Qual é a medida vaga e errante do humano?

Estique o olhar. Não se apresse. Contemple, com suavidade, a paisagem que julga desafiante. Interrogue-se. Procure construir o conceito de humano, sem abandonar a força do desejo. Não se esconda nas neutralidades ou transições. Esse é o deslocamento da vida. O movimento quebra a apatia, provoca a sede de beber a sorte do mundo.O humano não é solto, despido de limites. A sua nudez maior é a intimidade da convivência. Por isso, capta as sociabilidades, toca nas transcendências. Conjuga, configura, se mistura. Não teme o acaso do abraço, nem a luz da estrela que desistiu de invadir o planeta terra.

Mesmo com a intensa exaltação do consumismo, lembre-se que não há ausência do produzir. É lamentável que o arsenal de mercadoria se amplie só para comemorar a acumulação. São obrigações difundidas pela ordem dominante. Mas o tempo se alarga, quando se refaz na transgressão. Não reforce a perenidade das coisas e das relações. Acostume-se com o efêmero: do mito das origens ao fantasma do apocalipse. Quase todas as espécies que foram criadas desapareceram. Que traços compõem o caminho que nos aguardam? O cosmo se balança, se anuncia vulnerável e misterioso, porém a ciência fabrica  cogitações e dança com o caos.

O humano está em toda parte. Mora em sinfonias dissonantes, se espanta com inutilidade de muitas reflexões. Mede o tempo com a régua de sentimentos, no entanto não sacode fora a matemática. Entretece-se com o vadio e o necessário. Os conceitos são históricos, se ajustam a vulcões e pântamos, circulam pela academia, firmam arrogância, projetam profecias. Vão além do desespero, mas sabem que a esperança não é incompatível com o medo. Portanto, as saídas se redefinem, estão nas curvas das geometrias de Zaratustra. A morte assombra, inquieta, torna o futuro uma cortina costurada nas emergências.

Basta observar a qualidade dos ritos que surgem para celebrá-la. Os hospitais passam por constantes metamorfoses para não mostra a transparância da dor. O frio das suas UTIs é a fórmula mais cruel da solidão. A pergunta fere : o que repartir com mihões de pessoas para não cair no vazio? Dividir espaço com estranhos, viver na sua indesejada e incômoda proximidade, é condição que os habitantes da cidade acham difícil, talvez impossível de escapar (Z. Bauman). Se o limite está entranhado no humano, não há como eliminar a ilusão da onisciência. Ela enfraquece os arranhões impertinentes do corpo, muitas vezes aflito e fragmentado.

Os acenos para fantasias de redenção não pertencem, apenas, aos discursos religiosos. As utopias prometem paraísos, mesmo sob o manto dos raciocínios cartesianos ao extremo. As pessoas adormecem e desenham pesadelos. A conversa é uma forma de estar-no-mundo, desviar-se dos sustos. A conversa veste intimidades, dilui diferenças. A palavra final, porém, não existe. O fim é especulação, amarra o ânimo, alicia o olhar. O espanto é presença, sinal do humano, não importa o uniforme das máquinas. Eu louvo todo ceticismo que me permite que lhe responda: ‘ Pois muito bem tentemos’. Mas não quero voltar a ouvir falar em nenhuma questão que  não autoriza a experiência (Nietzsche).

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2 Comments »

 
  • Emanoel Cunha disse:

    As mudanças sejam elas: íntima e convencional, nos atrela a espaços que nos exime dos julgamentos de sua brevidade de descrever e analisar os distintos significados que são moldados na construção do homem mediante a sua história.

    Ser cético, é de fundamental importância ao modo se de trabalhar nas inconstantes interpretações do passado e que em suas significações são diluídas através do tempo. Mesmo que sejam questionados, pois suas fragmentações discernidas, são os reflexos que se propõem adentrarmos em novas experiências. Estas intelectuais e alicerçadas no convívio humano em seus deslocamentos de pensar e redefinir suas atividades ditas e contadas através da palavra.

    Abs

  • Emanoel

    Manter a crítica viva é importante. As certezas também balançam e vivem seus vacilos.
    abs
    antonio

 

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