Tonturas do mundo, cotidianos apressados

Dizia o poeta que o mundo é vasto. É difícil saber o que se quer com tantos desejos e tantas invenções. A complexidade é parceira, repleta de  luzes e sombras, mas multiplica, com pressa, dúvidas e desconfianças. Há quem arquitete alternativas e se entregue no sonho da salvação. Faz da vida uma ficção que exige aventuras. Nem se preocupa com o sentido do mundo. O tempo corre, a história está entrelaçada, resta olhar atento para enfrentar as tragédias. Não há cuidado que dê conta de tantas surpresas e desequilíbrios.

Talvez, o alimento da vida seja o sentimento. As decepções passam, tudo dialoga com o efêmero. Existem questões mais profundas. As palavras ganham significados constantes. Esclarecer, racionalizar, sistematizar, organizar. Buscamos conjugar verbos que tragam seguranças, no entanto pouco conseguimos compreender do mundo. A embriaguez é comum. Muitas coisas indefinem cores e formas. Ficamos tontos com o passado invadindo o presente e com as profecias do caos definitivo.

A imaginação não se cansa de criar deuses e os governos de agitar conflitos. Todos se mostram lúcidos, descrevem justificativas e prometem reverter os desacertos. Muito cinismo e alguma ingenuidade em busca de um paraíso perdido e da possibilidade de desmontar os labirintos. O cotidiano, porém, não esgota a capacidade de comentar notícias e escandalizar. A curiosidade distrai e afasta o horror. Somos fabricados por novidades e colocados em vitrines para que as imagens se espalhem.

O corpo como coisa, o valor de troca em ação, os humanistas reclamando da insensibilidade, a tristeza inquietando como nunca o coração desnorteado… O tempo convive com periodicidades, cogitações de progressos, ansiedades e depressões que confundem o ânimo. Quando se fala do cotidiano estamos no limite. Não há territórios extensos que recuperem os descompassos. Juntamos os cacos, acreditamos na beleza, mas as armadilhas se encontram na superfície. Preste atenção ao movimento das pessoas, tente sentir a energia das tensões. São os medos que nos apressam, pois as cidades  tornaram-se moradias estranhas.

O historiador não foge da necessidade de definir seu tempo. Alguma coisa tem que ser decifrada. Antes. longos acontecimentos pareciam firmar pactos com a eternidade. Hoje, há desastres instantâneos. O elogio à transformação estimula discursos, ocultando o absurdo, desfigurando, anulando os pertencimentos. O mundo é vasto, mas acumula lixos e luxos, não traz sossego. As drogas renovam o conteúdo dos sentimentos. As drogas atiçam conceitos de tempos, pontuam momentos e sedimentam dissonâncias.Não é à toa que se discute sobre a história do cotidiano, sentado na beira do abismo.

Estamos nas multidões, convivemos, não perdemos a sociabilidade. Talvez, se fixem vacilações ou impossibilidades de se traçar fronteiras. No cotidiano, são planejadas guerras e espetáculos que assustam e desconectam. Não seria exagero afirmar que a vastidão do mundo é sinal de que a história se dissolve. Por isso, o debate sobre a memória ganha um encanto especial. O mundo é sempre , rapidamente,  outro e o poeta se veste com as palavras para não ser sepultado pelo esquecimento.

PS: Voltarei a postar no blog no último sábado da abril. Abraços.

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