Quem se lembra das dores de Nietzsche?

O século XIX viveu debates intensos. A burguesia buscava consolidar-se, o capitalismo expandia-se e as ciências  localizam-se. Poderia ser a consagração  dos valores da modernidade? Seria o esclarecimento dos mistérios que facilitariam os diálogos? A heterogeneidade era visível. o relativo era como menino vadio que ria dos que se iludiam com o absoluto. Lá estavam Comte, Marx, Darwin, Nietzsche, Victor Hugo… Uma multiplicidades de ideias e de sentimentos que se chocavam. Se a cultura ganhava espaço, muitas dúvidas permaneciam. Apresentavam-se invenções, criticavam-se valores. A harmonia passava longe, escutavam-se ruídos que não cessavam  e as ambições imperialistas assumiam lugares. O mundo talvez mereça uma única fotografia, mas a academia não suporta viver sem debates nem honras cínicas.

Marx detonava a exploração capitalista, riscava a geometria do fetiche da mercadoria com ares de Da Vinci. Comte procurava se enquadrar no novo conceito de humanidade, exaltava a objetividade, queria ordem e progresso. Mas ele não desprezava o amor e a solidariedade. Fazia suas compreensões, subestimava as mulheres. Evolução era uma palavra de ordem. Havia quem a sacralizasse. Nada da pressa revolucionária. É preciso cuidado e atenção, para que a sociedade não se desfizesse.Os românticos cultivavam o individualismo e os sentimentos. O olhar estético fascinava muitos. Nem todos se entusiasmavam com as fábricas e força das armas, as cidades se enchiam de pessoas que não entendiam sua lógica e eram fulminadas pelo trabalho assalariado.

A figura de Nietzsche é de grande singularidade. Não podemos colocá-lo como parceiro dos paradigmas da modernidade, com um apaixonado pelos valores vorazes da burguesia. Escreveu sobre os gregos, antipatizava Sócrates, ressaltava a força da tragédia e reverenciou a obra de Wagner. Frustrou-se, mas desafiava, media a pequenez do tempo que vivia. Foi acusado de nazista, de louco, de filho do delírio. Suas ideias estão circulando no século XXI como novidades para quem tem preguiça de contemplar a travessia da história. Dê uma olhada nos escritos de Foucault, de Deleuze e tantos outros. Nietzsche sentia seu tempo, sem a homenagem do perdão. Deslumbrou-se com as reflexões de Schopenhauer.Foi professor, entusiasmou discípulos, porém sofreu momentos de solidão amargos e de perplexidades contínuas. Esqueceram-se de Dionísio? Ou não percebem as voltas , os devaneios, o sonho desfazendo os pesadelos?A contemporaneidade tem um longo caminho cheio de suavidades fabricadas pelo último anúncio que travou seu sono.

Há quem corra atrás do progresso, não entenda o significado da cultura, insista na supremacia incontestável da tecnologia. O jogo do utilitarismo desmancha a possibilidade de entender o outro. Tropeçamos. Se há planejamentos eles terminam sendo consumidos por interesses que aparecem subitamente. Planejar o acaso é um descuido cruel?A pressa em definir para onde vamos faz lembrar como Nietzsche refletia. Como anular o trágico num mundo que celebra o descartável? Por que essa necessidade de costurar culpas e se envolver com julgamentos definidos nos templos? Os enigmas não se foram, ensaiam danças com muitas luzes, pois por detrás das sombras se encontram os amores esquecidos. As maçãs moram no paraíso montado na vitrine feita para lembrar que a filantropia  é uma droga que tem adeptos especiais. Estamos todos olhando para o mesmo espelho, sem contar os enganos que faz da arrogância uma virtude.

 

PS: Nova postagem no dia 18

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