Travessias: riscos, suspenses, pesadelos

   

15 de março de 2011. A manhã está indefinida. Pede óculos escuros. Protegem e suavizam o olhar. É cedo, já dei uma lida no jornal e corro para pegar o ônibus. Cheio e barulhento. Todos no clima  dos primeiros encontros. É o que parece. Com os sentimentos feridos, pelas manchetes sobre os acidentes nulceares no Japão, sigo minha rota. A tragédia se configura mais ampla do que se imaginava. Os pesadelos se repetem. São constantes. O terremoto abalou, desmontou, desfigurou o cotidiano. A invasão das águas foi cruel. No entanto,  o desastre não se intimidou. Mantém seu horrores e permanências. Faz reverência a escassez e ao medo. Multiplicam-se as ansiedades. Os desenganos retornam e assustam, radicalmente. Vou remoendo os raciocínios no saculejar das curvas e na trilha sonora do rádio do cobrador.

O desamparo expande-se e não é só físico. É uma assombração de cores inéditas e velozes. A aldeia global treme. Prever futuros instáveis. Tecnologias de ponta sucateadas, esperanças diluídas. Lembro-me das fantasias de paraísos. Elas nunca abandonam a história.Os mitos antigos brincavam com as imperfeições humanas, mas buscavam aliados para suas aventuras. Não curtiam solidões e nem se despediam do poder. Bordavam seus panos, com muita desenvoltura. Fabricavam ilusões, mudavam de corpo, deliravam de paixão. Confundiam-se com os humanos, afirmando incompletudes.

O canto de salvação ressoava, para os eleitos, de forma sedutora. Recordem-se do episódio das sereias e das astúcias de Ulisses. As religões eram atentas às promessas, cultivavam profecias e anunciavam tribunais. O bem e o mal se apresentavam com distinções e hierarquias. Os mistérios não faltavam e as orações ajudavam a enfrentá-los. Transformações movimentavam-se. As concepções de mundo procuravam vestes diferentes. Copérnico, Descartes, Voltaire, Hegel, e tantos outros, colocavam verdades tradicionais no território da dúvida. Saberes se deslocavam, não sem provocar batalhas e sangramentos. Utopias fermentavam insatisfações.

A ciência invadiu imaginários e terminou se abraçando com a técnica. A vitória do utilitarismo satisfazia ao capitalismo. Curas, confortos, velocidades, progressos. A modernidade se estendia, com a queda dos dogmas religiosos agitando o mundo da fé. A vida continuava com seus contrapontos. Havia vacilações, nem todos compreendiam a energia se dissipando ou a atmosfera de um otimismo pragmático. Os saberes enganam, não, apenas, esclarecem. As relações de poder ditam os acordes das danças, mais comuns, nas vitrines das mercadorias. A tragédia é dor, pertencimento. Institui e acompanha a cultura. A história é o inesperado e o repetitivo.

Nada de uma moral única. A ambiguidade tem seus comandos. Perguntem a Simone de Beauvoir? No mundo, as subjetividade se entrelaçam com a dispersão e os desamores. A narrativa da vida se torna um desafio e, muitas vezes, um desconforto. Pela janela do ônibus, avisto sombras. As fotos dos jornais me desadormecem e convidam-me para a inquietude. A imagem do agosto das bombas atômicas ressurge, com uma comissão de culpados, engulida pela força da lama. Sei que os momentos de reflexão são curtos, porém com um valor incomensurável. Não cabe dizer que tudo passa. É muito pouco.O ponto final do trajeto é o desmantelo da insônia e os celulares tocam suas sinfonias mecânicas. Bom dia!

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2 Comments »

 
  • Valerio disse:

    É isso mesmo Antonio. A vida e a morte nos confunde na paisagem que se altera até nos itinerários cotidianos. O que muda é o olhar.

    E o teu é prenhe de imagens paralelas, de signos e também de dúvidas.

    Abençoadas dúvidas que escoam através dos teus pensamentos que se espraiam generosamente. Como é do feitio não dos pródigos que dão o que lhes fará falta, mas de quem à semelhança de uma fonte jorra sem contenção, e flui, e se renova saciando a sede dos sequiosos.

    Os desastres ou acidentes de percurso, ativados nos seus ciclos e retornos, irão conspirar a favor das fontes.

    As flores -todas-, humildemente agradecem.

  • Valério

    Gostei. Belo texto com ótimas reflexões. Grato por mais um encontro e aprendizado.
    abraços
    antonio paulo

 

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