Quem se reconhece na história da solidão?

 

A vida não se constrói sem uma visita constante aos sentimentos. Há quem os olhe com desconfiança. Considera que é um tema de grande fluidez que não merece divagações. É difícil observá-los. As instabilidades são muitas e o lugar do afeto é, às vezes, confuso e fugidio. Quando optamos pelas determinações fixas os sentimentos mostram seus malabarismos. Optar, porém, pela análise de uma história restrita a fatos objetivos e data solenes é cair numa armadilha da mediocridade. Hannah Arendt nos dá boas reflexões no seu livro Entre o passado e o futuro para encontrar outros caminhos.

Não uma evolução de identidades, nem o tempo segue um rota conhecida.  É escorregadio o terreno das comparações. Há comportamentos que parecem contemporâneos, mas que possuem fortes relações com as tradições longínquas. Os sentimentos estão presentes nas aventuras dos deuses, nos amores medievais, nas lutas políticas, enfim compõem a história, atravessam trilhas, quebram calmarias. Não há como abraçar modelos que permitem decifrar as relações sociais no ritmo de linearidades. Elas se movem com frequência.

As interpretações não se acomodam. As mudanças existem sem dispensar as memórias. O tempo tem muitas cores. Suas narrativas se bordam com palavras que ampliam significados, mas que não apagam nostalgias. Quem pensa que a solidão é o vazio, a falta exclusiva do outro, o recolhimento fatal e definitivo não assume a complexidade.  O social também arquiteta suas residências na solidão. Se a saudade se constitui arrasadora, ela também anima fantasias e desenha convivências. Nunca é uma despedida final do que passou.No mínimo conversamos com nós mesmos, nossas vacilações, nossas buscas, nossos desencontros. Pode parecer estranho, contudo a história é uma magia constante.

Há muitas vozes sem eco, apáticas, no entanto há ruídos que acordam e reclamam movimentos. Portanto, a solidão não é, apenas, silêncio. Ela remove experiências, cria julgamentos, provoca desistências. Sua geometria é infinita, suas figuras  alimentam angústias, ternuras, desprezos, ressentimentos. Sua história marca singularidades, flutua, desacomoda. A aquela conhecida afirmação de que se pode construir a história como ela de fato aconteceu está grávida de suspeitas.Querer mascarar o múltiplo, vestir as roupas do poderoso positivismo, diminui o vasto e o sinuoso labirinto da história.

Estamos, hoje, no mundo das mercadorias.  Muitos usam armaduras monetárias, exaltam as indiferenças, desfazem as lágrimas. O olhar mesquinho atrapalha e desfigura os espaços que formam os sonhos. Quem não se reconhece nos sentimentos, quem não se escuta nas solidões inesperadas, esconde-se, precariamente, das ousadias e das rupturas da história. Por que não testemunhar as invenções e soltar os tempos das suas gaiolas? Aprisionar o tempo é proibir-se de levitar e de não fertilizar as possibilidades de quebrar o desconhecido.

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