apatia. O sólido se desmancha. Faz tempo que olhamos para o chão, com se o descantamento nos acompanhasse.

Somos os caçadores da arcas perdida ou cavamos um buraco que não tem fim? Paz, Bauman. O poeta não é aquele que faz versos pomposos. O poeta é fundador concepções, não se acanha  com as incompletudes humanas. Administrar a sociedade, tirá-las do sufoco, não combina com a liquidez. Quem pinta os cantos do mundo, quem possibilita o reinício, transcende a massificação e as epidemias autoritárias. Não existem paraísos afirmados. A história se constrói, duvidando do pecado e da eternidade. A finitude e o limite não descansam.

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Rosa Luxemburgo, política, anarquismo

 

Será que estamos assumindo a barbárie ou nunca deixamos de cuidar das vinganças? Mal começou o ano, os atentados recomeçam, a violência derruba limites. Insisto que não se brinca com o desejo de intolerância. Há quem escreva procurando atiçar desencontros, culpando os outros por uma carência pessoal. Quem conhece sabe que os psicopatas não estão apenas nas ruas. O pior  é que são celebrados por outros ensandecidos, desamparados pela terrível situação que vivemos. É necessário não se calar. Mas temos de fazer distinções. A violência pode ser um sinal de que as fronteiras estão rasgadas e as ameaças estão liberadas. As redes sociais não cessam de celebrar coragens pouco convincentes. Há um desfile de estrelas e astros encantados.

Não se assuste. Há  motivos para revoltas, mas há motivos também para repensar a política. Se não denunciarmos que o sistema apodrece, o desmanche será maior. As brigas nas torcidas organizadas, nas células agressivas das facções, as melancolias dos apáticos são comuns A desigualdade não se estabelece gratuitamente. Se tudo se anima com a competição, não estranhe se a pedagogia for o retrato do desencontro. O perigo são as transferências, a construção de inimigos, a destruição do coletivo. Há quem se ausente das suas ações principais e arquitetem paraísos  totalitários. Existem grupelhos localizados, acostumados com tensões ou fabricadores de tensões. Ocupam-se dos prazeres momentâneos disfarçando os incômodos.

O capitalismo segue sua trilha aproveitando-se do imprevisto. Joga com astúcia. Seus programadores minam resistências. Como sair de tantas armadilhas ? Teorias não faltam. O anarquismo, uma delas, traz a ideia da igualdade, condena a subordinação, discute o poder, alimenta a necessidade de dividir. O anarquista considera o espaço da violência, porém nem toda sua articulação significa  o caos ou o fim dos outros. Ela faz suas comunhões, avista suas possibilidades, analisa o niilismo, critica à hierarquia. As estratégias podem ajudar a fixar caminhos sem pedras. O drama é anarquista que nunca leu sobre anarquismo.

Alguns abominam as leituras. A exacerbação da insensatez mostra o horror , lembra genocídios de todos os lados, exalta gênios obscuros. Analise a primeira década do século XX. Rever as teorias dentro da contemporaneidade é fundamental. Rosa Luxemburgo escreveu um texto exemplar sobre 1917, debateu sobre os limites da política.  Rosa era marxista, como também Poulantzas, Gramsci, Althusser, Marcuse, Hobsbawm … Há quem se restrinja às aventuras opressoras e assassinas de Stálin. Como pensar os ruídos dúbios do socialismo? O livro de Padura, O homem que amava cachorros, provoca, narra, inquieta. Não esqueça as justificativas, as idolatrias pelos autoritários de ontem e de hoje.

Passamos por duas guerras, o cinismo tornou-se um tema presente. Andamos com  olhos presos em teclados sofisticados e ainda falamos de simplicidade. Estamos exilados e recolhidos. Apostamos no acaso, no anjo da guarda ou nos pesadelos feiticeiros? Contamos as mortes, para vender escândalos e  dimensionamos as hostilidades que residem perto de nós. Perdemos a noção de profundidade. Olvidamos que o socialismo não pode existir sem a democracia, sacudimos os livros no lixo cansados com a primeira leitura. Construímos frágeis idealizações. Volto A Revolução Molecular de Felix Guattari. O que somos no fluir das moléculas revolucionárias?

 

PS: Foto de um comício com Rosa. Está no google. Rosa foi assassinada.

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A esquina e a vida, os amores e os gritos

Encontrei a vida numa esquina abandonada.

Lembrei-me da noite triste e de um pesadelo longo.

Desenhei o tempo, senti lonjura, fechei os olhos ardentes.

Vi que nunca sou o mesmo e o afeto me abraça quando tenho medo.

Há amores desfeitos nos gritos históricos e ocupações tardias

que anunciam espaços inesperados e redefinidos.

O mundo se inquieta, eu me inquieto, mas a esquina permanece silenciosa.

Sustento a imagem do passado e sinto que o ar poluído amplia a dor,

faz tempo que não converso com a esperança.

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Os mitos encontram-se na contemporaneidade

 

A sociedade não vive sem narrativas. Elas buscam fazer uma leitura do que acontece. Há muitas leituras, muitas interpretações, muita complexidade. A história permanece dependendo da ilusão e se amarra nas aventuras do tempo. Não vamos traçar um linha reta e se deitar no berço esplêndido. Existem mais curvas do que esquinas. A cultura inventa mitos para se aproximar dos mistérios. Há o inexplicável acompanhando cada minuto, ocupado o vazio, soltando-se dos ritmos antigos. Querem o novo como salvação, nem notam que ele pode representar o descartável. Estamos longe das revoluções e das estratégias fascinantes. Mas a possibilidade de dividir as riquezas puxa movimento políticos, assanha inquietações, espalham dúvidas.

A sociedade não foge das lutas políticas. Não há como sufocá-las. Os espaços são múltiplos. Elas podem parecer uma emboscada, um desespero de quem se acha marginalizado, uma sentença jurídica que traduz crimes e disfarça ousadias. A brigas dos mitos mostram que não há sossego. Leia sobre a travessia de Ulisses, as violências de Zeus, as tramas de Sísifo, as luzes de Apolo. Tudo isso se foi ou ganhou outros nomes? O que Moro fala para seus admiradores? O que Temer promete para 2017? Quem é mesmo Fernando Henrique? Por que Lula é alvo de tantas denúncias? São perguntas que possuem respostas que assustam os mais fanáticos. Há quem precise de amparos, de seduções, de crenças.Há psicopatas que atuam nas vitrines sociais.

A história traça suas ressurreições. São desenhos, às vezes, estranhos e escandalosos. Há uma sensação de retorno, quando os desapegos acontecem e subtraem as esperanças. O mundo árabe se despedaça, as favelas cariocas queimam, os governos assaltam, as crianças são estrupadas. É difícil nomear destinos. A história é construída por relações sociais heterogêneas. Lembre-se do feudalismo, do poder dos papas. Observe as corporações atuais. Os milhões circulam e são multinacionais. Os estados sucumbem, porque perdem a credibilidade. Especula-se que o terrorismo está se armando para afundar o mundo. Prometeu ainda está acorrentado, distante dos tribunais, desafiando a eternidade.

Se as permanências no assustam, o que dizer das novidades, das formas contemporâneas de produzir lixo? Portanto, a indefinição do tempo é a grande esfinge. Chame o profeta Tirésias para decifrar o que nos espera. Escute a conversa que teve com Ulisses no inferno. O que mudou? Os esconderijos são mais sofisticados, a maior parte da população sofre agonias e as utopias são trituradas pela arrogância. A inquietação das vozes, porém, institui rebeldias. As reflexões aparecem como monopólios. Não se pensa em uma saída coletiva. Olha-se para os ruídos da bolsa de valores e grita-se, amém. Quem fundará  a última religião e praticará o suicídio anônimo dos deuses? Quem se senta na cadeira do poder no momento do deboche e do pesadelo?

 

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Ressentimentos: a política descosturada e narcísica

Usar a agressividade faz parte da convivência. Há, porém, extremos. Quando o diálogo morre, as palavras se perdem, cegam-se os olhos.  As ruínas continuam insistindo que a política não é uma harmonia. Cria-se um sonho que declina e termina assustando. Pode transformar-se numa violência estéril, anônima, em busca de inventar um medo que paralisa e destrói a confiança. As discórdias puxam o poder, centralizam, dramatizam, colocam-se como labirintos. Há muitos enganos que mostram a ausência da sociabilidade.Portanto, inventam-se fantasmas que, apenas, desfazem caminhos e destroçam utopias. Confundir é um lema, suspeitar é uma ordem, alargar pântanos é uma construção. O medonho ganha rosto, em cada cartaz, em cada imagem.A falta de valores, que apontem outro renascimento, é visível.

O mundo gira movimentando espantos, com discursos salvacionistas perigosos. Não acredite em quem resolve tudo com uma magia ou se resume a uma oração de santos materialistas. O capitalismo ornamenta seus  altares com astúcias venenosas. Muitos o condenam, porém adotam sua lógica, vestem-se de autoritarismos, assumem a mesmice. Tudo isso tem se globalizado. Atinge a prática de cada um , esconde armadilhas, valorizam máscaras. O desmantelamento se dá na celebração de rituais que assanham e justificam vinganças. Não há reflexões, nem perguntas, mas há delírios. Se tudo está descoordenado é preciso encontrar as saídas. Deteriorar o afeto fragmenta, dilui.Volta-se a se desenhar a atmosfera de desencanto. Os gurus oportunistas procuram se manter nas vitrines, com risos de hienas.

Mudam-se as cores, no entanto os ódios e os totalitarismos se estendem.  A mídia não alivia, quer o escândalo. As ciências agitaram preconceitos, prometeram liberdade e razões soberanas. Não esqueçam que as bombas e as armas militares funcionam com eficiência. Há cientistas que estão submetidos aos grandes monopólios. Não há neutralidade. O jogo de interesses flui e oprime. A política não é parque de diversões. Tudo é uma fantasia num mundo povoado de mercadorias ? Os espelhos estão riscados, a mente dispersa, a inquietação circulando como um aviso de uma redenção tonta, mas é a grana que domina e destroça. Isso aumenta as tensões, redefine culpas, rasga corações. É fundamental que se aviste os entrelaçamentos dos tempos. A mente ocupada com devaneios solitários murcha.

Nem sempre, cada dia é um outro dia. Os pesadelos perturbam sonos, sinalizam com tropeços e amarguras. Somos animais sociais que se aventuram sem certezas. A escassez é uma companheira que tentamos desmanchar. As máquinas, muitas vezes, afirmam esquizofrenias. Reclamamos que nos sentimos sós no meio do bando e da multidão. O desamparo mora em cada banco de praça. Somos pedras ou corpos? Perplexos, vemos que o abismo se aprofunda, como se houvesse ódios soltos. O cais está turbulento e as embarcações se chocam. Existe um mar que nunca foi navegado, uma veste que nunca foi costurada Somos diferentes, não duvido e a distância pode se tornar aridez sem rumo, escuta sem voz. Lembro-me de Nietzsche, não para  incendiar raivas e delírios, mas para não esquecer que o homem é um animal que julga e que a verdade é curva.

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As travessias perigosas e egoístas

 

Nunca vi tanta confusão na política. Algumas ensaiadas com ajuda da mídia e desespero de quem sonhou Temer como o santo da Republica. Não é apenas o Brasil que passa por escorregões. O capitalismo precisa urgente de reforma e busca seu caminho atropelando os desfavorecidos. Trump está no poder. Quem sabe o que vai provocar? As experiências não vingam, terminam trazendo autoritarimso. Há uma inquietação geral. Quem governa não se acha seguro, quem protesta se encontra com repressões e mentiras.Portanto, as possibilidades de diálogo se esfacelam. A lei se fragiliza. Ficamos com instituições indecisas. A precaridade se mostra em todas as esquinas.

Resta a violência que se espelha. Muito fome, incêndios, falta de atendimento médico, salários atrasado, tudo isso compõe um sufoco opressor. Não pense que a violência é algo físico e corporal. Ela toca nos sentimentos, deixa a sociedade sem compasso. As ações obscuras do Congresso são violentas. Fermentam desempregos, fechar o circuito para quem deseja sonhar. O capitalismo se amplia quando consegue exaltar valores e massificar o consumo. Hoje, existem consultores que sabem manipular ideias e se soltam na imprensa. A tecnologia sofisticou a dominação. Há quem se agarre nos seus empregos privilegiados de forma feroz.

As saídas se estreitam. Quem sabe se Temer não será acolhido pelo PSDB como seu novo membro? Renan discute, se irrita, já foi companheiro de Collor, não merece confiança. Os juízes estão enfeitiçados. Brigam entre eles, desafiam os pareceres e se sentem imperadores. Não há serenidade, mas uma gritaria para possuir lugares. Não faltam insultos e quebras de dignidade. Reclamam dos arrastões, mas esquecem do cinismo que inunda Brasília. Qualquer reação é transformada em terrorismo. A política se dilui com espaço de aprendizagem. destrói a memória, visa o luxo e a arrogância de uma minoria. Não só aqui. O genocídio, na Síria, é imperdoável.

Todos estão querendo o mapa do futuro. Ela não existe. As ameaças atuam para intimidar sem limites. Se o capitalismo se reanima, outras questões surgirão, novas respirações. Não se iluda, pois o fôlego da exploração é cruel. Não sei se há uma naturalização de certas práticas, antes temidas ou a história permanece com tensões constantes. É difícil. Deixar o barco navegar à toa é romper com as luzes da mudança. Jogue fora a apatia, não se separe das reflexões.Não dá para ficar em cima do muro. Se não há critica, afundamos numa sociabilidade recessiva e numa concentração de riquezas. A harmonia nunca existiu, sempre houve divergências. Estamos no meio delas, cercados de espertezas infames.

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Os espelhos dos encontros

Não risco o espelho que não me pertence,

nem a carta definidora do juízo final.

Os desencontros da vida são sínteses da história,

as surpresas, não representam o zero do acaso.

O mapa da vida é um acúmulo, sem sentido,

uma busca do que parece possível, mas que são utopias frágeis.

Não salvo almas, não escrevo perdões, nem acredito na ingenuidade,

desenho o que imaginação manda, solto na estética das contradições.

Os amores do passado são vestígios poderosos,

nada termina sem a imprudência do azar, o olhar dos anjos.

Somos contos que Kundera juntou na gaveta do armário,

dispensamos as verdades, sem acreditar nas mentiras.

Quem se encontra no espelho congela a imagem da morte,

se amargura na aventura do caminho desconhecido.

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O que sei é que quase nada sei

 

 

As instabilidades deixam todos inseguros. Não pense que Temer ri gratuitamente. Há disfarces, os políticos são atores qualificados para multiplicar fingimentos. No entanto, as complicações não desaparecem. A expectativa é geral. Notícias de hoje não servem para amanhã. As interpretações da leis possuem sábios aplaudidos e manobras vergonhosas. Moro é o capitão da América e sonha com glória. Deseja ir para os Estados Unidos. Suas declarações mostram estimas elevadas. Surgiu e ficou. Herói nacional de muitos que não se esforçam para medir suas críticas. Confusão no ar, ninguém prever o futuro, a economia descendo a ladeira, o descrédito aumentando, a droga solta no mercado com violências autorizadas

As instituições estão, visivelmente, quebradas. Não conseguem dar respostas. O Supremo se contradiz, as Universidades submergem, as famílias tropeçam na ética, não formam os filhos para o mundo. As dissonâncias andam em ritmos nada estéticos. Não se trata de relembrar as vanguardas modernistas. A ameaça de caos se propaga, porque o lema é acumular. Tentam apagar as memórias das revoluções, dos tempos de inquietação. Vale o pragmatismo. É preciso ficar atento, pois os interesses mudam as cores de forma sutil e opressora.Não esquecem da reprimir.

Se a dúvida é jogada fora, o instituinte se fragmenta. Castoriadis é autor que reflete bem sobre as mesmices do contemporâneo. Há um conformismo agudo, celebrado na empolgação por mercadorias. O afeto vai para a lata do lixo, pois o importante é o poder de aquisição, as falsas tapinhas nas costas. Volte ao passado. Recorde-se da força do cristianismo. Quando o catolicismo se expande e se alia com a política, os negócios se animam. Onde está o próximo?Tudo se perdoa, para se sentar em tronos de ouro. O Brasil se veste de fantasias falsificadas.para viver jantares definidores de golpes construídos por minorias.

Sócrates tinha razão ao dizer que nada sabia. Imagine se vivesse em Brasília, fosse vizinho de Temer. Há desesperos que circulam. Encontro pessoas que se esvaziam. O número de farmácias cresce, sobretudo nas esquinas das grandes avenidas. Quando a sinceridade não existe, a mentira se sofistica. As reuniões acontecem para fabricar versões e não resolver a quebra da sociedade. Ha quem recorra as finanças adormecidas em bancos estrangeiros. Celebrar a ordem e o progresso é sinal que o pântano é profundo. Não desenhe o que desconhece. A cartografia das manipulações é extensa. Desconfie.

Se está aflito, porém, ainda possui uma vida razoável, troca seu carro, mantém seus filhos com seguro saúde, não fique apático e desista de beber sua cerveja importada. Qualquer vacilação procure pegar um ônibus às 18 horas, daqueles lotados e sujos. Ouça a conversa dos passageiros. Compreenda a saga de cada um. O inferno existe e você não sabia. Há muita gente que acorda às 4 horas e dorme às 23 horas. Trabalha para ganhar o mínimo e suportar as neuroses do patrão. É um teste. Não brinque com a dor dos outros. Tudo é relativo? Talvez, seja. A piedade dos deuses tem limite. Não entre na quadrilha de Ali Babá. Não se descuide dos sinais da história.

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Kafka: as profecias estão na história

Vivi muitos episódios. Não penso que existe destino. Há sempre surpresas e estagnações. Nada é transparente. A história tem curvas imensas. Tenho poucas respostas e muitas perguntas. Fico agoniado. Há pessoas que revelam um cinismo inexplicável. Há outras que cuidam si e nem ligam para coletividade. E os agressivos cheios de saberes acadêmicos? Quando sei as aventuras que eles carregam, sinto um toque forte na minha ingenuidade. As ilusões flutuam, os mistérios não desistem, somos animais especiais e ambiciosos. Os espelhos pesam com imagens supremas. A especulação faz parte de um mundo que se perde com suas dores e remendos.

As turbulências atuais ultrapassam expectativas. Houve uma programação para derrubar Dilma, armadilhas planejadas e brigas, íntimas no facebook, debates jurídicos e sentimentais. Tudo deu certo para os conspiradores. O golpe aconteceu, com Temer e Cunha ganhando manchetes. A imprensa parece sem reflexão. Noticia sem formalizar críticas. Alguns se salvam, porém a poderosa Globo dita as cartas. Não pense que não houve luta. Muitos confirmaram suas rebeldias. Nem tudo foi uniforme, com  infindáveis tergiversões e legitimidades desagradáveis. Há atores que ganham cenas cruciais no Congresso Nacional. Os dizeres são, porém, pesados e cínicos.

As coisas vão se engrenando. Preparam-se leis que admitem que o capitalismo está podre. A saída é punir a maioria e manter privilégios seculares. Aparecem consultores, estatísticas fabulosas, dramas. Moro torna-se um herói com fabricação exemplar. Há quem deteste Renan e acha Moro a encarnação da retidão. Não confio na turma que está no poder central. Observo as jogadas. Não sei se é uma comédia ou uma novela das 9. Tenho suspeitas. Sou inquieto, venho do tempo dos autoritarismos explícitos. Hoje, se mistura a autoridade com práticas fascistas. Elas estão por aí:nas padarias, nas esquinas, nos cafés, nas esquinas, nas academias, na mídia….

Não se assuste. Hitler morreu. Lembre que ele foi escolhido, por uma revista da sua época, o homem do ano. Protesto. Não se escolhe a mulher do ano? Quem mantém o machismo atuando e agredindo? Sou historiador, no entanto, não fico gritando pela minha profissão. É preciso ir mais além, não se trancar nos signos da razão. Por que não refazer os humanismos, redefinir as utopias? Por que a escassez de imaginação e o apego ao brilho das vitrines? Encantar-se pela superfície é fácil. Quem sabe se uma conversa com Kafka não faria bem?  Prepare uma mesa redonda com ele, Sartre e Bertrand Russel, coordenada por Fellini. Melhor que seja ao ar livre.

Assim, vamos ou vou. Encontro-me com sonhos de outros momentos. Conservo-os. Não deixo que o tempo passe e eu fique submerso nas verdades dogmáticas. Mantive o desejo de não mergulhar no egocentrismo e acredito que o afeto consegue aproximar e desmanchar tensões. Não sou ligado aos milagres. As incompletudes sempre existirão, as religiões ajudam a respirar, embora estejam poluídas pelas negociações cotidianas. Analiso o profano, suas ousadias. Cuide do seu olhar. Não seja pessimista radical. Não há luzes permanentes, nem sombras definitivas. Elas se namoram como esfinges. Você é profeta?

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