Prometeu está acorrentado?

Há quem se espante com os descompassos da história. Não há história sem ambiguidades e confrontos fatais. Temos poucas sabedorias e dúvidas imensas.No entanto, não há como desistir. Ser egocêntrico é uma doença. Sempre imagino a possibilidade de construir a solidariedade. Sei que as perversões existem e a violência amedronta. É importante escutar a rebeldia, para não deixar que a depressão monte seu quartel. Sem coragem a apatia desmancha o desejo. Vive-se a perniciosa acomodação. O silêncio nos faz escutar o outro, sentir que o isolamento nada revela para que a história se transforme.

Não abandono minha admiração pelos mitos gregos. Observo as fantasias, os atrevimentos, os voos nos abismos, as aberturas nas portas entreabertas dos labirintos. Solto minha corrente e me lembro de Prometeu. Não esqueço seu desafio. Criou a humanidade, inventou a luz, trouxe as estradas sinuosas. A história é um grande caminho. Não sei qual o ponto final. Vou interpretando, não me nego a riscar as incertezas e leio a tragédia de Ésquilo com afeto profundo. Ela me toca, me desperta, me movimenta para compreender os aparentes teologias mal resolvidas. Sou do cosmo.

Prometeu sofreu punição, mas não desprezou suas profecias. Ouviu conselhos, desenhou amarguras e respondeu aos que tentaram intimidá-lo. O mito é uma narrativa repleta de aprendizados. Os gregos sabiam disso. Não tinham redes sociais e nem usavam a velocidade das fofocas dos celulares. Dialogavam com a angustiante magia de estar no mundo e configura-se como um ser que nasce e morre. Os mitos não morrem,ganham significados longe da massificação que invade a sociedade do totalitarismo. Nem tudo é crença , pois há equações indefinidas e competições que arrasam as alegrias e ameaçam apodrecer o coletivo.

Os símbolos merecem leituras atentas. O mito não esconde valores, nem vive sem espelhos. Há sempre faltas. A história não é o absoluto e não consegue afastar a força das divindades. A ação humana não é transparente. Muitos imaginários povoam nossas reflexões. Temos que fazer escolhas. Prometeu não vacilou. Acolheu as mensagens do poder e arquitetou suas saídas. Não se subestimou. As correntes podem ser passageiras, a memória atiça criatividades.Quem conta suas aventuras, muitas vezes, se perde nas armadilhas das vaidades e se mascara. Como apagar o risco? Prometeu costurou sonhos e pesadelos. Sua lucidez nunca negou o oportunismo do obscuro.

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1 Comment »

 
  • Rivelynno Lins disse:

    …e como num jogo, estamos na vida, buscando encontrar os caminhos da liberdade, muitas vezes, diversas vezes, eles são e/ou estão interditados. E novamente, a busca pela tentativa de seguir adiante é iniciada, num eterno processo inaugural, precisamos aprender a caminhar novamente com as nossas próprias limitações. Não há respostas prontas e definidas, apenas decidimos se vamos caminhar com mais determinação ou vamos lamentar a caminhada e não concluir a trilha que o tempo e o espaço nos apresenta. A todos nós sempre há um roteiro que se impõe e nele feixes de outros caminhos possíveis e indeterminados são ofertados. O ato de caminhar é acompanhado por não se saber aonde se chegará e como no mito de Prometeu a nós é dada uma missão de desbravar um destino que se apresenta com todas as agruras e inconsistências da vida humana permeada por seus mistérios…

 

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