A conversa do mundo e o poeta Manoel

É difícil ouvir o silêncio. Há sempre inquietações nas cidades cheias de pessoas que não se cansam de refazer trajetos. O silêncio não significa, apenas, ausência de ruídos externos. Falo de um silêncio de dentro que percorre os sentimentos em busca de equilíbrio. O mundo é agitado, vive curtindo novidades, elas atravessam obstáculos, invadem corpos. Ninguém escapa. É preciso ouvir para não perder o caminho, para sentir sobre os desencontros, porém escutar dissonância evitam sossego e trazem instabilidades.

Não temos respostas para a maioria das perguntas. Tentamos traçar argumentos, esboçamos alternativas, buscamos esconderijos. A velocidade, contudo, produz desconfortos. Não vemos certas fronteiras cotidianas, não avistamos certos sinais de controle. Há enganos e ingenuidades. Os meios de comunicação nos trituram com manchetes e imagens. Elegem competições e nos atiçam com prêmios. Estipulam-se condições, mas sobram desacertos. O discurso do vencedor é ativo, se renova. A opressão se estende, mesmo quando distraídos, contamos as estrelas.

Se nos livramos de muitos mistérios, construímos máquinas espertas, redefinimos concepções científicas, também não deixamos de nos confundir com objetos ditos inteligentes e de entrar em conflitos fascinados pela possibilidade de riqueza. A história não é apontada para um futuro que arquitete paraísos. Voltamos, às vezes, para práticas tenebrosas, consagramos o que parecia condenado aos infernos. O cerco da dúvida não é monopólio de Descartes. Existimos com teimosias. O tempo nos chama para decifrar metáforas e ser vadios para não perder o fôlego.

O que trocar? Será que a mercadoria reina como um eternidade fabricada com astúcia divina? O trabalho transforma o mundo. No entanto, há uma escassez de encantamento e uma mesmice que se disfarça, usando artifícios sempre sedutores. As conversas circulam repetindo notícias, evitando profundidades, anulando proximidades. Há também epidemias de afetividades fabricadas e consultores que ensinam verdades ganhando fortunas. Há fórmulas, modelos, burocracias que nos empurram para salvações superficiais .Quem sonha com autonomia toma sustos, desconhece os escritos de Kafka .

O mundo não é transparente e nós seguimos a vida. Os gritos de Prometeu  não se debilitaram. Não há calmaria secreta. Se há maiorias que se perdem, desprezando qualquer esforço, há minorias inconformadas e repensando que nem tudo está para o lixo. A sociedade se divide, conversa com o mundo com projetos diferentes. Nem todo momento é de tensão. Achar que a harmonia possui espaço para apresentar surpresas não é um sonho. Mas num mundo de conversas ornamentadas pelos interesses, fugir da invenção é machucar-se.

A morte do poeta Manoel de Barros traz silêncios, mas não afugenta ânimos. O poeta fica no mundo, não se vai nunca, pois transforma a argila em palavras, envolve-se com sabedoria radicais. Conversa sempre, mantém onipresença. A saudade perambula pelos seus versos com encantamentos sutis. A tristeza toca, contudo as invenções não abandonam o perfume de quem conhece as curvas das aventuras, não se cansa de olhar as travessuras inquietantes da vida. O poeta não destoa dos mitos, larga-se do corpo, gosta do invisível, mora nos recantos do coração. Ninguém cancela sua magia. Ela traz o inesperado do mundo.

 

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