Paul Auster: os acasos da história

 

O mundo ferve. Não sei quem escreveu o enredo de tanto desencontro. Parece que as tecnologias não conseguem salvar os desgovernos. As notícias nos deixam perplexos. Acontecem coisas que já deveriam ter sumido da convivência social. A história é mesmo uma trilha de incompletudes. Voltam crueldades, violências gratuitas, políticas lotéricas. O futuro é uma aposta. Muitos anunciam tragédias, caos, desfiguramentos. Mas como refazer o enredo ou inventar um sentido? Há muitas ficções sobre o fim do mundo. Onde se esconderam as certezas, os otimismos, as profecias?

Paul Auster, escritor contemporâneo, escreve seus romances descrevendo situações inusitadas. Tudo se entrelaça sob o olhar do acaso. A vida não se segura, está povoada de instabilidades. É preciso mover as instituições, pois as mudanças são radicais. Seu personagens constroem seus tempos como se estivessem montando um quebra-cabeça sem mapas. Conjugam azares e sortes. Vestem-se com fortunas que desaparecem numa mesa de jogo. Buscam amores que se esfumaçam em segundos.

No seus universos, Auster cria um reino não totalmente estranho. Quem visualiza as normas religiosas como trilhas do bem e da eternidade não se acostumaria com as reflexões do autor. O mundo anda tão solto e os valores tão mesquinhos que as crenças também entram na dança da consumo, esquecem tradições silenciosas e profundas que traziam alianças e proteção doa deuses. As religiões se envolvem com ambiguidades, se sentem ameaçadas com as concorrências, querem um lugar na política pragmática ou vozes potentes nos meios de comunicação.

O acaso nos tira medidas, porém há tantas insatisfações flutuando na sociedade que o afeto se torna uma preciosidade. Quem está próximo, quem desconfia, quem se confunde? Os escritos de Auster nos fazem pensar. Existem espelhos que não traduzem mais as imagens que nos convenciam. Não é que tudo tenha se desmanchado, que as derrotas acabem com as possibilidades de reverter situações. As idas e vindas promovem desamparos. Não sabemos o que significa o fim, nem que a morte é uma travessia.

A literatura está na vida, no cotidiano. Ela dialoga com o que sucede, multiplica olhares. Diz das nossas angústias, perspectivas. As palavras se misturam, podem ter gratuidades, mas viajam pelo mundo, mostram a nudez dos sentimentos, o fluir dos desejos. Mergulhando na imaginação, voamos em trapézios, contemplamos infortúnios, costuramos medos e astúcias. O acaso rege nossas histórias?  Auster apenas se diverte com suas especulações? Fica difícil afirmar qualquer coisa quando as instabilidades se estendem e as lutas assinalam que a violência concretiza ressentimentos.

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