Sertão, sertões: significados soltos

Há lugares que estão repletos de incontáveis significados. Por que não observá-los? Por que não balançar as subjetividades, distraí-las com as possibilidades de transcendências, de flutuar nas fantasias do tapete mágico? Por que ficarmos presos a estigmas e imagens desbotadas? Quem ousa desprezar os significados e riscar as aventuras fabulosas das  1001 noites de Scherezade? O sertão traz, por exemplo, geometrias e gramáticas que se estendem. É sempre bom registrar que a história conversa com o visível e o invisível. Nossos diálogos internos são decisivos quando não se retraem e buscam negar a naturalização dos sentidos. Sentir o outro ou sentir os outros…

O sertão tem inúmeras representações históricas, a fotografia acima é, apenas, uma delas. Não deve ser resumido a um contexto territorial, ao flagelo das secas, às opressões políticas. Ele está em toda parte dependendo dos significados e das interpretações. É uma nomeação poderosa e persistente, como Guimarães Rosa mostra no seu livro Grande Sertão: veredas.Carregamos a cultura dentro dos sentimentos, procuramos esconderijos.Falar do sertão é desenhar um labirinto de arquiteturas inesperadas.

Se a história é a construção da possibilidade, é fundamental inaugurar diversidades e não ser sepultado pelas mesmices. Mas o que na história não é vestígio, não mistura palavras e retoma tradições disfarçadas? Estamos no leito dos significados, das coisas que correm e adormecem. A sombra e luz vestem a nudez que nos acompanha, rascunhando escritas, reafirmando dúvidas. A sociedade contemporânea reforça o delírio por tecnologias, celebra consumos, coisifica, redimensiona os narcisismos, relembra mitos, desfia outros.

As histórias sobre o sertão navegam por diferentes mares, traz recordações das astúcias do passado, das convivências com os limites e as carências. O sertão anuncia e denuncia, possui seu fôlego, atravessa políticas que descortinam explorações. Ocupa notícias, lamentações, tristezas, desigualdades. As permanências históricas chocam, muitas vezes, e esfria ânimos, porém revela que há lutas testemunhas de poderes e saberes. Há quem desista e sepulte as memórias como espelhos quebrados, insignificantes. Se pensar o sertão está além de cultivar territórios e materialidades, por que não se inserir nos seus densos malabarismos?

É difícil entrelaçar as diferenças, mas mesquinho festejar as uniformidades, não deixar que as inquietudes visitem as histórias, se encontrem com as complexidades dos lugares. A morte da narrativa é morte do movimento do inesperado, é a impossibilidade de fluir, mesmo que as dores incomodem e perturbem. Há no mínimo do encanto rupturas que impedem que o ponto final do texto decrete o fim da vida, numa cerimônia muda e silenciosa, afastada dos ruídos das contradições.

O sertão tem imagens que não afirmam uma única cor, mostram um desenho que abraça mundos, deslocam os planejamentos pragmáticos. A história das invenções humanas não são armadilhas estáticas da imaginação, porém ousadias que possuem corpo vadio, redefinem nomes de cada coragem escondida.  Quem aprisiona as palavras e as deixa no varal de um só tempo, termina por anular o vivido, sedimentando a configuração do destino e do juízo final.

 

 

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4 Comments »

 
  • paulo marcelo mello disse:

    É verdade por isso que quando chegam as grandes obras de engenharia que alagam o passado e as referências daquela gente. os operdores do projeto , quase sempre advindos de outra realidade, se supreendem e não entem o sofrimento daquele gente.

  • Paulo
    A memória é preciosa para compreendermos as convivências. Quando apagamos identidades corremos riscos de naufragar.
    abs
    antonio

  • Paulo Oliveira disse:

    Texto interessantíssimo, instigante e que nos faz ver e rever o Sertão, em todas as suas representações.

  • Paulo
    Grato. abs
    antonio

 

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