Por onde andam a intimidade e a solidão?

As formalidades fazem parte da cultura. Os códigos estão presentes e atuam na gestão do controle social. Há transgressões, mas a busca da disciplina é base da dominação. A história tem variações imensas. Existem épocas de escândalos desmedidos que abalam circunstâncias e convivências. Não podemos esquecer os cinismos, as hipocrisias, os inúmeros preconceitos. Os antigos gregos tinham relações sociais que exercitavam discussões  públicas e não eram nada simpáticas às ações femininas. O seu fazer democrático possuía muitas restrições. Foi um tempo. Não se trata de sociedade midiática com a nossa, cheia de novidades instantâneas.

Portanto, estabelecer modelos é escorregar nos contrapontos da história. Quando a religião católica se firmou, na Idade Média, os costumes sofreram o cerco das crenças bíblicas e da centralização das ordens dos papas. É difícil avaliar quem curtiu melhor as atmosferas de liberdade e quem combateu o conservadorismo das instituições com mais astúcia. Não custa registrar os diálogos e os ritmos, observando certas permanências e desconfiando do discurso progressista. Uma concepção linear limita o desenho das aventuras e termina reforçando o mapa do medo. As relações sociais têm suas amarguras, mas também seus pontos de fuga e de devaneios.

Hoje, as tecnologias se constroem estratégias envolventes. Há muitos recursos de sedução que invadem o cotidiano com objetos e programações de divertimentos, às vezes, sufocantes. Fica complicado definir escolhas. Ir aos shoppings, fazer compras, é um lazer que satisfaz boa parte da população. Criam-se ilhas de consumo. Prevalecem os privilégios, porém o mais ambicionado é o lucro, o culto ao valor de troca. O comércio se abre ao crédito facilitado, investiga rendas, invade a privacidade, conecta-se com as vantagens financeiras. As pessoas não se ligam muito nas manipulações. Assustam-se , depois, com as dívidas. É marcante como a posse de mercadorias promove hierarquias e celebra mudanças na vida de cada um.

Apesar do fluxo intenso de automóveis, de gente curiosa e atenta às novidades, o mundo também se veste com outros tecidos. Há quem prefira o silêncio ou a conversa caseira. Criticam à falta de pudor. Guardam suas honras domésticas e evitam intimidades. Não desconsideram às TVs, vibram com os concursos de Faustão, porém se mostram discretos, desencontram-se, de propósito com a vizinhança. Viajam no sossego do lar, não sonham em desperdiçar energias nos balanços exteriores. Um exílio com formas sofisticadas, pois não se negam a consultar o computador, nem acionar os celulares.

Trata-se de uma descrição incompleta das opções que circulam pela sociedade pós-moderna. Mesmo aconchegado no seu divã, há espaços para sair da intimidade e passear por territórios desconhecidos. Os esconderijos são outros. Quem não curte um facebook ou enviar e-mail para entrelaçar contatos? Intimidade com desconhecidos? Cadê aquela reunião familiar que ocupava fins de semana e se estendia em papos senhores de memórias compartilhadas? Será que a intimidade não se transformou, a timidez configura-se com outros desenhos e os corpos jogaram fora seus acanhamentos de outrora? Posso contar minha história nas páginas da internet e salientar dotes e desejos. E a solidão por onde anda?

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9 Comments »

 
  • Neto disse:

    Professor,

    O senhor fala bastante nos seus textos, e aulas tbm, das formas como nos relacionamos nessa dita sociedade “pós-moderna” como que caracterizada, grosso modo, pela velocidade, pelas efemeridades e pela quebra de relacionamentos mais afetivos, comuns nos tempos de outrora.
    Sou bastante leigo nesses assuntos, portanto, gostaria de saber do senhor se esses “novos” modos de relacionamento já eram comuns nas sociedade modernas(a mim, parece-me que sim).
    Caso responda que sim (que são hábitos e modos semenhantes, ou semenhantes em parte), queria saber o que faz, para o senhor, a distinção nessas formas de relacionamentos “modernos” e ‘pós-modernos”.

  • Neto

    Ontem, na aula, coloquei bem essas relações. No pós-moderno, há uma sociedade de consumo mais ampliada que valoriza a mercadoria e a novidade. O descartável predomina. Isso influencia na forma do afeto. Não focamos as pessoas e sim queremos a posse das coisas, com pressa e necessidade de aparecer.
    abs
    antonio

  • Neto disse:

    Certo, professor. Mas, era justamente isso mesmo que eu tava falando: parece que boa parte desses valores, que eu ainda considero MODERNOS, não mudaram, apenas se tornaram mais ACENTUADOS. Pois a questão da valorização da novidade, na sociedade em que vivemos,não é nenhuma novidade. E outra: Karl Marx já falava do fetichismo da mercadoria há dois séculos, da coisificação das pessoas etc. Pra mim, é como se isso não passasse de um estado mais acelerado do moderno.
    Estou falando isso, mas, claro que tenho ciência que isso é só uma parte do problema, pois é inegável as novas maneiras de encarar o mundo a nossa volta. Por exemplo: essa relação inversamente proporcional na descrença no conhecimento científico, no racional, apesar das constantes inovações tecnológicas e dos ditos progresso do saber científico.

  • Neto disse:

    Desculpe, se eu estiver lhe incomodando, mas essa é a forma viável e confiável, a meu ver, de se discutir essas coisas. Pois se a toda aula for interrompido com questões do tipo, o senhor acabará por não dar aula nenhuma.

  • Neto

    O importante é compreender com se dá a relação entre permanência e mudança. Há continuidades, mas é preciso perceber que as relações sociais vivem outros momentos, lidam com outros objetos. Muitas afirmações já foram feitas e com ritmo de sua época. É tema de muita controvérsia, não custa discuti-lo e formar conceitos. Temos que ter abertura para conviver com as diferenças. Assim, nos renovamos e aprendemos a multiplicidade de vida.
    abs
    antonio

  • jefferson disse:

    Professor acredito que Neto, como eu e vários outros discutem é o conceito de pós-modernidade, que é bastante contestado, como o senhor mesmo falou, mas porque chamar pós-moderno algo que sugere uma continuidade moderna, mesmo sabendo que são diferentes lugares, diferentes tempos,contextos,novos relacionamentos com a maquina.. enfim, e que não conseguimos encontrar uma descontinuidade, além da exacerbação da condição moderna. Porque o pós-moderno não é moderno? Quais os tipos de Pós-moderno? e se as novas formas de relação afetiva são uma descontinuidade histórica para o senhor?

  • Jefferson

    As diferenças são visíveis.A história vive, contudo, de permanências e mudanças. O modernidade buscava a originalidade, fixava-se no conceito de revolução. A pós-modernidade não busca originalidade, faz as misturas dos diversos pensamentos. É uma sociedade profundamente midiática, onde a cultura, como feito humano, prevalece. A forma mercadoria domina amplamente. Com certeza, há certos aprofundamentos de concepções e práticas anteriores. Observe como estão as relações familiares, como se coloca a questão da sexualidade atualmente. E a vida política, as utopias, a coisificação, as doenças, o consumo? Há autores que trabalham com esse conceito como Bauman e Jameson. Mas isso não significa que todos tenham que aceitá-lo. A polêmica é boa e podemos fazer bons debates. Não gosto de questões fechadas. Descontinuidade absoluta não existe. Não me incomodo tanto com o nome, mas com a convivência, como ela se dá. Assunto vasto, mas o importante é visualizar, por exemplo, onde estão o que você chama de exacerbações.

  • jefferson disse:

    Quando utilizei o termo exacerbação me referi a uma intensificação da condição moderna, se a razão explicava o mundo, hj ela produz tecnologia como discurso de melhoria geral! Quando utilizei o termo descontinuidade pensei em um acontecimento historiográfico,não necessariamente absoluto, mas para historiografia Ocidental-europeia, que é a que mais se conhece, visto que os japoneses, chineses, indianos e etc.. não falam de pós modernidade. Mas como esse termo é aceito por uns historiadores e renegado por outros vou procurar ler além dos autores indicados pelo senhor, Benjamin, Foulcaut e Nietzsche.

    Atenciosamente,

    Jefferson

  • Jefferson

    Certo. Todos temos nossas escolhas e nossas opiniões. Acho muito bom. Assim, estamos sempre aprendendo os significados que se estabelecem e mudam , sem precisar de grandes formalidades, nem tensões. Por isso, a abertura para o díálogo é fundamental. Debater é bom e faz crescer a crítica e atenção aos descuidos dos desgovernos. Grato pelas colocações. E sigamos com a boa convivência.
    abs
    antonio paulo
    antonio

 

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