Sartre e Simone: a saudade e a existência

Gostaria de inventar um calendário que abraçasse todas as minúcias do tempo. É apenas um sonho, uma distração, para evitar melancolias. O tempo nos arrasta, desafia, corre. Portanto, restam especulações. As distâncias ditam saudades, mas há também indiferenças. Quantas paixões desaparecem sem deixar vestígios? Apesar do imenso domínio das regras e dos controles, a história não está aprisionada. Nem pense que o passado está morto, que o progresso arrebenta com as tradições. A sociedade busca orações antigas diante de celulares poderosos. A tecnologia não conseguiu a soberania que tanto prometia. Navegamos quando os mares secam e pouco entendemos das armadilhas da vida. E a complexidade? Morin tem razão?

Mas o território da memória nunca se desfaz. Há esquecimentos e lembranças. A saudade está sempre próxima. Não há como se livrar de uma amor que foi intenso, de uma tragédia que sacudiu sentimentos. Os ritmos variam,  nos confundem. As ruínas estão espalhados, escondem agressividades ou mesmo paraísos que pareciam eternos. Há toques misteriosos que nos acordam numa noite agitada, marcada com pesadelos cheio de figuras desconhecidas. O dia não passa sem surpresas, nem sinais de mediocridade. As mortes físicas se juntam com as simbólicas. Como possuir a medida para tanta coisa? As formas e as cores estão sempre se reinventando. Haja ânimo e paciência! A saudade, muitas vezes, se veste como um poema. Envolve.

Somos carentes e não há como escapar das carências. Elas giram, dançam, assombram.As leituras que fiz dos existencialistas me trouxeram a visão da incompletude. As peças de Sartre e os romances de Simone de Beauvoir são denúncias importante e belas. Vivemos situações limites. Falamos de liberdade. Projetamos a utopia. As balas assustam os moradores de rua, a polícia ataca em nome da ordem, o capitalismo acende concorrências e sobrevive. Surgem culpados, apresentam-se preconceitos que reforçam a violência. As crenças não promovem a paz, Elas justificam a violência. Sartre afirmava que “Os infernos são os outros” e Simone não escondia o individualismo que nos forma. A ética nos segue, os outros indicam solidariedades e temores. No entanto, há esquizofrenias arcaicas.

O jogo é extenso. Determinar seu fim é uma atitude insana. Meu calendário fica na fantasia, para aliviar momentos de saudade. O futuro puxa o presente, balança o trapézio do equilíbrio. Ninguém consegue definir a felicidade, mas as conversas alimentam possibilidades e pedem ajuda aos deuses descansados. Há abismos, palácios, desastes, fortunas, desavenças. Nomear o que existe é sucumbir e soltar-se da razão. Hoje, Descartes é criticado. Alguns esquecem-se da sua época. No entanto, com seriam as sociabilidades se ele refletisse sobre os afetos, afirmando suas prevalências decisivas ? “Sinto, logo existo” em vez de “Penso, logo existo”. Prefiro o encantamento, mesmo que surjam saudades e frustrações. Ia deixando Albert Camus de lado. Quem já leu O Mito de Sísifo? Prepare o fôlego e olhe a vida com suas astúcias.

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