Pamuk: escritas do cotidiano, escritas desenhadas e estranhas

 

Os livros de Pamuk exigem fôlego. Leituras que movem dias e imaginações inesperadas. Já mergulhei em boa parte da sua obra. Vivei emoções incríveis quando li Istambul. Fiquei na transcendência com a sensibilidade que corri para escrever alguma coisa. Estava delirando. Há, às vezes, melancolias, descrições detalhadas, paixões amargas. Pamuk desenha as palavras com cuidado, sem perder a dimensão do humano. Não foge dos limites, nem esconde as ambiguidades. O cotidiano se espalha, ele não é mudo, arranha, reclama, cria hábitos. No seus livros, nos envolvemos com aprendizagens que dialogam com a história, sem perder de vista a estética. Sente que a tradição não desaparece, é aprisionada pela memória de cada cultura.

Sempre me lembro que a verdade é curva. Não sou admirador do que é linear. As surpresas agudizam desejos, encantam e desencantam. Quem escreve, com ânimo, não despreza a magia. As palavras possuem espertezas, inventam mundos. Pamuk não desconhece os limites, porém não se intimida. No Meu nome é vermelho mostra uma habilidade dos arcanjos. São muitas viagens, figuras fantásticas, cores deslumbrantes. O jogo da vida não é sereno. Há sangue nas veias instigando mudanças e desfazendo monotonias. A geometria do texto desfigura o tédio.

Seria interminável uma meditação sobre a obra de Pamuk. Quem desenha as palavras beija as eternidades. As aventuras que nos cercam não devem ser esquecidas. Traçar seus acidentes, suas misérias, seus ruídos abala quem pensa na incompletude. Istambul merece. Seus mistérios desafiam, misturam sentenças, anunciam paradoxos. As sensações estranhas são comuns, pois o medo assombra sem cerimônia. No seu último livro, o mestre traz o sonho e a intriga, os azares e as sortes. As ruas de Istambul não se calam, levantam arquiteturas. Por elas, as pessoas observam que não há consolidar como destinos e conter as epidemias.

A história, entrelaçada com a literatura, renova as concepções e redefine paradoxos. Os arquivos são importantes. Não basta, contudo, transcrevê-los. O historiador não deve ser o espelho do pesquisa. Quem lê Pamuk, Kafka, Guimarães, Auster, Baudelaire e tanto outros, visita mares com sereias e se reconhece nas teias de Scherezade. Superar certas regras apenas é possível com o poder da sedução. Não é a eleição absoluta do engano. A vida se distrai e não se escancara facilmente. Quem se cansa advinha a morte da fantasia, se entrega às malícias dos pesadelos. Veste-se apenas com luzes e desconhecer a trilha tortuosa da vida.

Pamuk borda instantes inesperados nas páginas dos seus livros. O escritor é maestro, embora não conheça todos os ritmos. Querer significar tudo é impossível. Os escorregões existem, o exílio balança as tradições, a sociedade não nega a heterogeneidade. Tudo tem um gosto de acaso, de origens pouco explicadas, de paraísos obscuros. Não há com abdicar das incertezas. Quem risca a linha reta e a torna definitiva, desimagina, inuda o vivido. Pamuk nos convida para repartir os olhares e se perfuma com a beleza. Não se afasta do labirinto, mas conhece alternativas. Configura a estranheza no grito que ecoa pelas ruas, anônimo e embriagante.

 

 

Share

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

1 Comment »

 
  • Geovanni Cabral disse:

    Caminhar pelas palavras de Pamuk, diante da geometria de suas palavras e intenções consegue flutuar na leveza de suas histórias. Percorrendo mundos que muitas vezes procuramos abrigo, menos violento, hostil e amigo. Este texto me fez refletir na aula que vou ministrar amanhã com o tema Literatura e História. Inclusive vou levar esse texto para observar como as palavras e os olhares dos estudantes convergiram para esse fragmento da Astúcia de Ulisses. Abraço amigo.

 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>