Que afeto se mantém no mundo fragmentado?

 

O desmanche da cultura ocidental não é tema novo. Uma visita aos pensadores do século XIX me lembra muita coisa. Nietzsche, Marx, Schopenhauer e tanto outros me mostravam a quebra de valores. O capitalismo crescia rapidamente sempre favorecendo às minorias ricas. As tradições se esfarrapavam com as aristocracias respirando com dificuldades. É claro que as disputas eram grandes e ambições não morriam. As intrigas diplomáticas reforçavam o clima de guerra e ciências procuravam se guardar no positivismo. Não faltavam inovações, vanguardas, buscas da formas diferentes e linguagens revolucionárias. A dúvida, porém, trazia angústias, pois não era fácil distinguir as saídas.

Hoje, observo um sufoco quase inacreditável. Sempre considerei que a desigualdade social é uma violência cruel. Nunca acreditei que as mudanças no capitalismo encheriam o mundo de benefícios. Como compreender tudo isso? As invenções não evitaram as duas guerras mundiais, a revolução de 1917 não sedimentou o socialismo que se esperava. Foi um golpe no sonho. as modernizações criaram uma vida metropolitana intensa. E o afeto como se estruturava? Numa vida apressada que se configurava, como pensar no outro? A agressividade da bomba atômica e massificação não significavam democracia. Os afetos se misturavam com trocas  e negócios.

Minha desconfiança me acompanha. Não vejo generosidades, mas lutas que transpõem limites e acirram contradições. Sempre utopias, necessidade de pular o abismo, o desejo. Não adianta ficar preso ao pessimismo. Apesar das gigantescas ondas de cinismo, há quem suspire, sorria e envolva com discursos otimistas. Vejo muitas ambiguidades. Um jogo que não promove alegria, puxa para o consumo, coisifica e amargura. As fábricas de divertimentos também sacodem ilusões. Portanto. os sentimentos de culpa continuam fazendo suas vítimas e os mitos de Adão e Eva sobrevivem. Será que somos metáfora soltas com horizontes desbotados?

Falavam que a globalização formaria compromissos entre as culturas. Existem comunicações estreitas, relacionadas com competições e espionagens. Acabo de ler os jornais, as manchetes estão densas e as ofertas comerciais distraem os mais ingênuos. A palavra se tornou máscara usual. Pergunto-me: qual o tempo de paz, sem desavença, com progressos infinitos? Somos complexos, buscamos soluções e batemos com a cabeça nos muros. Na Síria, há violências cotidianas, a praça está cheia de refugiados, os governantes se encantam com o poder, a sorte se vai para o labirinto. Não há como definir a sociedade a não ser com fragmentos. No céu, os anjos aguardam a reforme na previdência. Alguns se vestem de Narciso para idealizar.

 

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