Quem derrota o preconceito?

 

O movimento da sociedade nunca é transparente. Há sempre dúvidas, ambiguidades, urgências irresponsáveis. Somos atropelados por raciocínios fabricados com muita sofisticação ou por desprezos históricos mal resolvidos. A competição exige astúcia e, muitas vezes, disposição para assumir cinismos e vinganças passadas. O famoso compromisso com a verdade flutua e se enche de promessas. Tudo é relativo, dizem alguns, municiados com julgamentos e ambições. Temos, porém, que sobreviver, cultivando referências e pertencimentos. Os limites e as regras existem e atuam.

Não estamos fixos, nem acomodados eternamente em berços magníficos e delirantes. As hierarquias são construídas para garantir esquemas de poder e produzir o discurso dos vencedores. São as exigências da complexidade social do mundo da burocracia e da impessoalidade. Lendo as obras de Kafka podemos abrir densas reflexões sobre a história de tantas formalidades opressoras. As especulações alimentam o ir e vir, com jogos programados por especialistas e fortunas que ajudam a concentrar monopólios. Portanto, as instabilidades não fogem das negociações.

Quando as disputas se acirram, as tensões buscam extremos. Há intelectuais que destilam ódios como se estivessem formulando teorias acadêmicas. Elegem lugares especiais, desfazem culturas que julgam atrasadas. Cria-se o espetáculo das danações. Os preconceitos ganham destaque. Circulam velozmente. A mídia não perde seu fôlego sedutor. Explora tudo com a sede de vender mais. O importante, para muitos iluminados, é eliminar o adversário e navegar em barcos simpáticos a princípios totalitários.

Ressurgem violências que pareciam superadas. O colonialismo desenha gestos e repete memórias e tempos que desconversavam qualquer sonho de liberdade. As justificativas se ornamentam com divagações  ditas progressistas. As repercussões dividem, amedrontam, inibem. Não sobra espaço para ética e consolidam-se inimizades. A luta não se foi e preserva passados.A política traça ordens egoístas e afasta-se dos sinais de solidariedade. As derrotas assombram, ferem, marginalizam.Não é surpresa que as divergências aflorem. Nunca vivemos num paraíso de curtições inabaláveis. O mito de Sísifo nos provoca diretamente. Há lixos e ruínas por toda parte…

Desinventar tudo isso é um desafio quase impossível. Se há um esvaziamento do diálogo, as sombras e os desesperos tomam conta da história. Não existem fórmulas que transformem imediatamente as desigualdades. O futuro é um enigma, mas cair num niilismo radical é perigoso, provoca relações de exclusão frequentes. É incrível como somos animais sociais com sentimentos múltiplos e confusos.  A desconfiança faz uma travessia que descontrola e desequilibra. Poder e saber montam parcerias intensas. É possível derrotá-las?

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