Quem se encosta nos privilégios do poder e da fama?

No mundo das comunicações velozes, as notícias circulam movidas por tecnologias das urgências. Tudo se resume ao sucesso da globalização? A coisa é mais complicada. As curiosidades são muitas. Quem não gosta de saber das novidades? Há, porém, uns escorregões que não devem ser desprezados. As transformações acontecem, mostram-se na impressa e nas redes sociais, de forma quase escandalosa. O espetáculo da notícia nada junto com as instabilidades do poder e as aventuras da fama. As surpresas acordam, trazem desconfianças, colocam a ética dentro de abismos. Um pequeno exemplo: o adorado atleta sul-africano, Oscar Pistorius, está sendo acusado de assassino. Uma perplexidade que derruba mitos, desengana e inquieta.

O desgaste é imediato. De santo, poderoso nas magias das corridas olímpicas, torna-se uma figura encarcerada no mais amplo sentido. Tudo em tempo real como dizem os fanáticos da comunicação. Qual será o destino de tudo isso? Muitas manchetes vão desvendar tramas, atravessadas por certezas e boatos celebrados pelos jornalistas. Não sossegue. Bento XVI renunciou faz pouco tempo. Nem por isso desapareceu seu ar de transcendência. A Igreja Católica reclama, pede respeito, sente falta de vocações, procura milagres. Notícias de impactos diferentes sacudidas no cotidiano banalizado e homogêneo.

A sociedade precisa que o espetáculo continue, que a vida não cesse de ser ornamentada. As fronteiras entre a verdade e a mentira sofre com desenhos e misturas. Ninguém nega que existem os inocentes, apenas interessados no sensacional, no divertimento vazio. Gostariam de residir juntos aos bigbrothers, descobrindo maravilhas no descartável e nos amores fabricados. O mundo é das mercadorias. Há pessoas totalmente embrulhadas com o supérfluo, sem saber que o coletivo também se desmancha e o lixo não está só no meio da rua. Já pensou as sociabilidades esfarrapando-se, o juízo final recuperado nos discursos dos religiosos ameaçados pela perda de poder?

Há o encantamento dos privilégios. Os políticos vivem, na sua maioria, ligados na próxima eleição. Giram suas fantasias, onde os sinais de solidariedade são mínimos. Investem no sucesso, querem admiração, mostrar o caminho. Há os espetáculos públicos e os privados. As famílias não se recusam a entrar na dança do poder. Os valores se dissolvem, então faz parte da fama firmar comportamentos, envolver afetos, para  não perder os pactos feitos em conversas mesquinhas. Qual a sociedade que não se alimenta de ilusões, que nãot em sua reza doméstica?

Tudo em questão ou nada em questão? As notícias se desfiam. Os feitiços variam, pois a grana é esperta e malabarista. Antes éramos o país do futebol, hoje ficamos grudados nas jogadas de Messi. A cordialidade, tão estimada, se encobre com uma violência desmedida. Falam do caos, das corrupções, dos cinismos. As torcidas organizadas causam espanto junto com as pressões do crime organizado. A história, para alguns, passeia pela pós-mordenidade, para outros se desencontrou das iluminações da modernidade. Na urgência, a reflexão se desmantela e os olhares desbotam-se. Não se trata de pessimismo. Há pressa. Os anjos dialogam com o bem e com mal, o mundo não se resolve, desconhece o ponto final.

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2 Comments »

 
  • yves disse:

    Professor, o senhor acredita na ideia de pós-modernidade?
    Eu não consigo enxergar desde o começo da modernidade até os dias atuais rupturas significativas para usarmos o termo “pós”. Principalmente no que se diz respeito a economia, o Estado, enfim, as organizações sócio-políticas de maneira geral. Apesar do capitalismo não ser obviamente o mesmo, ainda é capitalismo. Gostaria muito de saber sua análise sobre a “pós-modernidade”. Vou ate ler, novamente, o livro de Fredic Jamenson, Pós-modernidade: a lógica cultural do capitalismo tardio. Na ocasião quando o li, estava no começo da minha graduação e muitas coisas não entraram, até por falta de conhecimento mesmo. O senhor já o leu?

    Obrigado
    Abraço

  • Yves

    Observo a pós-modernidade não como um momento de rupturas. Mas houve mudanças nos comportamentos, na forma de visualizar o passado, nas relações afetivas que mostram que tudo está vivendo uma grande mistura. A simultaneidade é marcante. Esse é um assunto polêmico. O termo pós não deve ser lido dentro de uma perspectiva do conceito de progresso. É um período que aparece depois da modernidade trazendo outras reflexões, carregando um olhar diferente sobre as tradições… Acho mesmo que o próprio conceito de revolução está fora do eixo atual. Há muita coisa. Quando quiser conversar sobre o tema, avise. Ele é amplo.
    abs
    antonio paulo

 

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