Quem vive sem as profecias e as ilusões?

O tempo está sempre nos cercando. Ficamos contemplando a sua passagem, sem saber defini-lo, mas sentindo que o corpo envelhece e que a sociedade procura outros comportamentos. Não seria exagero afirmar que tudo possui uma idade. Há costumes seculares. Há convivências rápidas que nem deixam vestígios. Nem todo perdão significa esquecimento. Não fugimos de confusões e misturas de valores que atravessam culturas. Se houvesse um espelho imenso com todas as imagens da vida poderíamos visualizar as repetições ou entender melhor a razão de tantas ilusões. No entanto, o mundo contemporâneo aponta para novidade, sacode o presente e festeja os anúncios do futuro. Os incômodos não afugentaram as esperanças.

O tempo não tem um único desenho. As profecias não pertencem, apenas, às crenças religiosas. Hoje, as máquinas se encarregam de prever mudanças na atmosfera, redefinições na economia, multiplicação de riquezas culturais ou de guerras permanentes. As coisas pesam, não estão ausentes da história. Um olhar sobre as composições de cada moradia mostra como o tempo se inscreve em cada canto. Na mudez, as palavras ganham outros rabiscos, porém o silêncio nunca é absoluto. Os movimentos agitam as interioridades, garantem que sem eles a vida se desfia.

Portanto, não dá para eliminar as ilusões. O futuro é uma projeção. Querer exatidões é um engano. É preciso, contudo, se lançar, mesmo que a desconfiança perturbe. A busca da salvação não é jogada fora pela rapidez da aldeia global. Ninguém cultiva pessimismos e gosta de amargar derrotas. Eles existem, não há calmaria sem turbulências. Há sempre a lembrança do voo, a possibilidade de flutuar, de imaginar sonhos. Se a historia garantisse uma narrativa sem aventuras, o mundo quebraria todas as ousadias, cansado das mesmices. A ilusão traz sofrimentos, mas também animação, desejo da sair do comum, de testemunhar desobediências.

Não é à toa que nas meditações sobre o tempo não devemos dispensar o que foi vivido. É fatal desprezar as experiências, acreditar que o novo não dialoga com o antigo. A experiência refunda as andanças da vida. Converse com seu passado, ultrapasse as memórias mais recentes, lembre-se de que há o mito das origens. As imperfeições se espalham pela história, porque o desafio é a energia da cultura. Os símbolos são muitos, representam interpretações de sentimentos que vão e voltam firmando marcas, mapeando afetos, inventando fugas. Não é o movimento que balança o tempo ?

As escritas da vida nos pertence. O avesso da vida não é a morte mas uma outra dimensão da existência humana. Talvez, Mia Couto expresse certezas na concepção poética que configura metáforas e encanto. A morte nos assanha com profecias de fragilidade. O avesso de tudo é a eternidade, pois ela é a negação do tempo. Mas como viver sem calendário, sem falar do ontem, sem consultar os arranhões que assustam o corpo? Muitos pensamentos que se multiplicam também na eleição de vazios. Resumir instantes é uma tentativa de sossegar as inquietudes. Elas, porém, voltam. Surgem outros verbos, outros sentidos. O ponto final não interrompe as indagações.

PS: AS PUBLICAÇÕES RENOVAM-SE NAS TERÇAS, QUINTAS,  SÁBADOS E DOMINGOS.

 

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