Quem se esconde no tempo e na história?

 

Debater sobre o tempo é sempre acirrar polêmicas. O historiador não pode recusar que existem tradições, envelhecimentos, aventuras, desprezos… Os sentimentos passam, as arquiteturas mudam, as escritas significam palavras. As mudanças são visíveis. Estamos acostumados com os calendários, não dispensamos os relógios, os números dos segundo nos cercam. Quantos séculos de histórias vividas, quantos futuros nos esperam! Inventamos medidas para que o tempo se aproxime das idas e vindas. Não se trata de ficção perdida. Há uma praticidade que ajuda a construir e organizar as sociabilidades.

Outros tempos não se formaram antes de nós? Há quem reclame que os historiadores nada sabem sobre os segredos do universo. Afogam-se em especulações. Será? Como sente quem se apaixona. como corre quem se sente roubado, como se entristece quem se sente traído? As durações são as mesmas? Os minutos se conciliam? Se existe uma enorme burocracia que controla tudo, surgem também surpresas e acidentes. Leia a Invenção da Solidão de Paul Auster e mergulhe nas ambiguidades.

Precisamos que as veias se abram para que o sangue se infiltre na emoção, para que o corpo não sucumba no meio da dor. Contamos, dividimos, acumulamos, desistimos, porém sempre perguntamos sobre a medida do tempo, o  tamanho dos meses, a rigidez do regime de trabalho, a fluidez de um amor sem constrangimentos. Há o que pesa e oprime, os autoritarismos que fixam regras amedrontadoras. Não é toa que imaginamos o tempo de fuga, que tomamos sustos com as emboscadas dos negócios.

Sentir o tempo não é divertimento inútil. É preciso que as experiências se renovem para que as histórias pulem as cordas das permanências. O equilíbrio é sempre precário. Freud não deixou de afirmar que prazeres e desprazeres compõem o ritmo da vida. Cuidado para não se encantar com os ditos do progresso. O vasto território reforça que os sofrimentos sufocam desejos. Albert Camus nos sacode com dúvidas tenebrosas no seu polêmico livro O mito de Sísifo. Quem pode esquecer Édipo e seu destino tão desmedido? Há mesmo fatalidades sagradas e indiscutíveis?

Quem narra história não se afasta das acrobacias do tempo. Não pense, contudo, que a sociedade é um grande circo. Não se esgote na busca de uma definição para o infinito ou questionando que as criaturas devam conhecer o criador. O gosto da desobediência talvez esteja além das amarguras que as religiões proclamam. A história não é uma brincadeira, nem escritório onde os cartórios ressaltem o valor de identidades banais. Imaginar estende o incomum. Não é possível riscá-lo da nossa aventura.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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