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Macondo: a solidão da história

Pintei o acaso na aventura do vermelho de Dalí,

deixei que a arte enlouquecesse com  cem traições repentinas.

Envolvi-me com as sombras e as luzes do eterno retorno

e  não segui a trilha covarde das armadilhas fabricadas.

Escutei os cantos dos pássaros azuis no ninho do quarto,

desfiz o paraíso que se escondia nas sementes da maçã pecadora.

Não sei se há terra, fogo, ar, água e assombrações,

vejo apenas ruínas medonhas e estranhas,

adormecidas entre o antigo e o moderno da cidade nua.

Imagino Macondo, me enfeitiço com Remédios, a bela,

e abraço Melquíades, o profeta do saber , espelho de Gabriel.

Converso com os fantasmas de Úrsula, assustados e febris,

não há dor que a solidão despreze, não há dança para deuses vadios.

O  Mundo existe para que conte minha história no meio das coisas,

das pedras, dos livros abandonados nas estantes moribundas.

A vida funda-se na embriaguez do belo, consolidando rebeldias

que ousam silenciar  os ruídos dos cinismos cotidianos

 ferindo o ventre das minorias  tatuadas

pelo vazio das palavras verdes e  da ordem desenganada.

Literatura e História: bordando diálogos e palavras

 

O império da ciência é forte. Muitas instituições lutam para manter uma razão soberana, com traços positivistas. Nada contra a razão, nem a capacidade de organizar ideias e costurar concepções. Há uma complexidade geral. É preciso ter cuidado e pensar o mundo. Péssimo é eleger verdades e não admitir contrapontos. No debate, um santuário não traz esclarecimentos, mas quebra criações e nega as possibilidades de ir adiante.Releva o chamado  peso das argumentações, seus entrelaçamentos com a seriedade acadêmica. Portanto, não ficar num caminho único é desafio e gera preconceitos. Somos animais que se inquietam sem cessar, pois as certezas se balançam com fugas e enganos.

Há autores com reflexões fundamentais. Quem pode esquecer Freud, Nietzsche, Foucault, Ricoeur, Castoriadis e tantos outros? São construções de conceitos que facilitam a observação. Nada está cristalizado. As análises se chocam, as diferenças mostram as indefinições. A sociedade se movimenta, solta-se para o passado, busca torna-se transparente. Mas as luzes e as sombras não deixam de existir. Não há  como apagar as divergências, nem se desfazer das encruzilhadas dos labirintos. Razão e sensibilidade possuem lugares que se complementam. Instrumentalizá-las é danoso. E as relatividades, as curvas, os espantos?

A literatura inventa uma escrita. Para alguns, elabora o reino da fantasia. É apenas uma visita ao divertimento, não tem compromissos com o real. Surge a velha afirmação de que a ficção não adianta para resolver os mistério da história. Muitos não querem ver como os tempos se misturam , como linearidade não se mete nas astúcias do tempo. O escritor trabalha com experiências e imaginações. Borda palavras, acende olhares, usa metáforas, não esgota no lugar comum. A sua sedução é uma trilha para entender que a vida tem idas e voltas, não é uma falha cogitar nas permanências, nem aprender com a beleza.Escorregadio é fixar hierarquias inacabáveis e riscar o deslumbramento.

Como negar a incompletude,os desejos de superar lacunas? A cultura mostra que a insatisfação atravessa a história. Descartes fortaleceu o racionalismo. Sartre mergulhou na existência. Foucault redefiniu estudo tradicionais. A heterogeneidade é um encanto e não a consolidação de uma brincadeira mesquinha. Faulkner, Flaubert, Manoel de Barros, Guimarães produzem diálogos fabulosos com magias que tanto nos intrigam. No vasto mundo, esconder-se do acaso é uma tentativa de morte da reflexão. Há uma manto longo e estranho. Lembra a Odisseia. Somos nós que temos de bordá-lo, com escritas diversas, fragilizando vaidades, multiplicando espelhos. Temos que ouvir o canto das sereias, sonhar como uma pluma sem ponto marcado.

Leituras do mundo: Gabriel, Piazzola, Auster, Belchior

A palavra mundo possui uma magia. Busco significados e não encontro. Há mistérios, perplexidades, labirintos. Todo o dia conversamos sobre o mundo. Surgem descobertas, frustrações, expectativas. As mudanças existem, mas não esqueça os disfarces. Soltaram-se as interpretações de todas as cores. O mundo voa, como pássaros agoniados, e descansa, como gigantes pesados. A escrita não consegue esgotá-lo. Muita gente, muitos espetáculos, muitas ruas escuras, muitos assassinos anônimos, muita vontade de redefinir os paraísos. O teatro não se encerra.

Gabriel Garcia inventou Macondo. Misturou-se com tanta coisa e se tatuou com a beleza. Ninguém pode deixar de ler Cem anos de solidão. É um mundo de fábulas e verdades, de loucuras e de desfazeres. Não é possível cantar a imensa imaginação dos personagens e dos seus lugares . Não fico por aí. Lembro-me de Paul Auster perdido na construção da sua identidade. É preciosa a sua escrita, sua tentativa de compreender os acasos. Quem já mergulhou n’ A invenção da solidão? Diálogo com quem brinca com as palavras nos aproxima dos tapetes mágicos.

Contemplar o mundo é necessário. Não se canse com as formas, nem adivinhe os destinos superficiais. Ouça o silêncio, engane os ruídos, marque um encontro com Freud no divã de sua casa. Piazzolla deixou a vida, mas sua música é o espelho do mundo encantado. Não pense que a morte é o fim da história. É um outro começo. Belchior está na celebração. Há saudações a sua obra. Não gostava de construir vitrines. Reapareceu, trouxe polêmicas, ressuscitou vibrações. Portanto, não fixe verdade, nem se escandalize com o outro. A viagem do mundo é acidentada e surpreendente.

Belchior não fechou os olhos para as repetições. Saiu do mundo, estando no mundo.Os nossos pais merecem toda atenção nas aventuras das letras proféticas. Consigo me recordar de muita coisa, mas o passado se movimenta. Somos muitos e o tempo nunca será linear. Há quem reflita sobre o futuro do passado, quem se fascine com as lendas de Adão e Eva. Não cabe fechar as portas e as janelas do mundo, nem anunciar mortes que não existem. Estamos nos sacudindo nas saudades e nas paixões repentinas. De repente, o balanço se encontra com o trapézio no circo da avenida central e Prometeu ressurge na história de um músico latino-americano. O delírio não se apaga. Há quem não se livre das ansiedades da salvação.

Nas leituras do mundo, não se sufoque. Risque a escassez, seja alguém com sonhos e amarguras. Não se empolgue com ídolos eternos, porém configure a incompletude, as faltas, os mitos que atravessam os instantes mais estranhos. Navegar sem cais luminoso pode ser um desperdício. Os mares têm nomes, a poesia ensina a medir os enganos. No espaço estreito, há fórmulas esquecidas. Tudo circula, a velocidade não é uniforme. Faça uma leitura das suas covardias. O mundo não abomina o sentimento. Sente seus desequilíbrios. Belchior anunciou o juízo final ou trouxe decifrações inesquecíveis? Transformou o profano no sagrado, acelerou os corações vadios.Disse não ao sim, sem relevar o peso dos pecados vividos.

O que sei é o que sei e você?

Não compartilho com a famosa afirmação de que o que sei é que nada sei. Sócrates tinha razões, vivia outros tempos, firmava suas confidências. Sei e vejo muitas coisas, embora não negue as fragilidades. Há interpretações múltiplas. Vagamos no meio de tantos conhecimentos. E as novidades das informações? Portanto, as certezas querem se manter, mas sofrem ataques contínuos. Temos referências e não destinos. Querem destruir o passado para apagar a história ou inventar desesperos? As disputas não cessarão, porque somos invejosos e não profetas de tudo. As suposições fazem parte do cotidiano.Disfarçamos com voos espetaculares e enganosos.

A viagem é longa. Desconhecer as origens é doloroso. Se o futuro transformará o mundo é um enigma. Tropeçamos, porém os perigos são imensos e alguns superáveis. É preciso não jogar com as palavras, sem mergulhar nos seus significados. Lembro-me dos sofistas. Gosto do relativismo. Não me sinto solto, sem nada para dizer. Busco me equilibrar. A felicidade aparece em momentos passageiros. Os desprazeres existem, o pessimismo se amplia, mas há risos, brincadeiras, coloridos, mares azuis, livros de Kundera. Quem não se envolve com paixões?

O mundo é complexo. A morte amedronta. Ficamos perplexos com tantas dúvidas. Os deuses fazem suas apostas. Não acredito em julgamentos finais. Há muitos mistérios. Naveguemos. Camus tinha intuições singulares. Escreveu um livro fantástico O mito de Sífiso. Reflete sobre o suicídio, sobre os limites, os desencantos. Morreu tragicamente. Ninguém domina os saberes de forma absoluta. Mas aprecio quem lança questões, visualiza os danos do absurdo. Tudo produz polêmica, provoca andanças, traça ameaças, funda crenças, enfrenta dissabores.

Sei que estou numa sociedade turbulenta. As regras vacilam, as pessoas se drogam, os casamentos se desfazem, as guerras não se vão, a complexidade é um desafio. Escrever é conversar. Quem não retoma nostalgias, quem quer  naufragar em pesadelos? Definir os caminhos é quase incomum. Prometeu revoltou-se. Mostrou que não há nada estabelecido para sempre. As ilusões ajudam a diminuir as dores e arquitetar sonhos. O ponto final é um símbolo. Tudo está voando, com tempestades repentinas e fogos vermelhos enlouquecidos. A tensão desmonta lentidões.

O que sei é que pouco sei. Desconheço se há um encontro derradeiro ou se corpo apodrece inutilmente. As especulações frequentam cada desejo de pular o cerco das impossibilidades. Sócrates foi condenado. Já havia delação premiada. Nossa sociabilidade é escandalosa. Quem admite transcendências e se julga amigo dos anjos? Não se acanhe. Há quem roube, quem chore, quem fuja, quem se abandone. A confusão não é uma mentira, nem a vida uma aflição profunda. Siga com seus saberes e suas experiências. Um dia, casa cresce ou cai. E você levitará ous seus olhos ficarão vermelhos.

O tempo desfigurado

Vejo o tempo coberto de cinzas, sem fixar datas , nem profecias.

Notícias correm registrando mortes anônimas e desesperos universais,

mas o espetáculo continua, registrando escândalos e artifícios enganadores.

Há um desencanto que esconde o fim do sagrado e

a profanação de todas as verdades e de todas as tradições.

As ordens desfeitas teimam em  desaceitar o instituinte,

procuram silêncio nos fascismos contemporâneos e sofisticados.

Quem mede as lutas com a coragem registra o transtorno

das hipocrisias que não cessam de firmar emboscadas.

A leveza se foi no tapete mágico que se livrou do inferno,

a história conta o que não houve e coloniza a possível rebeldia.

Ulisses desiste de ouvir o canto das sereias e navega sem rumo definido,

sinto que a aventura desbotou as cores e o paraíso desabita a imaginação.

Italo Calvino: um dia de convivências e reflexões

Escrever sobre as experiências vividas traz um toque singular. Não deixa de haver fantasia e interpretações. Tudo passa por filtros e enganos. Não somos amigos da exatidão e a subjetividade possui suas invenções. Calvino tem uma escrita ímpar e uma vasta obra. Lamento que não seja lido como merece. Ele é um dos meus arcanjos. Gosto da sabedoria que transmite, sem arrogância e com palavras preciosas. É um autor que não dispenso e que me atrai sempre. Nada como buscar releitura e afirmá-lo como um clássico. Aprendizagem não tem ponto final.

Ele faz parte das minhas bibliografias acadêmicas. Procuro fugir das leituras que se repetem e Calvino sacode os que estão acomodados com teorias longas e complexas. É importante não desprezá-las, porém não custa investir na imaginação mais ousada. Há quem renegue a chamada ficção e se fixe em conceitos congelados. Existem disputas por lugares, apesar das muitas construções. Quem não cita pode cair no abismo. Então, a vitrine sempre é acionada com agitações constantes. A academia não está fora do capitalismo, idolatra metodologias e cultiva vaidades.

Calvino não se afirmou por uma obra de destaque que ofuscou às outras. Ninguém esquece As cidade invisíveis, com suas fábulas surpreendentes. No entanto, há mergulhos no cotidiano, nos difíceis amores, nas histórias tradicionais, na multiplicidade que cerca o humano. Viaja pela leveza, ressalta a visibilidade, não apaga as ambiguidades. Admira Jorge Luís Borges, sem deixar de enfatizar as astúcias de Paul Valéry, o fôlego de Dante. Portanto, não lhe falta erudição. Conhece jogos, articula imagens, quer consistência na literatura para manter um mundo com apatias curtas. Não sei é Palomar, mas carrega agonias e perguntas.

N’ O dia de um escrutinador se liga em convivências e angústias pessoais. Questiona a política, observa as diferenças, lamenta-se. Sente a complexidade do humanos. Mostra que não há medidas definitivas. O amor é que nos salva dos limites mais mesquinhos. Os entrelaçamentos da vida não se esgotam. Entre freiras, religiões, eleições, doenças existem acasos monumentais. Tentar resumir a vida é um desafio. Calvino desenha sentimentos, narra com intimidade problemas que também são seus. Pensa nas continuidades nunca esgotadas. Não fecha os olhos, adivinha.

As viagens, talvez, não tenham pontos de chegada. Quem sabe se não estamos sempre partido, num navio invisível, num porto acanhado, num afeto duvidoso ? Quem firma certezas? Calvino não é inimigo do relativismo, encontra-se com o leitor em cada reflexão para inquietá-lo. A vida se balança com assombrações, porém precisa de escritas, de companhias que adormecem para aquecer o corpo e sonhar. Simplesmente, estamos no fogo, na água, no ar, na terra. Voamos e avistamos pântanos e luzes. Calvino conversa. Não se esconde numa noite de inverno. Mantém o otimismo da narrativa sedutora.

O jogo da memória: saberes e narrativas

O esquecimento ajuda a deixar dores antigas, mas não há esquecimentos absolutos. A memória joga com entrelaçamentos e surpresas. A linearidade não se firma. As lembranças aparecem e desaparecem. Não sabemos quando elas retornam. Algumas incomodam, outras nos enchem de prazeres. Nosso domínio sobre a vida e suas aventuras é frágil. Temos muitas perguntas, lamentamos a falta de sentido, desconfiamos de muitas coisas. Será que suportaremos os tremores da história e descobriremos quem a inventou?  Quem quer se agarrar em profecias?

Há dificuldade em se estabelecer o sentido da tanta complexidade. Os saberes estão diluídos. Envolvem-se com a competição e exigem seriedade. Onde ficam o prazer e a alegria? A mudez entra na sala de aula quem concentrar conhecimentos e se deixa levar pela vaidade. Elegem-se autores que conseguem desmanchar os mistérios e seus sacerdotes. As hierarquias não se vão. O discurso é democrático, exalta a multiplicidade mais a convivência é tensa. Criam-se as ambiguidades e os monopólios. Cada um na sua estratégia, revivendo experiências ou desfazendo ressacas.

As artes de conversar, de inquietar a memória, de dividir experiências tornaram-se raras. É a sociedade da comunicação que se perde no controle permanente. Muitas novidades e escassos momentos para ouvir o outro. A corda se estica e a palavra termina provocando a ação. A solidão se apresenta como uma fortaleza. Não se ousa desconstruir. Há receio de  ser punido com uma crítica. Os saberes mostram os limites. Os sacerdotes do profano estão refazendo dogmas e nem percebem a insegurança de mestres que vulgarizam discípulos. Descontam um memória amarga do passado, presos em ressentimentos.

Não  se busca os mitos . Já leram a Odisseia? O texto é belo e nos lembra a psicanálise. O que seria de Freud sem os mitos e Jung sem seus arquétipos. As fantasias nunca são inúteis. É preciso, para alguns, não perder a seriedade, não desprezar os títulos. O lugar do pode se expande. Nem todos estão autorizados a debater. Há regras e louvações diante das hierarquias. O tempo se costura de forma vacilante. A inibição arquiteta um silêncio. Os saberes instituem propriedades privadas de escritas. Talvez, sejamos todos grupelhos. Os senhores do saber esgotam-se nos olhares duros, prestigiam silêncios demolidores.

A política se choca com muitos desenganos. Ela está em toda parte. Cada relação seduz, oprime ou desencanta. A política mora em todas elas de forma astuciosa, não é monopólio de Jucá ou Renan. Quem se arrisca a desmantelar o poder em lugares com regras centralizadoras? Não faltam reclamações, nem sempre os totalitários se tocam e retomam a sensibilidade. A sociedade se veste de sociabilidades surpreendentes. Não poderia se diferente. O que causa espanto é a morte disfarçada do coletivo. Os espelhos estão reservados para poucas. A sagração do êxito é uma religião que segura as distinções e sufoca o ânimo. Quem se ocupa no mundo dos vazios epidêmicos?

Os disfarces do tempo

Os calendários anunciam tempos vacilantes,

assaltos de mascarados exilados da história.

Há medos que não silenciam e gritos tenebrosos.

nada apaga o vazio de um futuro sem profecias.

Cada aventura disfarçada esconde o cinismo dos abutres,

vende-se a notícia com uma crueldade cotidiana.

Pense numa história que não abandona a nostalgia

e entrelaça a diversidades do desejo inquieto e azul.

Não finja que o mundo se conserta sem a invenção,

desfazendo os rastros dos fantasmas decadentes,

retomando os mitos dos encantos permanentes.

Não esqueça a imagem que fugiu do espelho,

a velocidade assustadora da morte atômica.

 

Espiar a história, sentir o mundo, escutar o tempo

 

Os ruídos são muitos. Não há silêncio, só vozes ou buzinas de carros. A televisão ajuda na diversão ou na apatia. Parece que as saídas foram bloqueadas e as armadilhas enchem cada rua. Não sei se vale questionar tudo, cruzar feitiços e acreditar em evangélicos com verdades milionárias e honestidades mascaradas? Eles povoam as mentes mais ingênuas, sem descuidar-se dos interesses. A confusão sai do limite, cria uma bipolaridade arrasadora. Há epidemias, falta de águas, anúncio de celulares coloridos, espetáculos anestesiantes. Faz tempo que não se fala em revolução, mas não faltam guerras e ódios.

As farmácias ganham fortunas e procuram se afirmar com lojas vistosas nas esquinas principais. As tapiocas custam dez reais e o bolo de rolo virou um assunto provinciano.Situação está esquisita. Tudo se globaliza de forma rápida. A desconfiança desfaz o diálogo. No Brasil, há mais presos do que prisões e a política é uma loteria com quadrilhas organizadas. A grana é o feitiço maior. Observem como atuam os juízes, como os delatores imaginam as situações, a pressão da imprensa por notícias novas. Quem é quem? As dificuldades acordam consciências, porém destroem desejos. Uns defendem Moro como se fosse um santo, acham Temer um figura sacrificada. Outros torcem por Lula.

Cultuam o messianismo, misturado com planejamentos especializados E os ressentimentos prosperam, no meio dos santificados pelas manchetes eletrônicas. Bastava firmar a solidariedade e esmagar as máscaras.Quando a política se arrasta promovendo escândalos estamos na rota do apocalipse. O descrédito retira o tapete, os tropeços tornam-se comuns, o cinismo adora o sucesso. Pergunta-se, questiona-se, intimida-se. Os sonhos desenham fantasmas. Não há como acender as reflexões de Hannah Arendt ou rever as utopias do século XIX. Ocupamos espaços estreitos alimentados pelas artimanhas. E os que buscam soluções? Rezam ou ocupam tribunas profanas?

As redes sociais são a síntese do turbilhão, não apenas o desfile de inutilidades.O ânimo cultiva a liquidação de mercadorias, o vazio se distrai, a solidão é eletrônica. As ordens desfeitas, a democracia inexistente, os missionários misturados com o carnaval das cervejas. Vale gritar quando se sente agonia. Não sei quem inventou a história, quem se sentiu onipresente, nem o tamanho da maior mentira. Vivemos no reino das fabricações. Drogas, petróleo, mesas, cafés, pesadelos, academias. Há um vocabulário que muda e intriga. Todos estão ligados no significado das mudanças ou as permanência continuam soberanas? Fico perplexo quando se decreta que somos animais racionais.

Darwin treme com a ciência contemporânea, manipulada pelas grandes corporações. Ela tem preço, não se afasta do capitalismo, derruba e sacode, não foge das violências mais sofisticadas. A história estremece, mas não há como descruzar seus tempos, não esquecer de Homero, Platão, Nietzsche, Freud, Braudel, Foucault e tantos outros. O importante é não se escravizar na objetividade, observar a dança das verdades e as dissonâncias da arte. Cada palavra fixar um significado que morre repentinamente. A mudez pode ser uma sabedoria ou uma insistente ausência das questões mais urgentes. Espie, sinta, escute.

A solidão de Gabriel: cem anos míticos

As portas estão abertas. São ruas estreitas com ruídos inusitados. Quem fala são os juízes. Acusam quase todos os políticos. A corrupção é desmedida. O medo é cínico e o final pode ser feliz. É um sinal de uma solidão estranha. Todos se parecem, guardam milhões, a sociedade se desgarra. Todos juntos no mesmo ato, mas sós nas suas angústias. Há uma embriaguez sem adjetivos. Caberiam todos nas aventuras de Macondo? Não acredito. Gabriel gosta de outros perfumes, ama metáforas, detesta hipocrisias, navega na magia, se distrai com os mitos.

A história não se cansa de se arrumar. As perturbações mostram que o acaso não é estrangeiro. O mundo é visitado por assaltos constantes. Sobrevive com remendos. Não conhecemos as origens, como vamos conhecer o fim? Será que a sociabilidade não é um disfarce? Quem escuta quem? Gabriel captou o isolamento e os devaneios. Escreveu com a ajuda de fadas, porém não se descolou dos desencantos e das misérias. O homem é um animal assustador, por isso inventa deuses e procura o extraordinário. Pergunte pela violência, feita no cotidiano.

O tempo nunca foi linear. Ele gira, pula, entontece. Simpatiza com Nietzsche e atravessa as tempestades do retorno. Observe Ulisses, entre nos abismos da cultura grega, tome um café com Homero e sinta as coragens de Prometeu. Gabriel não se descuidou. No seu livro estão todos. Quem o lê, com paciência, aprofunda sua interioridade, se desengana para mergulhar num oceano que não tem cor. Melquíades desafia as dualidades, Acardio assanhou a imaginação, Úrsula não temia complexidades. Macondo era inferno e paraíso.

Nunca achei que existem verdades sagradas. Gabriel me trouxe mentiras que agradam e levitam. Por que fazer apologia de racionalidades opressoras? Há quem seja devoto dos grande modismos reflexivos. A academia despista, condena a religião, contudo elege seus deuses de forma articulada. Há vitrines, ídolos, bajulações, arrogâncias. O lugar comum não se esconde. No entanto, devia seguir as leituras das tragédias gregas. As badalações curtem vaidades e os preconceitos multiplicam suas garras. Os facebooks invertem a ordem das dores.

A solidão está no corpo. Mire os olhos. Deite-se na cama de Amaranta, de Remédio, de Rebeca. Todas as mulheres se envolvem com os amores e exaltam a maternidade? O feminino possui histórias inesgotáveis. Quando entro em Macondo sigo abrindo as portas, contando as armas da guerras, os suspiros do sexo, o desejo de ficar na solidão. Não sei se o mundo se extinguirá. Quem criou deus  pensou na utopia definitiva. Prefiro dialogar. Os anos da solidão não moram no calendário da sala escura. Desenham-se dentro das veias do coração. Olhe-se no espelho e se reconheça, sempre.