Quem voa e inquieta-se na magia das palavras?

 

Escrever não é tarefa sem propósito. É um traço forte da cultura. Gostar de escrever tem mais significados. Ganha encanto e magias. Ninguém garante que as palavra serão bem acolhidas. Mas se escreve para o mundo e não se é dono dos textos. As intenções existem, podem exprimir amarguras, solidariedades, críticas, desamores. Tudo é possível. Quem se articula para a dança da cultura não se intimida com as surpresas. De repente, lá está um ídolo riscando seu passado consagrado ou um político maldizendos seus eleitores. Como fazer o registro de tantas aventuras e mistérios?

Melhor dizer que as palavras voam e transcendem o momento no qual se desenham. A escrita é vasta e pretensiosa, porém possui variações indefinidas. Nem sempre correponde aos desejos de quem se lança nas suas viagens. As expectativas dão tempero a quem busca a leitura. Surgem as discordâncias. Com misérias ocupando o mundo, ainda se escreve sobre arte e jogadores de futebol? Perda de tempo, consideram alguns, questionando, com desprezo, as iluminações do escritor.

Observar os entrelaçamentos das relações humanas é desafio constante. Mais ainda, os devaneios das subjetividades e as loucuras individuais, todas ricas de imaginação e descontinuidades. O que transforma falar dos dribles de Pelé ou da estética das pinturas de Matisse? O que seduz  falar da melodia dos tangos de Piazzolla ou dos poemas de Drummond? Sempre, a dúvida encaminhando a discussão. Há pessoas que não se tocam com a música, preferem mergulhar na objetividade. Outros são tomados pelo feitço dos números, não conseguem se mover, sem fazer contas e exaltar a segurança.

A página, em branco, é uma abertura. As regras e as ordens tumultuam ou trazem um escrita escassa no desejo de reconfigurar o mundo. Existem escritas classificatórias, amarradas em contabilidade. Todas estão presentes e ocupam espaços. Estamos, aqui, focados na escrita que inventa e atiça a coragem de negar a paralisia da criação. Nem sempre a beleza é sinuosidade conquistada. Muitas vezes, denúncias, numa linguagem, pouco trabalhada, salva situações e promovem o fortalecimeto de cidadanias.

Olhar o mundo com cuidado, é uma leitura do que se passa. Quem não se furta à contemplação, estica sua capacidade de invadir outros territórios e descobrir formas de navegar em oceanos fabulosos. Italo Calvino fez isso com uma maestria incomensurável. Intuições se misturam com pragmatismos, fragilidades, com medidas técnicas decididas. Compor cada objeto é uma ação que não percebemos, pois o tempo carrega suas malandragens.

Para se embriagar com a palavra, o limite e a transgressão multiplicam-se. Pensar no significado exato é um estranhamento negativo. Retirar da cultura seu poder de libertar,  dizima a gramática, colocando-a sob a tutela de dizeres imutáveis. A palavra deve trazer ânimo e produzir universos de intensas acrobacias. Não dá para fixar adivinhações. O ponto final não é acabamento, porém um recurso para fazer o texto construir sua trilha. O andar de cada traço não é fotografia de espelhos presos nas paredes, mas subversões de corações que, na inquietude, apagam a inércia da mediocridade.

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6 Comments »

 
  • Rosário disse:

    Olá Professor

    Seu texto me remeteu a música Livros de Caetano Veloso “porque a frase, o conceito, o enredo, o verso(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
    É o que pode lançar mundos no mundo.” Penso que a escrita tem esse poder transcedental de “lançar mundos no mundo” e encher de palavras nossas vidas. Quando leio Garcia Márquez, Pamuk, Calvino, Hilda Hist, Neruda…sinto-me lançada nos mundos de palavras e versos que eles espalham.

    Abraços

    Rosário

  • Rosário

    A palavra voa. Traz os mundos e o desejo de seguir travessia. Concordo com você. Acabei de ler um livro lindo de Manuel Scorza, A Tumba do Relâmpago. Lido. Magia e histórias juntas. Apareça,sempre
    abs
    antonio paulo

  • Flávia Campos disse:

    Antonio,
    Simplesmente, divino!
    Encantos, magia, aventuras, mistérios, sempre serão bem acolhidos. Dar um novo significado ao nosso viver.
    “A página, em branco, é uma abertura”. A página escrita é a possibilidade de se fazer presente, visível, encontrável!
    Rezende tinha razão quando disse que “o cenário parecia completo, porém faltava quem o descrevesse quem criasse suas relações.” (Ruídos do Efêmero p.136)
    Que venham então, todas as iluminações ao Escritor. Que ele possa, com seu traço,descrever os cenários (de dentro e de fora), ampliar as “subversões de corações que, na inquietude, apagam a inércia da mediocridade”.
    Que ele nos ensine a contemplação e alargue a nossa “capacidade de invadir outros territórios e descobrir formas de navegar em oceanos fabulosos”.
    Que ele também nos revele a nossa vã sabedoria, e com humildade possamos descobrir que “ acabada a página, a vida renova-se e damo-nos conta de que o que sabíamos era muito pouco”. (Calvino)
    Lindo!
    Ficou o gosto de quero mais…
    Bjs
    Flávia

  • Flávia

    Sinto-me bem com as astúcias das palavras. Acho que é um caminho atraente. Grato.
    bjs
    antonio paulo

  • Yves Vicent disse:

    Escrever é como colocar em uma “folha” parte de sua alma… Pelo menos é assim que eu vejo!
    Uma pagina em branco é realmente uma abertura, é um convite ao movimento de exprimir-se, de revelar-se…
    Eu sou um simplório escritor de textos e supostas poesias, tem pessoas que não dão a minima para o que escrevo e tem que ser assim mesmo… Sinceramente considero quem passa a vida escrevendo para os outros uma pessoa frustada que desperdiça um talento em vão, jogando pérolas aos porcos como diria o Rabi da Galileia…
    Quando escrevo, escrevo pra mim, crio um dialogo em que meu eu conversa comigo revelando pontos de vistas que eu mesmo desconhecia!
    Vejo uma pagina em branco como um desafio, algo que me chama e evoca certas sensações tanto confusas…
    E quando leio um livro, mesmo que ele seja de pura fantasia, eu me envolvo com o enredo de forma que ele ganha vida em minha alma, me apaixono pelos personagens, converso com Constantino Lievin, pranteio o jovem Werther, me identifico com Heathcliff,carrego com sam e frodo o peso do anel e chego a me perder no Cemitério dos livros esquecidos que se encontra Na sombra do vento…
    Exagero? Pode até ser em parte, mas se alguém me disser que a vida não é isso, que é comedida e centrada, é porque essa pessoa ainda não se permitiu viver!

  • Yves

    Ler e escrever são viagens que nos ajudam a conhecer melhor a cultura. Exercita a imaginação e a crítica.
    abs
    antonio paulo

 

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