Quem silencia diante das astúcias da grana?

Perder tempo. Ganhar tempo. Duas expressões usadas exaustivamente. Objetivam consagrar medidas ou acertos monetários gerais. Não se importam com metafísicas decifradoras. Um amor desfeito pode entrar no jogo. Ele lembra muitos instantes. Arrependimentos ou alívios? Onde fica a memória de cada instante ? Acordam, então, sentimentos de dúvida e frustração. O ganhar ou perder fazem batucadas com as melodias do coração.

Há emoções que parecem durar horas, mas se resumem, no relógio, a minutos. A densidade das relações exige, muitas vezes, balanças sensíveis. Quem pensa, em medidas justas e definitivas, desconhece o valor singular de cada experiência. Cair nas peripécias do mundo financeiro tem um simbolismo muito desigual de cair nas andanças das sensações afetivas. Hoje, os números terminam tocando, como os sinos de Igrejas da Idade Média.

As negociações teimam em acumular lucros. Nem sempre visíveis. Vacilou, despencou. Os prejuízos doem e alucinam os senhores da grana. O capitalismo possui crises de esquizofrenia profundas. Basta observar o noticiário econômico. Aprende-se muita coisa. As linguagens denunciam a extensão das invejas e dos individalismos. A atenção é sinal de esperteza.

Gosto de retomar o que está sendo vivdo. As repetições não são ingênuas. Dê uma namorada com o mercado da bola e leia as lições que, por ele, transitam. As idas e vindas de Ronaldinho garantiram manchetes e plantão esportivo permanente. Um baile de máscaras bem ensaiado. Perceba os trejeitos do atleta, seu códigos corporais, suas declarações ocas. Ficou na dança, sendo o centro e agitando as torcidas. O Flamengo comemora  seu feito com entusiasmo.

Uma novela de relato impressionante, mas que não esconde certas desconfianças. Chega-se a uma solução. A grana é veloz e sua fome também. Até quando Ronaldinho vai corresponder ?A mídia está na espreita e seduzida pelas polêmicas. Quem se antecipa ganha tempo. O mundo é dos ansiosos ou dos equilibrados? Será que Shakespeare, nas suas tragédias, responderia a tão desafiadora dúvida?

As impaciências circulam em busca de novidades. O presente se confunde com um futuro que, ainda, nem se pintou. O importante é controlar a fabricação da disciplina. As desordens seguem as trilhas dos espetáculos. Acabam ou são silenciadas, como um concerto de rock. Muito barulho produz o silêncio. Estranho, porém o incompreensível termina costurando os lábios. Não há como falar sobre o que não se escuta, embora os murmúrios desenhem dissonâncias em situações de conformismo.

O Banco Central investiu em propagandas, para mostrar as mudanças na cédulas do real. Muita tecnologia e sutileza. Uma reação às constantes falsificações dos chamados artistas da marginalidade. Uma necessidade do governo de asseguarar seu poder de mando. Corrigem-se erros, publicam-se decretos, ensaiam-se novas hipocrisias. O mundo tem de tudo, com sintonias e desamparos surpreendentes.

Narrar o que acontece se tornou um malabarismo. É na reinvenção que as palavras arrumam fôlego, pois não faltam assuntos. Cada grupo salva seus interesses : enternece-se pelas estéticas harmoniosas, desmonta as esperanças de quem acredita que o circo voltou, redefine-se diante da inteligência dos computadores descartáveis, assombra-se com quem supõe que a cultura se desmorona, sem ponto final.

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2 Comments »

 
  • Flávia Campos disse:

    Antonio,
    Comecei o dia hoje lendo um trecho do “Recife dos Romancistas” do tiozão, antes mesmo de entrar nos “desamparos surpreendentes” do jornal.
    Depois fui visitar Ulisses para conhecer sua mais nova astúcia e ouvi-lo narrar, com maestria, os acontecidos em meio aos malabarismos do viver.
    E fiquei me perguntando: será que o leitor de romances tem um fôlego maior para reinventar o vivido, com mais reciprocidade e rebeldia?
    Saio para buscar minha filha, que chegou de viajem e, no aeroporto, lendo um ensaio de um amigo, encontro a resposta em Mário Vargas Liosa:
    Creio que o romance sempre foi um testemunho de rebeldia, de insubmissão. Em todas as épocas, os romances flagraram nossas carências, tudo aquilo que a realidade não nos pode dar e que, de alguma maneira, desejamos. Começamos a inventar porque o mundo não nos parece suficiente. O romance se situa justamente nessa compensação que o ser humano busca quando entende que a realidade não o satisfaz completamente. Por esse motivo, ele sempre causou desconfiança nos governos, nas instituições que pretendem controlar a vida. As religiões e os regimes autoritários nunca foram simpáticos ao romance. E penso que têm razão: ele é mesmo um gênero perigoso, porque provoca a imaginação, os desejos e os sonhos. O romance tem a ver com esse espírito rebelde. A invenção de outro mundo, de outra realidade, onde podemos nos refugiar e viver. Escapar por meio da fantasia. Acredito que essa é a origem de toda ficção. (citado por Azevedo, 2010).
    Vou ler mais romances!!!
    Aceito sugestões.
    Bjs
    Flávia

  • Flávia

    Vou sugerir Manuel Scorza, Paul Auster e Mia Couto. Vale ler qualquer livro desses autores. Scorza é pouco conhecido, mas é fantástico. Realmente, o romance merece grande atenção. É a narrativa da vida
    bj
    antonio paulo

 

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