Para que serve a história?

Nunca deixaram de perguntar-me se a história tem alguma serventia. Nem todos aprendem com a história, nem querem escutar ou testemunhar as aventuras dos outros. O silêncio é uma escolha e entrar no meio dos incômodos alheios traz dúvidas. Apelamos para a sorte ou inventamos que existem destinos. Não acredito em cores definitivas. Observo que as travessias possuem muitas encruzilhadas. Na imaginação, ouço diálogo de Maquiavel com Marx, de Benjamin com Adorno, de Piazzolla com Bach. As teorias pretendem esclarecer. Não sei se é possível. Há momentos prazerosos e outros amargos. As imprecisões, os assaltos aos sentimentos, o desejo de não abrir janela e apagar a luz, tudo acontece sem um compreensão que aquiete de vez.

Não serei mentiroso em afirmar que a história não me ensina alguma coisa. Gosto mesmo de conversas, das dissonâncias, de preguiças repentinas. Quando as palavras permanecem  muito organizadas, com  metodologias ditas impecáveis, crio suspeições. É preciso ver a vida no movimento e não adormecida nas pesquisas acadêmicas. Não vou, contudo, eliminá-las. Não custa firmar os contrapontos, não desprezar as ironias e entender dogmas inabaláveis. Sempre achei que as vaidades e as arrogâncias são vestígios fortes de insegurança. Desconfie dos vendedores, amantes dos sistemas, colecionadores de documentos.A história está nos cantos. Pode investigar os objetos da sua moradia. Eles sinalizam muitas coisas. Eles conectam, ornamentam memórias, reanimam amores, lembram que você é malabarista.

A sociabilidade vive da complexidade. Seus registros não se isolam num único tempo. Sinto que a mistura é 0 que nos alucina. Para que serve misturar? A extensão do tempo não se mede com instrumentos. Está dentro do sentimento. O anônimo tem seus segredos. Leia os romances de Paul Auster. Ficará  perplexo com os acasos e os acidentes. Brincar com as palavras é transformar a história em um jogo fabuloso. Para isso serve a história, para que as brincadeiras anulem o amargo e sejamos sujeitos de perguntas intermináveis. As respostas são apenas peças de um quebra-cabeça sem dono. Portanto, não se preocupe com as agonias, desvalorize as fórmulas premiadas, costure seu manto macio, se jogue no afeto.

Os historiadores oficiais se sepultam nos arquivos. Escolhem arquivos extensos e lutam para que eles tenham poder de convencimento.O saber é fascinante, talvez garanta a eternidade. Contudo, além das academias, com certificados e diplomas, existem os clubes de esquinas, os botecos decadentes, as arquibancadas dos espetáculos. O que o outro me diz, às vezes, abre horizontes. Não sei. Mas a conversa é o cerne da história. Trocar ideias, soltar mentiras, acudir sofrimentos, desenhar caricaturas. A sensibilidade é quem anuncia que somos partidas programadas e sombrias. Não se encoste no travesseiro da madrugada. Flutue no lençol do amanhecer, pois o último deus espera o dilúvio na solidão encurralado pelos demônios. A imaginação é a argila dos significados da história.

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