Quem não vive a ressaca do consumo?

              

Tudo se inventa. Havia trocas intensas na época que o comércio ganhou espaço e busca de mercadorias exóticas no tempo das grandes navegações. Hoje, a história é outra. O capitalismo estica as cordas, aperfeiçoa os laços e festeja as astúcias tecnológicas. A sociedade de consumo estende-se pelo mundo, fascinando. Muitas cores, formas diversificados, anúncios cinematográficos, senhores com sotaques estranhos apresentando novidades espetaculares. O assanhamento é geral. Os shoppings recebem uma invasão de bárbaros ou idiotizados pela ansiedade de comprar. É claro que existe lucidez, nem todos entram no histerismo, mas a perturbação embriaga os exibicionistas.

As festas não abandonam sua força. Estão longe das crenças generosas. Quem comanda é o acesso à grana. A filantropia tem seus ecos, promove distribuições de sucatas, provoca lágrimas, veste-se do vermelho de Papai Noel. O que vale são os encontros nos bares, os amigos secretos, o perdão pelos pecados permutados por mercadorias sofisticados. Não custa usar os cartões de crédito, multiplicar as prestações. Nada de sustos. Depois, tudo se resolve, mesmo com dor de cabeça e atraso no pagamento da escola. O capitalismo é perito na fabricação de armadilhas. Não perdoa as vacilações do desejo.

O tempo passa, a euforia se fragiliza, a insônia chega, o verão esquenta o juízo. O desmantelo configura-se. Seus traços lembram os abismos escavados pela animação passageira. A vida continua, porém não tão leve como parecia. O saco de Noel se esvazia, o comércio dá uma serenada, o trabalho não recompõe a quantidade de gastos. Refazer as contas, estreitar os gastos, pular a cerca e esperar o carnaval com o bolso vazio. Outra festa, sem aquele fogo insinuante do valor de troca. É o cenário de Baco. Divertimento, jogo de irresponsabilidades, o profano solto no beijo na esquina, na fantasia feita no improviso. Cada ritual possui sua singularidade.

Se calendário anulasse as ressacas, fosse, apenas, o espelho das burocracias, a sociedade não conseguiria fugir do reino da mesmice. Por isso, corre-se o risco. A corda bamba não desparece e muitos preferem se balançar a ficar no desespero do quarto escuro. Pensar o equilíbrio é sinal de que as utopias ainda alimentam sonhos. Elas ultrapassam a dimensão política. A era das revoluções agoniza. Coisa do passado.  O mundo globalizado requer linguagens diferentes, ornamenta comunicações, sem criar intimidades, desafia a construção de hábitos culturas descontínuos, distantes dos primórdios da modernidade.

Portanto, não dá para desprezar as leituras. Não estamos destacando, apenas, os livros. Os bons romances de Camus, Mia Couto, Graciliano Ramos, Saramago, Agualusa, Paul Auster trazem cenários que atiçam a imaginação. Mas é preciso ler o tempo, entrelaçar as histórias, fustigar as memórias, deixar a conversa alargar a vontade. A experiência move a vida, costura as sensibilidades. Não bastam as regras fixas das gramáticas. A velocidade exige, contaditoriamente, paciência e contemplação. As multidões se juntam e se dissolvem, no entanto ficam os ruídos,  a necessidade de acrescentar ilusões. A ressaca denuncia vazios e sufocos. Ler o que passou ajuda a sentir para onde caminham os desfazeres do ritual e das máscaras do consumo.

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7 Comments »

 
  • Amanda Suellen Oliveira disse:

    “As festas não abandonam sua força. Estão longe das crenças generosas. Quem comanda é o acesso à grana.”
    É EXATAMENTE ISSO!
    Adorei o texto!super crítico e real.Tudo está tão de acordo com a realidade que,a medida que vamos lendo,vai passando um filme na memória.

    PS: Adorei mais essa “Astúcia de Ulisses”.

  • DIÓGENES disse:

    o capitalismo e seu show de consumismo. Um irmão perfeito para esse sistema. O consumismo aliado as inovações tecnológicas atraem milhares de alienados, onde estão sempre querendo renovar seus objetos, e nunca se contentando com nada, realmente é um verdadeiro desmantelo! No final aparece as dívidas e a preocupação de como pagar esse montante. Eis o presente capitalista : contas e mais contas a quitar, depois de um grande delírio no shopping!

  • Diógenes

    Muita gente não se dá conta da manipulação e segue na festa da ilusão. É claro que não é proibido comprar, mas vale refletir sobre as razões.

  • Amanda

    A questão não é a compra, mas o que motiva.
    abs
    antonio

  • Amanda Suellen Oliveira disse:

    Claro! é isso mesmo!

  • Anderson Carlos disse:

    As vezes tenho a impressão que as crises mundiais apenas atacam pessoas, mas o sistema capitalista continua seguindo forte se mostrando com novas possibilidades para sua existência.

  • Anderson

    O capitalismo resiste porque possui adeptos. Há competição, disputa, mas muitos se acham bem no vaivém da exploração. O mundo é vasto.
    abs
    antonio

 

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