Quanta custa curtir um bom chocolate?

Há, sempre, motivos para celebrações. Os significados mudaram, não se precisa de silêncios, quando se trata de tradições religiosas ou datas, antes, de peso para os costumes cristãos. Quase não brincava, na infância, na chegada da sexta-feira da paixão. A imagem de Cristo morrendo nos enchia de culpa e as cerimônias tinham cores escuras e não alegres. Era um dia sombrio, mesmo que o sol brilhasse nos convocando para boas travessuras.A sociedade de consumo não afiava seus tentáculos e a Igreja era centro de concentração dos bairros. O tempo passa, a semana santa perdeu sua atmosfera de pecado. Agora é o reino dos ovos de Páscoa, sacode o comércio e o desejo das crianças comilonas.

O Carnaval se foi, mas o dia das mães é, ansiosamente, esperado. Sugestões de presentes são antecipadas, o afeto transforma-se em mercadoria e os lucros incorporam ritmo acelerado. Nunca nos seguramos um cotidiano sem trocas e promoções. Há, também, celebrações menos coletivas, aniversários, casamentos, formaturas, despedidas de solteiro, reencontros de amigos, batizados de sobrinhos… Assim não faltam animação e justificativas para as bebidas ocuparem o comando dos festejos. Com o imenso poder de comunicação que a sociedade oferece, acontecimentos tímidos se multiplicam. Lugares acanhados tornam-se cidades de localizações estratégicas para shows e competições.

Sinto, particularmente, ausência de fôlego para tanto movimento. Não sou um consumidor audaz, pois desconfio dos excessos. Não nego certas delícias do conforto, admiro-me com as sofisticações das máquinas. Tenho perplexidades comuns, não me escondo e  nem me mascaro com hábitos esquisitos. No entanto, cultivo a serenidade, sei da dificuldade do equilíbrio em tudo e me amarro mesmo numa boa conversa. Nada melhor do que dividir experiências limites e sonhos. Acompanhar as mutações da vida, sem buscar labirintos e construir armadilhas é saudável.

Já tive mais pique. Hoje, sou observador, mas sem melancolias. A vida é aprendizado, não me envergonho de pescar sabedorias e temo que a força da mídia termine encurralando a reflexão. Tudo merece atenção e cuidado. As dores são repartidas de forma desigual e nem todos mergulham nas águas da sensibilidade. O fogo da pressa descortina desenganos ou ilusões que cabem em vitrines comerciais. Portanto, valorizo o que reforça a sociabilidade, pois o individualismo fragiliza e atiça competições. Não sou religioso, porém lamento que não haja mais profundidade nas escutas das palavras de Cristo. A superficialidade é frequente, a inquietação fica nos corredores das lojas e nas promoções que esgotam as mercadorias. Muitos choram pelas frustrações do consumo.

Quem pode prever com estaremos na próxima década? Entre minha infância e meus quase 60 anos a corrida foi grande. Há uma acumulação de objetos que nunca imaginava. Não sou apressado, defendo que o tempo da contemplação seja preservado. Não me encanto com voos rasos. A incompletude está na cultura, por tantas razões que nem adianta especular. Muitos pensaram sobre o futuro, estimaram progressos, aproximações solidárias. Esquecerem-se das incompletudes, se desgarram para materializar qualquer coisa como fonte de felicidade. A produção de assimetrias continua, mesmo que o chocolate traga delícias e curtições.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

13 Comments »

 
  • klio disse:

    Trabalho a semana toda, as vezes até o fim de semana, e quando chego em casa p curti a família, o está em casa, me sinto convocada a ter que esta em muitos lugares todos os dias. Não, minha vida já é uma corrida, sair um dia p conversar com os amigos e fazer aquilo q está no meu limite, que realmente me dar prazer é o que realmente faz sentido nestes momentos. A data devia nos comover a reflexão, independente de ser religioso ou não, faz parte do nosso calendário deviria ter e preservar algum sentido maior que não a compra de ovos de chocolate.

  • Klio

    É essa perda de significado que esvazia as coisas e cria uma tirania de consumo. Devemos buscar as curtições que nos atraem, os afetos que ajudam na vida.
    abs
    antonio

  • Darius disse:

    A aceleração do Cotidiano nessa Sociedade do Desejo e do Consumo é bem Complexa, estamos vendo cada dia a mercadoria ser Personificada e quanto às pessoas … Bem, são Coisificadas. O Capitalismo selvagem aglutina e naturaliza o valor mercantil que os Sentimentos, a Reflexão e as Características tão superiores do Homem tem, Enfim a Humanidade é desprezadas e reduzidas ao mero valor comercial, e o pior! Nem Percebe!

  • Neto disse:

    Adorei esse texto, muito bom msm.

  • Amanda Suellen Oliveira disse:

    A criação de um mercado que decide o produzir e consumir-mercado este que cria as “necessidades” dentro de cada um- enfraquece paulatinamente verdadeiros significados.Os simulacros atiçam as fantasias;as reais necessidades são,muitas vezes,deixadas de lado para,assim,adequar-se aos padrões da sociedade pós-moderna.Com isso,perdem-se a criticidade e verdadeira identidade.Tornamo-nos,todos os dias,muito iguais.”Todos iguais,todos iguais.Uns mais iguais que os outros”.Os excessos,na maioria dos casos,são prejudiciais,por isso há uma necessidade de buscar a “mediana das paixões” o que,nos dias atuais,torna-se muito difícil.

    As astúcias de Ulisses-como sempre- atiçam reflexões.

  • Amanda

    Gostei do comentário e da visita.
    abs
    antonio paulo

  • Neto

    Grato. Apareça sempre.
    abs
    antonio

  • Darius

    Pois é, há muita manipulação. Devemos festejar as coisas, mas compreendendo os limites e os significados.
    abs
    antonio

  • Amanda Suellen Oliveira disse:

    Já estava com saudade do blog,Antônio!A vida corrida,por maior que seja a nossa resistência,sempre acaba nos privando um pouco.
    Abs

  • Zélia Gominho disse:

    Ontem, sexta-feira santa, pensei em curtir o silêncio da minha casa, mas um carrinho de dvd estacionou na esquina e, por um certo tempo, tive que, contra vontade, ouvir sucessos populares nada adequados para a ocasião; depois, aliviada pelo fim da audição involuntária, a vizinha da frente resolve lavar o carro com o som nas alturas, a sorte é que eram sucessos pop rock da década de 80-90, mas, enfim, senti falta das sextas-feiras santas tristes e silenciosas, até o movimento de carros diminuía. Um pouco de sossego, Senhor!
    Ontem, também assisti um pouco da Paixão de Cristo do Recife; ficamos até a entrada em Jerusalém – Júlia ainda não tem altura para enxergar espetáculos como esse…rsrsrs! Fiquei pensando sobre a atualidade do Sermão da Montanha, um projeto de vida e sociedade ainda incompreendido, apesar de dois milenios de história. Como disse o arcebispo no JC de hoje, a uma pergunta sobre a explosão de religiões, erguem-se igrejas em todo canto, como comércio, de olho no dízimo. Realmente, cadê a reflexão com vista a uma melhora efetiva do SER humano?
    Perguntei aos meus aluninhos de cinco anos “o que é páscoa?”, eles responderam: é ovo, chocolate, coelho…
    Gostei muito do texto, Antonio Paulo.

  • Zélia

    A concentração na data não se realiza. Estamos curtindo outras coisas. Isso é terrível. Deixa ver a superficialidade do mundo, onde poucos se sintonizam com a coletividade, vivem no ego delirante. Não sou das instituições religiosas, mas destesto hipocrisias e alegrias pré-fabricadas. A sinceridade vale muito.
    abs
    antonio

  • Adalva Galvao Marangon disse:

    Nao e facil viver nesse mundo. Cada dia as pesssoas de fato ficam mais iguais e perdem-se nos turbilhoes do consumo…Como nao consumir? Mentiria se dissese o contrario, que vou a um shpping e saio sem comprar…So ultimamente, fiz o meu teste e vou pasando,.. entro, olho e nao compro. Isso causaou grande espanto em Mario (esposo)… que me observou e disse: “Faz tempo que nao vejo voce sair de um shopping sem nada, nenhuma compra”Nao resisti, apenas senti que nao estava nem estou precisando de nada…Fiquei feliz com isso…Pode parecer bobo, mas pra mim nao foi. Tambem nao comprei ovos de Pascoa, nem p/dar nem p/comer…Me sinto bem assim…Um abraço e parabens pelo excelente texto.

  • Adalva

    É mesmo uma grande aventura. Muitas solicitações e encontros transformam a vida a cada momento. Vamos aprendendo. Não adianta querer ter o controle de tudo. Gostei da sua visita.
    abs

 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>