Museu da Inocência: Pamuk, narrativas, amores

             

Pamuk escreve romances extensos, fascinado pelo toque das palavras e pelo labirinto das tramas. Sua imaginação tem fôlego que nega qualquer medida comum. Lembra um detetive envolvido nos detalhes, disposto a resolver uma investigação, mas sempre formulando questões que se prolongam. Pamuk não se cansa. Enreda-se. Conversa com o mundo, sem aumentar a voz, preferindo o murmúrio. Seus livros não se acendem com ruídos, mesmo nos momentos mais dramáticos. O desespero não é só sombra, alimenta-se de luz e se confunde com sinais de felicidade. Não se assombra com o paradoxo.

Sou leitor de Pamuk. Acompanho suas aventuras literárias com imensa curiosidade. Sou um aprendiz. Visito Istambul, sem cerimônia. As palavras têm  espelhos e configurações. Não estão adormecidas no papel em branco. Dialogam entre si, criam realidades e instigam. As aventuras de Pamuk parecem intermináveis. Talvez, sejam. Uma conecta-se com a outra. Não seria uma única e singular narrativa, com disfarces para iludir e deslocar o leitor da mesmice cotidiana? Pamuk passeia num trem com sentido estranho, porém sem apego a qualquer linearidade. Sua escrita vem de dentro, mistura-se com mistérios, pulsões de vida e de morte. Seu olhar é minucioso e reflexivo.

No Museu da Inocência, o autor faz uma viagem intrigante. Ficamos sem saber se há negação da loucura, se há busca de penetrar nos argumentos freudianos e discuti-los cuidadosamente. A arquitetura das encruzilhadas não se ausenta das descrições. Ela apresenta profundidades. Quem não se inquieta, naufraga na banalidade. Escrever é abraçar-se com a complexidade, remoer, esconder fatigas e inventar metáforas. Assim Pamuk, segue atravessando ruas e lugares que desvendam sua cidade, sagrada pela sua indecifrável geometria de curvas e identidades. Não se desvia do perfume do corpo, mesmo que ele registre dores e desequilíbrios.

No Museu da Inocência, Pamuk dedica-se aos contrapontos do amor. Seria difícil pensar o amor sem completudes. No entanto, o amor distrai e aproxima-se da entrada do paraíso. É magnífico e destruidor. Transcende e atemoriza. O tema é, sempre, desafiante. Recorda romantismos vulgares, argumentos tolos que seduzem muita gente. A sociedade atual reverencia o consumo, porém não abandona os seus sonhos  amorosos, os coisisifica, os transforma em dogmas redentores. Pamuk está longe de simplificar o conteúdo dos sentimentos. Não esquece os mitos que os sintetiza. A pretensa soberania da razão, apenas é um dos artifícios da dominação. Quem joga a fora a sensibilidade se petrifica na assepsia das vitrines.

O amor é território de melancolias e impossibilidades. Não possui rotas terminadas e futuros definidos. Pamuk surpreende, porque não se conforma com facilidade e as respostas óbvias. Traz a multiplicidade, interioriza as perguntas mais agudas e não a elege a forma do amor perfeito. Os sentimentos também vivem de sorte e azares, acasos e destinos. No Museu da Inocência, cabe o universo inteiro se houvesse tempo para desfrutar dos sabores da eternidade. Cada instante desenha seu símbolo, arquiva  memórias astuciosas. Pamuk nos faz duvidar se existe mesmo salvação ou somos passageiros de infortúnios frequentes. As pausas descansam, mas o coração quer movimento.

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4 Comments »

 
  • Renata Lucena disse:

    A vida é feita de encontros e desencontros que amenizam nossa caminhada ou nos tiram do eixo.
    O ser humano canaliza os seus desejos para algo que ainda não possui. Nunca valorizamos aquilo que possuímos, aquilo que conquistamos. Estamos sempre buscando o próximo passo, a próxima promoção, o próximo título e jogamos para os bastidores conquistas que em tempos posteriores alegraram o nosso presente. Presente esse já tão longínquo que não é mais digno de ser rememorado. O pior é quando não estamos satisfeitos com o nosso presente ou acreditamos que ele caminha para uma incompletude, geradora de frustrações, arrependimentos e erros irremediáveis.
    Às vezes penso que a vida se apresenta como um longo romance. Neles somos os protagonistas enredados em tramas narradas por uma voz “superior” que determina nossos destinos. Muitas vezes, a vida se mistura com a ficção e somos entrelaçados por acontecimentos, pensamentos e desejos que transparecem no nosso cotidiano. Entretando, estamos inseridos numa sociedade de aparências que nos transformou em atores sociais pelo simple fato de recearmos ver o nosso interior, com todo seus conflitos e suas contradições, refletido no olhar do Outro. Nessa sociedade prevalece o distanciamente afetivo pela proximidade espacial, haja vista que quanto mais próximos fisicamente de alguém, mais distantes estamos afetivamente dessa pessoa. Afetividade? Amor? Estamos sempre muito ocupados e preocupados para isso!

    Obs: Professor parabéns pelo blog! Seus escritos sempre me fazem refletir sobre o sentido da vida….

  • Renata

    Grato pelos bons comentários. A vida é mesmo uma busca sinuosa. Nunca parece completa, sempre há algo pra finalizar.
    abs/
    antonio paulo

  • Emanoel Cunha disse:

    Entre os caminhos da vida há sempre caminhos a serem definidos, definidores e até mesmo esquivados diantes das incurssões que são propostos diante de sua construção. Bendigno é aquele que a compreende através de sua complexidade e alteridade.

    Abraços professor!

  • Emanoel

    Não há como esgotar a compreensão do mundo.Mas é preciso ânimo para acompanhar suas idas e vindas.
    abs
    antonio

 

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