Quanto vale uma notícia no éden da informação?

Os historiadores cuidam das suas pesquisas, com zelo, muitas vezes, excessivo. Há um receio de especular sobre o passado, sem testemunhos ou maiores trabalhos nos acervos. Nunca podemos falar das relações sociais, como elas realmente aconteceram. Isso não é  novidade. Circula, no mundo dos saberes, com exaustão. Qualquer pessoa, de bom senso, não se ilude com notícias despropositadas. Os enganos são costumeiros, apesar da atenção e da busca de provas. Historiadores falham, jornais se equivocam, os boatos tumultuam compreensões. Existem, também, erros programados, verdades ornamentadas, jogos de poder disfarçados.

A morte de Osama bin Laden continua distraindo a curiosidade internacional. Surgem protestos, desmentidos, passeatas comemorativas, manchetes sensacionalistas. Obama sobe nas pesquisas de aceitação e o polêmico Bush volta à cena. O patriotismo revigora-se, numa sociedade cercada por interesses e bolsa de valores. As versões se multiplicam, a imprensa se acende e o público garante o lucro. Nada é gratuito. Dúvidas sobram, éticas diluem-se. Não se trata do único sucesso do momento. Muitas informações invadem o mundo.

Parece que a ficção prevalece, junto com o apego à aventura e aos detalhes. A balança pesa os valores, sacode o preço das ações e Bin Laden já se tornou um produto, ou melhor, uma mercadoria de muitas cores. Os Estados Unidos não perdem tempo, mesmo que as punições ao Paquistão envolvam riscos diplomáticos. Há incrédulos que não se conformam com o desfecho da badalada operação. Onde está o corpo de Osama? No fundo do mar, respondem os serviços de espionagem. Não queriam que ele se transformasse numa figura mitificada para sempre. Portanto, os mistérios rondam, as imagens propõem versões alternativas e o trapézio está solto no ar.

Não esqueça o quanto tudo isso durará. As vítimas do atentado, na escola do Rio, já reclamam da negligência dos poderes públicos. Cadê a assistência psicológica prometida? O trauma se foi do reino do noticiário, mas o sofrimento se instala no vazio da saudade. Por isso, as informações correm ou diminuem o passo. Elas manipulam sentimentos. Poucos se equilibram e percebem o perigo de trazer a emoção para a gangorra da grana. Nem tudo está sepultado, no lixo, como latas vazias. A discussão que altera as concepções de pesquisa do historiador se conecta com o cotidiano da notícia. A harmonia dobrou a esquina e seguiu trôpega, tentando retomar as utopias. Não custa se inquietar.

O governo promete combater a miséria, porém não esclarece que a sociedade capitalista vive de exclusões. A sociedade é competitiva. É difícil não enxergar. Existem filantropias, generosidades, boas intenções. Não estamos sob a soberania de demônios absolutos. Não é uma eleição para escolher as veredas niilistas e entregar-se aos lamentos. As contradições desfilam, não usam vestimentas tão sérias, no entanto quem forma olhar crítico, relembra o passado. Muitas repetições criam expectativas e recolhem o otimismo. A morte não é uma brincadeira e a fome faz parte da natureza da cultura. O mundo se reinventa na vontade política de aprofundar as questões. Cultuar manchetes é manter sombras que atravessam séculos, misturadas com discursos que valem quanto pesam.

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2 Comments »

 
  • Gleidson Lins disse:

    A notícia é um produto no mundo do consumismo. A destruição no Japão provocada pelo terremoto e tsunami foi deixada de lado. A comoção pelo massacre na escola do Rio agora é substituída pela curiosidade sobre a morte de Osama bin Laden. (Bem eu estou mais preocupado com as chuvas aqui em Recife, com a água ameaçando entrar na minha casa). As notícias sobre a morte de bin Laden sucedem-se desenfreadamente. Desencontradas, vagas: um prato perfeito para a venda do produto notícia. E Obama ainda decide não mostrar as fotos do terrorista morto. A especulação continuará até a saturação. Até surgir um novo evento para substitui-lo. E o ciclo noticiário recomeçar de novo.

  • Geidson

    A busca da novidade esconde a forma e a força do que se passa. O sentimento se torna meiode levantar lucros e esvaziar a rebeldia.Até onde?
    abs
    antonio paulo

 

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