Quem tem medo do professor?

Mais uma grande mobilização nacional dos professores para protestar e reivindicar melhores condições de trabalho. Insistência e resistência. Não podia ser diferente. A administração pública não cessa de mostrar vacilações. Parece desconhecer os caminhos que levam a qualidade de ensino agregadora. Especula-se sobre a compra de computadores, estabelecem-se  prazos para reformar escolas, mas predomina uma burocracia dantesca. A escola não consegue ultrapassar os limites necessários para entusiasmar os seus participantes. A atmosfera de desânimo ganha volume, importuna a maioria. Não é, apenas, a questão salarial que desloca interesses. Há muitos impasses. Estamos longe de transformar a educação num pacto de excelência. Não se trata, somente, de acumular conhecimentos, entrelaçar geometrias e palavras.

A educação dialoga com a política, ajuda na construção da cidadania, motiva solidariedades e encontros com os desejos de mudanças. Os políticos desconsideram os planejamentos que alteram, efetivamente, os padrões de vida da população. Prendem-se ao imediato das suas conquistas. Discutem o valor dos cargos, as compensações financeiras. Poucos entram no ritmo da democracia. Há exceções, porém  os desmantelos se tornaram frequentes. Há dificuldades profundas para se controlar as vaidades e identificar os espelhos da ética. A educação se vê nos cerco das inércias e, ainda, convive com um número expressivo de analfabetos.

Não custa perguntar: Quem tem medo dos professores? Por que negar investimentos para formação das pessoas? Governar é ornamentar as saídas dos labirintos? Todos sabem que a sociedade, sem reflexão, não movimenta a cultura. A massificação intensa já produz manipulações desnorteantes e o apego ao consumo aprimora as armadilhas do individualismo. Se a educação fica marginalizada, a tendência é permanecer reduzidas as possibilidades de autonomia. Sem a educação a população se infantiliza, não cultiva rebeldias consequentes, elege governos apáticos. O foco no bem-estar material engana, quando faz de cada ato uma exposição festiva.

O capitalismo concentra riquezas e privilégios. Socializar é dividir, estender a sociabilidades e não esconder saberes nos armazéns de mercadorias. Se maioria discute e refirma suas convicções pela divisão dos caminhos históricos, as minorias hegemônicas se sentem ameaçadas. Por isso, busca-se inibir as críticas, espalhar imagens de conforto para disfarçar as desigualdades. A queda de Ricardo Teixeira termina sendo assunto predileto, mesmo diante das inúmeras dissonâncias cotidianas. É bom ficar de olho nas astúcias dos outros, nas seculares dominações que se mantêm desconstruindo projetos sociais, em nome da diversão articulada com o silêncio dos protestos políticos.

O mito de Prometeu lembra a desobediência e a necessidade de questionar as ordens. Os professores enfrentam regras que expressam sentimentos e pedagogias. Não dá para pensá-las sem tempo para refazer ideias e  desconfiar de paradigmas. O mundo se fascina pela quantidade, mas tropeça nas violências e nos enganos. A sinfonia da mesmice toca para satisfazer a força do poder opressor e ensinar a escutar o que aquieta. Interrogar é humano. Prometeu observou a ganância dos deuses. Não adianta rebeldias que estimulem ruídos passageiros e não aticem as metamorfoses. Quando se jogam migalhas há sinalizações e significados. Os professores não se sustentam como coisas de aluguel. São parceiros de Prometeu.

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2 Comments »

 
  • Jonas dos Santos disse:

    Quando haverá a verdadeira revolução no Brasil? A revolução educacional, que libertará o povo das amarras do pão e circo…

    Inspirador.

  • Jonas

    A educação pode nos salvar de muita coisa. Mas profetizar a revolução é difícil.
    abs
    antonio

 

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