Pendure os desejos e as rebeldias na sua janela

Na aldeia global, curte-se o instantâneo. Nada de lentidão, de contar até 10. O importante é registrar com rapidez. A qualidade não é ressaltada. Vale a novidade, alterações na forma, disfarces, sofisticações. Nesse movimento, as sociabilidades reconfiguram-se, mas há uma fragilidade que não pode ser esquecida. Na Espanha, afirmaram que a democracia havia sido sequestrada. Há inquietudes frequentes, pois os direitos sociais estão sendo manipulados pelo governo. Os donos do poder defendem a necessidade de reformas urgentes, para salvar a moeda. Não se pergunta como transformar o mal-estar que se propaga de forma veloz. Quem controla investe na rapidez. Quer evitar que os desejos de rebeldia se multipliquem.

O espaço do convencimento é pequeno, a crise é extensa. Não dá para enganar, nem com o fetiche do consumo que tanto seduz a sociedade brasileira. Muitos países da Europa passam por situações de desencanto. Antigas conquistas apagam-se. O desemprego não se segura. Quem pensa que o capitalismo reencontrou o bom caminho não está de olho aberto. Não estamos vivendo o juízo final, porém os desconfortos assanham, os ruídos se alastram, as fantasias se desmancham. Portanto, a instabilidade incomoda, pede outros significados, desacredita. A aldeia global está se balançando.

O Brasil conseguiu algumas reviravoltas. Tornou-se um modelo. Mas também, por aqui, as coisas não são animadoras. Os índices de desigualdade comprometem, a violência tem fôlego, partidos políticos não entendem (!) a  necessidade de reflexões mais profundas. Gostam mesmo de disputar cargos, costurar pactos cínicos, denunciar corrupções que terminam ocupando o noticiário. Há pouca punição para os atores das arrumações criminosas. Tudo colabora para que as certezas flutuem, apesar de se estimular otimismos e crescimentos da qualidade de vida para o futuro próximo.

Com tantas expectativas desencontradas a história não se inibe. Segue adiante. Não tem como convocar o passado de forma sistemática e trazer de volta os melhores momentos. Não estamos diante das TVs, porém convivendo num cotidiano que nos  exige escolhas, não importando que o tempo seja mínimo e ilusório. As manobras de dispersão sofrem metamorfoses. Maquiavel tinha muitas razões. Rosa Luxemburgo foi crítica até mesmo com as conquistas de seus partidários. A história é um cenário imenso que as teorias tentam enquadrar, com frustrações constantes. No entanto, é preciso interpretar, expandir as ações, não deixar as janelas fechadas, as ideias apáticas.

A história não é uma vitrine de modelos sem sangue. Há dores e desesperos, sonhos e desalentos, lutas na mídia para desfigurar contrapontos. A complexidade do mundo requer cuidado. A paralisação dos ânimos anula desejos e fortalece conformismos. A velocidade continua como véu para encobrir dominações domesticadas pelas minorias. Causa espanto observar que as maiorias não ultrapassam fronteiras, nem redefinem a democracia, diluindo os cinismos, sacudindo as máscaras no lixo. Há sinais de alerta, surgem insatisfações atuantes, contudo o famoso discurso da servidão voluntária ainda assusta. O capitalismo quer um consumo sem limites, entra no ritmo do faz de conta. Esquece os sentimentos e os desacertos. A vida fecha-se como uma janela sem cores. A mudez tem sua voz.

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2 Comments »

 
  • Franz disse:

    O que pode-se propor de diferente? Como conseguir alocar tantas pessoas para poucas ofertas de emprego? Será que podemos equilibrar consumo, atividade produtiva e geração de empregos?
    Sempre me faço essas perguntas. Quem estaria disposto a abandonar certas regalias e privilégios – proporcionados pela não igualdade de oportunidades? O grito sempre parte dos que estão fora da cadeia produtiva. Onde estão os intelectuais que não se posicionam e não propõem alternativas? Estão confortavelmente entorpecidos.

  • Franz

    Há muita gente que não se toca com as desigualdades. Por isso, as perguntas são muitas. Não há a um apoio frequente, um olhar da solidariedade. Ganha espaço o o individualismo e a sociedade lamenta-se quando a crise aperta.
    abs
    antonio paulo

 

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