Por onde andam Benjamin e o narrar da vida?

Juntar os cacos da história, pescar suas pérolas, navegar, como Ulisses, pelas  ambiguidades que a cultura fornece, movimenta o humano. A inquietude é uma permanência. É difícil atiçar a todos, mobilizar paixões ruidosas que quebrem as apatias e deixem fluir a imaginação. Benjamin viveu tempos de limites atordoantes. Sua amiga Hannah Arendt foi seu aconchego, para  guardar e proteger o coração.  O pensamento dele não se perdeu. Superou impasses, preconceitos, modismos, mostrou que a história devia ser, sutilmente, desnudada. A contradição não é um pecado capital, nem errar uma condenação. O importante é traduzir tudo isso. Construir linguagens.

“Sobre o conceito de história” não é apenas uma especulação sobre o devir histórico ” enquanto tal”, mas uma reflexão crítica sobre o nosso discurso a respeito da história ( das histórias), discurso esse inseparável de uma certa prática. Assim, a questão da escrita da história remete às questões mais amplas da prática política e da atividade da narração. Jeannie Marie Gagnebin sintetiza caminhos que levam as reflexões benjaminianas. Compreender suas divagações está longe de uma estreita dialética racionalista.Ela não busca enquadramentos ou classificações. A história não é laboratório de idas e vindas pré-determinadas. Seu envolvimento com os significados das palavras, com os tecidos fragmentados do manto de Penélope, nos alerta para multiplicidade.

Não pense na História, mas em histórias. Não pense na embarcação de Ulisses, mas em embarcações. Cada coisa, cada relação possui cores surpreendentes. A interpretação imediata acende o fôlego, porém o passado não se fecha. Com afirma Gagnebin há uma abertura para contar as histórias e elas se entretecerem. Esse vasto território do inesperado destrói fronteiras ou fere pesadelos. A verdadeira imagem do passado perpassa, veloz ( Benjamin). Captá-la não é artifício de manobras esquemáticas. As histórias puxam práticas e cogitações, soltam as experiências  do viver.

Não dá para desenhá-la numa ordem linear. O positivismo a restringe a buscar as saídas da ciência, porém destaca a neutralidade, onde a mistura de sentimentos e divagações se cruzam. Observe os quadros de Paul Klee. A tradição dos oprimidos nos ensina que o estado de exceção em que vivemos é na verdade a regra geral. Precisamos construir um conceito de história que corresponda a essa verdade (Benjamin). O vencedor é ardiloso, por isso o contar tem uma dimensão fundamental para manutenção das relações de poder. Numa sociedade marcada pela burocracia, a experiência sofre ataques em nome do discurso competente.

Portanto, não renegue às ambiguidades. Transformar o fazer histórico não é um ato revolucionário mecânico, com programas extensos e líderes incontestáveis. A luta de classes não esconde os escorregões, as sequências autoritárias, em nome de utopias centralizadoraas. O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer (Benjamin). Não estamos no capitalismo dos tempos do neocolonialismo militarmente agressivo. As armas são outras, os meios de comunicação asseguram e  distraem violências. Mas a dominação persiste, no vigiar e no punir.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>