Ulisses e Penélope, Culturas e Mitos

   

Navegar na internet. Para onde, quantos minutos, em que site? Qual o nome do oceano de navegação ? Há turbulências, navios e marinheiros atordoados? As sereias sobreviveram aos desenhos tecnológicos? Quem inventou o submarino que atiça a coragem de enfrentar a profundidade? O que Matisse faria  se sua pintura se misturasse com as imaginações da cibernética? Ulisses trocaria seu manto pela memória de um computador? Quem fecharia os espelhos luminosos dos vídeos, atormentado pela cor das luzes?

Escrever no papel, na folha do caderno. Escrever deletando equívocos, configurando as palavras, de olho nos e-mails urgentes. Ninguém adivinha para onde tudo isso caminha. As máquinas são sínteses de desejos. Espalham sentidos ou remontam sentidos. Elas pedem outras concepções de equilíbrio, anunciam o pós-humano. Ulisses tinha astúcias para construir sua humanidade e enfeitiçar sua narrativa. Quem pode ir adiante sem contar o que viveu, sem a sedução pelo viagem que ainda vai ser feita? Estamos, sempre, no meio da travessia, em busca de placas que indiquem o fim da história. O universo contempla, não se aborrece com as dúvidas.

O mito é fantasia profana, não se ilude com a dessacralização do tempo. Sabe que ele se mostra fragmentado, subjugado aos ponteiros do relógio. O mito está além da ordem técnica. É invenção fundamental. Esconde-se de superfícies, ver o carnaval solto entre as pinturas do horizonte. Grande engano cogitar que a razão se integraria ao mundo de maneira soberana. Tudo é possibilidade. Não cabem cofres de ferro, nem tampouco segredos digitalizados, como garantia de que as certezas estão presas. Há cortes que não sangram, ansiedades que se prolongam…

Se a cultura me traz a memória, a constrói para que me balance nas sortes e nos azares, conversando com a lógica de Copérnico e desfiando os pecados de santo Agostinho. Picasso não estranhou que as coisas pudessem possuir infinitas formas.Vivaldi não se perdeu nas estações, encontrando-se no conforto de cada acorde, não se ligando nos espaços que desprezassem os encantos da sua música. Em cada arte que se lança há o testemunho de alguma  geometria que se (re)significa, um dicionário que se encerra, um grito subtraído de uma rebeldia esgotada.Na cultura que Ulisses fabricou, não havia, apenas, a ansiedade de rever Penélope, mas o desejo de se encontrar com o desconhecido.

Penso no passado, confundo-me com suas narrativas, porque acredito que todos fomos criados, ao mesmo tempo, numa explosão de acasos, num dia incomum e inalcancável. Lá estavam os arcos, as tapiocas, Macunaíma, Da Vinci,  Getúlio Vargas, as telas dos cinemas, os pecados de Adão e Eva, os sacos de pipocas dos shoppings centers, os gols de  Pelé, os amores de Neruda, o positivismo científico … Na dança da fiçcão com o real, arquiteto a ponte por onde se aventuram todos os sonhos. A palavra cerca a vida e a cultura, negando a dominação de um significado extenuante. Nada termina a vastidão da palavra. No vazio, voam os tormentos das anemias mal resolvidas. Tentar explicar tudo é uma espécie de idiotice (Pamuk).

PS: Fiz modificações nas sugestões de leituras, redefinindo autores e obras. Procurei seguir os novos caminhos dos  textos publicados, mais focados nas questões da cultura e da contemporaneidade. Dê uma olhada.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

6 Comments »

 
  • Érica disse:

    Prof.Antônio Rezende…Confesso sinceramente que em um contato inicial com esse seu texto achei complexo,mas lendo em conjunto e contando com as interpretações valiosas de D.Flávia Faria da PROEXT passei a ter uma maior clareza e entendimento das suas indagações…Agradeço muito por propocionar leituras de textos que nos fazem questionar,rever conceitos e principalmente vasculhar o baú das nossas certezas e verdades absolutas…
    Um abraço
    Érica!!!

  • Érica

    Tudo está entrelaçado e se toca. Assim, a cultura anda e nós, seguindo e fazendo suas trilhas.
    abs
    antonio paulo

  • Flávia disse:

    Antonio, muito instigante o seu texto.
    Como permitimos que as máquinas sintetizassem até os nossos desejos?
    Como viver em um mundo que se anuncia pós-humano?
    Precisamos, mais do que nunca, do manto do amor de Ulisses e Penélope.
    Amor que é colocado à prova e sobrevive.
    Acho que o oceano de navegação desejado por homens e mulheres não pode ser muito diferente do de Ulisses e Penélope.
    Quem, de sã consciência, não gostaria de “construir sua humanidade e enfeitiçar sua narrativa”?
    Quem não desejaria, depois de seduzido(a) pela viagem, pela aventura, retornar aos braços da pessoa amada, seguro(a) e amparado(a) pelos deuses do Olimpo?
    Será tarde demais para começarmos a tecer um novo manto?
    Espero, esperamos que não!
    Bjs
    Flávia

  • Flávia

    O importante é não se deixar levar pelas manipulações. O mundo aberto ajuda a firmar a possibilidade.
    bjs
    antonio paulo

  • Edu Castro disse:

    “Grande engano cogitar que a razão se integraria ao mundo de maneira soberana.” Ao lê seu artigo, Professor, essa foi a frase que logo me chamou atenção, não há vida sem o mito, sem a explicação sem explicação. Talvez seja essa sobrenaturalidde que deixa a vida mais vela.
    Uma palavra que gosto muito é “acaso”, e o senhor diz que tudo foi criado numa explosão de acasos… Acredito, com fé, que a história se constrói assim, para nós meros homens, ao acaso.

  • Edu

    Tenho também simpatias com os acasos. Paul Auster é um escritor que usa muito a concepção de acaso.
    Tudo parece que se soltou de algum lugar. De onde?
    Grato pelas observações.
    abs
    antonio paulo

 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>