A violência permanente: o descuido com o outro

Seria ótimo não falar de violência. Somos animais sociais, mas destruímos outros parceiros das formas mais diversas possíveis. Fica difícil visualizar que racionalidade nos pertence em um mundo tão repleto de ambiguidades. A sociabilidade é a base para construção da cultura. Ela traz conflitos e proximidades. Os conflitos têm se acirrado e os espaços de conciliação são burocráticos e formais. A tecnologia multiplica-se, as cidades recebem populações desiguais. Então, a violência não cessa. Nos jornais, tornaram-se comuns notícias degradantes. Parece que vivemos ruínas de princípios morais. As corrupções são frequentes, os crimes sexuais se repetem e os as matanças étnicas revelam a barbárie. Tantos investimentos, euforicamente, celebrados, porém a qualidade de vida é precária. A insegurança e o medo inquietam e causam recolhimentos.

O pior é banalização. Há programas de rádios e TVs que pregam o sensacionalismo. Mostram corpos mutilados, agressivas manobras policiais, guerra entre quadrilhas e pedofilias se alastrando pela internet. O interessante é que os programas ocupam horários, ditos estratégicos. Logo cedo, vozes melancólicas ou histéricas anunciam infortúnios. A população acorda já cercada de incertezas, sentindo-se vigiada. As desgraças são ouvidas ou vistas, quando as refeições entram no vaivém do cotidiano. Não faltam audiência e comentários irônicos. As conservas garantem que a vida segue na crueza dos desacertos. A sociedade assusta-se, mas também se diverte com as aventuras policiais e com as audácias praticadas para furtar ou enganar os mais inocentes.O estoque de violência se renova. Por isso, não deixe de desconfiar das vantagens do progresso.

Não se esconda na omissão e ou na inércia crítica. Agora, as brigas nas escolas despertam a atenção. Envolvem adolescentes tímidos, atacados por grupos da mesma idade, intolerantes e insubordinados. A pedagogia dança feio. Quase ninguém se pergunta até que ponto os videogames e os meios de comunicação influenciam nos comportamentos. Todos elogiam a necessidade das jornadas de trabalho para produção de riqueza. E o tempo dos afetos, dos encontros familiares, da repetição dos segredos não é significativo? O coletivo esfacela-se. As irritações tranformam-se em agressões. A pulsão de morte atua, segregando e desmontando ações de solidariedade.As permanências surpreendem quem se descuida de visitar o passado. A forma de amar muda. A forma de estabelecer laços íntimos e de confessar fragilidades também é muito diferente das épocas em que não havia telefone ou shopping center.

A história é convivida, não é uniforme. As práticas sociais se redefinem, os modos de produzir mercadorias e compartilhar sentimento se redesenham. As disputas não se encerraram, elas marcam presenças desde as mais remotas eras. No Pará, os assassinatos provocaram reuniões na cúpula do governo. Ha inúmeras pessoas ameaçadas de morte e não há como eliminar esse perigo. Não é um problema novo. Há pistoleiros profissionais que se ligam, com eficiência, ao ofício. Há donos de terra que se mantêm como articuladores desses crimes. O texto é curto para narrar as trilhas das violências. Nos grandes centros urbanos, elas entram na formação dos indivíduos, acompanhadas pela miséria e pela insensatez de certos senhores do poder.

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7 Comments »

 
  • Gleidson Lins disse:

    Há um trecho bastante interessante no texto: “E o tempo dos afetos, dos encontros familiares, da repetição dos segredos não é significativo?” Ainda ontem estava conversando com um amigo sobre isso. Hoje, nossos filhos crescem praticamente sem a nossa presença. As jornadas são cada vez maiores para poder ter e oferecer uma condição de vida um pouco melhor a nossos filhos. O princípio econômico do custo de oportunidade se faz presente, desprezando sentimentos. Este vácuo deixado por nós, infelizmente, coloca nossos filhos ao acaso, expostos a noticiários de tv e videogames. Nossos filhos precisam de um pouco do nosso tempo. Pensemos nisso.

    abs,
    Gleidson Lins

  • Gleidson

    A pressa faz crescer o descuido com o outro. Isso mina a afetividade e cria desconfianças.
    abs
    antonio paulo

  • Christiane Nogueira disse:

    A violência é indissociável da vida em sociedade. Ela apresenta várias facetas que estão intimamente ligadas ao cenário histórico de uma época, de um bloco econômico ou político, de um país, de uma cidade, de um bairro, de uma comunidade… Para Slavoj Zizek, filósofo esloveno, “a verdadeira violência é a violência da mudança social”. Vivemos hoje em um mundo onde a tecnologia faz parte de qualquer manifestação de pensamento, de expressão, de opinião. Isso termina provocando mudanças na sociedade, no comportamento humano. O mundo virtual (com seu cabedal de informações, com sua cultura útil e inútil, com pirataria, vírus etc)está tão presente na vida das pessoas que, por vezes, fica difícil imaginar a vida sem ele. Pais e filhos conseguem, através de um computador, conversar, trocar idéias e marcar encontro para comer uma pizza em casa, estando todos em casa no exato momento em que se deu a conversa virtual!
    Essa desenvoltura e praticidade de ação que o espaço virtual confere a cada pessoa repercute positiva e negativamente na sociedade como um todo. Hoje, não só questões de cunho particular ou profissional mas de Estado são tratadas virtualmente. Os EUA, por exemplo, com seu relatório sobre estratégia internacional para o Ciberespaço, quer que o tratado de agressões da OTAN valha também para o mundo virtual, ou seja, eles querem que um ciberataque contra um país pertencente a OTAN (que é o caso dos EUA) passe a ser considerado um ataque contra os países do grupo, como ocorre com os ataques militares (tamanha sensibilidade não foi sentida por eles, nem pela OTAN, quando a Estônia – país membro da OTAN – foi atacada virtualmente pela Rússia e teve seus sites ministeriais e parlamentares, bem como e-mails de uma forma geral, derrubados). Tais fatos demonstram que a violência transpõe barreiras e gera conflitos nos mais diferentes espaços. A sociedade moderna está diante de uma nova versão de guerra fria: a guerra virtual (já considerada por militares como sendo a quinta dimensão da guerra). E essa guerra repercute e se tranforma dentro da sociedade, atendendo aos seus vários segmentos, de acordo com o interesse de cada um deles.
    Já está mais do que na hora da sociedade deixar de lado o fascínio e a comodidate da informação pronta, fornecida pela mídia, e sair em busca da contra-informação, ir em busca daquilo que acontece quando nada acontece midiasticamente. É preciso aprender a olhar o que está por trás, a olhar nas entrelinhas da informação. E para isso, o ciberespeço tornou-se uma ferramenta sem precedentes na história.

  • Chistiane

    Seus comentários enriquecem a discussão do tema. Realmente, a permanência da violência é um desafio. Tanta caminhada em busca de cessar agressidades e conjugar afetos e o mundo continua solto na falta de cuidado com o outro.
    abs
    antonio paulo

  • Fábio Alves disse:

    A excessiva exposição de assassinatos na mídia nos deixa chocados. E é incrível parar pra pensar no quanto a violência vende. Um ponto colocado no texto foi em questão dos ‘horários estratégicos’. Na Tv se transmite programas com o teor abordado no horário em que normalmente estamos almoçando, pessoas almoçam vendo sangue e bala. A população não se sente “por dentro” do que está acontecendo se não ver com quantos tiros fulaninho foi assassinado ontem, onde foi, o estado do corpo quando foi encontrado. Me atrevo a chamá-los de carniceiros. É incrível esse gosto.
    As crianças, por não terem mais uma forte presença e referência adulta em casa, estão expostas a esse tipo de programação.

  • Fábio

    A mídia define muitos dos nossos hábitos. Não devemos ficar passivos, mas mostrar as contradições e atiçar o espírito crítico.
    abs
    antonio paulo

  • Fábio

    A violência é resultado das desigualdades e do desencontros emocionais e sociais. Choca e incomoda.
    abs
    antonio paulo

 

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