Pina e Wenders: a dança do desamparo e do encanto

A beleza é fundamental, já disse o poeta, celebrando suas paixões e encantos. Não contrario suas palavras. A beleza nos salva, muitas vezes, traz transcendência e coragem. Diante de tantas explorações, de competições ferozes, a contemplação nos leva a pensar alternativas, visualizar outro mundo. A beleza tem sedução, toca fundo. Defini-la é um risco. Passa pela sensibilidade de cada um, possui sua dimensão histórica. Alguns elogiam a harmonia das formas, outros preferem as ousadias de Duchamp. Sempre as relatividades, a presença de afirmações dos medos e dos desejos. Assim, é a construção da cultura, a busca de responder as incompletudes.

Wim Wenders realizou um documentário sobre a artista Pina Bausch de uma beleza incomum. Conheci outros trabalhos de Wim. Não me esqueço de Asas do Desejo, de suas imagens e metáforas instigantes. A homenagem que faz a Pina é emocionante. Selecionou depoimentos, cenas de coreografias. A dança de Pina é singular, tem lugar no inimitável, dialoga com o contemporâneo, mas se estende pelo tempo, não se rende aos calendários, envolve-se com vestígios e ruínas. Há quem conteste a procura de significados que retornam. Não deixo de sentir as permanências, como também não nego as mudanças. As cartografias do humano são complexas.

Pina é não muito conhecida no Brasil. Sua arte é criatividade fluente. Configura desenhos simples,  profundos. Dança o mundo, o gesto mais visível, o sentimento mais escondido. Observa e não banaliza. Não cai no abismo dos espetáculos efêmeros e milionários. O corpo é tudo, na sua nudez, nas suas vestes coloridas ou sombrias. A arte entretece-se na beleza, contudo pergunta e se inquieta, pertence ao mundo, não possui traços fixos. Pina abraça a vida, no seu desamparo, na sua tragédia, na sua possibilidade, no seu desafio.

Música, dança, corpo, palavra, imagem. A sociedade fermenta pressas. Parece querer que os olhares não percam minutos,  aprendam a não mergulhar na interioridade. A arte de Pina não consolida consumos, pede coração aberto, imaginação fértil. Seus companheiros e companheiras são cidadãos do mundo. Seus pertencimentos fluem, suas raízes são asas, pois o voo assanha o sonho, acorda os mitos, silencia sem definir apatias. Cada invenção da cultura está relacionada com um ato de transgressão que poderá se tornar uma ordem. Por isso, o deslocamento é importante. Sem ele, não haveria história, a gramática sufocaria a poesia.

O filme de Wenders não cabe numa análise pequena. Ele ganha territórios que se reformulam. A beleza é fundamental, porque ela atiça conversas, não consola ruídos. Basta lembrar-se do teatro de Ésquilo, dos escritos de Nietzsche, dos quadros de Picasso, dos ritmos de Piazzolla. Aquilo que encerra códigos tem uma escassez amarga. É preciso que o trapézio não sossegue, que o circo não se vá, para que a vida não durma na mesmice. O que move a cultura é o encontro com a dor, a capacidade de traduzi-la não, apenas, com lágrimas e desespero. Há, sempre, uma trilha nunca percorrida. Pina Bausch não desconhecia o chão, o horizonte da vida. Wenders não se perdeu na sua leitura.

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2 Comments »

 
  • Elisa disse:

    Sempre achei que a capacidade de vislumbrar o belo em suas múltiplas dimensões era permitido por um olhar apaixonado, desse que se depara com os detalhes. É lindo ler sua escrita afetada e seu amor pela história.

  • Elisa

    Muito grato. Gosto mesmo de escrever. Acho que é uma comunicação com o mundo. Mas estamos sempre aprendendo com as palavras.
    abs
    antonio paulo

 

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