A literatura: memória dos objetos, sinais do destino

A cultura atribui significados às ações humanas. Há muita coisa no mundo que necessita de uma leitura para articulá-las a particularidades pouco conhecidas. Não podemos ficar indiferentes a quantidade de objetos que aparecem na vida. O crescimento da tecnologia nos acena para a complexidade. Não basta  olhar em direção às invenções modernas. Tudo tem uma forma descartável. Mudamos as marcas das roupas, dos celulares, das TVs. Acompanhamos o ritmo das modas. Isso é o mais comum, a cartografia do visível. Quando entramos nos territórios dos sentimentos, a memória se desenha com outras linhas. Não dá para fechar regras, abandonar dúvidas. Freud tinha amplas razões.

Portanto, traçamos a vida afirmando práticas sociais, buscando equilíbrios difíceis. Os objetos não estão mudos. Dialogam, possuem temporalidades, nos ajudam a compreender por onde andam os desejos. Não é à toa que nem tudo nos satisfaz. Se formos indiferentes a atitudes de certas pessoas, nos negamos também a apreciar vitrines ou a nos perdemos nas curvas de shoppings gigantescos. A construção das escolhas nos liga à cultura, assanha transgressões, mas solidifica ordens. A moral da ambiguidade não é, apenas,  nome de um livro de Simone de Beauvoir.

A memória requer traduções, porque é plural. Estica lembranças e imaginações. Sabemos que é seletiva. Guardamos momentos passados com afeto indescritível, porém desprezamos passagens da vida com esquecimentos rebuscados. A balança da memória é a balança das memórias. Discutimos, apresentamos sentimentos de tempos longínquos. No entanto, há relações próximas que nos causam arrepios. Então, a pós-modernidade assombra mais ainda. Pessoas se apegam a automóveis, se fixam em autores de livros de auto-ajuda, deliram com ficções científicas, silenciam diante dos desgovernos globais. Não é possível padronizar, mesmo que a massificação tenha fortes rastros e seduza com manipulações bem articuladas. A fuga e a astúcia também compõem o humano, alimentam surpresas.

Proust viaja em busca do tempo perdido. Pamuk conta paixão inesgotável no Museu da Inocência. Colecionam objetos comuns, para configurar cotidianos. Pamuk não  guarda, somente, o perfume do amor, as travessias do corpo, a animação do coração embriagado. Vai além. Pentes, fósforos, cigarros, meias, pedaços de madeira, enfim tudo que toque na majestade de Afrodite. É impressionante a descrição que o escritor faz de cada coisa, os detalhes, as singularidades, o desfilar de significados que amarram a subjetividade. Cada narrativa  registra universos que mostram as tramas dos sentimentos ou as fantasias que descrevem destinos cruzados,  sofrimentos fatais.

Italo Calvino nos traz uma reflexão nada transparente, porém estimulante para as apatias das inteligências negligentes: Se na memória do mundo não há nada a corrigir, a única coisa que resta fazer é corrigir a realidade ali onde ela não coincide com a memória do mundo. Verdade e mentira voltam a cena no desafio de Calvino. Se há algo corrigir é porque existem certezas que foram burladas dentro da concepção de alguém. Atribuindo significados escrevemos para retomar sentidos e reinterpretar o que se mostrava definido. A literatura não é o espelho exato da realidade, mas produz as representações inquietas dos sentimentos. Destinos ou tensões inacabadas?

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3 Comments »

 
  • Rosário disse:

    Antonio Paulo,

    Gosto muito dos seus textos, do jeito afetuoso como escreve e partilha suas leituras.

    Abraço

    Rosário

  • Amanda Suellen Oliveira disse:

    O comportamento de uma sociedade gera reflexos na construção da literatura,por isso houve aquele “grito” dos Modernistas: Não sabemos o que queremos,mas sabemos o que não queremos. As atuais aspirações humanas têm tornado o tangível rapidamente obsoleto.Mas o pior é o seguinte: o intangível também está ficando obsoleto,por isso os livros de auto-ajuda são muito eficientes para aqueles que se deixam,muitas vezes sem perceber,serem corrompidos com a superficialidade do vazio,uma vez que é difícil ir contra a corrente.Diante de um mundo de “marcas” encontramos,nos lugares das pessoas,identidades paradoxais,”etiquetas” que dizem quem é quem e quem vale mais ou menos…simulacros tomam conta do cotidiano através da televisão,principalmente nos horários em que a massa populacional está assiduamente vidrada diante da grande máquina repassadora do “conhecimento”. É muito bom saber que ainda existem aqueles que enxergam “flores” na “escuridão”,por isso o aparentemente findo promove equilíbrio no caos.

  • Rosário

    O que dá prazer é partilhar. É uma emoção. Grato.
    abs
    antonio

 

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