Tensões urbanas: drogas, medos, mesquinhez

O aumento da intensidade da vida urbana traz problemas inesperados. Não poderia ser diferente, pois o que rege a mudança é o ritmo do capital. A meta é a concentração de riqueza e a exibição das supremacias. As intenções de firmar solidariedade são mínimas. Vende-se uma pedagogia que desanima a ética. Os que lutam contra a dominação encontram fortes opositores. Portanto, as tensões são frequentes, como também os desgovernos. O público e o privado se misturam. Não é sem razão que os movimentos de fuga tornam-se maiores e o valores se desmancham. Cadê a estrada sem abismos e escorregões?

As notícias assustam. Há um  vaivém de desconfianças. Não é preciso ir longe. Na semana que passou o consumo de drogas voltou a ser manchete. Infelizmente, não se trata de novidade. O pior é a banalização que assegura apatias ou indiferenças. Ficamos tontos, com se houvesse um destino a cumprir. A história não pode cair em determinismos, nem ser alvo de profecias. Preservar a autonomia é campo aberto para evitar que as utopias se dissolvam. Mesmo com os descontroles, as multiplicidades e  as divergências acenam com possibilidades, ferem a mesmice e o conformismo.

Não há, contudo, como esquecer os desequilíbrios. Dados recentes mostram que o consumo de crack vem superando todas as expectativas. Denúncias constantes mostram a opção dos traficantes e usuários por drogas mais potentes. Já se foi a época que a maconha era símbolo da rebeldia, do comércio fluente que mexia com os aparelhos repressivos. O crack assumiu a ponta, move espertezas renovadas nos malabarismos das ruas e das esquinas. Acontecem crimes frequentes, vinganças por disputas de espaços. A aceleração do consumo é preocupante.Faltam  interesses em alternativas que reinventem um cotidiano mais compartilhado. A violência corre solta. A droga destrói velozmente.

A dificuldade não pertence apenas à polícia. Há uma ligação indiscutível entre a forma de viver, de eleger comportamentos, de ressaltar posições de mando que se associam à divulgação da droga. A sociedade não se toca com a responsabilidade de olhar o outro e estimula a competição. Pensa no irônico avanço da economia. Não quer perceber ou insiste em mascarar que o individualismo extremado esvazia a afetividade e configura solidões que mendigam delírios fabricados. Transformar pequenas coisas quando a estrutura maior está contaminada é um trabalho quase inútil. A ordem da grana estimula, cinicamente, as mortes prematuras.

A ampliação do consumo de drogas não é um prazer, mas uma demonstração que a sociedade esta coletivamente doente. Lembro-me de um livro que li, na adolescência, que me marcou e me fez compreender que as mudanças superficiais enganam. O desmantelo é profundo. Falo de Eric Fromm e seu Psicanálise da Sociedade Contemporânea. Não são insignificantes as ações menores, porém os remendos entram, muitas vezes, para adoçar as estatísticas. A sofisticação toma conta de tudo, suborna, ilude.Por isso, os mecanismos de fuga também se alteram. Há quem explore e não dispense o perfume do lucro, o desprezo pelo outro. O medo faz moradia na incerteza e na mesquinhez.

PS:  Houve mudanças nas páginas da filmografia e da bibliografia. Dê uma olhada. Houve acréscimos de títulos, retiradas de outros, revisões de datas de lançamentos polêmicas, com a colaboração, também, de alguns leitores. O blog é espaço de reflexão e compartilhamento.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>