Quem toma conta das suas invenções?

Os óculos sobre a mesa, Miles Davis tocando na vitrola, o olhar solto no horizonte.É difícil fabricar a pausa, o mergulho no silêncio, sem atribulações. Sempre a pressa comandando cada ato, como se não houvesse tempos vazios ou espaços  para contemplação. Tudo parece desmontado, sem profundidades, numa celebração contínua do efêmero. Faltam atenção, cuidado, proximidade. A vida corre sem sentido. Inventa-se o que é possível, pois a imaginação emagrece diante das armadilhas das TVs. É preciso escapar, costurar o avesso, ser testemunha da preguiça do corpo, para sossegar o delírio da novidade e da fome do descartável.

Num mundo de vitrines, não adianta se esconder dos espelhos, mas compreender as suas formas. Cultiva-se a mesmice, porque os incômodos estimulam desconfortos, palavra condenada pelos arautos da moda. Nem todos caem nas águas apodrecidas. Há turbulências, desconfianças, ousadias. Nunca pense na igualdade absoluta dos desejos, nem na onisciência dos poderosos. As falhas e as descontinuidades denunciam que a incompletude é acesa e não fica, apenas, deslumbrada com o brilho dos celulares inteligentes. Há quem visualize os escorregões e desenhe os abismos que ameaçam as ordens dominantes.

A sinuosidade não é a síntese do perigo. Insisto que os lugares da solidão nem sempre representam isolamentos ou fugas  premeditadas. Ouça Philip Glass e perceba a sutileza das suas aparentes repetições. Fure com o dedo um castelo feito com areia molhada. Improvise janelas e saídas, direcione, precariamente, as alucinações. A velocidade exige interrupções. Há cansaços que pedem o escuro do quarto e o ruído do ar-condicionado. Os gemidos e as dissonâncias das vozes podem trazer quebra de energias e ambições inexplicáveis. A solidão caminha por territórios surpreendentes, mas ela se move, também, no homogêneo. Não legitime o desconhecido, por temer os disfarces e não saber apagar os riscos das velhas paredes.

Lá dentro dos edifícios, há salas estreitas e computadores estranhos. Há reuniões, planejamentos, negociações. Nada garante que os mendigos receberão benefícios das instituições filantrópicas, com pedidos telefônicos insistentes e piedosos. Tudo é muito misturado. Ninguém consegue medir a extensão da generosidade. O coletivo reclama da grana dos impostos presa nos esgotos de ratos nutridos e salientes. O mundo se alarga, com a globalização, porém não vence a timidez de quem prefere o aconchego dos travesseiros antigos. O fluxo dos lucros muda e agora a China impressiona os economistas norte-americanos. Teremos, breve, outra geopolítica. A Europa treme nas bases, lamenta a fragilidade das suas finanças.

A questão é aguentar os sufocos inesperados ou fotografar hipocrisias cotidianas. Para tudo, surgem especialistas com respostas imediatas. A quietude não significa descompasso com a vida. A arte espera, os olhos não são máquinas de espionagem e as ilusões desfilam no calor dos mantos coloridos.O desamparo é tema de análises e fermenta polêmicas psicanalíticas. No entanto, as carências são históricas, já existiam nas cavernas e nas agonias dos dinossauros. Não esqueça que a solidão possui suas gramáticas e geometrias. Decifre-as. As interpretações ajudam a entrelaçar-se com os outros e deslocar os sentimentos que se foram nas eclipses dos corações.

PS: O texto, acima, foi postado, ontem, no blog, por erro no agendamento. Voltamos a recolocá-lo, pois ele, apenas, ficou durante 7 horas. Portanto, retomamos o cotidiano e a coerência. Bom São João e grato pela companhia.

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2 Comments »

 
  • Gleidson Lins disse:

    Prof. Antonio,
    Procuro sempre, quando a rotina diária me permite, buscar caminhos transversais à mesmice mundana hipnotizante. Como agora. Gosto do Recife quando a grande maioria viaja. A cidade fica mais aconchegante, atraente bucólica. Permite-nos a contemplação.

    Abs,
    Gleidson Lins

  • Gleidson

    Há momento que nos trazem mais sossego. O silêncio ajuda muito.
    abs
    antonio paulo

 

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