Quem dança o último tango no suspiro da decisão?

No final do ano, as decisões aparecem frequentemente. O calendário tem  valor simbólico,  pois a vida se compõe de ritmos descontinuados. As datas servem como referências, mas o emocional balança com seus próprios signos. Os dois últimos meses do ano anunciam as festas e as compras. A agitação faz parte da tradição e as vitrines se enchem de preços ditos promocionais. Além disso, quem gosta de futebol aguça seus sentidos. O Brasileirão  vive sua corrida mais instável e esperada.

Na trajetórias dos últimos atos, lembrei-me do filme de Bertolucci, O último tango em Paris, de grande impacto nos anos 1970. As interpretações de Marlon Brando e Maria Schneider ganharam o mundo. Cenas desafiantes para os bem-comportados. A Igreja Católica revoltou-se com o desrespeito ao sagrado. O diretor aprofundou um olhar que chocou os conservadores.Criaram-se polêmicas intelectuais variadas. Depois, das rebeldias de 1968, lá via uma perspectiva  sombria sobre as relações humanas e seus afetos. Os atores representavam a melancolia do seu tempo? Ou a sociedade passava por uma transformação destruidora?

Na época, não comprendi muita coisa. Sai com questões e tristezas. Não me esquecia da trilha sonora de  Gato Barbieri, com um som nostálgico e sedutor. Existia a sensação de que algo havia se perdido e o paraíso é uma lenda ultrapassada. A música casava-se com as dores e as lamentações do filme. Ainda hoje, a ouça com sentimento inusitado. Compreendo, também,o cerne  da trama que Bertolucci construiu. Os desacertos estão dentro das relações culturais, mas elas não impedem que as reinvenções tragam outras alternativas.

O labirinto não se extinguiu. Ele  sintetiza o drama humano, nos seus desenhos modernos ou pós-modernos. Não há fechamento definitivo, mesmo quando as inquietudes se multiplicam e as incertezas se estendem pelos caminhos mais conchecidos. A perplexidade vai se restruturando. O diretor italiano foi profético em muitas passagens. A marca da solidão não abandonou o cotidiano e as paixões fugazes advinham que o estranhamento é perigoso para quem coisifica as pessoas.

Já assistiu ao filme muitas vezes. Tema de debates e análises. Traz proximidades com os despertencimentos contemporâneos. Ficamos flutuando na velocidade que tumultua o querer-bem. Por onde traçar a trilha saudável dos afetos? Para onde vão as ambições de consumo e suas artimanhas para influenciar nos nossos desejos?  Há exclusividade no amor?  O tango, composto por Barbieri, ressoa com força no coração.

Os produtos da cultura nos alertam para os costumes. Freud insistia na compulsão à repetição, na dificuldade que temos de sair de certas rotinas do sofrimento. Vitórias e derrotas penetram na convivência e exigem mudanças. Quando as decisões se aproximam, o sangue esquenta sua vontade de decifrar todas as cartas do futuro. No futebol, não é diferente.

Quem garante engessar as peripécias dos jogos? Quem pode acalmar envolvimentos decisivos? Como estão, agora, o Timbu, o Leão, os corintianos ou os tricolores do Fluminense? Quem dançará o último  tango ouvindo os acordes contemplando cada instante ? Bertolucci tinha razão. O desencontro é  ritmo que contagia. Nada é para sempre e o final é uma abertura para o infinito.

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2 Comments »

 
  • Magaly disse:

    E parece que aqui o futebol não é a causa, mas a consequência. Meu caro, isso é poesia! Parabéns pelas palavras!

  • Magaly

    Grato pela sua visita. O futebol é a aventura nossa de cada dia. Por isso, ganha dimensão na vida cotidiana.
    abraço
    antonio paulo

 

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