Sherazade, Lula e as mil e uma noites

 

Todos gostam de ouvir histórias. Quando elas estão revestidas de muitas fantasias trazem desenhos fortes para imaginação. Deixam alegrias. Movimentam a vida e nos desligam do lugar-comum. Sherazade tornou-se símbolo da contadora de história. Quem pode esquecer As Mil e Uma Noites? O livro está presente na formação de cada um, muitas vezes de maneira quase imperceptível. Conhecer todas as suas aventuras é difícil. Mas as lembranças guardam detalhes, lembram a lâmpada mágica, gênios teimosos, princesa sedutoras. A arte de Sherazade costurar as palavras é tema de reflexões literárias e poemas.

Parece estranho trazer vestígios acesos da infância e do passado para conversar sobre Lula. No entanto, tudo termina se entrelaçando. Ele ficou famoso, firmou uma popularidade incrível e continua ocupando manchetes. A sua travessia tem muitas idas e vindas. Permanece polêmica. Sua chegada ao poder não tirou sua vulnerabilidade. Passou de líder sindical para presidente de um país repleto de contradições. O descrédito ganha espaços nos projetos políticos. A população se cansa de pular obstáculos. Lula persistiu, não hesitou apesar das derrotas iniciais. Surpreendeu.

No final de semana, o PT fez seu encontro. Motivo de controvérsias, discussões sem fim, fragmentações conhecidas, pois o partido se apresenta com grupos que se digladiam. Defendem-se afirmando que tudo compõe uma democracia especial, mas interessada em lutar por melhores condições de vida para todos. Lula é uma figura histórica, sempre, destacada quando o partido toma suas decisões. Penso que Sherazade poderia transformar tantas polêmicas em contos ou lendas singulares. Mesmo no auge das ligações  do PT aos contornos de   Brasília, não faltam confrontos e disputas internas. O que eles simbolizam na sua inquietude constante? Qual é o espaço da conciliação, do cochicho mais íntimo, do acerto solidário?

Quem está de fora não esconde a perplexidade. Lula se desloca, contudo, como nunca. Os planos de Dilma coincidem com os de seu antecessor? Será que ela se manterá  na presidência ou não tem  o gosto mais agudo pelo poder? Essa questão não cessa de atiçar as fofocas políticas. Cada gesto de Dilma é avaliado. Existem os adivinhos, os que se acham donos da certeza sobre o resultado da leitura da cartas mágicas. A história não se afasta do imprevisível, porém há quem demostre segurança e sabedoria. Todos querem viver suas mil e uma noites. Circulam, buscando garantir sua vaga na escola de Sherazade.

Lula não é inabalável. As demissões feitas, por Dilma, riscaram esquemas antigos, de outras épocas. Muitos atestaram possibilidades de rompimento. Houve suspenses, voltaram às especulações sobre o mensalão. Nada de especial aconteceu. A política não é sossego, nem transparência. Há muito sigilo e jogo, embora as exigências dos mais críticos cobrem abertura. Insisto que numa sociedade pragmática, marcada pelo valor de troca, o exercício das relações democráticas é um desafio. Os valores mudam, com rapidez, os ídolos se perdem no caminho da volta. Como a profundidade não é  permanente, as aparências enganam. Lula procura sustentar-se. O momento é outro. Quem profetiza como estará o mundo no próximo mês? Acreditar no destino é escorregadio.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

4 Comments »

 
  • Angélica de Paula disse:

    Mais do que aplaudir pelo claro e elegante comentário político, aplaudo o texto pela relação entre a mítica Sherazade e o universo histórico-político, que não passa de um cenário em que todos “querem viver suas mil e uma noites”, mesmo que para isso tenha que persuadir – para não utilizar outras palavras – o rei todas as noites. Quão interessante é a metáfora que podemos estabelecer entre essa literatura e o mundo mágico da política!

  • Angélica

    Grato pela leitura e os comentarios sobre o mundo político.
    abs
    antonio

  • DIÓGENES disse:

    Com um grande discurso o ex-presidente Lula encantou o Brasil e levou milhares de pessoas a acreditarem na mudança, deu ânimo aos nordestinos enfim, depois de décadas de opressão o nordeste surgiu em cena. Sherazade contava uma história por dia para a sobrevivência e faço um paralelo a atual presidente, mata um leão por dia para se manter firme na grande “pizzaria” Brasília. Será que estão se aproveitando de uma suposta fraqueza política da presidenta ou ela não esta tendo as rédias para governar este país. Cada dia vejo as coisas se ampliarem para o pior é um total desgoverno. Ela não tem a mesma popularidade que o presidente e seu governo esta voltado para as crises de ministério que se assola cada vez mais e mais, Dilma está aprendendo com Sherazade a matar esse leão dia a dia antes que seja engolida.

  • Diógenes

    Dilma enfrenta outro contexto de desacertos. Vamos ver se segura a estratégia de não ceder aos oportunistas e às corrupções. A corda bamba da política é demolidora. Provoca desconfianças.
    abs
    antonio

 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>