Quem não gosta da gentileza?

Pediram-me para que escrevesse sobre a gentileza. Achei um grande desafio. Não é fácil refletir sobre certas ausências que marcam o mundo que vivemos. Todos, com muita pressa, sentem dificuldades de olhar quem está próximo. Existe uma competição cotidiana que endurece e despreza o afeto. Sobra pouco para o exercício da gentileza. Não se trata de lamentação. Discutimos muita coisa que está fora das relações sociais. Há saudades que flutuam nos corações. Não é à toa que a palavra surge buscando explicações e enfeitiçar o caminho mais solidário. Não custa acreditar que existem espaços de generosidades, que nem tudo foi para o lixo.

Ser gentil requer cuidados. Não estou citando formalidades, mas sim vontade de encontrar o outro e deixar a simpatia se soltar. Sentimos que a solidão faz um estrago grande, quando ela nos recolhe e nos transforma numa ilha. Conviver é um arte inestimável. Incomoda sabermos que somos animais sociais e, muitas vezes, nos escondemos em egolatrias permanentes. Fugir das ambiguidades é uma ousadia numa sociedade capitalista, cheio de ornamentos e desejo descartáveis. Estamos cercados de tanta coisa que fica quase impossível definir o que é necessário. Há mercadorias  que perturbam e promovem um vazio incomensurável.

Portanto, a gentileza luta contra obstáculos, porém não é estranho observá-la. E como ajuda a reconhecer o outro lado alegre de vida? Ninguém adivinha o futuro. Construímos especulações, as intuições fervem, contudo as dúvidas se multiplicam. Antes, havia mais esperanças crescentes na chegada de revoluções, no fim das desigualdades, na afirmação do coletivo. O capitalismo se espalhou com uma voracidade incomum. Ele traz o incentivo à exploração, com sutilezas e com cinismos profundos. Isso fragiliza os sinais da gentileza. Atiça desconfianças e alimenta hipocrisias.

A gentileza não desapareceu. Ela se tornou mais rara. Se tudo corre para celebrar o individualismo, o sucesso, a acumulação da grana, sofre quem quer um modo de vida sem mesquinhez, com coração aberto. A sorte é que não há valores absolutos. Lembrem-se dos debates que Nietzsche assanhou. Há muitas contradições. A globalização não significa que a mesmice é soberana. Nós inventamos a história e quem inventa pode também desinventar.  É fundamental consagrar a autonomia e não se iludir com a ideia de destino. Temos problemas, há desacertos imensos, mas nem tudo está na beira do abismo. Os limites não se anulam, compões a história.

Quando a solidariedade se expande, as gentilezas ganham territórios. Não há razão para desistir e achar que tudo se resume à barbárie. Ela existe e sobrevive, apesar dos discursos de promessas que tanto contagiam a política. O mundo é complexo, não é novidade. Há poderes e nós não estamos longe de nada disso. Cuidar dos outros, aproximar-se, mover-se afastando os desenganos e fortalecendo os encontros, tudo é possível se as intrigas não invadem intimidades. Aprender a dividir é sinal de gentileza. Anima as conversas e anuncia que as semelhanças não podem ser menosprezados. As divindades são espelhos poderosos, mas a vida se costura no dia a dia, com aventuras e desejos.

AVISO: Depois de uma bem sucedida intervenção oftalmológica, atendendo aos conselhos da médica, ficarei ausente por um tempo das aventuras internetianas.
Abraços e boas energias

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2 Comments »

 
  • Valerio disse:

    Antônio

    o desencanto fortuito não desqualifica o discurso

    da “voz que prega no deserto”,

    é só lembrar que

    “tudo vale a pena se a alma não é pequena”

    até breve

  • Valério

    É isso, a vida passa com muitas buscas e vamos encontrando caminhos.
    abs
    antonio

 

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