Reinventam a história política do povo brasileiro?

  

As polêmicas retomam o foco do noticiário, com a falta de objetividade de sempre. Fernando Henrique Cardoso abriu mais um debate, para fazer especulações e ditar conselhos. Não faltam interlocutores. Transforma-se pó em pedras preciosas. Há quem fique calado, curtindo os devaneios dos outros. A clareza dos argumentos é sinuosa. Cabem interpretações de amigos e adversários. FCH  foi presidente da República. Merece, portanto, congratulações dos  próximos ou daqueles que não perdem a chance de aparecer na vitrine. A análises se formatam, as louvações se espalham e a controvérsias se acendem. Movimentam-se vozes, mas as dificuldades básicas prosseguem marcando a maior parte da população.

A  figura do sociólogo traz lembranças destacadas dos tempos de governo. Lançou o Plano Real, conhecido por deletar a inflação e promover estabilidades na economia. Seus feitos e argumentos são usados para diminuir o festejado sucesso de Lula. As euforias se dividem. Cada um sacode sua bandeira, cria explicações e defende suas opções políticas. Toca-se um samba de uma nota só. Há um costume antigo de  forjar-se descontinuidades e não salientar os diálogos possíveis entre as administrações. Todos perdem, porque as falácias ganham espaços. Evita-se, assim, aprofundar as soluções e joga-se na força  do fascínio dos votos.

Parece que o grande patrimônio da política é poder  nomear e distribuir cargos. É o que prevalece, mesmo com desacordos e denúncias de muitos. Conceituar povo não é reflexão recente. Há memórias de embates seculares, anteriores a Vargas, o mágico do populismo. Os critérios firmam-se historicamente. Não são permanentes. Quem era o povo nos finais do século XVIII na França ? Quem é povo, no mundo árabe, atravessado pelas disputas do século XXI? No Brasil, dos tempos da escravidão, houve desigualdades consistentes, mantidas por preconceitos e concentração de riqueza. Poderia se falar de povo nas circunstâncias coloniais, contaminadas por explorações avassaladoras?

A história não se acomoda, porém está envolvida por vestígios autoritários, aparentemente, anacrônicos. Não visualizar a importância política do povo tem significado. Ele não é quantidade de pessoas manipuláveis, sem desejos e espectadores dos senhores poderosos. As filas dos postos de saúde se arrastam, as escolas se ressentem de pedagogias atuantes, nas reformas sociais, as cidades crescem no ritmo da violência e ameaçadas por descontroles nos míminos detalhes. O prejuízo é sinal de que o discurso passa longe das necessidades urgentes. Os deveres das administrações públicas se atrofiam cotidianamente. Os jornais estampam, sobretudo, disputas pessoais, procurando, como cartomantes, decifrá-las.

Tivemos imperadores, ditaduras massacrantes, elogios salientes à modernização, greves urbanas e movimentos rurais que inquietaram as ordens existentes.Não basta, apenas, identificar teoricamente os sujeitos, para organizar planos de ação. As necessidades da maioria são visíveis, escondê-las, em papéis, é um vazio. Inventar abstrações fortalece desconfianças. Por que não se socializam os desconfortos? A questão básica é a conquista do voto, traçar estratégias em cima do poder de consumo? Chico Buarque canta música que afirma que a dor d’ a gente não sai nos jornais. A dor se transfere, apenas, para o mundo como espetáculo ou se projeta nas figuras mal desenhadas da linguagem? A reinvenção é uma estratégia ou uma vaidade?

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4 Comments »

 
  • Gleidson Lins disse:

    Eu vejo o povo, o populacho, a plebe, independentemente do período histórico, sem saber quanta força tem. Os quereres individualistas impedem isso. O pessoal quase sempre está à frente do coletivo. Esse é um fator que aqueles que governam não desprezam. Manobram com isso embaixo do braço, em benefício próprio, esquecendo continuidades, não importando o que o antecessor tenha feito.

  • Gleidson

    A autonomia política é uma conquista. Há muito jogo e acomodação.Isso dificulta muito.
    abs
    antonio paulo

  • João Paulo disse:

    Realmente há um imenso abismo entre o discurso, como ação introdutória, e a ação, de fato. É ingenuidade afirmamos que o foco dado pela imprensa as descontinuidades políticas seja contínuo e proposital. Ou pior, que a própria imprensa crie essas descontinuidades. Afinal há um compromisso ético entre jornalismo e sociedade…

    abs

  • João

    Se houvesse o casamento da prática com a teoria, o mundo seria outro. Grato pela visita.
    abs
    antonio paulo

 

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