Qual é a cor da maçã do pecado e da culpa?

Os jornais se enchem de notícias que lembram as aventuras de Adão e Eva. As memórias do paraíso permanecem vivas e multiplicadas. O pecado chegou para ficar e desafia até a eternidade do absoluto. Tudo acompanhado de culpas e de travessuras de serpentes imaginárias. Ficou a maçã vermelha, como símbolo maior das tentações. Mordê-la é o caminho para se desfazer do conforto do paraíso. É interessante que existiam regras, limites e possibilidades de transgressões. A felicidade não era ampla e indiscutível. Deus vigiava suas criaturas, sem cerimônia e com olhos bem abertos. Esperava o descuido que sua onisciência já previa.

Apesar das tantas leis acumuladas, pelas sociedades, o pecado anda solto. Nem as religiões conseguem contê-lo, nem tampouco a majestade do Estado mostra força para evitar os descontroles. Neto mata avó para arrumar grana, ditadores torturam adversários, crianças são violentadas por membros da própria famíla, mendigos são agredidos por jovens embriagados, imigrantes sofrem pressões de antigos colonizadores, político não respeita o dinheiro público, meninas formam quadrilha no centro de São Paulo, preconceitos raciais provocam atritos nos Estados Unidos… Não adianta querer nomear tudo o que acontece. Os comentários circulam sobre as conflitos, seus exageros e seus cinismos. Diariamente, cada um exerce sua capacidade de julgar e ser julgado.

O pecado não se extinguiu. Sofisticou-se. Ganhou territórios inesperados. Deus deve amargurar-se com tanta falta de afeto e com a crescente ambição. Sente o mal-estar na cultura, mas preserva a autonomia, não interferindo, de vez, nas coisas terrenas. Basta a existência do sentimento de culpa. No entanto, ele não funciona. Possui força de intimidação, acompanha as idas e as vindas das ações humanas, atormenta os mais ingênuos, reforça o discurso das crenças religiosas, no entanto as tentações não cessam e os objetos de desejos variam. As criaturas desafiam o criador, nem se dão conta do juízo final, não perdem oportunidade de aumentar suas riquezas e pouco se ligam na generosidade. A competição é acirrada, derruba os comportados e atiça os vaidosos. Conter o vaivém da cultura é mais difícil do que arquitetar a construção do universo e sua complexidade indefinível. A maça do pecado tinha uma cor ou escolheu-se, para ela, a cor vermelha. Não é sem sentido, a eleição da cor. Era preciso dar visibilidade ao mal.

Se muitos consideram a história de Adão e Eva uma invenção, outros não medem a justeza das punições divinas. Admitem o paraíso e oram para atenuar seus encontros com os pecados. A heterogeneidade é imensa, porém a ideia de salvação não foge do mundo, mesmo onde a ciência domina com seus saberes cartesianos. A modernidade mudou as formas de religiosidade, sem desfazer-se das nostalgias e de muitas práticas do passado. Outras cores se firmaram. O vermelho não perdeu seu simbolismo. A globalização aprofundou proximidades e ativou diferenças. O pecado e a culpa não escaparam das reflexões de Freud e das preocupações de Buda. As portas não estão trancadas, nem há fronteiras inabaláveis. As esfinges mantêm seus empregos, pois a travessia é interminável e sem sinalização.

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8 Comments »

 
  • ladjane disse:

    Realmente foi a maçã a fruta proibida ou pitomba, jaca ou azeitona? claro,realmente não se sabe e nem precisamos nos deter com tanto afinco nessa questão.
    Melhor que isso é tomar a narrativa como base para fazer comentários sobre as tantas notícias ruins sob um ponto de vista teológico,mais precisamente da doutrina do pecado.
    As notícias são assustadoras, comoventes…,como vc mesmo enfatiza, quando diz:”neto mata avó para arrumar grana”.Aí se pode ver a perversão do instinto de aquisição e o instinto homicida,”crianças são violentadas por membros da própria família”.
    Nesse outro o instinto sexual pervertido, sem controle, sem freio.Sobre os que tais coisas praticam,e que não é nada novo debaixo do sol,Deus ainda suporta,sabendo que cada um receberá seu galardão.
    Mas alegremo-nos em saber que Ele se apraz sobre os que amam e guardam os seus Estatutos.
    Parabéns pelo texto, professor.

  • Ladjane

    O bom é lutar para que as relações ganhem mais solidariedade. Está tudo muito confuso, mas é preciso esperança. Ficar na negação é correr do mundo. Gostei da sua presença.
    abs
    antonio paulo

  • Flávio Alves disse:

    Professor,

    Com duras e objetivas palavras o senhor conseguiu apresentar um pouco da triste realidade que vivemos. Trata-se de uma realidade desesperadora. E, que precisamos refletir o grande cerne da questão com este ponto de vista teológico nas palavras do próprio Jesus:

    Mateus 24:12 E, por se multiplicar a iniqüidade, o amor se esfriará de quase todos.

    Se o pecado é vermelho não sei, mas, poderia ser. Vermelho, do ódio mútuo que invade o ser humano. Vermelho, da vergonha que sinto da minha própria humanidade. Mas, creio que também, vermelho do sangue derramado por Cristo, a fim de dar uma nova chance para quem não a merece.

    Vou seguir o blog,
    e beberei desta fonte a partir de hoje.

    Forte abraço!

  • Flávio

    Grato pelo incentivo. É bom repartir as preocupações. O individualismo termina minando as possibilidades de mudanças./abs
    antonio paulo

  • Rafael Ferreira disse:

    Professor, apreciei sua preocupação com a quantidade impressionante de casos absurdos presentes no mundo atual, mesmo me questionando quanto ao fato de que esses acontecimentos sejam realmente tão atuais, pois, ao meu ver, tais acontecimentos perpassam pela história da humanidade, tendo até mesmo a influência das religiões em muitos desses acontecimentos. Acredito que o problema maior é o que fazer para as pessoas voltarem a respeitar e viver harmoniosamente com os outros (mesmo me questionando se em algum momento isso realmente ocorreu), contudo sem ter de rejeitar o presente e tentarmos nos espelhar em culturas e costumes passados nos iludindo com a crença de que o antigo era melhor, mas o senhor tem razão ao questionar e buscar alguma solução e todos devem ter a mesma preocupação.

  • Rafael

    É importante pensar nas alternativas. Não adianta ficar achando que tudo está perdido. Sempre houve divergências e o mundo segue. Mas seria bom visualizar solidariedades.
    abs
    antonio paulo

  • Filipe Vidally disse:

    Acho que pouco interssa a cor da maçã ou se realmente a maçã era o fruto proibido…cada vez mais as pessoas estão se perdendo, estão criando para si, redomas de vidros, mundos particulares e neles se isolando.”para muitos, Já não mais interessa que milhares de pessoas estão em situações de risco, beirando o mundo dos mortos, dos moribundos, dos sofrimentos e das injustiças humanas, sendo vitimas dos corruptos e dos tiranos que se auto denominam deuses ou semi-deuses. A impressão que tenho, é que muitos estão preocupados em escolher entre colcci e chanel… renew ou make be…A tirania e ganancia do próprio homem esta levando a humanidade a beira de uma crise, mas não só uma crise financeira…uma crise sem precedentes, de valores sentimentos e educação, que a cada dia que passa se torna algo cada vez mais raro entre as pessoas, até mesmo entre as crianças…Minha vó sempre diz: “Meu filho, educação e cultura esta se tornando a cada dia que passa um preivilégio de poucos”…

  • Filipe

    Inventamos o mundo e não podemos nos descuidar dele. Por isso, os valores merecem atenção especial. A solidariedade ajuda e faz a vida tornar-se mais leve.Muita mercadoria esvazia o sentimento.
    abs
    antonio paulo

 

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