Por onde anda o trem (in)vísivel da história?

           

Os desconfortos do tempo presente não estão isolados. Há dificuldade em construir a simultaneidade. Muitos não escutam as vozes de Freud, Kant, Elis Regina,  Zola ecoando pelas ruas da história. Fixam-se no instante. Não percebem que toda conversa envolve muitas investidas em lembranças e escutas, aparentemente, desfeitas. A perda da conexão, com o passado, traz desprezo pelas experiências e fortalece o apego à novidade. A comprensão das histórias torna-se superficial. O vivido ganha espaços mínimos, nem se observa a repetição. O conhecimento acumula-se, mas também as circunstâncias se modificam e exigem outros valores. A desvinculação radical, com os ensinamentos de outrora, enfraquece a invenção.

Tudo isso é alvo de polêmicas. Defensores do determinismo exaltam a linearidade e mergulham nas narrativas tecidas de sucessões, causas e consequências. Adormecem no progresso. As idéias do século XIX retomam seus lugares de forma bem articulada. O disfarce é o discurso da quantidade, a globalização não vista criticamente. Convivemos com fatalidades e destinos definidos? Fecham-se os olhos para as resistências. As mesmices são salientadas e os contrapontos silenciados. O jogo do tempo esvazia-se. O futuro tiraniza as políticas e as tecnológias.

A história não está solta. Há entrelaçamentos. Coisas que retornam, hábitos que se redesenham. O apagamento do que foi traçado, de forma arbitrária, mascara contradições. Ficamos entregues ao virtual e ao descartável. Vivaldi teve sua época de domínio público, porém ele não desapareceu. Nada como ouvir suas Quatro Estações e se deixar levar pelos acordes leves e sedutores. Há muita renovação cultural, no meio delas é, quase impossível, não se recordar dos romances de Sthendal e de Hemingway. O vaivém é importante, pois quebra hierarquias e aprofunda a imaginação. As revistas de quadrinhos divertem, possuem suas marcas, movem sentimentos e expectativas. Por que não articulá-las com outras leituras e entender os ritmos das permanências e das transgressões?

A abertura para um tempo, que se mistura e surpreende, atiça a criatividade. Se o mundo remove barreiras, com os sistemas atuais de comunicação, não significa que os todos espelhos foram riscados e as telas dos computadores merecem atenção inquestionável. A vida se multiplica, quando não a aprisionamos nas mesmas paisagens e viajamos nos mesmos trens. A memória nos acompanha, guarda seus afetos, seleciona suas comemorações. Seus labirintos são gigantescos e suas travessias escondem armadilhas. Por isso, o mergulho, no aqui e agora, é o estímulo para a salvação e o sepultamento das dores?

No Oriente Médio, as lutas não cessam. A violência é traduzida em números. As perdas, no entanto, ferem os sentimentos. As estatísticas ornamentam, ajudam a visualizar os descontroles. A morte tem seus simbolismos. As religiões sabem disso. A Líbia não é o Brasil. O Recife não é Tóquio. Os Estados Unidos não são a Arábia Saudita. Não é preciso argumento complicado para perceber que as diferenças  fertilizam relações de poder. Concepções de mundo  se chocam. A instabilidade gosta de se espreguiçar no trem da história. Os nós prosseguem, pois os trilhos se enferrujam e tombam ruidosamente. A queda não é o fim.

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8 Comments »

 
  • Kbção disse:

    Caro Antônio, o mito determinista provem da soberba humana. Não à toa, foi essa ilusão de que poderíamos tecer as teias da história que impulsionou os movimentos revolucionários do século passado, um dos mais violentos da história. A história não tem sentido. A vida também não. Tal ideia é desconcertante, sei bem disso, mas temos de ter a humildade de reconhecer que o devir é caótico, foge do nosso alcance. No máximo, podemos interpretá-lo. A nostalgia de seus bens escritos textos revela um pouco desse afã de encontrar um enredo, uma narrativa por trás do caos cotidiano. Luta vã, amigo. Todas as épocas tem suas virtudes e seus defeitos. Na média, otimista que sou, creio que o mundo tem evoluído de forma trôpega, porém contínua.

    Abraço

  • Kbção

    Concordo que a história não tem sentido. Vale a ambiguidade que nos cerca, mas resta viver e não ficar nas lamúrias eternas. Os desconcertos ajudam a imaginar e pular as mediocridades.
    abs
    antonio paulo

  • Geovanni Cabral disse:

    Um texto de múltiplas interpretações, nos fazem pensar sobre o cotidiano e a História que se cruzam nos instantes do tempo. Vivemos nessa confluência de afetos, passado e presente. Um mundo louco, para alguns, para outros sem saída. As experiências passadas são abandonadas ou esquecidas na próxima estação. O trem da história segue rumos inesperados. A cultura se renova, o homem pós-moderno assumem novas roupagens ditam regras e esquecem a tradição, vivem o “instante eterno”. É como se as coisas não tivessem retorno, o agora é o tempo presente. A história como invenção humana se ver nesse trem e a cada estação procura encontrar sentido, interpretar, entender o que se estabelece em sua frente. Daí surgem, como mencionado as polêmicas acerca desse sentido, desse vivido. Percebo hoje a humanidade mais distante das experiências passadas, tentam uma renovação, mas esqueçem do eterno retorno. A sociedade esquece que a história é também permanências e seguem nos trilhos sem olhar para trás. Assitimos o desastre nuclear em Fukushima, os japoneses atordoados com os níveis de radiação. Mas antes de tudo isso, o controle e a segurança era algo inabálavel. Será que a humanidade, os homens do poder, nada aprenderam com os desatres de Kyshtym, Three Mile Island, Chernobyl, Césio 137? Esses desatres não nos dizem nada? O que observo é que o homem pensa que tem o domínio sobre esse tipo de energia. No fundo, a natureza ainda é soberna nas suas decisões. São esses acontecimentos que nos fazem memorar, pensar a história e seus labirintos, seus afetos e angústias e suas lições. Não é o instante que dita regras e ações, mas a própria confluência da cultura, a vida em sociedade, as relações de poder. Por mais que sejamos levados ao individualismo, não estamos sós e nossas ações dependem desse contato e calor humano, desse afeto que alimentam nosso ser. Que essas mudanças somado a esse progresso vazio, não apeguem as viagens nos trilhos da história. Sigamos pois, com o “trenzinho caipira” de Villa Lobos :
    “Lá vai o trem com o menino
    lá vai a vida a rodar
    lá vai ciranda e destino
    cidade noite a girar
    lá vai o trem sem destino
    pro dia novo encontrar
    correndo vai pela terra
    vai pela serra,vai pelo mar
    cantando pela serra do luar
    correndo entre as estrelas a voar
    no ar… no ar…”.

  • geovanni

    Grato pela reflexão. Assim se faz o diálogo.
    abs
    antonio paulo

  • Flávia Campos disse:

    Antonio,
    Qual o nosso lugar neste trem?
    Passageiros, maquinistas, operadores de máquina, engenheiros, observadores anônimos…?
    Como fugir das “fatalidades e destinos definidos”? Como apressar, retardar, parar, mudar o trem da História?
    Às vezes nos iludimos, fechamos os olhos e, por um momento, pensamos ter esse poder maior. De repente, tomamos consciência que o “tempo come a vida” de forma acelerada e pensamos que “só somos livres para desejar a liberdade”, pois a nossa liberdade não se prende aos trilhos de ferro? (ou não?)
    Se “a História não está solta”, e sim “entrelaçada”, somos desafiados a mudar de lugar, de papel, de itinerário…
    Podemos então refazer a viagem e buscar outro destino comum.
    É também possível redefir as travessias e escolher a melodia de Vivaldi a nos tocar nas “Quatro Estações”, recomendar a leitura dos bons romancistas a cada manhã e as reflexões de Rezende a cada por do sol, que se mistura a horizontes largos…
    E, contribuir para que a “vida se multiplicar” sem “aprisioná-la nas mesmas paisagens”.
    Admitir, que “a memória nos acompanha, guarda seus afetos, seleciona suas comemorações”.
    !!!
    Mui belo Antonio.
    ¡Gracias!
    Bjs
    Flávia

  • Flávia

    O trem da história passa, às vezes, nem notamos. Deixamos nosso lugar vazio.Por descuido ou apatia.
    bjs
    antonio paulo

  • Christiane Nogueira disse:

    Manter a memória histórica viva não é tarefa fácil. O individualismo, o pragmatismo, a idéia de não se perder tempo faz com o presente seja algo contínuo, sem passado e com o olhar vertido para o futuro. A história, assim como o livro, nunca estará completa. A dinâmica social nunca cessa; os fatos históricos fazem parte de um devir constante; os fenômenos se repetem, mas não se repete o mesmo fenômeno. Daí a importância e o peso do ofício do historiador, que tem de ser mais do que cronista, memorialista e compilador; procurando, ao debruçar-se sobre determinado fenômeno, ligar os fatos que lhe dão forma (e o ponto de partida está nas angústias do presente e na busca de respostas no passado) para lembrar o que os outros esquecem.

  • Christiane

    Acompanhando o tempo, com suas singularidades, o historiador deve ficar atento às diferenças e às relações de poder. O diálogo entre passado e presente é fundamental para fortalecer a crítica e a solidariedade. Gostei muito de suas reflexões, ressaltando a base da memória.
    abraços
    antonio paulo

 

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