Traços e afetos de identidades passageiras

O tempo não tem medidas permanentes. Queremos enquadrá-lo e senti-lo completo, mas ele foge das tipologias. Somos muita coisa e flutuamos pelas suas encruzilhadas. Exigir paradigmas imóveis traz desacertos contínuos. As fragmentações brincam, com as nossas ansiedades. No final, estamos soltos, contando identidades, escolhendo trilhas, apostanto no acaso. Na vagabundagem da poeira do cosmo, nos disfarçamos de astronautas de sentimentos vadios.

A existência de um só corpo não significa que a história se esgote num único suspiro. O corpo também se desdobra. Sua forma depende dos olhares dos outros. Estamos no meio do mundo. Os fantasmas invadem o cotidiano, com destemor. Não procuram quartos escuros. Cansaram-se dos mistérios. Passeiam pelos shoppings centers, fazem seus trajetos de consumo e divertem-se com as vacilações dos humanos. A fixidez é uma ilusão dos sentidos. O que prevalece é o distrair-se, enganando a cartola do mágico desempregado.

Haja fôlego! A quietude é confundida com a depressão. Não assimile expressões de tédio ou desconforto. Não esqueça do sorriso, em casa. Abandone qualquer jeito melancólico. Risque as lembranças nostálgicas e apague as rugas das noites mal dormidas. Pedem-nos agilidade e energia. A fórmula é demolidora: pressa com perfeição. Tudo se inverte, pois não há como diminuir a fabricação de mercadorias. Liquida-se até a respiração dos doentes. O capitalismo necessita de lugares luminosos, cobertos por telhas de vidro.

Padrões incertos são criados, para asseguar regras mínimas. Eles possuem flexibilidades. Os julgamentos mudam de objetivo, porque se ligam nos jogos de interesse de cada momento. Portanto, não se largue à toa. Não aceite convite para participar do programa do Faustão e desconfie das festas noturnas de Berlusconi. Busque a diferença e não tema as distâncias. A massificação consolida a mediocridade e lança dúvidas sobre o poder das cartomantes. É perigoso adormecer no colchão das mesmices. Na cama do vizinho, não se troca de lençol e se faz amor no dia de finados.

Ser estranho ajuda. As iluminações desfazem os sentimentos transparentes. Não desmonte suas migrações diárias. As notícias dos jornais ensinam que a infinitude é um pecado e o crime se organiza, com o auxílio dos desorganizados. Pense que Ronaldinho é uma assombração da mídia, mas não impedirá que o Flamengo padeça dos seus mais profundos infortúnios. Na esquina da Igreja do seu bairro, há grupos falantes que fazem, da missa do domingo, um acontecimento social. O fato dos desencantos terem configurações cinzas, não é uma lei que rouba a autonomia das cores.

O sagrado é o que transcende os nossos poderes de compreensão, comunicação e ação ( Z. Bauman). Nem por isso, somos criaturas de abismos escuros. Se a tragédia costuma ser saliente, a cultura não padece de falta de improvisação. Não há portas de ferro, com fechaduras quebradas. Se não houvesse possibilidade do voo, não haveria história. As asas dos anjos são resistentes e sobrevivem, apesar das armadilhas dos demônios. Imagine deuses que nunca foram nomeados e fantasias guardadas, nas dobras dos inconscientes. Há traços que Paul Klee não conseguiu dominar. Estão na sonolência dos afetos tímidos.

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2 Comments »

 
  • Flávia Campos disse:

    Antonio, muito bom começar o mês de março ouvindo que “a existência de um só corpo não significa que a história se esgote num único suspiro. O corpo também se desdobra. Sua forma depende dos olhares dos outros.”
    Melhor ainda conhecer gente, grande por demais, que nos incentive a buscar a diferença sem temer distâncias; a sairmos das mesmices e redescobrir o amor, até em dias de finados, porque “o sagrado é o que transcende os nossos poderes de compreensão, comunicação e ação”. ( Z. Bauman).
    Muito lindo Rezende, podermos redescobrir que “se não houvesse possibilidade do vôo, não haveria história” e “as asas dos anjos são resistentes e sobrevivem, apesar das armadilhas dos demônios”.
    Que março então nos traga mais possibilidades de vôos, incentivados pelos olhares, os traços, as palavras e os afetos do outro, ainda que tímidos!
    Bjs
    Flávia

  • ´Flávia

    Compor com as boas energias é o que leva a vida aos seus encantos. Há sempre espaços para se inventar. E a vida vai.
    bjs
    antonio paulo

 

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