Por onde anda o país do futebol?

O Brasil marcou presença de destaque no futebol. Observe que usei o verbo no passado. Parece que houve uma interrupção nas aventuras mágicas dos craques. A seleção perde fôlego, não motiva. A partida contra a Argentina foi de uma carência chocante. Muito pouco para quem se acostumou ao Santos de Pelé, as faltas cobradas por Zico, aos passes de calcanhar de Sócrates, as astúcias de Ronaldo e Romário, às danças desfiadoras de Garrincha, aos passes certeiros de Didi, à elegância de  Nílton Santos, ao fôlego de Djalma Santos e ….

Ninguém discordou da renovação. Não dava para ficar preso ao humor de Dunga. Tudo leva um tempo, mas é bom lembrar que temos jogadores especiais. O mercado da bola se assanha com a quantidade de valores que sai das terras brasileiras. Os contratos tornam-se precoces. Não se espera mais pelo famoso amadurecimento. Neymar recebe assédios contínuos. O Barcelona tenta seduzi-lo. Não está só. O seu rival, o Real Madrid, também não sossega. Portanto, a briga é grande, envolve família, clubes, empresários. As moedas balançam ruidosamente. O que fazer?

Não se sabe, então, porque tanta apatia nas últimas partidas da seleção. Paciência existe, contudo se esgota. É preciso animação no campo e não apenas nas fofocas. Criam-se cultos aos ídolos. Eles são pressionados e não conseguem corresponder ao que se diz  na imprensa. Falta entrosamento? A camisa pesa? A grana produz fantasias excessivas? O técnico encontra-se confuso? Muitas perguntas surgem, acompanhadas de perplexidade. Quem se equivoca nas convocações? Há negociações quem permanecem obscuras? A torcida inquieta-se, sente-se iludida, se move nos confrontos violentos fora dos estádios.

Forma-se um noticiário sobre as obras para Copa de 2014 que interfere até na avaliação do governo de Dilma. Pedem transparências nos gastos, ouvem-se respostas nada elucidativas. A Copa é um espetáculo para os de casa ou planeja encher os cofres das grandes corporações? Quem poderá pagar seu ingresso e usufruir das maravilhas das novas arenas? Os interesses entram cena, pois as cidades sofrerão modificações nas suas estruturas. As promessas são parceiras das desconfianças.Será que essas contradições tumultuam a fluência do jogo e inibem o poder criação dos craques?Tentaram outras fórmulas. Os jovens estão ao lado dos mais velhos. Justificam-se as escolhas pela necessidade de dar mais segurança emocional os times.

Ressurgem nomes. Lá estão Tiago Neves, Renato Abreu, Kléber, Fred junto com Ganso, Leandro Damião, Danilo, Vítor… Há várias pedras no meio do caminho, com diria o poeta. As análises não trazem conclusões. Esquecem que o futebol está cercado por uma complexidade que difere dos tempos de  Zito, Clodoaldo, Rivelino. O futebol é um espetáculo internacionalizado, não se reduz ao  que se vê na tela da TV. A imprensa especializada não se aprimora, não estende suas observações, individualiza, nem percebe que estamos numa sociedade  onde tudo se transforma em mercadoria. Isso toca na sensibilidade, refaz práticas culturais. Poucos se lançam fora do lugar-comum. O  futebol se reduz aos esquemas táticos, ao vaivém de treinadores, aos humores dos dirigentes. Sem conectá-lo às armadilhas do mundo das transações, o mistério permanece e desencanta.

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4 Comments »

 
  • Gleidson Lins disse:

    Nos últimos anos, perdemos a essência do nosso futebol. O padrão que caracterizava o futebol brasileiro – o toque de bola refinado, o jogo cadenciado e inteligente, a naturalidade – sucumbiu com a “europeização” dos nossos craques. E isso é um paradoxo: continuamos a produzir craques profusamente. Pena não termos mais um Telê Santana para regê-los…

    Abs,
    Gleidson Lins

  • Gleidson

    Falta mesmo maestria e sobra falta de motivação.
    abs
    antonio

  • Emanoel Cunha disse:

    Professor não sou lá um especialista e bom observador de futebol, mas pude perceber que no seu entendimento: as problemáticas de nossa sociedade está atrelada a todo um conjunto de valores que, intrínsecos ao ser humano,vão tornando as suas relações sociais instáveis e que diversos papeis na modernidade vão sendo configurados com as ideologias da nossa sociedade.
    Abs
    Emanoel Cunha

  • Emanoel

    O futebol está inserido na sociedade. Deve ser visto numa análise ampla.
    abs
    antonio

 

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