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O tempo pede a coragem

Há muitos esconderijos. A transparência é um mito mal arrumado para impressionar os ingênuos. Busque ouvir o ritmo do tempo, observe os silêncios e provoque dissonâncias. Saímos e entramos em labirintos, mas a profecia final nunca é anunciada.Há sempre a incerteza. A coragem não está em todos lugares. Os covardes se aproveitam dos esconderijos e fazem manobras com seus acessos aos poderes possíveis. O diálogo se torna, quase impossível, quando o medo se expande e as ansiedades inventam imaginações perdidas.

Escutar o tempo exige atenção. Não fique preso ao instante. O passado é vasto, não está morto, inquieta-se com as sombras e não deixa de fustigar as calmarias do presente. Imagine que há história, que a violência assassina sonhos, porém que há resistências e a sociedade também cria sua fugas e não recua. A leitura do tempo nos mostra ambiguidades. É importante não se enganar com a forças das utopias.Elas também vivem pesadelos, são sufocadas por controles.

A coragem provoca e questiona. Sem ela, a mudez marca a história, jamais falaríamos de Prometeu e os poetas adoeceriam. Não se agonie se as multidões escolham a passividade. O ritmo do tempo ganha mudanças quando tudo se desenhava estranho. Não dá para cantar racionalidades como aberturas para desfazer os tantos desgovernos que nos atingem. Há sentimentos trêmulos, paixões abandonadas, desistências de romper com as tradições, líderes vacilantes.

Acomodar-se é esquecer que a história necessita que o tempo não acanhe a imaginação. Tudo é possível. Talvez, haja uma apocalipse com data marcada, planejada e demônios se preparem para o golpe fatal. São especulações. Quem cuida de colocar o relógio para construir sua travessia? A coragem distrai os que gostam de calendários definidos e pouco olham para os circos de antigamente. Vivem o aqui e o agora. Há quem se veja sempre pálido. Nutre sua imagem na derrota. Anula-se no desencanto.

O estranho Jair Bolsonaro?

As dificuldades de se avaliarem os passageiros do poder são visíveis. A história tem surpresas. Quem pode esquecer a violência de Hitler, as histerias de Mussolini, as perseguições no governo de Stálin, o imperialismo norte-americano? Sobram exemplos. Não adianta sacudir tudo na lata do lixo. A memória deve continuar acesa e os exemplos servem para redefinir valores. Observa-se como os cinismos variam, mas as sofisticações assassinas permanecem atuantes. Não precisa acusar as relações capitalistas. Antes delas, a sociedade dirigente assumiu comportamentos marcados pela crueldade e falta de respeito à solidariedade.

Jair não é uma estrela solitária. Possui modelos, companhias, cuida da família com excessos. Pouco se liga na justiça. Assusta. Quer gritar para chamar atenção e se fazer sempre de vítima. Não nega suas ambições, cultiva amizades pesadas, sente-se dono das instituições.Consegue simpatias e manipula intensamente. Briga com a Globo, acusa Lula, produz frases de efeitos, adora as redes sociais. É notícia e carrega entusiasmos dos mais conservadores. Exalta Ratinho, Moro e Macedo e toma conta do seu condomínio com ajudas especializadas.

Jair não é estranho. Vive, numa época, marcada por ambiguidades amplas e intimidadoras. Surgem boatos, fabricam-se fakes, formam-se alianças políticas cheias de intrigas mascaradas Há quem se lembre dos valores do fascismo e tentem ressuscitá-los. A história mostra que há distopias, pesadelos armados para derrubar sonhos. No entanto, as euforias circulam, pois nem todos sofrem. Há os privilegiados e Jair se organizar para servi-los. Cabe nos interesses de minorias e agride quem o critica. Conta com saudações de figuras que exaltam sua possível sinceridade. Os delírios são muitos e invadem o espetáculo do horror.

A ideia de progresso ética está sepultada. Nietzsche já assinalava os grandes vazios da cultural ocidental. O autoritarismo não se afastou das relações sociais. Há tensões, diferenças, preconceitos. A harmonia é algo citado nas utopias, porém o mal estar é generalizado. Existiram genocídios inesperados e a ferocidade de grupos atormenta qualquer desejo de paz. O holocausto afirmou que a humanidade arquiteta tragédias sem limites. Jair faz um jogo que provoca instabilidades. Promove uma ordem que destrói a reflexão coletiva e não se acanha com seus adversários. Acomoda-se numa estratégia que assombra. É um adepto da exploração vasta e apocalíptica. Gosta das hienas e o riso dos fantasmas. Jamis leria os depoimentos de Primo Levi.

Há tempestades e ruídos tensos

As ruas não querem sossego. O capitalismo vive aprontando armadilhas e não liga para solidariedade.Estimula competições e fortalece as violências simbólicas.Destrói sinais de vida, pouco se toca com a miséria e explora com riso nos lábios. O Chile ferveu e intimidou as forças conservadoras. Tudo teve uma bela sincronia e emociona quem nega as travessias opressoras. Parece que a redefinição do capitalismo é mesmo um ensaio perverso.Inventam-se contabilidades, acomodam-se privilégios, empurram os mais pobres para os pântanos. É preciso dissonâncias, barulhos de vozes indignadas. As hienas devem correr para seus esconderijos. São covardes e celebram a vitória das minorias.

Penso que mercado de consumo surgirá com tantas manipulações de aposentadorias e esquemas preparados para consolidar os bancos cinicamente programados ! As tempestades anunciam que a humanidade não pode continuar cultivando a morte da fraternidade e o tilintar das granas solitárias. Não apenas o Chile apronta suas reações. Há sinais de que as bombas explodem, a fome se expande, o refugiados continuam atravessando pesadelos. Como calar? Como não voltar a imaginar utopias e alertar para falência da sociedade que se move na ambição e nas pegadas do imperialismo? O cotidiano é tenso, porque o sonho se fragmentou.

A história nunca foi linear ou um território de calmarias. O homem é um animal com acrobacias estranhas que sugerem medos. Os circos de horrores estão nas prisões, nos tiroteios nas favelas, no tráfico de drogas, na cooptação tão comum na política. O passado dialoga com o presente. Não se pode desprezar a memória. Quem não se lembra dos totalitarismos medonhos, do holocausto assassino, das frustrações permanentes com as religiões ditas salvadoras de todos os pecados. Cabem reflexões, fôlegos para manter a coragem e atiçar o desejo de criticar.

Ninguém sabe a data do juízo final. As fantasias não abandonam a história, nem os tempos de reinvenção fecharam suas portas. As polêmicas existem, porém a violência se expande. Não se trata de discutir ideias. Quem dirige a sociedade se veste de roupas venenosas, investem nas redes de comunicação para exigir que mordomias sejam aceitas. Brutalizam e secam o afeto.Lastimam-se de incompreensões e de perdas. Convencem os ingênuos, fazem parcerias com sindicatos de crimes, corrompem sem cerimônias. É difícil contemplar mares limpos, escutar sinfonias harmoniosas, quando as dores consagram dominações e a esperança se curva ensandecida.

O descuido sem limites

Não se trata de apenas escolher práticas e defender ideias. Os governos deveriam ficar atentos aos direitos fundamentais, não se descuidar do meio ambientes, lutar contra violências e responder sem cinismo às demandas da sociedade. As ações de Jair parecem cômicas e fora de qualquer previsão. Não passam confiança e criam uma atmosfera trágica com contradições e gestos perversos. Os acontecimentos mostram que não há cuidado. Quem estaria interessado em tantas turbulências? Por que se atacam maiorias e se derrubam as invenções culturais? As hipocrisias são propositais?

Os mares estão poluídos de forma brutal. Há protestos, mobilizações, desempregos, sofrimentos e o governo sacode fora as providências para reverter os danos. Os ministros culpam a Venezuela, não se ligam nos pareceres técnicos. O desastre é imenso. Dói e afeta uma região inteira com prejuízos amplos e permanentes. O governo procura disfarces. Busca negar os impactos. Despreza sentimentos, destrói futuros, mostra a sobrevivência de ressentimentos eleitorais. Desenham mistérios, intriga-se com defensores da ecologias e usa as máscaras de sempre.

Temos uma tragédia de dimensões assustadoras. Jair come miojo e afirma que a China é uma pais capitalista. Sorri como uma hiena para uma plateia selecionada. Seguem as denúncias de negligências, de total antipatias pelo Nordeste. Os abismos são profundos. Não há prazos para contornar os desmantelos. Os grupos políticos tergiversam, pouco observam a questão social. A vida está exposta numa morte anunciada. As portas estão abertas para o imprevisível diante de tantas imagens de desespero e incógnitas multiplicadas.

As resistências não se foram. O governo abandona seus deveres, mas a sociedade se inquieta e luta para desfazer a repercussão do desastre no equilíbrio do meio ambiente. Muitos afirmam que o fascismo se reinventa, com opressões dantescas e armadilhas variadas. O mundo se preocupa com a expansão do consumo e o aumento das especulações financeiras. Há perplexidades que circulam e empurram os afetos par o territória da depressão. Não só no Brasil os desfazeres se ampliam. A história traça travessias desafiantes. Há que visualize o caos e convoquem os deuses para compor a sinfonia do juízo final. Não se pode negar as tensões. Ela trazem medos e pesadelos.

As dúvidas da rebeldia

As ruas fervem com protestos.Há inquietações violentas, desesperos dos excluídos, ganância e opressão dos privilegiados. Sente-se a insatisfação globalizada. Poucos se livram da desigualdade e outros buscam sobreviver. Sobra, porém, desconfiança. Se há rebeldias, lutas nas ruas, presença de repressão, sempre se pergunta quais os interesses estão ganhando espaço.É inegável a exploração inibindo e agredindo os desfavorecidos. Mas o que aconteceu , no Brasil, com a mistificação de Jair,provocou especulações e trouxe um quadro que atiçou análises nunca vistas. Há quem queira acirrar as disputas, para promover reformas neoliberais justificadas pela existência de desgovernos. Quem formula os projetos políticos ou imagina transformações na convivência social? Consumir é o paraíso que inventa ilusões globalizadas?

As notícias se mostram desencontradas. Há turbulências em vários países. É preciso não se enganar com certos movimentos. Desmontar a politica , com cores fascistas, é fundamental. Anunciar que há misturas, para confundir politicamente, não deve ser esquecido. Arruinar os planejamentos capitalistas e suas armadilhas não é algo que acontece repentinamente. Seu poder de resistências é incrível. Miná-lo exige persistência, denúncias, solidariedades, observações nas ações sociais que radicalizem certos caminhos. A imprensa se vale de seu jogo de novidades distraídas.

As artimanhas existem para deixar a sociedade perplexa e contam com o apoio de milícias digitais. Se tudo se resume a garantir as acumulações da grana, nada assegura que a coletividade se firme e entenda sua possibilidade de mudar a história. Portanto, resta perguntar quem efetivamente sacode as tradições, arranca as máscaras, ameaça a servidão, desmascara os discursos cínicos. As estratégias se modificam e não estamos nos anos 1960. Os partidos se fragilizam, as intrigas pessoas se avolumam, os escorregões são ensaiados, as utopias sofrem metamorfoses. O mundo é vasto e não se cansa de surpreender.

A sociedade do espetáculo não vive apenas da indústria cultural e suas sofisticações. Boa parte da sociedade se empolga com as imagens, desenha aventuras, adormece nos sofás fantasiando a dor do outro, fabricando indignações infantis A rapidez das informações podem esvaziar as críticas. Consolidar as rebeldias convoca paixões, mas não menospreza a lucidez. Há teorias apodrecidas. Distinguir os negócios das coragens éticas faz parte da luta que não se deixa atrair pelo vazio.O efêmero transforma o apocalipse numa festa. As correntes de Prometeu ainda existem e satisfazem os ressentidos. As rebeldias não devem ser uma sucessão de raivas soltas para inventar desequilíbrios. Não se acanhe. As transgressões são necessárias e trazem olhares mais profundos.

O peso do tempo indefinido

As preocupações com o tempo e suas travessias sempre existiram.Há dificuldades de se imaginar quem o inventou. Pouco se sabe, muito se especula. As religiões procuram torná-lo propriedade divina. Abusam de seus poderes e arquitetam paraísos e infernos. Muitos se miram no passado, consolidam suas crenças e adotam uma expectativa conservadora.Traçam um caminho linear, pois temem suspenses e aventuras. Desconhecem a história e embarcam nos destinos. Louvam os dogmas, disfarçam as ansiedades, proclamam que necessitam do próximo. A religiões não vivem sem anúncios e os templos milionários se espalham na riqueza dos profetas espertos. O capitalismo assume o sagrado, investe na infantilização e expande seus lucros.

Quem se rebela, sacode a memória das revoluções. Elas passaram. Atiçaram ideias, destronaram reis, levaram o autoritarismo para os abismos. Tudo foi efêmero. O fascismo estragou desejos democráticos, Hitler destroçou culturas e Pinochet traumatizou o Chile. As utopias assanharam lutas, derrubaram o Muro de Berlim e o socialismo entrou na UTI. Não faltaram ditaduras na América Latina. Torturas, populismos assassinos, explorações norte-americanas. As frustrações apagavam sonhos e o tempo parecia repetir desgovernos do passado. A morte das esperanças ou o retrato da violência como parteira da história?

As controvérsias continuam acesas. O presente pergunta pelos acontecimentos, se angustiam com as disputas que alimentam a desigualdade, porém há quem se congratule com a manutenção de privilégios. As servidões não se foram. Será que há um congelamento das ousadias do tempo? Santo Agostinho refletiu e se centrou na força do presente. Pensou na simultaneidade. O diálogo é base para decifrar os mistérios da convivência. Não há permanências eternas e as complexidades desafiam a montagem de certezas. As ciências também vacilam e se mancham com a política.

A sociedade não se afasta das perplexidades. A luta para firmar narrativas é imensa. As imagens se articulam com as palavras e os discursos circulam ensinando saídas e ou enganando quem se sente desamparado. Cada um constrói seu tempo. Não podemos esquecer a subjetividade. Ha pesadelos e momentos desiguais que anulam as inquietações. Eles deprimem e nos colocam em quartos escuros. A história não esgota as suas idas e vindas. O tempo desenha definições e corre em busca de luzes.Há pressas e desencantos. Os espelhos não negam as marcas das agonias. Possuem geometrias múltiplas e, às vezes, pavorosas.

A vida não silencia, eu não silencio

Não adianta se esconder, nem ficar trancado no quarto. O mundo se movimenta, não importa a chuva, nem o sol. As guerras confessam que somos violentos e as poderes se espalham pela globalizada sociedade dos desencontros.Quando me olho ,no espelho, sinto que as inquietudes me abraçam e tenho de perguntar alguma coisa. A apatia destrona qualquer sentido para a vida. Talvez, ela seja uma esfinge vazia ou um delírio de Prometeu. Mas é um desafio. Não faltam acasos, magias, desprezos, ousadias, banalidades. Muitas misturas numa complexidade infinita.

É preciso conversar. As palavras pedem que não haja silêncio. Não sei contemplar silenciando as questões. Sinto que há incômodos. Há dias pesados, cheios de desfazeres. Há pessoas levianas, carregadas de hipocrisias. Não posso viver sem escolhas. Nem conheço a razão de tantas travessias. Sei que posso escorregar.Os pântanos estão no mundo, as aventuras solicitam coragem no entanto o medo não desiste. O mal estar freudiano me persegue, mesmo que desconfie de certas teorias. Não dá para calar, não dá para fabricar espetáculos com atores covardes.

Se tudo é um destino cruel, não sei. Leio as tragédias gregas e aprendo. As dúvidas permanecem. As perplexidades de Édipo não se foram e andam pelas ruas acidentadas. O que quer a humanidade? Ela possui dons especiais ou cultiva mentiras para construir culturas? Você consegue compreender suas histórias? Fala-se de democracias, há pretensões utópicas. A natureza está tomada por poluições. Para que a tecnologia? Os governos fazem política ou disputam espaços confortáveis?

Mesmo que se afirme que o silêncio é de ouro e a palavra é de prata, não deixo de chamar as palavras, desmontar certas verdades, atiçar o texto. As sabedorias podem povoar, um dia, o mundo e trazer anjos vermelhos. É uma especulação ou uma sonho desnutrido. O sol nasce, lá fora, há pássaros na varanda e ruídos de carros. Descrevo o tempo, as recordações lembram frustrações e a vida corre. Se a história é maior que o destino e sossega-me com autonomias, tenho que cuidar dos afetos e não sacudir a leveza de inventar. Porém, as perguntas não se apagam.Possuem cores vibrantes.

As intrigas políticas cínicas

A política promove debates constantes. Não é novidade. Já tivemos genocídios dantescos, conciliações inesperadas e corridas armamentistas avassaladoras. As relações de poder estão na história, são instituintes, consagram valores e provocam disputas. Observe como anda a sociedade:Barcelona pega fogo, o Equador sofre discórdias profundas, a Argentina convive com as interferências do FMI. Ainda se denuncia a existência de escravidão e o Brasil vive suspenses permanentes, com figuras estranhas, mas atuantes, negociando até a alma. A política se torna assunto policial e não faltam armadilhas cínicas distribuídas pelos partidos e as ditas lideranças, cheias de advogados especializados em desenganos. Uma vitrine poluída pela falta de ética compõe a imagem do momento.

As especulações cotidianas aparecem e fervem dentro do grupo de Bolsonaro. Sinal que a grana corre solta e o oportunismo não cessa. Já se imagina o quadro eleitoral e as acusações ganham espaço. Difícil é saber o alcance das manipulações. Alguém está almejando santificação? Se antes havia parceria, hoje se consolidam ações judiciais e a família de Jair se mexe para assegurar seus privilégios. A sociedade assiste ao ir e vir de um noticiário nada transparente, com diálogo infames. A política mostra que acompanha o ritmo do mercado. A sujeira, porém, não é só virtual.Nada de solidariedade, numa intensificação de boatos de redes sociais prontas para fortalecer as inimizades. São terremotos ou máscaras assustadoras? Quem se salva?

Não se pode esconder que a política marcha no ritmo das negociações. É uma grande arena como expansões globalizadas. O valor de troca dita as circunstâncias e testemunha que os interesses mesquinhos prevalecem. Imaginar um mundo sem disputas e pactos que evitem desigualdades é um grande sonho. As perguntas se acendem, porque as garantias estão se esvaziando com as reformas tensas e o desemprego galopante. No entanto, as relações de poder entram numa dança que demanda esconderijos e atende às façanhas das minorias. Rasga-se qualquer dignidade. Jair treme e faz tremer com ajuda de fãs e dogmas perversos.

Longe estamos das ideias que arquitetavam a fraternidade. O capitalismo reforça a sua estratégia de precarizar a sobrevivência. Portanto, a competição se agudiza. Qual a brecha para se anular tantas ambições e falta de solidariedade? Respostas complexas, fragilização de direitos, censura para punir os rebeldes. Exaltam-se o consumo, a tecnologia encantada, as possibilidades de firmar estados policialescos. O controle aprimora suas espionagens. A sociedade administrada lembra as reflexões de Adorno. Massifica-se para enganar e formar multidões alienadas. Não se joga para o coletivo se reinventar. Os donos do poder gostam do silêncios e das docilidades.Debocham, cotidianamente.

O fôlego frágil da paz

As intrigas não cessam e estimulam a violência. As disputas são muitas. Procuram firmar espaços suspeitos na economia, alimentam preconceitos culturais, minam resistências em defesa do meio ambiente. Um mapa da violência nos deixaria sem esperanças. Portanto, há quem use máscaras, se esconda em missões religiosas, agrade aos poderosos. O mundo se divide e se polariza. Não faltam suspenses. É difícil se imaginar a paz, a generosidade num sistema que consolida negócios obscuros e incentiva o comércio de armas. Os que se esforçam para encontrar saídas merecem celebrações, como o ministro da Etiópia, Abiy Ali. que luta contra segregações e ressentimentos, buscando anular pesos de inimizades seculares.

Ultrapassar os limites das tensões e mostrar boa vontade para o diálogo trazem sonhos e desmontam vinganças. O exemplo fica, embora a instabilidade permaneça e ameace sempre. Já houve tantas guerras, existem tantos ressentimentos que a sociedade não sossega. Basta observar a quantidade de refugiados, as promessas dos governos populistas, os militarismos tão defendidos pelos ditadores. Talvez, a reinvenção da história nunca aconteça. Fala-se do pecado original, outros esperam a redenção e muitos ganham dinheiro com as crenças populares. Simulam e brincam com a fé de forma cínica. As religiões pactuam com o individualismo, desfazem a força do sagrado, vendem mercadorias.

A convivência com as informações constrói um cotidiano de constante especulações. As redes sociais são espertas na busca de boatos, criam polêmicas, fragilizam parcerias solidárias. Elas funcionam como esconderijos privilegiados, embora haja resistências, denúncias. A complexidade é vasta, pois as tecnologias produzem elaboradas versões de desastres ecológicos, se articulam com os negócios e não querem compromissos com as verdades. Soltam as intrigas ou provocam as intrigas. Aproveitam-se das covardias e das armadilhas. A imprensa lucra com os desencontros e fustiga imaginações doentias. Estamos afogados na lama das controvérsias fabricadas. Parece estranho…

Houve expectativa com relação ao Nobel da Paz e surgiram nomes e argumentos dos mais diversos. Mas é importante compreender a dificuldade da escolha. Qual seria a grande questão? Há fôlego para se imaginar um mundo sem conflito? As utopias adoeceram e aguardam a morte? Há muitas indeterminações, o mundo é vasto, a política inquieta e sacode inseguranças. O nome de Raoni apareceu ,junto com o de Lula, nas especulações diárias. Causou polêmicas e justificou ironias. Nem todos se colocam no debate procurando se libertar de passados pesados , abrir as portas para conversar e recuperar reflexões comprometidas com transformações coletivas. A carga dos conflitos é imensa e o egocentrismo não se foi. A arquitetura da paz é frágil ou mesmo uma grande fantasia.

Albert Camus: a revolta e a existência

Viver não é fácil.Há muitas instabilidades e esfinges indecifráveis. Parece que tudo é magia, mas o toque do absurdo e desespero inquieta. As dúvidas trazem certas agonias, as buscas inventam as ansiedades, os perdões andam juntos com a culpa. Não adianta inventar teorias para resolver as armadilhas do cotidiano. Porém, há sempre desafios que podem significar alegrias e a palavra para alimentar o desejo. Um fôlego estranho não se ausenta e os deuses não deixam de enviar seus anjos e seus demônios.

Camus me fascina pela escrita. Não é pouco.Ele sabe entrar nos suspiros do trágico, não se escandaliza com a angústia. Aprofunda e expande sua gramática existencial. Sempre procuro ler suas reflexões e olhar o poético. Camus é comprometido com o humano, parceiro de Sísifo e Prometeu. Sua sensibilidade transcende o comum. Viaja, conhece labirintos, não se intimida com a falta de sentido. Para que negar as melancolias? Para que esconder que há disputas, perplexidades, limites?

Dialogando com o mundo, entendemos os exílios, nos aproximamos das paixões e do sentimentos atraentes.Tudo muito efêmero, como um sonho que se mistura com pesadelos. Sobram perguntas, os caminhos são de pedra, mas a beleza chega e nos contempla. As surpresas não se vão da história, os refugiados reclamam e choram, outros riem e explodem com as ironias. Camus não corre da complexidade. Analisa as permanências seculares, as quedas, os empurrões da tristeza.

Conversar com Camus é encontrar o estrangeiro, se desfazer de certas metafísicas e fixar-se em horizontes de cores diferentes. Ele tem sua singularidade. Debate, mostra o estranho, não despreza o afeto. Sua ética reforça a solidariedade. Não corteja mandamento vindo do céu. O planeta terra já tem muitos desencontros e pede ajuda imediata. Camus não se livrou da urgência, não abandonou os mitos, narrou seus impasses e se abraçou à coragem. Não entrou na vitrine. Foi humano, demasiadamente humano. Saudações, grande companheiro,