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O afeto e a temeridade

Não se dá abraço. A ordem é a distância. O corpo se sente ameaçado, não conhece as estradas e se isola.Quem se abala, quem testemunha os temores? Não há visitas, o vizinho corre de qualquer cumprimento. Está imaginando uma ficção ou um romance de assombrações? O mundo se enche de aridez, parece que receberá uma explosão ou se esconderá poluído por todos os males.

Explicar? Há vocabulário para descrever tantos descaminhos? O medonho assusta, racionalizar não atende às súplicas e as ambiguidades se expandem de forma violenta. Escrevo para conversar e escutar o dia que não consigo decifrar. Assim, desenhamos solidões que não pertenciam ao cotidiano e olhamos as ruas vazias e pessoas espantadas. Os perfumes envelhecem no armário do quarto de dormir.

A sociedade ampliou seu individualismo, contou moedas falsificadas, elegeu políticos retardados, porém desmontou valores, nem sabe o valor da ética e acende tolices. Há nostalgias ou desamores? Quem não vê que o afeto não respira e temos que inventar uma sobrevivência pesada? Alice nunca esteve no país das maravilhas e Adão e Eva compram e vendem maçãs para se livrarem do pecado original.

Dói. O espelho mete medo. Temos muitas faces, a infância se foi e as idades acumulam desfazeres. O telefone tocou para avisar que existe uma liquidação de tecidos e as máscaras das moda são coloridas. Não celebre aniversários, aprofunde seus calendários, Não adianta morrer nas estatísticas. Queria mesmo um abraço e o fim dos vítus quem assassinam o afeto.

A sociedade atordoada

Há um peso que sacode as emoções. As explicações não conseguem esgotar as dúvidas O cansaço e o temor são gerais. Depois de tantos cinismos, violências, milícias, a sociedade se depara com dores fortes e abismos profundos. O tenebroso assombra, o dia se torna torturante, acompanhado por esquisitos pensamentos e ameaças de declínio da saúde. Quem conhece a curva do último infinito?

Quem acertou quem? Os telefones tocam anunciando narrativas dramáticas de amigos como soluços escondidos. Arquitetamos ideias, estimulamos previsões, trocamos o dia pela noite, pois a atmosfera não permite definir cores. É a perplexidade que assume o descontrole e os governos geram carências de incompetências antigas. O difícil é sair, recuperar a alegria, celebrar o encontro, soltar o azul..

Houve exageros, se abusou das ironias, desprezou-se o coletivo. Vestiu-se uma fantasia para minar esperanças..Tudo é massacrante, acelerado, como se um cometa pedisse uma urgente passagem. Sinto que o absurdo se espalha, mas quem o provocou? Não é ficção científica, nem jogo de tabuleiro. É um espanto forte que atordoa.

Minhas turbulências se misturam com inesperadas expectativas. Não faltam reflexões, porém a clareza não aparece. O labirinto abraça a sociedade, não permite fugas, nem canto de salvação. O acaso nos deixa aflitos, pois o tempo corre sem apontar horizontes. Há uma tristeza que aperta o coração. Nem sei como as palavras podem lavar a poeira do mundo. Sofro e procuro abrir os olhos para lacrimejar e afastar os sustos e as agonias.

O mundo caiu?

As intrigas e as vaidades se aceleram e o caos se instala na história. Uma energia negativa assume o mundo. Há pânico.É preciso sacudir a memória. Quantas epidemias já aconteceram, quantas religiões enganaram os inocentes, quantos autoritarismo oprimiram, quantos refugiados sofrem cotidianamente? Não adianta criar messianismos, nem adormecer em hipocrisias.As elites estão sentido o peso do desmantelo. Isso é um ponto que abala e o sombrio avança.

A escolha pela competição, pela riqueza narcista, minaram a generosidade. As máscaras se concretizaram e as fragilidades estão expostas.Se a solidariedade não se dimensiona e as pessoas observarem as necessidades dos outros, os abismos se abrirão. Talvez, haja um renascimento, o olhar afetivo, o desejo ardente de expulsar valores obscuros. A história joga com o acaso e nos deixa perplexos. Os trapézios se balançam.

É importante fermentar os diálogos.Escutar as vozes do passado, não se entusiasmar com tecnologias frias e animar o otimismo. Os desamparos crescem, mas a sociedade antes brincava com sua própria sorte. Não faltavam ironias, machismos, desfazeres violentos. Muitos se tornam poderosos e não percebem que os pântanos afogam e destroem. Se a lucidez se vai, a história se esfarrapa.

Todos estão aflitos, contando os dias, sem certezas, buscando voar para alcançar outras convivências. Cada aventura é susto, daí o isolamento, a solidão, um silêncio assombroso. Escreve-se para acertar, apontar para os descasos e se encontrar com algo que redesenhe o sonho. Se os pesadelos persistem e rasgaremos imagens de sossego. É preciso acender a vontade de retomar cuidados, acender o viver e não estimular cegueira de desprezar o outro.

Os delírios perigosos

A rapidez se espalha. Há uma confusão que inquieta e notícias que confundem. Os sustos são constantes.Falam no apocalipse , há fugas, crises globalizadas, conspirações. Jair continua andando nas estrada da vaidade. Possui seguidores que parecem enfeitiçados. Não há medida para suas declarações.Sente-se um mito numa onda de esquizofrenias. Desmonta.

É claro que existe pânico. Tudo acontece de forma delirante. As políticas divergem, pois não pensam em organizar a sociedade, mas em cantar ambições. Num mundo de ciência sofisticado, as mortes acontecem assombrando, os aviões cessam de fazer seu intercâmbios, a Itália tenta recuperar sua dignidade ao som de hinos musicais. No entanto, há quem insista em reunir multidões e e arruínam tentativas de evitar desastres

Os desafetos circulam , as intrigas não se vão, o isolamento surge como solução. Nada de abraços ou apertos de mãos. O medo patina, as portas se fecham, o outro se torna um inimigo, as farmácias se enchem de compradores aflitos. Ouvem-se risos, alguns não se ligam na solidariedade, as moedas adoecem. A história mostra a força do acaso, a memória guarda hecatombes, a aridez fragiliza a ilusão.

As conversas trazem os fantasmas. Todos voando em trapézio inseguros, não conseguem conhecer a extensão do tempo, se apavoram com as manchetes. Quem imaginava tantas dificuldades e desperdícios? Por que os escorregões históricos tão frequentes Quem prefere o abismo e elege o cinismo? O descontrole é um império que empurra cada um para seu recanto mais obscuro e tumultua a possibilidade de solução

Fatalidades tardias

não imagine uma história que pareça única

nem sonhe um amor desfeito no bar central.

conte as palavras riscando as pedras azuis

dos monumentos vazios e abandonados .

fuja como quem ri de uma hiena vadia.

sinta que o corpo pede uma abraço de lágrimas distraídas

e não quer ser tomado pelo vírus assassino.

escreva o íntimo se despedindo do que nunca viveu e

invente pássaros numa noite vermelha e desconfiada.

O espelho é o pânico

Contemplar o azul no horizonte toca no coração. O mundo se enche de luz quando se inquieta o sentimento que aquece a solidariedade. O azul chama o canto dos pássaros, nos faz pensar no infinito e na possibilidade de desenhar um avesso alegre para celebrar as convivências. Mas nem tudo é azul. Há turbulências de tempestades e os medos assombram com força global. O pior é que o pânico se espalha com rapidez. Os olhares se desviam, a instabilidade quebra espelhos de imagens serenas.

É difícil aceitar que é fantasia ou mentira preparada para atiçar o poder que sacode o cinismo e se veste de notícias estranhas. Não se trata de negar o riso, porém a sociedade não deve possuir senhores que usam ironias radicalizadas. A tensão se balança, o cansaço pesa na cabeça e os escândalos procuram garantir privilégios. A dúvida ajuda a sentir que os enganos e a mesquinhez não saem do cotidiano.

Será que vamos para um deserto, depois de pularmos abismos e navegar nos pântanos? Quem sabe? Há governantes que se assanham com as desgraças dos outros e nutrem o bélico. Portanto, não esqueça que o mapa não é o território. Existem metáforas e pessoas que se refugiam . O mundo gira, não para, deixa tonturas e não sinaliza com progressos. Apenas, produz representações não basta. Somos mesmo exóticos ou panos esfarrapados rasgados pelas incertezas?

Entre no circo, sem nostalgias. Lembre-se do voo do trapézio que o assustava na infância. Fotografe a tristeza do palhaço. Não se seja ingênuo. As ambiguidades andam apressadas querendo afirmar teorias. Nessas idas e vindas Platão foge da caverno, Napoleão deseja vencer todas as guerras, Gramsci aponta as desigualdades e se contrapõe a Mussolini. As escritas multiplicam cada ilusão, pinta paraísos antigos. Para alguns, o futuro anunciará a salvação. Mas quem será o messias?

A esquina do mundo confuso

A geometria ajuda a organizar a convivência dos objetos. Surgem desenhos, desafios, ousadias. É espaço de invenções, de assegurar as relações sociais e ampliar as histórias que atravessam o tempo. Mas a sociedade aumentou suas ambições, entrou nas armadilhas perversas, estimulou as disputas e as invejas. As geometrias ganharam formas estranhas e se misturam com os fazeres da tecnologia.

Não se sabe a localização das esquinas e as cidades se enchem de avenidas. Tudo é sinal de perigo. Não se olha para outro. Registram-se a pressa, a falta de cuidado. Será que existem tantas geometrias que o mundo se confunde e a esquizofrenia cria formas que atormentam? O corpo possui seus desenhos, porém não esqueça da sensibilidade, não cultive o sucesso como sinal de uma felicidade doentia.

Não subestimo as conquistas, no entanto contemplo encruzilhadas mórbidas e o medo traz quarentenas. Tudo se toca como uma ameaça. Há lugar de encontros? Conversa-se nas esquinas ou os fantasmas assustam? As sociabilidades não se se esticam e a solidão arruína afetos. É preciso dialogar, porém o lugar do cinismo, o jogo das palavras vazias espalham desconfianças.

Mudaram-se as formas, celebram-se ganhos isolados, desfazem-se culturas. A geometria se articula com a objetividades das bolsas de valores e não busca encantar o mundo. A esquina é o assalto e a política não se liga no coletivo. Mesmo que as tecnologias multipliquem suas forças, a sociedade não consegue acreditar nas solidariedades que aproximam as possibilidades das magias. Confusos, não medimos a dimensão da autonomia e os escândalos divertem com seus delírios. Para quê?

A epidemia da dor permanente

Há épocas acesas de projetos de felicidade, vestidas de discursos progressistas. Sente- se uma animação geral, surgem intelectuais com descrições de fantasias incríveis. Recordo-me dos iluministas, dos sonhos de democracias, de arquiteturas científicas repletas de fórmulas poderosas. Existe um renascer, uma expansão de um mundo que vai fechar as portas do mal e abrir o desejo de conviver com a sensatez.

Mas tudo isso não aconteceu. O século XX trouxe ruínas, estruturou danos autoritários com genocídios assombrosos. Continuam as desigualdades e as violências se sofisticam. A democracia não consegue superar as ambições das minorias. O progresso é um mito, a frustração consolida dores e a solidão arruína as possibilidades de estimular o fim das intrigas. A ciência não trouxe o saber que se esperava. A sociedade se assusta, os pânicos se espalham.

As religiões se envolvem com a política. Os milhões parecem atrair milagres, o cinismo se solta. Será que as doenças são fabricadas em laboratórios para tumultuar as andanças da economia? A globalização sinaliza com o medo? As bolsas de valores se instabilizam e os aeroportos se enchem da mascarados. Há o espanto do coronavírus, as quarentenas programadas e as dúvidas se firmam. A quem interessa tantos desfazeres?

O espetáculo das notícias traça verdades ou mentiras. O importante é inquietar. A sociedades não cessa de polemizar. As epidemias tomam o lugar daquelas utopias iluministas e capitalismo joga. O absurdo é uma face do pecado original? Quem inventou a história? Quem brinca? As perguntas nunca serão exterminadas e o dualismo se apresenta para promover sustos. A angústia do bem e do mal deixa um marca secreta. Temos um caminho e pedras ou um circo terminando seus malabarismos?

Ulisses, a Sereia, a Cultura

A Sereia narrou as aventuras de Ulisses nas cavernas escuras do oceano.Ulisses as escutou com cuidado e encantamento. Descobriu as formas das palavras, fixou sua identidade, inventou a Culturas. Não houve pecado original. Ulisses desenhou o mundo, localizou o cais da imaginação, sentiu-se o historiador. É travessia da esperteza, da audácia, da rebeldia.E o sonho entendeu que a vida é companheira de uma acaso anônimo.Eis a navegação que nos leva para os significados múltiplos e inacabados. Celebra-se então a vestimenta sedutora e incompleta. O fogo e água firmam as cartografias dos espelhos e a viagem que não tem fim,

Prometeu: a rebeldia insistente

Não me canso de celebrar Prometeu. Quando leio a tragédia de Ésquilo sempre me comovo. Os diálogos são ensinamentos, mostram que a cultura duvida e cria novos caminhos. Prometeu desafia os deuses, provoca as profecias, inventa possibilidade de redefinir o mundo e expandir as leituras. Não deixo de ler e assinalar como as hierarquias se formam e imaginar que os nomes trazem configurações que atiçam desejos.

Os diálogos históricos são fundamentais.Eles sacodem as rebeldias. Analise os paradigmas da filosofia grega, as pretensões vaidosas dos iluministas, as promessas dos revolucionários do século XIX. Prometeu ameaçava. Conhecia as fragilidades dos deuses, não se enganava com o absoluto.Na era das máquinas o fetiche da mercadoria tumultua. Consolida-se o efêmeros, constroem tempos que vendem e compram uma fé esfarrapada.

A rebeldia não desapareceu. Há quem se inquiete, quem critique, quem observe o espelho das farsas fabricadas. Estamos cheios de complexidades, atordoados com as necessidades que se multiplicam para desenhar a mais-valia que traz a poeira da ambição. Prometeu se lançava no futuro, incomodava, irritava quem se sentia dono dos destinos. Cantou a liberdade, abriu as portas dos labirintos, acedeu a luz da gramática, desaprisionou. A mesmice não merece atenção. Olhe o fogo e se banhe nas águas inesperadas.

Se, atualmente, a sociedade se locupleta de fantasias de riquezas desiguais, as rebeldias podem mergulhar nos abismos das mediocridades. Tudo tem um preço que agita e ilude. Perder o espaço da utopia é sepultar a memória da tragédia e esquecer que a incompletude é o alimento da cultura. Não olhe de lado, nem atravesse a esquina da homogeneidade. Desfaça, desaliene, emagreça as jogadas dos que se julgam promotores da verdades. Prometeu não é um fantasma, mas a veia vermelha da história. O trapézio do voo quebra as correntes e aquece a sensibilidade.