Por onde caminham as referências e o futebol ?

           

A velocidade é costumeira no mundo contemporâneo. Toda movimentação vem se acelerando com a consolidação da modernidade. São renovações intensas na tecnologia. O capitalismo superou muitos impasses. Consegue esconder-se de crises mais abrangentes. Há sustos  demorados, medos manipulados, mas não faltam agilidades. Aparecem novas fórmulas e ele mantem sua hegemonia.

Não é só da fabricação de objetos, da valorização de bens de consumo que vivemos. A sociedade tem uma multiplicidade de afazeres. Fica até difícil falar de um cotidiano. As tradições são, rapidamente, esquecidas. A política entra na onda do espetáculo, não se preocupa com seus deveres éticos e sociais. Tudo está muito confuso. Já se foi o tempo de se travar debates, sem fim, sobre os caminhos da ideologia. O pragmatismo lembra que não se deve perder minutos preciosos. Produzir é a palavra mágica.

O futebol não poderia fugir de tantas mudanças. Seria uma nostalgia enorme alimentar estruturas passadas, quando tudo está no campo da mercadoria. Na Europa, as relações capitalistas invadiram os esportes de forma decisiva. É claro que os negócios se inquietam. O futebol não é uma ilha de fantasia, cheia de atletas amadores e apaixonados por uma bandeira. O sucesso promove privilégios, funda  hierarquias e seduz de forma avassaladora.

Pelé surgiu, no século passado. Disputou, muito jovem, a Copa de 1958. Consagrou-se. Não era época da mídia acesa, como atualmente. Mas ele se segurou. Quando abandonou sua carreira, procurando outras atividades, muitos o condenaram. Acharam precipitação. Pelé não hesitou. A gritaria não era alta como nos tempos informatizados  aldeia global. Ele seguiu adiante. Evitou desgastes, sofreu adversidades. Ninguém nega a sua qualidade de craque único. É conhecido no mundo inteiro.

Hoje, qualquer risco se transforma num abismo. Há uma pressa colossal na construção e na destruição. As invenções surpreendem e ocupam as vitrines. Todos querem grana para mergulhar no consumo desenfreado. Narciso ficaria tonto dentro de um shopping center de luxo. Quando algum craque desponta a imprensa não sossega. A vida privada se desmancha e a fofoca ganha espaços. A coisificação é violenta. Altera a identidade dos sujeitos, o coloca nas manchetes, tumultua sua vida familiar.

O caso de Neymar mostra a contaminação da fama. Quais são as referências e os limites? Quem sabe responder a uma questão tão melindrosa, se o empresário comanda a leitura das regras. Ter paciência para desfiar os fios não é comum. Por isso, as ruínas convivem com as descobertas suntuosas. O mundo é pleno de ambiguidades que não cessam. Bruno era um goleiro de grande aceitação pelos flameguistas. Está, agora, nas páginas policiais, cercado de acusações e, segundo alguns, bastante deprimido.

E a gangorra dos técnicos? Bastam algumas derrotas, para os times se desfazerem dos seus professores. Quando estão invictos, tornam-se os sábios do universo. Luxemburgo já foi idolatrado. Leão é, no momento, quase um desconhecido.Esfumaçam-se as inteligências e o desemprego chega junto com o esquecimento. Tudo tem que está grávido do imediato. E nós para onde vamos na velocidade do descartável ? Nas conversas, a expressão está ligado domina. A flutuação acabou com a lei da gravidade.

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2 Comments »

 
  • Flávio disse:

    Li há pouco, na Folha, a entreista daquele francês que você gosta – Gilles Lipovetsky. Há, realmente, muita afinidade entre vocês (até a fala dele, tal como transcrita no jornal, parece sua escrita). Mas o mote da fala dele – consumo de experiências – me pareceu uma enorme babaquice. Uma reciclagem das hoje fora de moda críticas ao consumismo (no fundo, essa sempre foi a busca embutida no consumismo: criar a (auto)ilusão de estar vivenciando algo novo/diferenciado) para tentar reabilitá-las enquanto um produto intelectual consumível. O que, diga-se de passagem, parece que está funcionando. O cara está vendendo palestra a torto e a direito.

  • Flávio

    Com certeza cair num consumismo sem pensar nas consequências é entregar o ouro ao bandido. Concordo com você. è precioso criticar, pois o capitalismo está fazendo a festa.
    abs
    antonio paulo

 

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